A substância da vida
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A substância da vida

Data da Publicação: 20/05/2024
Tempo de leitura:
Autor: Matheus Bazzo
Data da Publicação: 20/05/2024
Tempo de leitura:
Autor: Matheus Bazzo

“A arte de viver bem é como todas as outras artes: deve ser praticada com uma incessante vigilância.

Goethe

O texto e a substância da vida

O diretor de cinema Christopher Nolan ao lançar seu filme Oppenheimer exigiu dos distribuidores de cinema que o filme fosse exibido em telas de IMAX por no mínimo 100 dias. Na produção de seu filme, ele usou câmeras de filmagem em película e produziu o próprio filme analógico com uma milimetragem maior que o padrão de mercado para garantir o máximo de informações e dinâmica de cor possível. Desde a produção ao lançamento, toda sua empreitada tem como finalidade extrair o máximo de atenção do público para o cinema e os efeitos visuais. Esse é o retrato do mundo em que vivemos: a visualidade nos convoca o tempo todo querendo sempre nossa atenção voltada para um vídeo, uma imagem, uma animação, etc. Vivemos uma era da comunicação estritamente visual. Então fica a pergunta: por que eu decidi me comunicar por texto? Não seria o texto uma forma arcaica e obsoleta de comunicação?

Defender o texto é fácil. Alguns pontos a se considerar:

Quando é necessário alguma formalização de um evento, um processo histórico, um documento, nos voltamos sempre aos textos. Os contratos atestam a superioridade dos textos. As pesquisas científicas, os papers, sinalizam o valor que damos à palavra escrita. O que está escrito é digno de confiança. Acreditamos mais nos textos do que nos vídeos. Não há Photoshop para palavras.

O processo de construção de um texto é um desafio de coesão e narrativa para o escritor. A escrita exige uma concatenação de ideias sem o apoio de imagens, músicas ou efeitos. Cobra-se muito mais do talento do escritor e, portanto, o resultado é mais exigente e mais eficaz por ser vítima do suor miserável do autor.

Aqui o mais importante: se até mesmo os santos faziam direção espiritual por carta – como era o caso de São Francisco de Sales – confiando suas almas aos seus pais espirituais através da comunicação textual, por que raios não deveríamos acreditar que o texto é capaz de exprimir ideias e sentimentos de maneira superiora a qualquer outro recurso de comunicação?

Não resta dúvida de que o texto é uma forma muito elevada de comunicação. E por ser assim, o texto garante uma melhor absorção qualitativa das ideias e mensagens presentes na narrativa. As palavras evocam imagens e organizam nosso pensamento. O cinema e as artes visuais são capazes de estimular nossa sensorialidade e chamar nossa atenção. São artes que provocam nossa imaginação enquanto a escrita é uma arte que penetra nossa imaginação. 

As artes visuais até certo ponto nos convidam à distração.  A leitura nos convida à imersão. Nada mais do que palavras. Nada mais do que o preto da tinta – ou do pixel – no papel branco – ou tela de computador. Sem som. Sem distraçãos. O texto nos obriga ao foco.

E aqui está um ponto fundamental para nosso aprendizado: somos moldados por aquilo no qual estamos focados. Nossa alma é alimentada por aquilo que depositamos nossa atenção. A atenção é, por assim dizer, a substância da vida. Aquilo que olhamos e admiramos irá moldar nosso comportamento e nosso modo de pensar e existir. 

Ou, como diria Camões em um de seus sonetos:

“Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho logo mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.”

Por virtude do muito imaginar…

Ou seja, por estar atento aquilo que ele ama, ele obtém interiormente o objeto de seu desejo.

É por isso que eu quero que vocês leiam – eu fundei um clube do livro, ora bolas. Porque ler irá transformar sua vida ao exercitar esse foco naquilo que realmente importa. Hoje em dia vivemos uma insana competição desenfreada e alucinante pela nossa atenção. Há empresas bilionárias gastando infinitos dinheiros em pesquisas para descobrir uma forma mais eficaz de roubar nossa atenção e nos manter preso em uma tela. A substância da nossa vida é sugada diariamente por essas plataformas. 

Eu não quero que eles vençam essa corrida. A primeira coisa que eu não quero que aconteça com você é isso: que você desperdice a substância da sua vida.

Então paradoxalmente, nossos Estudos Estéticos começam ignorando a estética e nos atendo em grande medida à comunicação textual. 

Quando morei em Florença, eu visitava frequentemente o Mosteiro de São Marco. Lá estão preservadas as celas onde o pintor Fra Angelico criou uma de suas obras mais bonitas. Cada cela tem um afresco diferente pintado e uma de suas paredes. Cada afresco apresenta uma passagem do Evangelho da vida de Cristo. Os monges eram designados para uma dessas celas onde viveriam por toda sua vida. No decorrer de toda sua passagem pela Terra, o monge acordaria e dormiria olhando para uma mesma imagem da vida de Cristo. Através desse recurso, Fra Angélico obrigou que seus irmãos passassem a vida meditando em um episódio da vida de Nosso Senhor. Ele garantiu que a atenção de seus irmãos não seria desperdiçada, mas nutrida.

É o que pretendemos aqui também.

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    Matheus Bazzo

    Diretor de arte, fotógrafo, produtor, ensaísta e fundador das empresas Minha Biblioteca Católica e Lumine.

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    O que você vai encontrar neste artigo?

    “A arte de viver bem é como todas as outras artes: deve ser praticada com uma incessante vigilância.

    Goethe

    O texto e a substância da vida

    O diretor de cinema Christopher Nolan ao lançar seu filme Oppenheimer exigiu dos distribuidores de cinema que o filme fosse exibido em telas de IMAX por no mínimo 100 dias. Na produção de seu filme, ele usou câmeras de filmagem em película e produziu o próprio filme analógico com uma milimetragem maior que o padrão de mercado para garantir o máximo de informações e dinâmica de cor possível. Desde a produção ao lançamento, toda sua empreitada tem como finalidade extrair o máximo de atenção do público para o cinema e os efeitos visuais. Esse é o retrato do mundo em que vivemos: a visualidade nos convoca o tempo todo querendo sempre nossa atenção voltada para um vídeo, uma imagem, uma animação, etc. Vivemos uma era da comunicação estritamente visual. Então fica a pergunta: por que eu decidi me comunicar por texto? Não seria o texto uma forma arcaica e obsoleta de comunicação?

    Defender o texto é fácil. Alguns pontos a se considerar:

    Quando é necessário alguma formalização de um evento, um processo histórico, um documento, nos voltamos sempre aos textos. Os contratos atestam a superioridade dos textos. As pesquisas científicas, os papers, sinalizam o valor que damos à palavra escrita. O que está escrito é digno de confiança. Acreditamos mais nos textos do que nos vídeos. Não há Photoshop para palavras.

    O processo de construção de um texto é um desafio de coesão e narrativa para o escritor. A escrita exige uma concatenação de ideias sem o apoio de imagens, músicas ou efeitos. Cobra-se muito mais do talento do escritor e, portanto, o resultado é mais exigente e mais eficaz por ser vítima do suor miserável do autor.

    Aqui o mais importante: se até mesmo os santos faziam direção espiritual por carta – como era o caso de São Francisco de Sales – confiando suas almas aos seus pais espirituais através da comunicação textual, por que raios não deveríamos acreditar que o texto é capaz de exprimir ideias e sentimentos de maneira superiora a qualquer outro recurso de comunicação?

    Não resta dúvida de que o texto é uma forma muito elevada de comunicação. E por ser assim, o texto garante uma melhor absorção qualitativa das ideias e mensagens presentes na narrativa. As palavras evocam imagens e organizam nosso pensamento. O cinema e as artes visuais são capazes de estimular nossa sensorialidade e chamar nossa atenção. São artes que provocam nossa imaginação enquanto a escrita é uma arte que penetra nossa imaginação. 

    As artes visuais até certo ponto nos convidam à distração.  A leitura nos convida à imersão. Nada mais do que palavras. Nada mais do que o preto da tinta – ou do pixel – no papel branco – ou tela de computador. Sem som. Sem distraçãos. O texto nos obriga ao foco.

    E aqui está um ponto fundamental para nosso aprendizado: somos moldados por aquilo no qual estamos focados. Nossa alma é alimentada por aquilo que depositamos nossa atenção. A atenção é, por assim dizer, a substância da vida. Aquilo que olhamos e admiramos irá moldar nosso comportamento e nosso modo de pensar e existir. 

    Ou, como diria Camões em um de seus sonetos:

    “Transforma-se o amador na cousa amada,
    por virtude do muito imaginar;
    não tenho logo mais que desejar,
    pois em mim tenho a parte desejada.”

    Por virtude do muito imaginar…

    Ou seja, por estar atento aquilo que ele ama, ele obtém interiormente o objeto de seu desejo.

    É por isso que eu quero que vocês leiam – eu fundei um clube do livro, ora bolas. Porque ler irá transformar sua vida ao exercitar esse foco naquilo que realmente importa. Hoje em dia vivemos uma insana competição desenfreada e alucinante pela nossa atenção. Há empresas bilionárias gastando infinitos dinheiros em pesquisas para descobrir uma forma mais eficaz de roubar nossa atenção e nos manter preso em uma tela. A substância da nossa vida é sugada diariamente por essas plataformas. 

    Eu não quero que eles vençam essa corrida. A primeira coisa que eu não quero que aconteça com você é isso: que você desperdice a substância da sua vida.

    Então paradoxalmente, nossos Estudos Estéticos começam ignorando a estética e nos atendo em grande medida à comunicação textual. 

    Quando morei em Florença, eu visitava frequentemente o Mosteiro de São Marco. Lá estão preservadas as celas onde o pintor Fra Angelico criou uma de suas obras mais bonitas. Cada cela tem um afresco diferente pintado e uma de suas paredes. Cada afresco apresenta uma passagem do Evangelho da vida de Cristo. Os monges eram designados para uma dessas celas onde viveriam por toda sua vida. No decorrer de toda sua passagem pela Terra, o monge acordaria e dormiria olhando para uma mesma imagem da vida de Cristo. Através desse recurso, Fra Angélico obrigou que seus irmãos passassem a vida meditando em um episódio da vida de Nosso Senhor. Ele garantiu que a atenção de seus irmãos não seria desperdiçada, mas nutrida.

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