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A origem

O que o passado do design pode nos ensinar hoje? Até poucos anos atrás o design era de atuação complementar a outras atividades primárias.

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A origem

O que o passado do design pode nos ensinar hoje? Até poucos anos atrás o design era de atuação complementar a outras atividades primárias.

Data da Publicação: 19/06/2024
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC
Data da Publicação: 19/06/2024
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC

“A arte consiste em limitação. A parte mais bela de uma pintura é o quadro.” G. K. Chesterton

movimento arts & crafts.

O que o passado do design pode nos ensinar hoje

As profissões relacionadas ao design foram até poucos anos atrás consideradas como uma atuação complementar a outras atividades primárias. O desenvolvimento de produtos era visto em primeiro lugar como uma atividade para a indústria ou a engenharia e o trabalho do designer era colocado como uma etapa final do processo para modelar o produto e deixá-lo mais atraente ou vendável. O mesmo para as áreas da comunicação onde primeiro se busca a funcionalidade ou o conteúdo a ser comunicado para somente posteriormente o design tomar a frente de suas competências. A atividade do designer era vista como uma etapa final de um projeto já pré-estabelecido.

Essa separação é herdeira do processo histórico no qual a atividade do designer está inserida. É precisamente nesse ponto de tensão que habita a grande lição do design para nós hoje.

A partir da segunda metade do século XIX, com a consolidação da Revolução Industrial, ocorreu uma grande ruptura no labor humano. O surgimento dos processos industriais gerou o rompimento definitivo com a manufatura. Objetos, produtos e utensílios que antes eram produzidos de maneira quase que totalmente manual começam a ser desenvolvidos a partir de máquinas.

A atividade laboral que era antes concebida e realizada por mãos humanas, agora rompe-se e as máquinas assumem o encargo de criar todos os objetos que nos circundam. Cadeiras, vasos, mesas, talheres, armários, em suma, todos objetos que nos circundam passam a ser desenvolvidos procurando emular a antiga manufatura, porém desprovidos do esforço unitivo e totalizante que somente a atividade humana é capaz de realizar.

Nessa mesma época surgiram na Europa as grandes feiras industriais. A primeira Grande Exibição realizada na Inglaterra em 1851 deu o tom do que seriam essas feiras nas décadas que se seguiram. É difícil hoje imaginar a dimensão dessas exibições. Para algumas delas foi necessário construir edifícios ou bairros inteiros para dar o suporte necessário na exibição das grandes novidades industriais do século. Essas exibições foram o grande marco no avanço tecnológico do século XIX e é a partir delas que surge a atividade do designer.

Ao se depararem com o resultado dos processos industriais da época, alguns grupos de estudantes e artistas perceberam que o rompimento com a manufatura estava acarretando em um grave resultado. Os objetos estavam perdendo suas características humanas e estavam se tornando meras caricaturas das obras concebidas anteriormente.

“Esta exposição monumental pretendia ser uma exibição do progresso humano exemplificado pela era da máquina. A qualidade do artesanato exposto, no entanto, deixou muito a desejar. Para o observador crítico, a profusão de historicismo eclético e de habilidade medíocre devem certamente ter fornecido uma prova inequívoca de que a era da máquina havia entorpecido todas as sensibilidades estéticas. A produção em massa que se tornou possível como resultado da industrialização e da consequente divisão do trabalho confundiu tradições centenárias de artesanato e qualidade, resultando numa perda de orientação artística e estética.” 1.

O que artistas e intelectuais como John Ruskin, William Morris, Christopher Dresser e Peter Behrens perceberam a gravidade dessa ruptura tão bem representada posteriormente no grande clássico do cinema Metropolis (1927) onde esse conflito é figurado entre “cabeça” e “coração” apresentado . O filme apresenta justamente uma sociedade em conflito onde as atividades da engenharia e do planejamento formaram uma tecnocracia e o homem perdeu seu senso de humanidade – esse senso é resgatado no final do filme em um encontro de toda população às portas de uma catedral gótica.

A catedral é, por sua vez, o grande símbolo da unidade entre mente e coração. Não à toa o movimento do Arts & Crafts, que surge na Inglaterra como um primeiro levante para restaurar a unidade na produção industrial, tinha forte influência da arte e da arquitetura gótica.

A partir do movimento Arts & Crafts surge a profissão do designer. O designer é aquele responsável por justamente designar o processo industrial de construção dos objetos para garantir a unidade final da obra. É uma atividade nova para a humanidade. Antes a concepção do objeto e sua realização eram realizadas pelo mesmo grupo de pessoas, ou até mesmo pela mesmíssima pessoa. Agora, o responsável por conceber os objetos não é o mesmo responsável por criá-los. É por isso que entendemos que design é fundamentalmente projeto.

É durante esse período que surge o conceito de Arte Total (‘Gesamtkunstwerk‘). Esse conceito explicava os esforços de alguns artistas e designers que procuravam criar conjuntos de obras que tivessem total unidade entre si. É o caso, por exemplo, da Oficina de Viena (Wiener Werkstätte), capitaneado pelo designer Koloman Moser e pelo arquiteto Josef Hoffmann. A Wiener Werkstätte é considerada como um dos primeiros estúdios de design do mundo. Nela, os projetos eram tratados com o máximo grau de unidade possível. Projetos de construções inteiros eram desenvolvidos concebendo desde os talheres e até mesmo as roupas que seriam usadas no local pelos habitantes ou trabalhadores do edifício.

Esse empreendimento totalizante nos revela a maior vocação do design: a busca pela síntese estética de todos os elementos. Essa lição é de grande valor para todos os empreendimentos atualmente. A aplicação do design na totalidade dos projetos gera o que chamamos de experiência.

Há embutido na alma humana uma busca por sentido. Quando o homem encontra algo com sentido, ele automaticamente dirige toda sua atenção. Nós desejamos ter a experiência de coisas que fazem sentido e nos revelam sentido. Essa experiência do sentido se dá através da unidade. Ou seja, é através de uma experiência que demonstra coesão da parte com o todo. Usando o exemplo da Wiener Werkstätte, a experiência do sentido é aquela onde os talheres e as paredes falam a mesma língua.

Não seria a profissão tão atual do UX Designer como a consolidação dessa vocação unitiva do design. O User Experience Designer é aquele responsável por garantir a unidade de sentido dos usuários de determinado produto, aplicativo ou experiência. O design, portanto, não deve ser tratado como uma etapa final de um processo pré-concebido. O design é justamente o arcabouço de sentido de todo o processo de criação das obras e dos objetos.

Referências

  1. Thomas Berg | Design Classics (2011) | Taschen[]
Redação MBC

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“A arte consiste em limitação. A parte mais bela de uma pintura é o quadro.” G. K. Chesterton

movimento arts & crafts.

O que o passado do design pode nos ensinar hoje

As profissões relacionadas ao design foram até poucos anos atrás consideradas como uma atuação complementar a outras atividades primárias. O desenvolvimento de produtos era visto em primeiro lugar como uma atividade para a indústria ou a engenharia e o trabalho do designer era colocado como uma etapa final do processo para modelar o produto e deixá-lo mais atraente ou vendável. O mesmo para as áreas da comunicação onde primeiro se busca a funcionalidade ou o conteúdo a ser comunicado para somente posteriormente o design tomar a frente de suas competências. A atividade do designer era vista como uma etapa final de um projeto já pré-estabelecido.

Essa separação é herdeira do processo histórico no qual a atividade do designer está inserida. É precisamente nesse ponto de tensão que habita a grande lição do design para nós hoje.

A partir da segunda metade do século XIX, com a consolidação da Revolução Industrial, ocorreu uma grande ruptura no labor humano. O surgimento dos processos industriais gerou o rompimento definitivo com a manufatura. Objetos, produtos e utensílios que antes eram produzidos de maneira quase que totalmente manual começam a ser desenvolvidos a partir de máquinas.

A atividade laboral que era antes concebida e realizada por mãos humanas, agora rompe-se e as máquinas assumem o encargo de criar todos os objetos que nos circundam. Cadeiras, vasos, mesas, talheres, armários, em suma, todos objetos que nos circundam passam a ser desenvolvidos procurando emular a antiga manufatura, porém desprovidos do esforço unitivo e totalizante que somente a atividade humana é capaz de realizar.

Nessa mesma época surgiram na Europa as grandes feiras industriais. A primeira Grande Exibição realizada na Inglaterra em 1851 deu o tom do que seriam essas feiras nas décadas que se seguiram. É difícil hoje imaginar a dimensão dessas exibições. Para algumas delas foi necessário construir edifícios ou bairros inteiros para dar o suporte necessário na exibição das grandes novidades industriais do século. Essas exibições foram o grande marco no avanço tecnológico do século XIX e é a partir delas que surge a atividade do designer.

Ao se depararem com o resultado dos processos industriais da época, alguns grupos de estudantes e artistas perceberam que o rompimento com a manufatura estava acarretando em um grave resultado. Os objetos estavam perdendo suas características humanas e estavam se tornando meras caricaturas das obras concebidas anteriormente.

“Esta exposição monumental pretendia ser uma exibição do progresso humano exemplificado pela era da máquina. A qualidade do artesanato exposto, no entanto, deixou muito a desejar. Para o observador crítico, a profusão de historicismo eclético e de habilidade medíocre devem certamente ter fornecido uma prova inequívoca de que a era da máquina havia entorpecido todas as sensibilidades estéticas. A produção em massa que se tornou possível como resultado da industrialização e da consequente divisão do trabalho confundiu tradições centenárias de artesanato e qualidade, resultando numa perda de orientação artística e estética.” 1.

O que artistas e intelectuais como John Ruskin, William Morris, Christopher Dresser e Peter Behrens perceberam a gravidade dessa ruptura tão bem representada posteriormente no grande clássico do cinema Metropolis (1927) onde esse conflito é figurado entre “cabeça” e “coração” apresentado . O filme apresenta justamente uma sociedade em conflito onde as atividades da engenharia e do planejamento formaram uma tecnocracia e o homem perdeu seu senso de humanidade – esse senso é resgatado no final do filme em um encontro de toda população às portas de uma catedral gótica.

A catedral é, por sua vez, o grande símbolo da unidade entre mente e coração. Não à toa o movimento do Arts & Crafts, que surge na Inglaterra como um primeiro levante para restaurar a unidade na produção industrial, tinha forte influência da arte e da arquitetura gótica.

A partir do movimento Arts & Crafts surge a profissão do designer. O designer é aquele responsável por justamente designar o processo industrial de construção dos objetos para garantir a unidade final da obra. É uma atividade nova para a humanidade. Antes a concepção do objeto e sua realização eram realizadas pelo mesmo grupo de pessoas, ou até mesmo pela mesmíssima pessoa. Agora, o responsável por conceber os objetos não é o mesmo responsável por criá-los. É por isso que entendemos que design é fundamentalmente projeto.

É durante esse período que surge o conceito de Arte Total (‘Gesamtkunstwerk‘). Esse conceito explicava os esforços de alguns artistas e designers que procuravam criar conjuntos de obras que tivessem total unidade entre si. É o caso, por exemplo, da Oficina de Viena (Wiener Werkstätte), capitaneado pelo designer Koloman Moser e pelo arquiteto Josef Hoffmann. A Wiener Werkstätte é considerada como um dos primeiros estúdios de design do mundo. Nela, os projetos eram tratados com o máximo grau de unidade possível. Projetos de construções inteiros eram desenvolvidos concebendo desde os talheres e até mesmo as roupas que seriam usadas no local pelos habitantes ou trabalhadores do edifício.

Esse empreendimento totalizante nos revela a maior vocação do design: a busca pela síntese estética de todos os elementos. Essa lição é de grande valor para todos os empreendimentos atualmente. A aplicação do design na totalidade dos projetos gera o que chamamos de experiência.

Há embutido na alma humana uma busca por sentido. Quando o homem encontra algo com sentido, ele automaticamente dirige toda sua atenção. Nós desejamos ter a experiência de coisas que fazem sentido e nos revelam sentido. Essa experiência do sentido se dá através da unidade. Ou seja, é através de uma experiência que demonstra coesão da parte com o todo. Usando o exemplo da Wiener Werkstätte, a experiência do sentido é aquela onde os talheres e as paredes falam a mesma língua.

Não seria a profissão tão atual do UX Designer como a consolidação dessa vocação unitiva do design. O User Experience Designer é aquele responsável por garantir a unidade de sentido dos usuários de determinado produto, aplicativo ou experiência. O design, portanto, não deve ser tratado como uma etapa final de um processo pré-concebido. O design é justamente o arcabouço de sentido de todo o processo de criação das obras e dos objetos.

Referências

  1. Thomas Berg | Design Classics (2011) | Taschen[]

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