Homilias diárias do padre Pedro Willemsens para viver o Advento com profundidade e preparar o coração para a vinda do Senhor.
Homilias diárias do padre Pedro Willemsens para viver o Advento com profundidade e preparar o coração para a vinda do Senhor.
O Advento é tempo de espera, de silêncio interior e preparação para o encontro com Cristo. Em sintonia com a nossa campanha de Advento 2025 — “Nós esperamos” —, reunimos aqui as homilias preparadas especialmente pelo padre Pedro Willemsens para este tempo de graça. A cada dia, somos convidados a caminhar com a liturgia, escutar a Palavra e deixar que ela transforme o nosso coração. Que estas reflexões fortaleçam em nós o desejo por Aquele que vem e nos ajudem a viver bem essa espera.
Na primeira semana do Advento, a liturgia nos convida a olhar para o fim dos tempos e para a vinda gloriosa de Cristo. Antes de nos voltarmos para o presépio e o nascimento do Salvador, somos chamados a refletir sobre a sua promessa de voltar, e sobre como devemos viver enquanto esperamos. Os dois primeiros domingos do Advento nos colocam diante desse mistério: Jesus virá como justo juiz, e é preciso estar preparados. Comecemos este tempo com o desejo sincero de reencontrar o essencial e de nos colocar a caminho, com o coração voltado para Deus. A seguir, acompanhe as homilias do padre Pedro Willemsens para essa semana:
Santo Agostinho sempre teve um coração inquieto. Um coração que o levava a buscar mais. Inicialmente mais experiências, mais prazeres, mais emoções… Depois mais prestígio, mais sucesso na sua carreira. Por último, mais sabedoria, verdades mais profundas, respostas mais claras para os grandes problemas da vida. Mas depois de um entusiasmo inicial, sempre encontrava decepção: não era verdadeiramente aquilo que ele buscava.
Após rodar muito pela vida, começou a se aprofundar na religião da sua mãe, no cristianismo, que a princípio tinha lhe parecido estranho e sem graça. Mas ao tomar a Bíblia com os olhos novos, começou a encontrar ali um tesouro insuspeitado. Porém havia um problema. Ele sabia que abraçar a fé cristã implicaria abandonar seus velhos hábitos pecaminosos, e essa oposição entre sua crescente convicção na verdade da fé e seu apego ao pecado começou a lhe dilacerar por dentro.
Até que chegou o dia. Estava no jardim de sua casa, quando ouviu umas crianças brincando ali perto. Elas cantavam o que pareciam ser duas palavras: “tolle, lege – tolle, lege…”, em latim: “toma e lê”. E ele entendeu que deveria tomar Bíblia e ler, e foi isso que fez. Topou-se com a passagem que se lê na 2ª leitura deste domingo da epístola aos Romanos.
“Irmãos: vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé. A noite já vai adiantada, o dia vem chegando: despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz.”
E isso foi o suficiente. Ele sentiu “como que uma luz de segurança derramada no meu coração”, com a qual “todas as dúvidas das trevas se desfizeram”.
“Já é hora de despertardes do sono”. Estamos num momento muito marcante do ano. Na realidade, no começo do ano litúrgico: no 1º domingo do Advento. Que traz consigo um convite à renovação. Um voltar a preparar-se para o encontro com Deus. E para isso a liturgia se reveste do roxo, que é a cor penitencial, convidando-nos a não nos perder demais nas celebrações de dezembro, mas saber empreender um caminho interior de conversão, de preparação para o Natal.
Depois da sua conversão S. Agostinho se lamentava em oração: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu lá fora; e fora te buscava… Estavas comigo, e eu não estava contigo.”
Na sua regra, S. Bento explica que a meta do monge deve ser “habitare secum” – viver em si, dentro de si mesmo, não disperso, perdido no exterior, na vida dos sentidos. Dentro é que nós vamos encontrar o caminho, vamos encontrar Deus. Como na parábola do filho pródigo a sua conversão começa quando ele “entra em si”.
E essa me parece uma boa maneira para começarmos este advento: fomentando o desejo de conversão, de não nos perder tanto nas dispersões desta vida, deste mundo, mas lutar por entrar mais dentro de nós mesmo e, dessa forma, voltar para a casa do Pai.
A gente lê na 1ª leitura da Missa de hoje um trecho do profeta Isaías.
“Quando o Senhor tiver lavado as imundícies das filhas de Sião, e limpado as manchas de sangue dentro de Jerusalém, com espírito de justiça e de purificação, ele criará em todo lugar do monte Sião e em suas assembleias uma nuvem durante o dia, e fumaça e clarão de chamas durante a noite: e será proteção para toda a sua glória, uma tenda para dar sombra contra o calor do dia, abrigo e refúgio contra a ventania e a chuva” (Is 4, 5s).
Nuvem durante o dia e chamas durante a noite. Aqui há uma clara referência ao Êxodo do Egito, quando Deus se fazia presente na fuga de Israel dessas duas formas: uma coluna de fogo de noite e de fumaça de dia, para afastar os egípcios e guiar os hebreus.
Isaías se refere a uma situação séculos depois do êxodo do Egito, mas semelhante a ele. Trata-se do exílio na Babilônia. Quando os profetas alimentam a esperança no povo escolhido fazendo referência ao primeiro êxodo, com a promessa que algo similar irá ocorrer, que Deus enviará um novo Moisés, que guiará o povo à liberdade da Terra prometida.
No entanto, mesmo depois do povo retornar à sua terra, esses escritos dos profetas continuam sendo lidos, só que agora são interpretados num novo plano, o de um êxodo espiritual. E o novo Moisés será o messias, que vai conduzir para o Reino dos Céus. Por isso a Igreja nos apresenta esse texto no começo do Advento.
Diversos autores antigos chamam o Advento de “a pequena Quaresma”. Pois assim como a Quaresma prepara para a Páscoa, que se refere originariamente ao evento do Êxodo, o Advento quer nos preparar para o encontro com o novo Moisés que é Cristo, e para a passagem definitiva ao seu Reino. E nesse novo contexto –o nosso– a simbologia da coluna de fogo e de fumaça continua tendo o seu valor.
O povo tinha que atravessar o deserto, suportando o calor. Por isso a nuvem é muito bem-vinda. Na nossa vida muitas vezes experimentamos o cansaço, o peso das muitas tarefas. Na oração e na Eucarisita vamos encontrar o necessário descanso, o consolo, para não ficar exauridos pelo caminho. “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11, 28).
Por outro lado a noite também representa um obstáculo para o progresso no caminho, por não saber para onde ir. A luz se torna fundamental, para saber onde pôr os pés. A penitência e a confissão nos impelem a superar as nossas misérias, nosso comodismo, nos comunicando essa boa exigência de superação, lutar por sermos melhores. A luz de Cristo nos mostra nossas obras más, ao mesmo tempo que nos convida para uma vida nova.
Peçamos a Nossa Senhora, consoladora dos aflitos e estrela da manhã, que esteja sempre ao nosso lado nos conduzindo pelo caminho da vida e em particular nestas semanas do Advento.
“Naquele dia, nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor; sobre ele repousará o espírito do Senhor” (Is 11, 1).
No Advento a grande maioria dos textos da primeira leitura da Missa é tirada do profeta Isaías, um livro muito importante e rico do Antigo Testamento e que contêm algumas das referências mais significativas sobre o Messias e sua missão.
Na Missa de hoje se lê o capítulo 11, que descreve o Messias através dos diversos Dons do Espírito Santo. Ele é apresentado como um figura muito forte e poderosa, que vai castigar os maus, e trazer a paz e a justiça para os bons. Inclusive entre os animais se descreve uma paz e convivência pacífica.
Depois, no Evangelho, escutamos Jesus se apresentar como o anunciado pelos profetas. Em concreto Ele diz aos discípulos: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes! Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais vendo, e não puderam ver; quiseram ouvir o que estais ouvindo, e não puderam ouvir” (Lc 10, 23s).
E é especialmente significativa a distinção que Ele faz no começo da passagem evangélica de hoje. Nosso Senhor reza a seu Pai dizendo: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos” (Lc 10, 21). E aqui dá um chave importante para distinguir quem são esses bons que Ele irá favorecer, e os maus que irá punir. O ponto chave da distinção desses dois grupos é a humildade.
Jesus não vem pra punir quem não se encaixa em um código de conduta mais ou menos arbitrário. Ele vem trazer a salvação, para todos. Mas para abraçar essa salvação é preciso ter consciência de que se necessita dela. Aquele que não se acha doente, não será curado. A sua graça não nos é forçada, somos nós que temos que abrir o nosso coração a ela. Mas só o faremos realmente se estivermos entre esse pequeninos, entre aqueles que se sabem necessitados de perdão e da misericórdia.
No primeiro lugar entre esses pequeninos do Senhor está sua própria Mãe. Porque – como Ela mesma diz – “Ele olhou para a humildade (para a pequenez) da sua serva… e fez para mim coisas grandiosas… Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1, 46-52).
Hoje a liturgia nos traz na primeira leitura mais um trecho muito interessante do profeta Isaías que guarda uma forte conexão com o trecho do Evangelho que lemos. Profetiza-se um grande evento que ocorrerá no Monte Sião, em Jerusalém, no qual duas coisas irão acontecer. Primeiro será dado “um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos”. Depois o Senhor “removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações”. Em paralelo no Evangelho S. Mateus nos apresenta Jesus subindo a um monte onde faz também duas coisas: cura os doentes –os liberta de suas enfermidades– e os alimenta multiplicando os pães e os peixes.
Já os padres da Igreja –comentando a parábola do Bom samaritano– dizem que o homem assaltado na parábola representa a humanidade que –pelo pecado– foi “despojada da graça e ferida na sua natureza” (expoliatus in gratuitis, vulneratus in naturalibus). Por isso vemos Nosso Senhor agindo nesses dois campos: curando a ferida causada pelo pecado, nos libertando da escravidão do vício; e enchendo a nossa vida de um sentido novo, de um sentido sobrenatural, do Pão da Palavra de Deus que traz a Vida eterna.
“Removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações”. Hoje é também a memória litúrgica de S. Francisco Xavier, que foi missionário no extremo oriente, tendo inclusive feito escala no Brasil no seu caminho por mar. E é bonito comprovar tantos relatos de pessoas entrando em contado com a fé cristã pela primeira vez e experimentando a partir daí uma nova liberdade. Vemos isso, por exemplo, entre os índios da América, os japoneses e mesmo os vikings. Jesus realiza no plano espiritual o gesto de Alexandre o grande, que venceu o desafio do nó górdio cortando-o com a sua espada. Jesus liberta todos os povos da escravidão do pecado, cravando no mundo a espada da Cruz. Oxalá abramos a Ele neste Advento o nosso coração, para experimentar com nova força essa liberdade que Ele veio nos trazer.
“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus.”
Aristóteles explica que há 3 componentes na retórica: o páthos, o lógos e o éthos. O primeiro são as emoções, que são o mais fácil de alterar nas pessoas que estão te escutando – não é tão difícil gerar rapidamente um sentimento de ternura e compaixão, ou de indignação e raiva. O segundo são as ideias, os raciocínios. E mudar o que as pessoas pensam já se demonstra uma tarefa mais árdua do que mudar os sentimentos. O último é o comportamento, que é de longe o mais desafiador de influenciar, mas também o mais importante.
Muitas pessoas talvez enxerguem na religião uma ferramenta. Um recurso para lhes ajudar a conseguirem o que querem, através de uns ritos ou orações. Algumas o que buscam é um sentimento positivo, seja de consolo ou de entusiasmo. E avaliam a qualidade de um evento religioso pelo volume do seu arroubo emocional.
Mas as emoções são fugazes. Assim como vêm num segundo, se vão no outro. E não é essa a religião que Cristo nos propõem.
Nosso Senhor nos desenha o caminho para o Céu não como o de sentir belos sentimentos e dizer belas palavras a Deus, mas no fazer a sua Vontade. Na mudança da nossa vida.
A pessoa que vive o cristianismo apenas como um componente mais da sua vida –como podem ser as músicas que escuta, o esporte que pratica, os livros que lê…– não vai experimentar toda a força que este é capaz de nos dar. Viver o cristianismo como um verniz, como um adorno, ao invés de como o fundamento último da minha conduta é como construir uma casa sobre a areia –como lemos na passagem de hoje. Virão as múltiplas vicissitudes da vida, e aquela pessoa estará desprotegida.
Mas quem não só escuta as palavras do Senhor, mas trata de as pôr em prática, é como alguém que construiu sua casa sobre a rocha. Não importa o que vier, ele estará firme estando edificado e enraizado em Cristo (cfr. Col 2, 7).
Escutar e pôr em prática. Essa dupla aparece diversas vezes nos Evangelhos. Os padres da Igreja viram um paralelo entre elas e outros dois verbos que em geral vêm juntos: conceber e dar à luz. O próprio Jesus diz que sua mãe e seus irmãos são os que escutam suas palavras e as põem em prática (cfr. Lc 8, 21). Por isso Nossa Senhora é o modelo mais perfeito do seguimento de Cristo. Ela escuta – recebe a Palavra de Deus, o Verbo –, e põem em prática – permite que essa Palavra se encarne nEla, na sua vida. Peçamos a Ela neste Advento que ajude a abrir-nos cada vez melhor para que o Senhor possa de fato transformar a nossa vida.
«Jesus tocou nos olhos deles, dizendo: “Faça-se conforme a vossa fé”. E os olhos deles se abriram.»
Nas homilias precedentes falamos sobre o Advento como ocasião para acordar para a vida espiritual, como um chamado à penitência, à humildade, à docilidade… como um caminho para a autêntica liberdade… Nos textos desta primeira 6ª feira vemos muito claramente presente o tema da fé e da luz. Da necessidade da fé para se abrir aos dons de Deus e da consequência da luz que entra na nossa vida e a ilumina poderosamente.
Na primeira leitura, Isaías apresenta como sinal dos tempos messiânicos que «os surdos ouvirão as palavras do livro e os olhos dos cegos verão, no meio das trevas e das sombras» (Is 29, 18). No Salmo rezamos dizendo: «O Senhor é minha luz e salvação» (Sal 26 ou 27). E o Evangelho narra o encontro de Nosso Senhor com dois cegos a quem cura fazendo com que enxerguem.
A iluminação é um símbolo muito presente na tradição cristã e mais além dela, em outras religiões. A epístola aos Hebreus se refere ao cristãos como iluminados e é isso que significa Buda, que não é um nome, mas um título: o iluminado, aquele que está acordado. Na noite Natal o símbolo da chegada da luz se faz presente para expressar com beleza a vinda de Cristo, luz do mundo: “O povo que ficava nas trevas viu uma grande luz, para os habitantes da região sombria da morte uma luz surgiu” (Mt 4,16 citando Is 9, 2). Inclusive o Natal é celebrado no hemisfério norte no solstício de inverno, quando –depois de ir-se reduzindo– o dia volta a crescer: a luz começa a vencer a escuridão.
Tudo isso nos remete ao convite que Deus nos faz nestas semanas de Advento a abrir-nos à sua luz. Essa luz que é capaz de nos mostrar o caminho para a Vida e aquecer os nossos frios corações. O que traz consigo –é verdade– um certo drama.
Drama porque uma parte de nós não quer a luz, rejeita a luz, porque “as suas obras são más” (Jo 3, 19s). Por isso é preciso armar-se de coragem para se abrir à luz de Cristo. Confiar que vale a pena apresentar-lhe nossos olhos turvos, com suas traves. Deixar que Ele os toque e remova os obstáculos depositados na nossa visão pelos nossos vícios, para se protegerem.
Uma vez me explicaram que os mosquitos têm uma saliva anestésica. Assim antes de nos picar ele cospem na nossa pele, para que a gente não sinta na hora a agressão. Quando começa a coceira o danado já foi embora levando o nosso sangue.
O pecado funciona de forma semelhante: ele começa sequestrando a nossa racionalidade, adormecendo a nossa consciência. E –se nos descuidamos– essa deformação da visão vai se solidificando, tornando-se permanente. “Quem não vive como pensa, acaba pensando como vive”.
Aproveitemos pois este tempo de graça para nos abrir a essa luz transformadora, para deixar que Cristo entre na nossa alma revelando-nos o nosso caminho para Ele, para o Céu, para a Vida.
“Povo de Sião, que habitas em Jerusalém, não terás motivo algum para chorar: ele se comoverá à voz do teu clamor” (Is 30, 19). O começo da primeira leitura de hoje nos coloca de cara diante do tema central dos textos do dia: a misericórdia de Deus.
Fechando esta primeira semana exploramos diversas atitudes a desenvolver para nos preparar para um encontro transformador com o Senhor que vem: como a humildade, a fé e a docilidade. A liturgia parece querer hoje fomentar em nós a confiança. A confiança em que vale a pena o nosso esforço, que da parte de Deus vamos encontrar uma resposta ao nosso empenho, vamos encontrar um coração compassivo, vamos encontrar misericórdia. O nosso Deus é um deus que se comove “à voz do teu clamor”.
E se isso está presente já no Antigo Testamento, no Evangelho se torna patente em um nível maravilhoso, como vemos no trecho de hoje.
“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9, 36). O verbo utilizado aqui (splagchnizomai) vem de uma palavra que significa entranhas, vísceras, intestino. A ideia é que quando uma emoção é muito intensa a gente experimenta uma sensação nessa região do corpo. Uma ideia que permanece registrada na nossa linguagem atual, por exemplo, quando falamos de “friozinho na barriga”, de um momento entranhável, ou de uma emoção visceral. E a raiz da ideia parece ser o fato de que, depois do cérebro, o lugar do corpo com a maior concentração de neurônios é precisamente nessa região da barriga, junto ao estômago e aos intestinos. Por isso é significativo que os Evangelhos apliquem esse verbo oito vezes a Cristo, porque implica um sentimento muito intenso, como o que sente a mãe pelo seu filho – fruto de suas entranhas, como comenta o papa Bento XVI no seu livro Jesus de Nazaré 1.
Jesus se apresenta não como um personagem distante, frio. Um visionário religioso que conseguiu um grande destacamento emocional das realidades desta terra e, do alto da sua sublime sabedoria, condescende em revelar aos demais os segredos do caminho espiritual. Não. Ele, sendo perfeito Deus, é também perfeito homem. Com tudo o que implica ser humano, inclusive os afetos, os sentimentos, a capacidade de se encarinhar das pessoas. Essa realidade nos é especialmente apresentada na devoção ao Sagrado Coração de Jesus e é muito importante para a nossa vida interior.
Necessitamos confiar nesse seu amor por nós, na sua Misericórdia. Como uma criança pequena precisa confiar no amor do seus pais para poder avançar pela vida. E a boa notícia é que podemos, com certeza, confiar naquele que nos amou tanto que deu a sua vida por nós.
O maior clube de livros católicos do Brasil.
O Advento é tempo de espera, de silêncio interior e preparação para o encontro com Cristo. Em sintonia com a nossa campanha de Advento 2025 — “Nós esperamos” —, reunimos aqui as homilias preparadas especialmente pelo padre Pedro Willemsens para este tempo de graça. A cada dia, somos convidados a caminhar com a liturgia, escutar a Palavra e deixar que ela transforme o nosso coração. Que estas reflexões fortaleçam em nós o desejo por Aquele que vem e nos ajudem a viver bem essa espera.
Na primeira semana do Advento, a liturgia nos convida a olhar para o fim dos tempos e para a vinda gloriosa de Cristo. Antes de nos voltarmos para o presépio e o nascimento do Salvador, somos chamados a refletir sobre a sua promessa de voltar, e sobre como devemos viver enquanto esperamos. Os dois primeiros domingos do Advento nos colocam diante desse mistério: Jesus virá como justo juiz, e é preciso estar preparados. Comecemos este tempo com o desejo sincero de reencontrar o essencial e de nos colocar a caminho, com o coração voltado para Deus. A seguir, acompanhe as homilias do padre Pedro Willemsens para essa semana:
Santo Agostinho sempre teve um coração inquieto. Um coração que o levava a buscar mais. Inicialmente mais experiências, mais prazeres, mais emoções… Depois mais prestígio, mais sucesso na sua carreira. Por último, mais sabedoria, verdades mais profundas, respostas mais claras para os grandes problemas da vida. Mas depois de um entusiasmo inicial, sempre encontrava decepção: não era verdadeiramente aquilo que ele buscava.
Após rodar muito pela vida, começou a se aprofundar na religião da sua mãe, no cristianismo, que a princípio tinha lhe parecido estranho e sem graça. Mas ao tomar a Bíblia com os olhos novos, começou a encontrar ali um tesouro insuspeitado. Porém havia um problema. Ele sabia que abraçar a fé cristã implicaria abandonar seus velhos hábitos pecaminosos, e essa oposição entre sua crescente convicção na verdade da fé e seu apego ao pecado começou a lhe dilacerar por dentro.
Até que chegou o dia. Estava no jardim de sua casa, quando ouviu umas crianças brincando ali perto. Elas cantavam o que pareciam ser duas palavras: “tolle, lege – tolle, lege…”, em latim: “toma e lê”. E ele entendeu que deveria tomar Bíblia e ler, e foi isso que fez. Topou-se com a passagem que se lê na 2ª leitura deste domingo da epístola aos Romanos.
“Irmãos: vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé. A noite já vai adiantada, o dia vem chegando: despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz.”
E isso foi o suficiente. Ele sentiu “como que uma luz de segurança derramada no meu coração”, com a qual “todas as dúvidas das trevas se desfizeram”.
“Já é hora de despertardes do sono”. Estamos num momento muito marcante do ano. Na realidade, no começo do ano litúrgico: no 1º domingo do Advento. Que traz consigo um convite à renovação. Um voltar a preparar-se para o encontro com Deus. E para isso a liturgia se reveste do roxo, que é a cor penitencial, convidando-nos a não nos perder demais nas celebrações de dezembro, mas saber empreender um caminho interior de conversão, de preparação para o Natal.
Depois da sua conversão S. Agostinho se lamentava em oração: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu lá fora; e fora te buscava… Estavas comigo, e eu não estava contigo.”
Na sua regra, S. Bento explica que a meta do monge deve ser “habitare secum” – viver em si, dentro de si mesmo, não disperso, perdido no exterior, na vida dos sentidos. Dentro é que nós vamos encontrar o caminho, vamos encontrar Deus. Como na parábola do filho pródigo a sua conversão começa quando ele “entra em si”.
E essa me parece uma boa maneira para começarmos este advento: fomentando o desejo de conversão, de não nos perder tanto nas dispersões desta vida, deste mundo, mas lutar por entrar mais dentro de nós mesmo e, dessa forma, voltar para a casa do Pai.
A gente lê na 1ª leitura da Missa de hoje um trecho do profeta Isaías.
“Quando o Senhor tiver lavado as imundícies das filhas de Sião, e limpado as manchas de sangue dentro de Jerusalém, com espírito de justiça e de purificação, ele criará em todo lugar do monte Sião e em suas assembleias uma nuvem durante o dia, e fumaça e clarão de chamas durante a noite: e será proteção para toda a sua glória, uma tenda para dar sombra contra o calor do dia, abrigo e refúgio contra a ventania e a chuva” (Is 4, 5s).
Nuvem durante o dia e chamas durante a noite. Aqui há uma clara referência ao Êxodo do Egito, quando Deus se fazia presente na fuga de Israel dessas duas formas: uma coluna de fogo de noite e de fumaça de dia, para afastar os egípcios e guiar os hebreus.
Isaías se refere a uma situação séculos depois do êxodo do Egito, mas semelhante a ele. Trata-se do exílio na Babilônia. Quando os profetas alimentam a esperança no povo escolhido fazendo referência ao primeiro êxodo, com a promessa que algo similar irá ocorrer, que Deus enviará um novo Moisés, que guiará o povo à liberdade da Terra prometida.
No entanto, mesmo depois do povo retornar à sua terra, esses escritos dos profetas continuam sendo lidos, só que agora são interpretados num novo plano, o de um êxodo espiritual. E o novo Moisés será o messias, que vai conduzir para o Reino dos Céus. Por isso a Igreja nos apresenta esse texto no começo do Advento.
Diversos autores antigos chamam o Advento de “a pequena Quaresma”. Pois assim como a Quaresma prepara para a Páscoa, que se refere originariamente ao evento do Êxodo, o Advento quer nos preparar para o encontro com o novo Moisés que é Cristo, e para a passagem definitiva ao seu Reino. E nesse novo contexto –o nosso– a simbologia da coluna de fogo e de fumaça continua tendo o seu valor.
O povo tinha que atravessar o deserto, suportando o calor. Por isso a nuvem é muito bem-vinda. Na nossa vida muitas vezes experimentamos o cansaço, o peso das muitas tarefas. Na oração e na Eucarisita vamos encontrar o necessário descanso, o consolo, para não ficar exauridos pelo caminho. “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11, 28).
Por outro lado a noite também representa um obstáculo para o progresso no caminho, por não saber para onde ir. A luz se torna fundamental, para saber onde pôr os pés. A penitência e a confissão nos impelem a superar as nossas misérias, nosso comodismo, nos comunicando essa boa exigência de superação, lutar por sermos melhores. A luz de Cristo nos mostra nossas obras más, ao mesmo tempo que nos convida para uma vida nova.
Peçamos a Nossa Senhora, consoladora dos aflitos e estrela da manhã, que esteja sempre ao nosso lado nos conduzindo pelo caminho da vida e em particular nestas semanas do Advento.
“Naquele dia, nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor; sobre ele repousará o espírito do Senhor” (Is 11, 1).
No Advento a grande maioria dos textos da primeira leitura da Missa é tirada do profeta Isaías, um livro muito importante e rico do Antigo Testamento e que contêm algumas das referências mais significativas sobre o Messias e sua missão.
Na Missa de hoje se lê o capítulo 11, que descreve o Messias através dos diversos Dons do Espírito Santo. Ele é apresentado como um figura muito forte e poderosa, que vai castigar os maus, e trazer a paz e a justiça para os bons. Inclusive entre os animais se descreve uma paz e convivência pacífica.
Depois, no Evangelho, escutamos Jesus se apresentar como o anunciado pelos profetas. Em concreto Ele diz aos discípulos: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes! Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais vendo, e não puderam ver; quiseram ouvir o que estais ouvindo, e não puderam ouvir” (Lc 10, 23s).
E é especialmente significativa a distinção que Ele faz no começo da passagem evangélica de hoje. Nosso Senhor reza a seu Pai dizendo: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos” (Lc 10, 21). E aqui dá um chave importante para distinguir quem são esses bons que Ele irá favorecer, e os maus que irá punir. O ponto chave da distinção desses dois grupos é a humildade.
Jesus não vem pra punir quem não se encaixa em um código de conduta mais ou menos arbitrário. Ele vem trazer a salvação, para todos. Mas para abraçar essa salvação é preciso ter consciência de que se necessita dela. Aquele que não se acha doente, não será curado. A sua graça não nos é forçada, somos nós que temos que abrir o nosso coração a ela. Mas só o faremos realmente se estivermos entre esse pequeninos, entre aqueles que se sabem necessitados de perdão e da misericórdia.
No primeiro lugar entre esses pequeninos do Senhor está sua própria Mãe. Porque – como Ela mesma diz – “Ele olhou para a humildade (para a pequenez) da sua serva… e fez para mim coisas grandiosas… Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1, 46-52).
Hoje a liturgia nos traz na primeira leitura mais um trecho muito interessante do profeta Isaías que guarda uma forte conexão com o trecho do Evangelho que lemos. Profetiza-se um grande evento que ocorrerá no Monte Sião, em Jerusalém, no qual duas coisas irão acontecer. Primeiro será dado “um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos”. Depois o Senhor “removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações”. Em paralelo no Evangelho S. Mateus nos apresenta Jesus subindo a um monte onde faz também duas coisas: cura os doentes –os liberta de suas enfermidades– e os alimenta multiplicando os pães e os peixes.
Já os padres da Igreja –comentando a parábola do Bom samaritano– dizem que o homem assaltado na parábola representa a humanidade que –pelo pecado– foi “despojada da graça e ferida na sua natureza” (expoliatus in gratuitis, vulneratus in naturalibus). Por isso vemos Nosso Senhor agindo nesses dois campos: curando a ferida causada pelo pecado, nos libertando da escravidão do vício; e enchendo a nossa vida de um sentido novo, de um sentido sobrenatural, do Pão da Palavra de Deus que traz a Vida eterna.
“Removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações”. Hoje é também a memória litúrgica de S. Francisco Xavier, que foi missionário no extremo oriente, tendo inclusive feito escala no Brasil no seu caminho por mar. E é bonito comprovar tantos relatos de pessoas entrando em contado com a fé cristã pela primeira vez e experimentando a partir daí uma nova liberdade. Vemos isso, por exemplo, entre os índios da América, os japoneses e mesmo os vikings. Jesus realiza no plano espiritual o gesto de Alexandre o grande, que venceu o desafio do nó górdio cortando-o com a sua espada. Jesus liberta todos os povos da escravidão do pecado, cravando no mundo a espada da Cruz. Oxalá abramos a Ele neste Advento o nosso coração, para experimentar com nova força essa liberdade que Ele veio nos trazer.
“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus.”
Aristóteles explica que há 3 componentes na retórica: o páthos, o lógos e o éthos. O primeiro são as emoções, que são o mais fácil de alterar nas pessoas que estão te escutando – não é tão difícil gerar rapidamente um sentimento de ternura e compaixão, ou de indignação e raiva. O segundo são as ideias, os raciocínios. E mudar o que as pessoas pensam já se demonstra uma tarefa mais árdua do que mudar os sentimentos. O último é o comportamento, que é de longe o mais desafiador de influenciar, mas também o mais importante.
Muitas pessoas talvez enxerguem na religião uma ferramenta. Um recurso para lhes ajudar a conseguirem o que querem, através de uns ritos ou orações. Algumas o que buscam é um sentimento positivo, seja de consolo ou de entusiasmo. E avaliam a qualidade de um evento religioso pelo volume do seu arroubo emocional.
Mas as emoções são fugazes. Assim como vêm num segundo, se vão no outro. E não é essa a religião que Cristo nos propõem.
Nosso Senhor nos desenha o caminho para o Céu não como o de sentir belos sentimentos e dizer belas palavras a Deus, mas no fazer a sua Vontade. Na mudança da nossa vida.
A pessoa que vive o cristianismo apenas como um componente mais da sua vida –como podem ser as músicas que escuta, o esporte que pratica, os livros que lê…– não vai experimentar toda a força que este é capaz de nos dar. Viver o cristianismo como um verniz, como um adorno, ao invés de como o fundamento último da minha conduta é como construir uma casa sobre a areia –como lemos na passagem de hoje. Virão as múltiplas vicissitudes da vida, e aquela pessoa estará desprotegida.
Mas quem não só escuta as palavras do Senhor, mas trata de as pôr em prática, é como alguém que construiu sua casa sobre a rocha. Não importa o que vier, ele estará firme estando edificado e enraizado em Cristo (cfr. Col 2, 7).
Escutar e pôr em prática. Essa dupla aparece diversas vezes nos Evangelhos. Os padres da Igreja viram um paralelo entre elas e outros dois verbos que em geral vêm juntos: conceber e dar à luz. O próprio Jesus diz que sua mãe e seus irmãos são os que escutam suas palavras e as põem em prática (cfr. Lc 8, 21). Por isso Nossa Senhora é o modelo mais perfeito do seguimento de Cristo. Ela escuta – recebe a Palavra de Deus, o Verbo –, e põem em prática – permite que essa Palavra se encarne nEla, na sua vida. Peçamos a Ela neste Advento que ajude a abrir-nos cada vez melhor para que o Senhor possa de fato transformar a nossa vida.
«Jesus tocou nos olhos deles, dizendo: “Faça-se conforme a vossa fé”. E os olhos deles se abriram.»
Nas homilias precedentes falamos sobre o Advento como ocasião para acordar para a vida espiritual, como um chamado à penitência, à humildade, à docilidade… como um caminho para a autêntica liberdade… Nos textos desta primeira 6ª feira vemos muito claramente presente o tema da fé e da luz. Da necessidade da fé para se abrir aos dons de Deus e da consequência da luz que entra na nossa vida e a ilumina poderosamente.
Na primeira leitura, Isaías apresenta como sinal dos tempos messiânicos que «os surdos ouvirão as palavras do livro e os olhos dos cegos verão, no meio das trevas e das sombras» (Is 29, 18). No Salmo rezamos dizendo: «O Senhor é minha luz e salvação» (Sal 26 ou 27). E o Evangelho narra o encontro de Nosso Senhor com dois cegos a quem cura fazendo com que enxerguem.
A iluminação é um símbolo muito presente na tradição cristã e mais além dela, em outras religiões. A epístola aos Hebreus se refere ao cristãos como iluminados e é isso que significa Buda, que não é um nome, mas um título: o iluminado, aquele que está acordado. Na noite Natal o símbolo da chegada da luz se faz presente para expressar com beleza a vinda de Cristo, luz do mundo: “O povo que ficava nas trevas viu uma grande luz, para os habitantes da região sombria da morte uma luz surgiu” (Mt 4,16 citando Is 9, 2). Inclusive o Natal é celebrado no hemisfério norte no solstício de inverno, quando –depois de ir-se reduzindo– o dia volta a crescer: a luz começa a vencer a escuridão.
Tudo isso nos remete ao convite que Deus nos faz nestas semanas de Advento a abrir-nos à sua luz. Essa luz que é capaz de nos mostrar o caminho para a Vida e aquecer os nossos frios corações. O que traz consigo –é verdade– um certo drama.
Drama porque uma parte de nós não quer a luz, rejeita a luz, porque “as suas obras são más” (Jo 3, 19s). Por isso é preciso armar-se de coragem para se abrir à luz de Cristo. Confiar que vale a pena apresentar-lhe nossos olhos turvos, com suas traves. Deixar que Ele os toque e remova os obstáculos depositados na nossa visão pelos nossos vícios, para se protegerem.
Uma vez me explicaram que os mosquitos têm uma saliva anestésica. Assim antes de nos picar ele cospem na nossa pele, para que a gente não sinta na hora a agressão. Quando começa a coceira o danado já foi embora levando o nosso sangue.
O pecado funciona de forma semelhante: ele começa sequestrando a nossa racionalidade, adormecendo a nossa consciência. E –se nos descuidamos– essa deformação da visão vai se solidificando, tornando-se permanente. “Quem não vive como pensa, acaba pensando como vive”.
Aproveitemos pois este tempo de graça para nos abrir a essa luz transformadora, para deixar que Cristo entre na nossa alma revelando-nos o nosso caminho para Ele, para o Céu, para a Vida.
“Povo de Sião, que habitas em Jerusalém, não terás motivo algum para chorar: ele se comoverá à voz do teu clamor” (Is 30, 19). O começo da primeira leitura de hoje nos coloca de cara diante do tema central dos textos do dia: a misericórdia de Deus.
Fechando esta primeira semana exploramos diversas atitudes a desenvolver para nos preparar para um encontro transformador com o Senhor que vem: como a humildade, a fé e a docilidade. A liturgia parece querer hoje fomentar em nós a confiança. A confiança em que vale a pena o nosso esforço, que da parte de Deus vamos encontrar uma resposta ao nosso empenho, vamos encontrar um coração compassivo, vamos encontrar misericórdia. O nosso Deus é um deus que se comove “à voz do teu clamor”.
E se isso está presente já no Antigo Testamento, no Evangelho se torna patente em um nível maravilhoso, como vemos no trecho de hoje.
“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9, 36). O verbo utilizado aqui (splagchnizomai) vem de uma palavra que significa entranhas, vísceras, intestino. A ideia é que quando uma emoção é muito intensa a gente experimenta uma sensação nessa região do corpo. Uma ideia que permanece registrada na nossa linguagem atual, por exemplo, quando falamos de “friozinho na barriga”, de um momento entranhável, ou de uma emoção visceral. E a raiz da ideia parece ser o fato de que, depois do cérebro, o lugar do corpo com a maior concentração de neurônios é precisamente nessa região da barriga, junto ao estômago e aos intestinos. Por isso é significativo que os Evangelhos apliquem esse verbo oito vezes a Cristo, porque implica um sentimento muito intenso, como o que sente a mãe pelo seu filho – fruto de suas entranhas, como comenta o papa Bento XVI no seu livro Jesus de Nazaré 1.
Jesus se apresenta não como um personagem distante, frio. Um visionário religioso que conseguiu um grande destacamento emocional das realidades desta terra e, do alto da sua sublime sabedoria, condescende em revelar aos demais os segredos do caminho espiritual. Não. Ele, sendo perfeito Deus, é também perfeito homem. Com tudo o que implica ser humano, inclusive os afetos, os sentimentos, a capacidade de se encarinhar das pessoas. Essa realidade nos é especialmente apresentada na devoção ao Sagrado Coração de Jesus e é muito importante para a nossa vida interior.
Necessitamos confiar nesse seu amor por nós, na sua Misericórdia. Como uma criança pequena precisa confiar no amor do seus pais para poder avançar pela vida. E a boa notícia é que podemos, com certeza, confiar naquele que nos amou tanto que deu a sua vida por nós.