Homilias diárias do padre Pedro Willemsens para viver o Advento com profundidade e preparar o coração para a vinda do Senhor.
Homilias diárias do padre Pedro Willemsens para viver o Advento com profundidade e preparar o coração para a vinda do Senhor.
O Advento é tempo de espera, de silêncio interior e preparação para o encontro com Cristo. Em sintonia com a nossa campanha de Advento 2025 — “Nós esperamos” —, reunimos aqui as homilias preparadas especialmente pelo padre Pedro Willemsens para este tempo de graça. A cada dia, somos convidados a caminhar com a liturgia, escutar a Palavra e deixar que ela transforme o nosso coração. Que estas reflexões fortaleçam em nós o desejo por Aquele que vem e nos ajudem a viver bem essa espera.
Na primeira semana do Advento, a liturgia nos convida a olhar para o fim dos tempos e para a vinda gloriosa de Cristo. Antes de nos voltarmos para o presépio e o nascimento do Salvador, somos chamados a refletir sobre a sua promessa de voltar, e sobre como devemos viver enquanto esperamos. Os dois primeiros domingos do Advento nos colocam diante desse mistério: Jesus virá como justo juiz, e é preciso estar preparados. Comecemos este tempo com o desejo sincero de reencontrar o essencial e de nos colocar a caminho, com o coração voltado para Deus. A seguir, acompanhe as homilias do padre Pedro Willemsens para essa semana:
Santo Agostinho sempre teve um coração inquieto. Um coração que o levava a buscar mais. Inicialmente mais experiências, mais prazeres, mais emoções… Depois mais prestígio, mais sucesso na sua carreira. Por último, mais sabedoria, verdades mais profundas, respostas mais claras para os grandes problemas da vida. Mas depois de um entusiasmo inicial, sempre encontrava decepção: não era verdadeiramente aquilo que ele buscava.
Após rodar muito pela vida, começou a se aprofundar na religião da sua mãe, no cristianismo, que a princípio tinha lhe parecido estranho e sem graça. Mas ao tomar a Bíblia com os olhos novos, começou a encontrar ali um tesouro insuspeitado. Porém havia um problema. Ele sabia que abraçar a fé cristã implicaria abandonar seus velhos hábitos pecaminosos, e essa oposição entre sua crescente convicção na verdade da fé e seu apego ao pecado começou a lhe dilacerar por dentro.
Até que chegou o dia. Estava no jardim de sua casa, quando ouviu umas crianças brincando ali perto. Elas cantavam o que pareciam ser duas palavras: “tolle, lege – tolle, lege…”, em latim: “toma e lê”. E ele entendeu que deveria tomar Bíblia e ler, e foi isso que fez. Topou-se com a passagem que se lê na 2ª leitura deste domingo da epístola aos Romanos.
“Irmãos: vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé. A noite já vai adiantada, o dia vem chegando: despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz.”
E isso foi o suficiente. Ele sentiu “como que uma luz de segurança derramada no meu coração”, com a qual “todas as dúvidas das trevas se desfizeram”.
“Já é hora de despertardes do sono”. Estamos num momento muito marcante do ano. Na realidade, no começo do ano litúrgico: no 1º domingo do Advento. Que traz consigo um convite à renovação. Um voltar a preparar-se para o encontro com Deus. E para isso a liturgia se reveste do roxo, que é a cor penitencial, convidando-nos a não nos perder demais nas celebrações de dezembro, mas saber empreender um caminho interior de conversão, de preparação para o Natal.
Depois da sua conversão S. Agostinho se lamentava em oração: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu lá fora; e fora te buscava… Estavas comigo, e eu não estava contigo.”
Na sua regra, S. Bento explica que a meta do monge deve ser “habitare secum” – viver em si, dentro de si mesmo, não disperso, perdido no exterior, na vida dos sentidos. Dentro é que nós vamos encontrar o caminho, vamos encontrar Deus. Como na parábola do filho pródigo a sua conversão começa quando ele “entra em si”.
E essa me parece uma boa maneira para começarmos este advento: fomentando o desejo de conversão, de não nos perder tanto nas dispersões desta vida, deste mundo, mas lutar por entrar mais dentro de nós mesmo e, dessa forma, voltar para a casa do Pai.
Leia aqui a liturgia completa do dia.
A gente lê na 1ª leitura da Missa de hoje um trecho do profeta Isaías.
“Quando o Senhor tiver lavado as imundícies das filhas de Sião, e limpado as manchas de sangue dentro de Jerusalém, com espírito de justiça e de purificação, ele criará em todo lugar do monte Sião e em suas assembleias uma nuvem durante o dia, e fumaça e clarão de chamas durante a noite: e será proteção para toda a sua glória, uma tenda para dar sombra contra o calor do dia, abrigo e refúgio contra a ventania e a chuva” (Is 4, 5s).
Nuvem durante o dia e chamas durante a noite. Aqui há uma clara referência ao Êxodo do Egito, quando Deus se fazia presente na fuga de Israel dessas duas formas: uma coluna de fogo de noite e de fumaça de dia, para afastar os egípcios e guiar os hebreus.
Isaías se refere a uma situação séculos depois do êxodo do Egito, mas semelhante a ele. Trata-se do exílio na Babilônia. Quando os profetas alimentam a esperança no povo escolhido fazendo referência ao primeiro êxodo, com a promessa que algo similar irá ocorrer, que Deus enviará um novo Moisés, que guiará o povo à liberdade da Terra prometida.
No entanto, mesmo depois do povo retornar à sua terra, esses escritos dos profetas continuam sendo lidos, só que agora são interpretados num novo plano, o de um êxodo espiritual. E o novo Moisés será o messias, que vai conduzir para o Reino dos Céus. Por isso a Igreja nos apresenta esse texto no começo do Advento.
Diversos autores antigos chamam o Advento de “a pequena Quaresma”. Pois assim como a Quaresma prepara para a Páscoa, que se refere originariamente ao evento do Êxodo, o Advento quer nos preparar para o encontro com o novo Moisés que é Cristo, e para a passagem definitiva ao seu Reino. E nesse novo contexto –o nosso– a simbologia da coluna de fogo e de fumaça continua tendo o seu valor.
O povo tinha que atravessar o deserto, suportando o calor. Por isso a nuvem é muito bem-vinda. Na nossa vida muitas vezes experimentamos o cansaço, o peso das muitas tarefas. Na oração e na Eucarisita vamos encontrar o necessário descanso, o consolo, para não ficar exauridos pelo caminho. “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11, 28).
Por outro lado a noite também representa um obstáculo para o progresso no caminho, por não saber para onde ir. A luz se torna fundamental, para saber onde pôr os pés. A penitência e a confissão nos impelem a superar as nossas misérias, nosso comodismo, nos comunicando essa boa exigência de superação, lutar por sermos melhores. A luz de Cristo nos mostra nossas obras más, ao mesmo tempo que nos convida para uma vida nova.
Peçamos a Nossa Senhora, consoladora dos aflitos e estrela da manhã, que esteja sempre ao nosso lado nos conduzindo pelo caminho da vida e em particular nestas semanas do Advento.
Leia aqui a liturgia completa do dia.
“Naquele dia, nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor; sobre ele repousará o espírito do Senhor” (Is 11, 1).
No Advento a grande maioria dos textos da primeira leitura da Missa é tirada do profeta Isaías, um livro muito importante e rico do Antigo Testamento e que contêm algumas das referências mais significativas sobre o Messias e sua missão.
Na Missa de hoje se lê o capítulo 11, que descreve o Messias através dos diversos Dons do Espírito Santo. Ele é apresentado como um figura muito forte e poderosa, que vai castigar os maus, e trazer a paz e a justiça para os bons. Inclusive entre os animais se descreve uma paz e convivência pacífica.
Depois, no Evangelho, escutamos Jesus se apresentar como o anunciado pelos profetas. Em concreto Ele diz aos discípulos: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes! Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais vendo, e não puderam ver; quiseram ouvir o que estais ouvindo, e não puderam ouvir” (Lc 10, 23s).
E é especialmente significativa a distinção que Ele faz no começo da passagem evangélica de hoje. Nosso Senhor reza a seu Pai dizendo: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos” (Lc 10, 21). E aqui dá um chave importante para distinguir quem são esses bons que Ele irá favorecer, e os maus que irá punir. O ponto chave da distinção desses dois grupos é a humildade.
Jesus não vem pra punir quem não se encaixa em um código de conduta mais ou menos arbitrário. Ele vem trazer a salvação, para todos. Mas para abraçar essa salvação é preciso ter consciência de que se necessita dela. Aquele que não se acha doente, não será curado. A sua graça não nos é forçada, somos nós que temos que abrir o nosso coração a ela. Mas só o faremos realmente se estivermos entre esse pequeninos, entre aqueles que se sabem necessitados de perdão e da misericórdia.
No primeiro lugar entre esses pequeninos do Senhor está sua própria Mãe. Porque – como Ela mesma diz – “Ele olhou para a humildade (para a pequenez) da sua serva… e fez para mim coisas grandiosas… Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1, 46-52).
Leia aqui a liturgia completa do dia.
Hoje a liturgia nos traz na primeira leitura mais um trecho muito interessante do profeta Isaías que guarda uma forte conexão com o trecho do Evangelho que lemos. Profetiza-se um grande evento que ocorrerá no Monte Sião, em Jerusalém, no qual duas coisas irão acontecer. Primeiro será dado “um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos”. Depois o Senhor “removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações”. Em paralelo no Evangelho S. Mateus nos apresenta Jesus subindo a um monte onde faz também duas coisas: cura os doentes –os liberta de suas enfermidades– e os alimenta multiplicando os pães e os peixes.
Já os padres da Igreja –comentando a parábola do Bom samaritano– dizem que o homem assaltado na parábola representa a humanidade que –pelo pecado– foi “despojada da graça e ferida na sua natureza” (expoliatus in gratuitis, vulneratus in naturalibus). Por isso vemos Nosso Senhor agindo nesses dois campos: curando a ferida causada pelo pecado, nos libertando da escravidão do vício; e enchendo a nossa vida de um sentido novo, de um sentido sobrenatural, do Pão da Palavra de Deus que traz a Vida eterna.
“Removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações”. Hoje é também a memória litúrgica de S. Francisco Xavier, que foi missionário no extremo oriente, tendo inclusive feito escala no Brasil no seu caminho por mar. E é bonito comprovar tantos relatos de pessoas entrando em contado com a fé cristã pela primeira vez e experimentando a partir daí uma nova liberdade. Vemos isso, por exemplo, entre os índios da América, os japoneses e mesmo os vikings. Jesus realiza no plano espiritual o gesto de Alexandre o grande, que venceu o desafio do nó górdio cortando-o com a sua espada. Jesus liberta todos os povos da escravidão do pecado, cravando no mundo a espada da Cruz. Oxalá abramos a Ele neste Advento o nosso coração, para experimentar com nova força essa liberdade que Ele veio nos trazer.
Leia aqui a liturgia completa do dia.
“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus.”
Aristóteles explica que há 3 componentes na retórica: o páthos, o lógos e o éthos. O primeiro são as emoções, que são o mais fácil de alterar nas pessoas que estão te escutando – não é tão difícil gerar rapidamente um sentimento de ternura e compaixão, ou de indignação e raiva. O segundo são as ideias, os raciocínios. E mudar o que as pessoas pensam já se demonstra uma tarefa mais árdua do que mudar os sentimentos. O último é o comportamento, que é de longe o mais desafiador de influenciar, mas também o mais importante.
Muitas pessoas talvez enxerguem na religião uma ferramenta. Um recurso para lhes ajudar a conseguirem o que querem, através de uns ritos ou orações. Algumas o que buscam é um sentimento positivo, seja de consolo ou de entusiasmo. E avaliam a qualidade de um evento religioso pelo volume do seu arroubo emocional.
Mas as emoções são fugazes. Assim como vêm num segundo, se vão no outro. E não é essa a religião que Cristo nos propõem.
Nosso Senhor nos desenha o caminho para o Céu não como o de sentir belos sentimentos e dizer belas palavras a Deus, mas no fazer a sua Vontade. Na mudança da nossa vida.
A pessoa que vive o cristianismo apenas como um componente mais da sua vida –como podem ser as músicas que escuta, o esporte que pratica, os livros que lê…– não vai experimentar toda a força que este é capaz de nos dar. Viver o cristianismo como um verniz, como um adorno, ao invés de como o fundamento último da minha conduta é como construir uma casa sobre a areia –como lemos na passagem de hoje. Virão as múltiplas vicissitudes da vida, e aquela pessoa estará desprotegida.
Mas quem não só escuta as palavras do Senhor, mas trata de as pôr em prática, é como alguém que construiu sua casa sobre a rocha. Não importa o que vier, ele estará firme estando edificado e enraizado em Cristo (cfr. Col 2, 7).
Escutar e pôr em prática. Essa dupla aparece diversas vezes nos Evangelhos. Os padres da Igreja viram um paralelo entre elas e outros dois verbos que em geral vêm juntos: conceber e dar à luz. O próprio Jesus diz que sua mãe e seus irmãos são os que escutam suas palavras e as põem em prática (cfr. Lc 8, 21). Por isso Nossa Senhora é o modelo mais perfeito do seguimento de Cristo. Ela escuta – recebe a Palavra de Deus, o Verbo –, e põem em prática – permite que essa Palavra se encarne nEla, na sua vida. Peçamos a Ela neste Advento que ajude a abrir-nos cada vez melhor para que o Senhor possa de fato transformar a nossa vida.
«Jesus tocou nos olhos deles, dizendo: “Faça-se conforme a vossa fé”. E os olhos deles se abriram.»
Nas homilias precedentes falamos sobre o Advento como ocasião para acordar para a vida espiritual, como um chamado à penitência, à humildade, à docilidade… como um caminho para a autêntica liberdade… Nos textos desta primeira 6ª feira vemos muito claramente presente o tema da fé e da luz. Da necessidade da fé para se abrir aos dons de Deus e da consequência da luz que entra na nossa vida e a ilumina poderosamente.
Na primeira leitura, Isaías apresenta como sinal dos tempos messiânicos que «os surdos ouvirão as palavras do livro e os olhos dos cegos verão, no meio das trevas e das sombras» (Is 29, 18). No Salmo rezamos dizendo: «O Senhor é minha luz e salvação» (Sal 26 ou 27). E o Evangelho narra o encontro de Nosso Senhor com dois cegos a quem cura fazendo com que enxerguem.
A iluminação é um símbolo muito presente na tradição cristã e mais além dela, em outras religiões. A epístola aos Hebreus se refere ao cristãos como iluminados e é isso que significa Buda, que não é um nome, mas um título: o iluminado, aquele que está acordado. Na noite Natal o símbolo da chegada da luz se faz presente para expressar com beleza a vinda de Cristo, luz do mundo: “O povo que ficava nas trevas viu uma grande luz, para os habitantes da região sombria da morte uma luz surgiu” (Mt 4,16 citando Is 9, 2). Inclusive o Natal é celebrado no hemisfério norte no solstício de inverno, quando –depois de ir-se reduzindo– o dia volta a crescer: a luz começa a vencer a escuridão.
Tudo isso nos remete ao convite que Deus nos faz nestas semanas de Advento a abrir-nos à sua luz. Essa luz que é capaz de nos mostrar o caminho para a Vida e aquecer os nossos frios corações. O que traz consigo –é verdade– um certo drama.
Drama porque uma parte de nós não quer a luz, rejeita a luz, porque “as suas obras são más” (Jo 3, 19s). Por isso é preciso armar-se de coragem para se abrir à luz de Cristo. Confiar que vale a pena apresentar-lhe nossos olhos turvos, com suas traves. Deixar que Ele os toque e remova os obstáculos depositados na nossa visão pelos nossos vícios, para se protegerem.
Uma vez me explicaram que os mosquitos têm uma saliva anestésica. Assim antes de nos picar ele cospem na nossa pele, para que a gente não sinta na hora a agressão. Quando começa a coceira o danado já foi embora levando o nosso sangue.
O pecado funciona de forma semelhante: ele começa sequestrando a nossa racionalidade, adormecendo a nossa consciência. E –se nos descuidamos– essa deformação da visão vai se solidificando, tornando-se permanente. “Quem não vive como pensa, acaba pensando como vive”.
Aproveitemos pois este tempo de graça para nos abrir a essa luz transformadora, para deixar que Cristo entre na nossa alma revelando-nos o nosso caminho para Ele, para o Céu, para a Vida.
“Povo de Sião, que habitas em Jerusalém, não terás motivo algum para chorar: ele se comoverá à voz do teu clamor” (Is 30, 19). O começo da primeira leitura de hoje nos coloca de cara diante do tema central dos textos do dia: a misericórdia de Deus.
Fechando esta primeira semana exploramos diversas atitudes a desenvolver para nos preparar para um encontro transformador com o Senhor que vem: como a humildade, a fé e a docilidade. A liturgia parece querer hoje fomentar em nós a confiança. A confiança em que vale a pena o nosso esforço, que da parte de Deus vamos encontrar uma resposta ao nosso empenho, vamos encontrar um coração compassivo, vamos encontrar misericórdia. O nosso Deus é um deus que se comove “à voz do teu clamor”.
E se isso está presente já no Antigo Testamento, no Evangelho se torna patente em um nível maravilhoso, como vemos no trecho de hoje.
“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9, 36). O verbo utilizado aqui (splagchnizomai) vem de uma palavra que significa entranhas, vísceras, intestino. A ideia é que quando uma emoção é muito intensa a gente experimenta uma sensação nessa região do corpo. Uma ideia que permanece registrada na nossa linguagem atual, por exemplo, quando falamos de “friozinho na barriga”, de um momento entranhável, ou de uma emoção visceral. E a raiz da ideia parece ser o fato de que, depois do cérebro, o lugar do corpo com a maior concentração de neurônios é precisamente nessa região da barriga, junto ao estômago e aos intestinos. Por isso é significativo que os Evangelhos apliquem esse verbo oito vezes a Cristo, porque implica um sentimento muito intenso, como o que sente a mãe pelo seu filho – fruto de suas entranhas, como comenta o papa Bento XVI no seu livro Jesus de Nazaré 1.
Jesus se apresenta não como um personagem distante, frio. Um visionário religioso que conseguiu um grande destacamento emocional das realidades desta terra e, do alto da sua sublime sabedoria, condescende em revelar aos demais os segredos do caminho espiritual. Não. Ele, sendo perfeito Deus, é também perfeito homem. Com tudo o que implica ser humano, inclusive os afetos, os sentimentos, a capacidade de se encarinhar das pessoas. Essa realidade nos é especialmente apresentada na devoção ao Sagrado Coração de Jesus e é muito importante para a nossa vida interior.
Necessitamos confiar nesse seu amor por nós, na sua Misericórdia. Como uma criança pequena precisa confiar no amor do seus pais para poder avançar pela vida. E a boa notícia é que podemos, com certeza, confiar naquele que nos amou tanto que deu a sua vida por nós.
Na segunda semana do Advento, a liturgia nos apresenta com mais destaque a figura de João Batista, o grande precursor. Sua voz firme no deserto nos convida à conversão, à retidão de vida e à preparação do coração para acolher o Senhor. Ao lado dele, emerge também a presença materna de Maria, especialmente celebrada nesta semana pela solenidade da Imaculada Conceição e pela festa de Nossa Senhora de Guadalupe. Com ele e com Ela, a Igreja nos ajuda a manter vivo o espírito de espera, agora mais atento e purificado. A seguir, acompanhe as homilias diárias do padre Pedro Willemsens para esta etapa do caminho:
“Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!” (Mt 3, 3).
Depois de uma primeira semana em que meditamos sobre uma série de atitudes necessárias para nos preparar para a vinda do Senhor, a liturgia de Advento nos coloca diante de uma figura muito marcante, que é a de João Batista, o precursor. Assim como a passagem de hoje, os trechos do Evangelho a serem lidos a partir da 5ª-feira (dia 11) até o começo a novena de Natal (dia 17) irão girar ao redor desse santo do deserto.
Ele divide o protagonismo em nos ajudar na preparação deste tempo litúrgico com a Mãe de Deus, que entra em cena com especial intensidade nesses últimos nove dias antes do Natal. E pode ser oportuno pensar nessa espécie de colaboração de papeis que se vê entre ambos: entre o primo e a mãe, o homem e a mulher, o asceta do deserto e a dona de casa.
Na arquitetura sacra oriental é tradicional que haja nas igrejas uma fileira de ícones conhecida como a deesis, que significa intercessão. No centro se coloca a figura de Cristo Pantocrátor – todo-poderoso. À sua direita o primeiro ícone é de Nossa Senhora. À esquerda de João Batista. Depois é frequente enxergar à direita S. Pedro, e à esquerda S. Paulo. E não se trata de uma disposição arbitrária, e sim carregada de significado. Podemos lembrar de Cristo no Juízo final dizendo aos da sua direita: “vinde a mim, benditos do meu Pai”, e aos da sua esquerda: “afastai-vos de mim”. Assim entendemos que alguns santos nos remetem mais à unidade da Igreja, à união com Cristo, à sua compaixão; e outros que nos falam mais da expansão da Igreja, da pluralidade dos santos, da justiça divina. O movimento centrípeto dos apóstolos –escolhidos por Jesus para estarem com Ele– que se compõem com o centrífugo –sendo enviados pelo Mestre a todos os cantos da terra.
Se pensar em Nossa Senhora nos anima a aproximar-nos com ternura e confiança do Menino Jesus que acaba de nascer (dom da piedade), João Batista nos ajuda a fomentar a contrição e desejo de conversão diante da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos (dom do temor). Como a mãe mais facilmente acolhe e acalma e o pai exige e estimula.
Talvez o mundo tenha nas últimas décadas se voltado para uma cultura excessivamente feminino-materna. No sentido de buscar construir um mundo confortável e não agressivo, mas quem sabe pouco desafiador – ao menos para as pessoas que contam com um poder aquisitivo mínimo para gozar da nossa sociedade de abundância. E por vezes se viu nos próprios pregadores católicos um medo exagerado de ofender as sensibilidades, de provocar possíveis mágoas nas pessoas. Por isso mesmo a figura de João Batista parece tão oportuna. Para nos lembrar com a exigência das suas palavras duras a verdade dos nossos pecados; da nossa insuficiência diante da Grandeza de Deus; da necessidade que temos de reformar seriamente a nossa vida, para estarmos preparados para o encontro definitivo com a Verdade e a Justiça.
“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” – “Ave gratia plena!” (Lc 1, 28).
Hoje temos a alegria de celebrar a solenidade da Imaculada Conceição de Maria. Uma festa tão importante que é um dos quatro dias de preceito no Brasil fora dos domingos. Foi o penúltimo dogma mariano a ser proclamado e pode se dizer que foi um dogma bastante batalhado.
Quando eu morava na Espanha um amigo advogado me mostrou o juramento que, durante séculos, os advogados espanhóis tinham que fazer pra começar a exercer sua profissão. Um juramento que incluía colocar todos os meios ao seu dispor para que esse dogma fosse proclamado. E esse empenho vemos também na vida de alguns santos, como S. Pedro de Betancur, que se dedicaram apaixonadamente nessa causa.
Mas por que todo esse esforço? Por que esse dogma é tão importante pra tanta gente? Parece-me que o é por essas pessoas verem detrás da afirmação da sua Conceição Imaculada uma defesa da singular beleza de Nossa Senhora. Diz uma oração do século IV que é costume cantar em gregoriano: “Tota pulchra es, Maria. Et macula originalis non est in Te” – “Toda bela sois, Maria, e a mancha original não existe em ti”.
Já entre os cavaleiros medievais existia o costume de defender –se fosse preciso com violência– a beleza de suas damas, como lemos no Dom Quixote. E a defesa da honra da própria mãe sempre foi algo muito natural e forte. Dai se entende que os devotos de Santa Maria tenho tomado muito a peito a proclamação desse dogma.
Contudo, mais além do percurso histórico, celebrar a beleza de Nossa Senhora faz muito sentido no caminho cristão. É famosa a afirmação de Dostoiévski de que “a beleza salvará o mundo”. E não é difícil observar o papel do fascínio que a beleza exerceu na vida dos santos.
Na primeira canonização do seu pontificado Bento XVI dizia: “O santo é aquele que é totalmente fascinado pela beleza de Deus e pela sua perfeita verdade até ser progressivamente transformado nela. Por essa beleza e verdade está pronto a renunciar a tudo, até a si mesmo” (23/10/05). E um documento da Assembléia Plenária do Pontifício Conselho da Cultura, 2006 diz que “se a santidade cristã se configura à beleza do Filho, a Imaculada Conceição é a perfeitíssima ilustração desta ‘obra de beleza’” (Via Pulchritudinis).
A contemplação da beleza desperta a esperança. E esperança é o principal motor que nos move. Por isso neste tempo de Advento, e sempre, é muito oportuno contemplar na oração a beleza de Deus. Também enquanto espelhada na vida dos santos e, especialmente, na Virgem imaculada que nos ajudará a sonhar com os belos planos de Deus para nós. Desse Deus que “nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis (imaculados) sob o seu olhar, no amor” (2ª leitura, Ef 1, 4).
O coração humano é um mistério. Se já pode ser bem difícil saber o que tá acontecendo no nosso próprio interior, que dizer sobre o dos outros. E isso pode ser especialmente dramático se dependemos de algum modo do afeto, do amor de alguém por nós.
Por isso é muito reconfortante ouvir Nosso Senhor nos revelando o coração misericordioso de Deus. E é que vemos Ele fazendo no Evangelho desta 3ª-feira, através de duas pequenas parábolas: a da ovelha e da dracma perdida.
Na lógica humana, uma ovelha entre cem não parece ter lá muita importância; mas na lógica divina, cada pessoa é insubstituível. Ele não se conforma em perder ninguém. Vai atrás, procura, chama. Como uma mãe que não se consola enquanto não encontra o filho, Deus se inquieta por nós e, quando nos encontra, põe-nos aos ombros e se alegra mais por essa volta do que pelos noventa e nove que não se extraviaram.
Essa é a atitude de Deus. Mas há também a nossa parte na história. Para nos deixar encontrar, é preciso reconhecer que estamos perdidos. A ovelha é um animal que tem uma visão péssima: basta se afastar um pouco pra não encontrar o caminho de volta. O que ela tem que não é tão ruim assim é a sua audição. Por isso, quando se perde (o que ocorre com facilidade) precisa ser dócil, deixar-se reconduzir ao aprisco. Assim também nós: precisamos muito da humildade de admitir que estamos perdidos e a docilidade para nos deixar guiar. Como Santa Teresinha que dizia: “Nunca serei mais do que uma pecadora perdoada.”
Essas parábolas falam, portanto, de duas conversões: a de Deus, que “se converte” ao homem e vai ao seu encontro, e a do homem, que se deixa reencontrar. Mas o processo está chamado a se estender ainda mais, porque Nosso Senhor com alguma frequência nos sugere que devemos espelhar com relação aos outros a atitude de Deus para conosco. E se é assim que Ele nos busca, também nós devemos buscar os outros. “O Filho do Homem veio salvar o que estava perdido” – e essa é também missão nossa. Acender a lâmpada, varrer a casa, procurar com paciência, ir atrás das pessoas que possam estar um pouco perdidas na vida. E se há festa no Céu pela conversão de um pecador, quando somos instrumentos de Deus para isso, também tomamos parte dessa grande alegria, da festa dos anjos.
Nossa Senhora entende bem essas parábolas. Ela também “perdeu” o seu Filho e o reencontrou com imensa alegria. Por isso, pode ajudar-nos a reencontrar Cristo quando nos afastamos e a conduzir outros ao redil. Que Ela nos ensine a reconhecer o assobio do Bom Pastor e a voltar sempre, trazendo muitos conosco.
“Cansam-se as crianças e param, os jovens tropeçam e caem, mas os que esperam no Senhor renovam suas forças, criam asas como as águias, correm sem se cansar, caminham sem parar” (Is 40, 30s).
A vida em geral e a vida cristã em particular muitas vezes é comparada a um caminho, uma jornada, uma corrida na qual queremos chegar até o final (cfr. 2 Tim 4, 7). Na primeira leitura de hoje escutamos o Senhor falando pelo profeta como é capaz de nos sustentar com a sua graça para que sejamos capazes de ir muito além das nossas forças. E o modo como Ele faz isso vem depois mais desenvolvido no Evangelho do dia.
“Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11, 28). Os esforço físico nos cansa, por isso se torna necessário descansar. E Nosso Senhor promete Ele mesmo nos dar o necessário descanso para sermos capazes de seguir em frente.
“Tomai sobre vós o meu jugo… pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 28, 29s). Esse convite do Senhor pode parecer à primeira vista bastante desconcertante, por Ele nos indicar que devemos tomar o seu jugo, precisamente quando já estamos cansados e fatigados. Contudo a coisa faz mais sentido se pensamos no jugo levado habitualmente por dois animais, por exemplo, para arar a terra. Se um deles é mais forte, irá sobrar menos peso para o débil.
Essa é a mágica que se esconde detrás da Cruz do Senhor que se faz presente na nossa vida. Quando esperneamos com revolta diante do sofrimento, ele pode chegar a nos esmagar, tornar nossa vida insuportável. Mas se o abraçamos com voluntariedade, com sentido sobrenatural, aquilo que antes parecia impossível de carregar se torna levadeiro, leve. Porém isso não ocorre sem que haja uma mudança em nós, no nosso coração.
“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (Mt 28, 29s). A paz profunda que o Senhor veio nos trazer (cfr. Jo 14, 27) não se resume à ausência de perturbações externas, mas nos remete a algo espiritual, interior. Uma paz vem se somos mansos. E teremos essa mansidão se formos humildes.
As irritações quase sempre supõem orgulho. Pode ser inclusive bastante difícil tirar do sério uma pessoa profundamente humilde. “Não há nada como a humildade para produzir doçura. O orgulho é sempre impaciente e colérico” (Louis Lavelle, O erro de Narciso).
É singela a cena do Antigo Testamento em que Ester se apresenta diante do rei sem ser convocada por ele, sendo que isso era considerado um crime punido com a pena de morte. Mas a sua presença “mudou em doçura o ânimo do rei” (Est 15, 11), e este impediu que ela fosse punida. Assim também nós, quando nos sintamos cansados ou irritadiços, podemos olhar para Nossa Senhora, que Ela nos ajudará a acudir ao Senhor e obter a sua paz.
“Transformarei o deserto em lagos e a terra seca em nascentes d’água. Plantarei no deserto o cedro, a acácia e a murta e a oliveira” (Is 41, 18s).
Conforme já comentamos na homilia do passado domingo, a partir de hoje até a novena de Natal, todos os Evangelhos da Missa giram ao redor da figura de João Batista. Um personagem muito importante e elogiado de modo bastante marcante por Nosso Senhor, como se escuta na passagem de hoje: “de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista” (Mt 11, 11). Também escutamos Jesus explicar que “ele é o Elias que há de vir” (Mt 11, 15) e penso que essa afirmação merece alguma explicação.
Havia, em tempos de Cristo, uma viva expectativa da chegada do messias, mas também de que –antes dele– Elias voltaria para preparar-lhe o caminho. Pois isso havia sido profetizado por Malaquias: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o dia do Senhor, grande e terrível. Ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos aos pais, para que eu não venha ferir a terra com o interdito” (Ml 3, 23s ou 4, 5ss).
Alguns entendiam que o mesmo Elias que tinha sido ao Céu num carro de fogo –por não ter morrido– desceria para realizar essa missão. No entanto as palavras do Senhor nos fazem entender que não. Que era João Batista (nascido de S. Isabel) que iria realizar o papel equivalente a Elias assumindo o papel de precursor.
De fato, o Batista e o profeta guardam não poucas semelhanças. Ambos se vestiam com pele animal, usando um cinto de couro. Moravam em locais desertos alimentando-se do que a natureza lhes dava. Elias repreendeu duramente o rei de Israel (o reino do Norte, a Galiléia) Acab e sua esposa. O Batista repreendeu Herodes Antipas também governante da Galiléia, por ter um caso com sua cunhada. E ambos foram perseguidos pela audácia da sua pregação.
Pode-se dizer que ambos inauguraram uma espécie de família de santos, dentro da qual poderíamos incluir posteriormente S. Francisco de Assis. São os que no cristianismo russo se chama de os yuródivyie, os loucos de Cristo – pessoas que não se encaixam no restante da sociedade, mas vivem uma vida à parte, em grande parte inconvencional, podendo parecer aos demais, loucos, insensatos ou simplórios. “Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para confundir os sábios, e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes” (1 Cor 1, 27).
A força imediata do testemunho de pessoas que escolheram o deserto, que abandonaram tudo para seguir o chamado de Deus, será sempre pra nós um recordatório muito poderoso para nos ajudar a não perder-nos nas coisas desta vida, mas dedicar-nos a elas sempre tendo em vista os bens que não passam. A estarmos devidamente preparados para o nosso destino último, para o encontro definitivo com o Senhor.
“Acaso não estou eu aqui, que sou tua mãe?”
Era o ano de 1531. Os antes orgulhosos índios astecas tinham sido derrotados por estranhos homens chegados do mar, com seus cavalos, armaduras e armas de fogo. Não podiam mais fazer os sacrifícios humanos que sua religião dizia que mantinha o sol vivo e o mundo funcionado. Tinham sido devastados pelos novos vírus trazidos da Europa. Junto com a aparição de um cometa, tinham experimentado três terremotos e um recente eclipse solar. Tudo parecia indicar que o mundo, de fato, estava acabando.
Quando a um desses índios começa a aparecer uma bela senhora, dizendo a ele que é a Mãe de Cristo, a Rainha do Céu, e pedindo que lhe construam uma casinha na Cidade do México, onde ela receberá os seus filhos que quiserem acudir a ela. Como sinal deixa impressa de forma milagrosa sua imagem no avental do índio. Um avental que, devido ao seu tecido, já deveria ter se decomposto há séculos, mas continua inteiro até os dias de hoje. Uma imagem que a ciência não explica como foi fixada no tecido, uma vez que não foi pintada, que continua com suas cores vivas até hoje. E aquecendo os corações de um povo que, quando se achava perdido, descobriu uma mãe que o acolheu e guiou para uma nova vida.
No Brasil hoje a liturgia do advento dá espaço para celebrarmos a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira das Américas. No século em que a reforma protestante iria afastar da unidade católica parte considerável da Europa, Deus se serviu de sua mãe como uma espécie de embaixadora, para ganhar para si o coração dos povos do novo mundo.
Estima-se que nos sete anos que se seguiram às aparições mexicanas, cerca de oito milhões de nativos se converteram à fé, o que representa mais de três mil conversões diárias. Trata-se de um fenômeno nunca antes visto na história como um todo. Conversões que não nasceram do aço frio das espadas espanholas, mas do carinho materno manifestado na Imagem de Guadalupe.
Os índios visitavam sua imagem, contemplavam e entendiam. Porque ali estão expressadas as verdades fundamentais da fé cristã, nos seus próprio símbolos. No seu cabelo solto que a marca com uma virgem. No seu cinturão preto que indica que está grávida. Na flor solar no seu ventre que indica que está grávida de Deus. No sol que a circunda, na lua a seus pés, nas estrelas do seu manto…
E, junto com todas essa linguagem nativa, também se faz presente o novo. Sobretudo nas suas feições de mestiça: meio índia, meio espanhola. Indicando um novo povo que iria nascer do encontro dessa duas culturas. Um povo que seguiria um novo Deus: o Filho da Senhora de Guadalupe.
“Naqueles dias, o profeta Elias surgiu como um fogo, e sua palavra queimava como uma tocha” (Eclo 48, 1).
A liturgia de hoje volta a nos apresentar a identificação entre João Batista e o profeta Elias. Mais em concreto nessa característica comum aos dois: de pregaram com intrepidez e, como reação, encontrarem oposição ao seu redor. Um destino que ambos compartilham com o próprio Cristo – como Ele diz no Evangelho de hoje: “Elias já veio, mas eles não o reconheceram. Ao contrário, fizeram com ele tudo o que quiseram. Assim também o Filho do Homem será maltratado por eles” (Mt 17, 12). Isso pode nos servir para refletir sobre a missão profética da Igreja.
Apoiada nas últimas palavras de Cristo antes da sua Ascensão, a Igreja costuma entender sua missão como dividida em três principais tarefas (em latim: tria munera): 1) conduzir o povo fiel e o mundo, como Cristo pastor e Rei (munus regendi), 2) ser canal para a graça de Deus no mundo, como Cristo sacerdote (munus santificandi), 3) ensinar as verdades que lhe foram confiadas por Deus, como Cristo profeta e mestre (munus docendi). E, se isso se aplica à Igreja como um todo, também se aplica a todo cristão, a cada um de nós.
Estamos chamados a ser, de certa forma, profetas para o mundo ao nosso redor. Assim como os profetas, ensinar os caminhos de Deus, mesmo que isso desagrade aos ouvidos que nos escutam.
Não é raro escutar críticas sobre como a Igreja deveria se adaptar mais aos tempos atuais. Que ela está presa a critérios morais já antiquada para a sensibilidade dos nosso tempos. Por exemplo no âmbito da sexualidade e da família, na abertura do sacerdócio ordenado às mulheres ou do casamento aos homossexuais. Nesse sentido, ver S. João Batista sendo condenado por lembrar a Herodes que o adultério era um pecado grave, pode ajudar a perceber a importância de saber fazer frente a costumes que, por mais que passem a ser aceitos socialmente, sempre irão contra o caminho da plenitude da vida humana, a verdade e o bem. Dizia S. Josemaria Escrivá: “Não é a doutrina de Jesus que deve adaptar-se aos tempos, mas os tempos que devem abrir-se para a luz do Salvador”.
Claro que fez todo sentido os pregadores terem um dia trocado o púlpito por um microfone elétrico, que o papa e os bispos possam buscar continuamente novas formas de exercer sua autoridade, que tantos cristãos aproveitem as redes sociais para difundir a mensagem cristã… Sim, os cristãos podem e devem adaptar-se na sua vivência e na transmissão da fé às mudanças culturais, como vemos a Igreja fazendo desde as suas origens. O corpo está chamado a crescer e a adaptar-se. Mas se uma célula aparece com um DNA diferente, aquilo não é um crescimento sadio, mas um câncer.
Que este Advento nos sirva pra pensar se não deixamos entrar na nossa vida algo estranho aos nossos valores e ao Evangelho. Se não podemos nos tornar melhores discípulos do Senhor crescendo numa fidelidade mais radical ao Senhor e seus ensinamentos.
Nesta terceira semana do Advento, a liturgia nos convida a renovar o coração com esperança e alegria, pois a vinda do Senhor está próxima. As homilias do Pe. Pedro Willemsens nos acompanham nessa reta final de preparação, ajudando-nos a olhar para dentro, discernir com mais clareza a vontade de Deus e responder a ela com generosidade.
Temas como a conversão, a escuta da Palavra, a humildade de Maria, a obediência de José e o testemunho de João Batista se entrelaçam nas reflexões diárias, iluminando o caminho espiritual rumo ao Natal. Que esta semana seja, para cada um de nós, uma oportunidade concreta de abrir o coração à graça e acolher com fé o Salvador que vem.
“Jesus começou a falar às multidões, sobre João” (Mt 11, 7).
Domingo passado nos trouxe uma passagem do começo do Evangelho de S. Mateus apresentando a figura de João Batista e a sua pregação. Este domingo traz uma passagem muito mais na frente desse Evangelho quando Nosso Senhor já iniciou a sua pregação e o Batista foi preso, e se dá uma interação entre ambos.
Primeiro João busca se informar para se assegurar se Jesus é mesmo o Messias esperado, enviando seus discípulos para lhe perguntar. Ao invés de uma resposta direta, Jesus lhes apresenta como sinais de credibilidade as obras do seu ministério, como fará também outras vezes (cfr. Jo 10, 38 e Jo 14, 11). Em concreto fala do seu cuidado com os cegos, os paralíticos, os leprosos, os surdos, os pobres e até os mortos.
Não há como não pensar na primeira exortação apostólica recentemente publicada pelo Papa Leão XIV, a Dilexit te, na qual fala do cuidado aos menos favorecidos como uma marca fundamental do cristianismo que nunca devemos descurar. De fato, como vemos nessa passagem, Jesus, que nos disse que os cristãos seriam reconhecidos por se amarem uns aos outros (cfr. Jo 13, 35), se apresenta a si mesmo para ser reconhecido como o cristo, o messias, pela atenção que dá a estes grupos de pessoas que sofrem pelos mais diversos motivos.
Na segunda metade da passagem de hoje, quando os discípulos do Batista já partiram levando sua resposta, Nosso Senhor começa a falar às multidões sobre João, elogiando de forma muito marcante o precursor: “de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista” (Mt 11, 11). Porém também chama a atenção a ressalva que segue a essas palavras: “No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”.
João foi como que o último dos profetas. Estes falaram do Messias, enquanto ele teve a sorte de lhe apontar já presente. Teve uma missão privilegiada. No entanto, mais privilegiados somos nós que já contamos com os meios de salvação que Cristo nos obteve com sua Paixão e Ressurreição.
Conhecer a vida dos santos é uma grande oportunidade para que nos maravilhemos das maravilhas que a graça pode produzir na alma de uma pessoa que corresponde a ela, alguém que se deixa conduzir pelo Espírito Santo. Nosso Senhor chega a prometer aos seus discípulos que eles farão não só as mesmas obras que Ele fazia, mas obras inclusive maiores (cfr. Jo 14, 12).
Tudo isso deve nos levar a pensar. A sonhar. Entendendo o tesouro que nos foi confiado é natural que fomentemos desejos de retribuir cada dia melhor. Buscando neste Advento examinar a nossa vida, para que ela dê os frutos saborosos que Deus quer encontrar em nós.
“Eu o vejo, mas não agora; e o contemplo, mas não de perto. Uma estrela sai de Jacó, e um cetro se levanta de Israel” (Num 24, 17). Na primeira leitura de hoje nos deparamos com um personagem bíblico bastante curioso que se chama Balaão. Ele era uma espécie mágico, adivinho, feiticeiro famoso, não era judeu. Ele é citado até em livros não bíblicos daquela época.
Os reis contratavam ele para abençoar ou amaldiçoar, acreditando que aquilo funcionava. E alguém lhe contrata para amaldiçoar Israel, mas o tiro sai pela culatra. Ele não só não consegue amaldiçoar, com abençoa fortemente, sendo movido por Deus a isso. E, no final, diz a profecia da estrela, onde vemos o indício que levou os reis magos a virem adorar o rei dos judeus quando previram que ele iria nascer.
Já no Evangelho aparece mais uma vez a figura de João Batista, só que agora como objeto de disputa entre Jesus e os fariseus. Nosso Senhor lhes coloca a simples questão sobre se o batismo de João era dos homens ou do céu. Eles se esquivam a responder essa pergunta e, dessa maneira, perdem o direito a que Jesus lhes responda também.
Trata-se de uma tarefa muito importante da autoridade religiosa: ajudar as pessoas a discernir os espíritos: se algo vem de Deus ou não. É algo que o magistério da Igreja faz, por exemplo, diante de pretensos eventos sobrenaturais, para evitar que as pessoas sejam levadas por algum engano. Mas todos nós vamos precisar de discernir os espíritos na nossa vida, para sermos capazes de nos deixar guiar por Deus, como os reis magos souberam fazer. Mas como podemos fazer isso?
Penso que podemos atentar à origem dos pensamento, o seu conteúdo e aonde ele me leva.
Quanto à origem ajuda muito a luta ascética por dominar as nossas paixões, uma vez que elas se imiscuem nas nossas decisões e tratam de pintar de nobreza mesmo os nossos maiores vícios. A vida penitente de João Batista servia de um claro argumento de credibilidade acerca da retidão da sua mensagem.
O conteúdo deve estar em harmonia com o resto. Deus é coerente. Se eu me sinto inclinado a algo que claramente vai contra a minha vocação e ao cumprimento dos meus deveres, aquilo não vem de Deus, por muito grandioso e bom que possa se apresentar diante de mim.
Quanto ao efeito, conforme explica S. Inácio de Loyola, um pensamento que nos perturba o espírito, rouba a paz e nos entristece, não virá de Deus. Pois suas inspirações podem sim nos tirar inicialmente da zona de conforto, mas logo nos conduzem a uma paz mais profunda e verdadeira.
Diferente de Zacarias, Nossa Senhora entendeu e aceitou na hora a mensagem de S. Gabriel. Que Ela nos ajude a discernir a Vontade de Deus pra nós no meio dos nossos afazeres de cada dia.
“Darei aos povos, nesse tempo, lábios purificados… eu afastarei do teu meio teus fanfarrões arrogantes, e não continuarás a fazer de meu santo monte motivo de tuas vanglórias. E deixarei entre vós um punhado de homens humildes e pobres” (Sof 3, 9.11ss).
Neste que é o último dia do Advento antes da Novena do Natal, a liturgia volta nos insistir sobre a importância da conversão.
O Senhor quer nos conduzir a essa purificação e nos dá os meios para isso. Porém, ao mesmo tempo, promete uma purificação de Israel, e do mundo, que se há de operar, mesmo se tantos não se abrirem a essa caminho de conversão e mudança que Ele nos propõem. Esses serão removidos da cidade santa.
“Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” (Mt 22, 14). Deus quer a salvação de todos, mas, como diz S. Agostinho, “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. Ele nos deu a liberdade e sempre a respeita. Vemos isso na história de Israel. Todos os filhos de Jacó constituem originariamente o povo escolhido, mas com o tempo tribos inteiras se desviam dos caminhos dos seus pais, e deixam de ser herdeiras das promessas feitas aos patriarcas. Sempre sobrou e sempre sobrará um resto de Israel, fiel aos mandamentos do Senhor. O que não está claro é quem vai participar desse resto. Isso depende de cada um de nós.
E qual é o critério para essa divisão? “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7, 21). O caminho para a salvação não está em fazer belas orações, em ser capaz de se emocionar ao ouvir uma música que fala de Jesus, ou em um mero concordar com a doutrina cristã. O que é necessário é fazer a Vontade de Deus. É o que fica claro na passagem do Evangelho de hoje.
Após apresentar a parábola dos dois irmãos a quem o pai manda ir trabalhar na sua vinha, Nosso Senhor compara aquele que a princípio se resistiu mas depois obedeceu com os publicanos e as meretrizes, que se arrependeram com a pregação de João Batista. Estes precederão os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo no Reino dos Céus, porque terminaram por seguir o convite que lhe foi oferecido por Deus pela boca do precursor. Ao passo que aqueles homens que se pensavam justos na realidade estavam fechados à graça pelo seu orgulho e comodismo.
E tudo isso deve nos levar a pensar: o quanto eu tenho me aberto ao que Deus quer de mim neste Advento? Tenho de verdade buscado escutar a sua voz, seu convite à conversão, e buscado ser dócil a ele?
Neste dia 17 começa liturgicamente uma espécie de contagem regressiva: a novena de Natal. Por isso os textos litúrgicos passam a já não depender do dia da semana, mas sim do dia do mês.
E o primeiro Evangelho nessa novena é o da genealogia de Cristo, conforme descrita por S. Mateus. Com ela, o evangelista quer situar Nosso Senhor na história, em particular na história do povo escolhido, de quem Ele é um filho e um membro.
E faz-se finca-pé no número de gerações: sempre quatorze nos intervalos de Abraão até Davi, de Davi até o exílio na Babilônia e deste até o próprio Jesus. Por que quatorze?
No mundo antigo eles não tinham ainda os numerais que nós utilizamos, por isso recorriam às letras, atribuindo a elas valores numéricos. Onde é mais fácil observar isso é nos algarismos latinos, onde o I vale 1, o V vale 5, o X vale 10, etc. Uma consequência dessa atribuição era que as palavras acabam ganhando valores numéricos, que vinham da soma dos valores dos seus diversos caracteres. Quatorze é o valor numérico equivalente do nome Davi. Por isso, S. Mateus está apresentando Jesus aqui de uma forma especial como descendente, como filho, de Davi.
E não deixa de ser interessante o fato de que tal descendência se dá através daquela que tinha sido a esposa de Urias, com a qual Davi tinha adulterado. E tanto Davi quanto Nosso Senhor são descendentes de Judá, que aparece entre louvores na primeira leitura. E no entanto Judá também teve os seus pecados, entre eles o de ter vendido por inveja seu irmão José como escravo.
Penso que tais constatações podem nos servir para pensar como Deus é capaz de tirar coisas boas de coisas ruins. Mesmo dos nossos pecados. E essa é mais uma mostra da sua omnipotência misericordiosa.
Pode-se dizer que o samba e o rock-n-roll só existem devido ao encontro de culturas que nasceu da escravidão de africanos na América. Isso faz com que a escravidão tenha sido algo bom? Claro que não. Mas mostra como é possível tirar coisas boas de coisas ruins, mesmo que estas permaneçam ruins.
Assim é capaz de fazer Deus com os nossos pecados. Se nos arrependemos profundamente, podemos sair daquele vacilo melhor do que entramos. Mais humildes e mais agradecidos.
Foi o que fez S. Agostinho após sua conversão. Certamente sua autobiografia não teria o mesmo impacto que teve na história se não narrasse uma conversão tão intensa, pelos seus pecados prévios. E esses mesmos pecados, uma vez envoltos na sua contrição tornada eficaz com a graça da Confissão, certamente lhe servirão no seu caminho para Deus.
Deus tira coisas boas de coisas ruins. Mas tenho eu deixado Ele tirar coisas boas da minha vida, dos meus erros pessoais?
“José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo” (Mt 1, 20).
Para uma descrição do momento da Encarnação, em que o Verbo se fez carne nas entranhas virginais de Maria, precisamos acudir ao Evangelho de S. Lucas. A passagem de hoje de S. Mateus se ocupa do que ocorreu logo em seguida entre Maria e José.
A passagem esclarece que Ela “estava prometida em casamento” a José. Naquela época o casamento era feito em duas etapas. Na primeira o casal ficava comprometido um com o outro. Porém se tratava mais do que de um mero noivado: eles já eram considerados marido e mulher. A partir daí o homem tratava de preparar uma casa para receber sua esposa. Assim, depois talvez de um ano, chegava o segundo momento, que ocorria com a condução da esposa à casa do esposo. Nossa Senhora ficou grávida entre as duas coisas.
Isso não era algo tão infrequente (uma vez que já estavam casados), mas sim era considerado um pouco vergonhoso, pois se entendia que o homem não tinha sabido esperar o momento adequado para iniciar a convivência marital. Por isso dá pra imaginar que quando os sinais da gravidez de Maria foram ficando evidentes, S. José começaria a receber olhares curiosos ou mesmo escutar algum comentário jocoso sobre o fato. E isso lhe teria perturbado.
Por uma lado, se ele esclarecesse que aquele filho não era seu, isso equivaleria a denunciar Nossa Senhora, como diz o Evangelho. A pena para a dedutivel infidelidade de Maria seria a pena de morte. Por outro lado, S. José tão-pouco queria entrar no jogo e fazer de conta que o filho de fato era seu: sendo um homem justo e santo, tudo que se assemelhasse a uma mentira lhe causava grande repugnância. Por isso se decide pelo caminho em que preservaria a vida de sua noiva, ao mesmo tempo que não teria que se manchar com a mentira. Isso sim, o que ficaria manchada seria sua reputação.
Ao abandoná-la secretamente, pareceria que José, após ter engravidado sua jovem esposa, tinha fugido da correspondente responsabilidade de cuidar dela e do filho. O que já não seria pouco sofrimento pra ele. Mas podemos pensar que maior dor lhe viria do próprio fato de ter que abandonar aquela moça a quem tanto amava. No entanto, essa é sua decisão, por não pensar em si, mas nela. No entanto, a modo semelhante ao de Abraão quando aceita sacrificar o seu filho Isaac, na última hora Deus previne José de dar esse passo terrível, enviando-lhe seu anjo durante o sonho.
Exemplo acabado de tantas virtudes, o santo Patriarca nos ensina com sua atitude a beleza da abnegação: do saber sacrificar o próprio conforto pelo bem dos outros. Ainda que não tenha sido biologicamente pai de Jesus, torna-se um exemplo maravilhoso de paternidade, que sempre implica esquecimento próprio e entrega. Busquemos nos inspirar no seu modelo para que Jesus nasça nas nossas vidas neste Natal.
“Nos dias de Herodes, rei da Judeia, vivia um sacerdote chamado Zacarias” (Lc 1, 5).
Ontem lemos um trecho do Evangelho de S. Mateus, e no domingo leremos outro, mas em todos os outros dias da novena de Natal lemos S. Lucas, que é o evangelista que descreve com mais detalhe os acontecimentos ao redor do nascimento de Nosso Senhor.
Por isso hoje vamos ao comecinho desse Evangelho, começando pelo 5º versículo, que nos apresenta Zacarias, sacerdote e casado com Isabel, prima de Nossa Senhora. Ele foi sorteado para um serviço muito importante que era oferecer o sacrifício de incenso no recinto conhecido como o “santo”, no Templo de Jerusalém. O santo ficava separado por um véu de um lugar mais santo ainda chamado “santo dos santos”, onde os sacerdotes não entravam habitualmente. No santo havia três coisas: a menorá (candelabro de sete velas), a mesa com os doze pães de preposição e o altar do incenso. Ao lado deste, onde Zacarias ia oferecer o sacrifício, apareceu o arcanjo S. Gabriel e lhe anunciou o nascimento do seu filho João, que seria conhecido como o Batista.
Agora, acontece que sua esposa Isabel era estéril e ele já era mais velho. Por isso Zacarias parece não prestar muita atenção à todas as coisas impressionantes que o anjo diz que seu filho fará, porque fica preso na dúvida, se de fato seria possível para ele ainda ter um filho. E questiona Gabriel nesse sentido.
O arcanjo não reage muito bem àquele questionamento. Mais ou menos diz aquilo de “você sabe com quem você tá falando?”, e lhe pune com a mudez. As coisas que foram profetizadas se hão de cumprir, apesar da incredulidade do sacerdote, porque essa é a vontade de Deus, mas ele mesmo não vai conseguir falar até ter visto o cumprimento da que o anjo lhe tinha anunciado. E assim se dá.
E tudo isso nos faz pensar. O Natal é a celebração de um nascimento. Todo nascimento é de certa forma um milagre. Como é o ressurgimento da natureza na primavera, nos países de clima mais temperado. A vida que, depois de experimentar o desgaste, o cansaço, a perda de ímpeto, se renova, revive. Surge algo novo.
“Ele dá ânimo ao cansado, recupera as forças do enfraquecido. Até os jovens se afadigam e cansam e mesmo os guerreiros às vezes tropeçam! Mas os que esperam no Senhor, renovam suas forças, criam asas como águia, correm e não se afadigam, andam, andam e nunca se cansam” (Is 40, 29ss).
Que bom momento esse do Natal e da virada do ano para buscar nos renovar junto a Deus, a olhar para a nossa vida com olhos de criança, a querer sonhar os sonhos de Deus para nós.
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1, 38).
O Evangelho de hoje nos traz a outra embaixada realizada por S. Gabriel por conta do nascimento do Senhor: o anúncio a Maria, a cena conhecida como a Anunciação. E se na primeira Zacarias nos deu um exemplo de que não devemos fazer, Nossa Senhora nos oferece o modelo perfeito de como receber o Senhor na nossa vida. Não é à toa que muitos cristãos temos o costume de rezar diariamente a oração do Angelus, que resgata à nossa memória esse momento e esse exemplo.
A recente nota doutrinal Mater Populi fidelis esclarece que a cooperação de Santa Maria na nossa salvação é sobretudo dispositiva (cfr. num. 46): nos ajuda a termos as devidas disposições para receber a graça divina. Como vemos ela fazendo em Caná quando indica aos criados que façam o que o Senhor lhes disser e o milagre resultante serve para abrir os olhos dos discípulos, que começaram a acreditar no Senhor (cfr. Jo 2). Contemplar a cena da Anunciação certamente pode nos ajudar nesse sentido: ao nos apresentar as disposições que melhor irão nos preparar para o encontro com Cristo neste Natal.
Quando se apresenta diante dela, S. Gabriel a saúda com um cumprimento muito singular, que em português traduzimos como cheia de graça. O anjo vê a beleza de alma daquela donzela e solta um quase que galanteio. Diante disso o Evangelho não indica uma resposta de Maria, mas seu silêncio, um pouco perturbada diante da honra que lhe era tributada, tentando entender de que se tratava. Nossa Senhora é uma mulher humilde e meditativa, não se aproxima do sagrado com irreverência, mas uma consciência clara da sua pequenez diante de Deus.
O anjo se adianta para lhe tranquilizar e profetiza que será mãe de Jesus, que reinará no lugar de Davi.
Agora ela fala, perguntando como se fará isso. O que pode parecer uma pergunta surpreendente, uma vez que ela já estava inclusive prometida em casamento. A explicação mais razoável para essa sua indagação (e que encontramos na tradição cristã) é que ela tinha feito um voto de permanecer virgem, mesmo dentro do casamento. Voto que deveria ter comunicado previamente a seu noivo, pois a aceitação dele era inclusive uma condição para validade do voto (cfr. Num 30).
Daí a sua perplexidade diante do anúncio de que teria um filho. O que poderia nos lembrar a atitude de Zacarias, questionando justamente que seria pai na sua idade avançada. No entanto com a jovem donzela o arcanjo tem uma atitude muito distante da severidade que demonstrou com o sacerdote. Isso porque Ela não está questionando se o que lhe dizem é verdade ou não, mas sim como se dará. Por isso vemos aqui não incredulidade, mas o desejo de ser fiel aos caminhos pelos quais a tinha conduzido, de sempre buscar os modos de perseverar nos seus bons propósitos.
Uma vez esclarecida a questão, Nossa Senhora é de uma docilidade total e imediata: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1, 38).
Na quarta semana do Advento, já muito próximos do Natal, a liturgia nos introduz no mistério do Deus que se faz pequeno, próximo e acessível. José, Maria e João Batista continuam a nos acompanhar como guias neste caminho final, cada um com sua missão. A ternura da Mãe, a humildade do Precursor e a fidelidade do pai adotivo de Jesus nos ajudam a preparar o coração para acolher com gratidão e alegria o Salvador que vem. A seguir, acompanhe as homilias do padre Pedro Willemsens para esses últimos dias de espera.
“Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel” (Is 7, 14).
O 4º domingo do Advento sempre cai dentro da novena do Natal e por isso “quebra”, de certa forma, o fluxo das leituras da novena, fazendo com que ela seja diferente a cada ano. O trecho do Evangelho deste domingo inclusive repete o que já lemos na 5ª-feira, dia 18: a narrativa do nascimento de Cristo segundo Mateus. No entanto, as outras leituras não coincidem com as do dia 18, o que nos ajuda a prestar atenção em outros aspectos do Evangelho.
Em concreto a primeira leitura traz a profecia de Isaías citada pelo anjo no sonho de José: o anúncio desse sinal extraordinário de uma virgem concebendo e dando à luz. Isso serve de imediato para resolver o drama pessoal de S. José (como vimos em nossa homilia do dia 18), mas também nos ajuda a meditar sobre a natureza desse Menino que vai nascer no Natal, dentro de poucos dias.
“Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está conosco” (Mt 1, 23). Jesus significa “Deus salva”, expressando a sua missão, o que Ele veio fazer. Emmanuel fala sobre a sua natureza divina: Deus conosco.
Essa realidade nos foi anunciada de diversas formas. Desde outras passagens do Antigo Testamento, por exemplo, quando Deus repreende os maus pastores de Israel e diz que virá Ele mesmo pastorear suas ovelhas (cfr. Ez 34), até a parábola dos vinhateiros homicidas, quando, depois de enviar empregados para cobrar os agricultores o dono da vinha decide enviar seu próprio filho (cfr. Mt 21, 33-46). E é algo que deveria nos fazer pensar, quem sabe nos maravilhar.
Penso que não é difícil encontrar pessoas que acreditam na existência de um Deus criador, mas o vêem como distante, muito além do que podemos alcançar com nossos limitados meios. E a visão cristã concorda com isso, parcialmente. Sim, não tem sentido entender a Deus como um ser que eu possa manipular com magias ou rituais, ou mesmo que eu possa compreender com minha filosofia ou ciência. No entanto, nós acreditamos que esse Deus todo-poderoso quis se fazer próximo, quis “habitar entre nós” (Jo 1, 14).
E mais, esse Deus não só se fez próximo, mas inclusive pequeno: quis nascer como nós: uma criança pequena e indefesa, que certamente não pertencia às elites sociais do seu tempo. Deus se desarmou, para que nós nos desarmássemos diante desse espetáculo extraordinário.
É difícil não se enternecer diante de um bebê. Poder-se-ia argumentar inclusive que é um pouco apelativo usar crianças pequenas para aumentar a carga emocional de um vídeo ou imagem, ou para pedir dinheiro. O Natal é como uma apelação de Deus. Talvez depois de tentar ganhar, sem muito sucesso, o nosso coração com seu poder, Ele decidiu mudar de estratégia, e ganhar-nos pelo amor.
Oxalá neste Natal nos deixemos seduzir, deixemos que se derreta a dureza do nosso coração.
“A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1, 46).
Num encontro de ex-colegas de colégio no Natal passado, uma colega me comentou como seu filho tinha perguntado na catequese: “se João Batista batizou Jesus, quem batizou João Batista?” Achei a pergunta divertida. E penso que a resposta poderia ser: Nossa Senhora.
Se o dia 21 não tivesse caído no domingo teríamos lido nele a passagem referente à visitação, ou seja, o encontro entre Maria e sua prima Isabel. No anúncio de S. Gabriel, Nossa Senhora ficou sabendo que sua prima também estava grávida, e já no sexto mês. Por isso foi com pressa ajudar sua prima que já estava mais velha e agradeceria uma ajuda com os preparativos e tarefas domésticas.
A cena do encontro das duas é tocante e inspiradora. Basta que a voz de Nossa Senhora chegue aos ouvidos da prima que esta fica repleta da presença do Espírito Santo, e seu filho João dentro dela. E a graça de Deus se manifesta numa explosão de alegria. Nenhuma das duas esperava mais ter filhos, e eis que agora estão ambas grávidas por uma especial atuação de Deus em suas vidas.
Nesse contexto, depois das palavras de Isabel, escutamos Maria entoar um hino de louvor a Deus, repleto de gratidão. Hino que se conhece como o Magnificat, pois é com essa palavra que começa em latim: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva”.
As palavras seguintes parecem ser uma resposta ao elogio que lhe faz Isabel quando lhe diz “bendita entre as mulheres”. Pois Maria diz: “Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor”. E é muito interessante ver como ela não se esquiva ao louvor da prima, mas inclusive o amplifica, como quem diz: não é só você que diz isso, mas em todos os tempos as pessoas o dirão. Só que, isso sim, não atribui o mérito a si mesma, mas a Deus, por tudo o que Ele fez por Ela.
Assim, Nossa Senhora nos dá uma aula sobre a verdadeira humildade, que não é encolhimento nem fechar os olhos para a verdade. Antes é reconhecer os incontáveis dons de Deus na nossa vida e nos regozijar com eles, mas sabendo sempre render a devida glória ao nosso criador, fonte de tudo o que temos de bom.
Oxalá neste Natal também nós nos deixemos contagiar um pouco da sua humildade, da sua alegria e dessa abundante graça que Ela carrega e que transborda aonde quer que esteja.
“Levantai vossa cabeça e olhai, pois, a vossa redenção se aproxima!” (Lc 21, 28)
Chegamos então na véspera da véspera do Natal. E no paralelo que vamos acompanhando entre as duas embaixadas de S. Gabriel, entre a gravidez de Isabel e de Maria, hoje lemos no Evangelho o nascimento de João Batista.
Ao redor do seu nascimento se cria uma certa polêmica quanto ao nome da criança. Porque a mãe indica o nome de João, mas as pessoas estranham, uma vez que ninguém na família se chamava dessa forma. Por isso fazem pressão para que o dê o nome do pai: Zacarias, e vão consultá-lo. Zacarias, que antes tinha se comportado mal e tinha ficado mudo por isso, agora acerta. Escrevendo, confirma que o nome deve ser João.
João significa: o Senhor mostrou o seu favor, concedeu a sua graça. Assim seu pai deixa de lado um nome que faria referência a si mesmo, para fazer uma referência a Deus, enxergando naquele nascimento uma graça. Não escolhe o nome: “Deus me castigou”, mas sim “Deus me agraciou”. A perspectiva de ter um filho é-lhe muito mais significativa do que o incômodo de estar mudo. Zacarias adota uma postura humilde, agradecida e também dócil, porque João era o nome que S. Gabriel tinha lhe indicado.
Em seguida sua língua se solta e ele se põe a louvar a Deus. O que nos remete de certa forma ao próprio Céu: onde os santos continuamente louvam agradecidos a Deus por tudo o que fez em suas vidas, pela sua misericórdia. E lembra ainda o nascimento de seu antepassado Isaac, também nascido de um casal mais velho, sem filhos, onde a mulher, Sara, era considerada estéril. A boca desta se abre num sorriso, quando escuta o anúncio de que será mãe, por isso põem no seu filho o nome de riso ou risada, que é esse o significado de Isaac.
Antes Zacarias tinha se demonstrado fechado aos planos de Deus, por isso emudece. Agora que é dócil, volta a falar, e cumprir plenamente a sua vocação de sacerdote louvando a Deus diante dos demais. Para falar, primeiro é necessário ouvir.
Uma vez perguntaram a S. João Paulo II como o papa rezava. Ele respondeu: “como qualquer cristão. O papa fala e escuta. Por vezes fala menos e é aí quando escuta mais.”
Se conta de um rapaz que se aproximou um dia de Sócrates com um longo discurso pedindo que o admitisse como um dos seus discípulos. Sócrates topou e indicou o preço. Reparando que o valor era o dobro do que cobrava dos outros, o moço lhe perguntou o por quê da diferença. Ele explicou que com ele o trabalho seria dobrado: primeiro teria que ensinar a calar, para depois ensinar a falar.
Se Zacarias começou mal e terminou bem, mas com Nossa Senhora o trabalho de Deus não foi dobrado. Ela desde o começo se apresenta como a escrava do Senhor, alguém disposto a fazer tudo o que o Senhor quiser dela. Que o seu exemplo nos ajude a crescer em docilidade diante dos planos de Deus para nós.
No dia 22 ouvimos no Evangelho o Magnificat, o hino de louvor entoado por Nossa Senhora em casa de sua prima Isabel. Hoje escutamos o Benedictus, que é o hino de Zacarias, esposo de Isabel, por ocasião do nascimento do seu filho João.
Entre as chamadas horas da liturgia das horas, duas das mais importantes são as Laudes, que se rezam de manhã, e às Vésperas, que se rezam de noite. Nas Laudes se rezam sempre o Benedictus, nas Vésperas o Magnificat. Por sua força e beleza, a Igreja achou por bem na sua oração institucional oficial que esse dois hinos fossem repetidos todos os dias.
Para os gregos os artistas recebiam as suas criativas inspirações da visita sobrenatural das musas. No Evangelho, os dois que foram visitados pelo arcanjo S. Gabriel são apresentados entoando hinos que ficaram para a posteridade sendo constantemente repetidos. Já na própria noite de Natal, após anunciar aos pastores o nascimento do Salvador, são os próprios anjos que entoam seu canto de Glória ao Criador.
O Benedictus pode ser dividido em duas metades. Na primeira Zacarias cita Abraão e lembra as maravilhas de Deus que visita o seu povo para o libertar, como fez no Egito, e diversas outras vezes depois. Na segunda o pai se volta diretamente para seu filho que acaba de nascer e profetiza o seu destino.
“E tu, Menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois irás adiante do Senhor para preparar-lhe os caminhos, anunciando ao seu povo a salvação, pelo perdão dos seus pecados. Graças à misericordiosa compaixão do nosso Deus, o sol que nasce do alto nos visitará, para iluminar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte, e dirigir nossos passos no caminho da paz” (Lc 1, 76-79).
João não será o salvador, mas seu heraldo: aquele que vai à frente anunciando a chegada do rei. É uma composição muito presente já no Antigo Testamento: Samuel e Davi, o sacerdote (João é da tribo de Levi) e o rei (Jesus é da tribo de Judá), o profeta e o messias. João anuncia a chegada do sol, daquele que se apresentará como “a luz do mundo” (Jo 8, 12).
O 25 de dezembro era para os romanos o chamado solstício de inverno: o dia em, no hemisfério norte, a noite chega à sua maior duração e, pouco a pouco, a luz do dia começa a ganhar espaço à escuridão. O que nos indica que chegou a hora de recebermos o Senhor e sua luz na nossa vida. Que ele afugente as trevas do nosso coração e nos conduza para a sua paz.
Busquemos celebrar esta noite feliz com uma esperança sobrenatural muito viva. Com gratidão e o desejo de não só nos deixarmos conduzir cada vez melhor por Deus, mas levar a sua luz e a sua paz a muitas pessoas ao nosso redor.
Talvez a história de Natal mais famosa seja o Conto de Natal do inglês Charles Dickens. Nele se conta a história do anti-protagonista Scrooge, dominado pela avareza e detestando o Natal por interferir com seus negócios. Porém, após ser visitado pelo fantasma dos Natais passados, o fantasma dos Natais presentes e o dos Natais futuros, Scrooge muda completamente de atitude, torna-se um novo homem, a pessoa mais feliz do Natal.
“Em verdade, em verdade, te digo: se alguém não nascer de novo, não poderá ver o Reino de Deus!” (Jo 3, 3). Essa frase que Nosso Senhor diz a Nicodemos por vezes se traduz assim –como nascer de novo– outras por nascer do alto. E ambas versões estão corretas, pois a palavra ἄνωθεν literalmente significa a partir do alto mas no uso prático queria dizer mais frequentemente de novo, como quando a gente pede para uma pessoa reler uma página a partir do topo.
No Natal celebramos o Nascimento de Jesus e somos também nós convidados a nascer de novo, nascer do alto. E isso se dará através de três etapas, de três convites.
Primeiro o convite à gratidão. É a etapa da cabeça, pois a nossa interação com o mundo começa com a nossa percepção desse mundo. Como S. Mateus estava na mesa de coletar impostos quando Jesus o chamou, também Scrooge teve que tirar por um momento os olhos do dinheiro que tanto lhe ocupava. “Levantai os vossos olhos” (Jo 4, 35). A presença do Menino Jesus entre nós é um apelo de Deus para que nos demos conta da realidade do seu Amor por nós. “Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado o seu Filho único, para que vivamos por Ele” (1 Jo 4, 9). Não seria pouca mostra de amor que o príncipe de Mônaco viesse morar numa favela brasileira pro ter se apaixonado por uma moça daqui. Pois muito mais foi o que Deus fez por cada um de nós.
Depois, o Natal é também um convite à alegria. É a etapa do coração. A partir da percepção da realidade, o normal é termos uma reação emocional correspondente. E a reação que corresponde ao saber-se amado é a alegria: uma profunda satisfação interior, uma confirmação na vida, no existir. “O Senhor me fez rir” (Gen 21, 6), disse Sara, considerada estéril e já mais velha, quando soube que teria um filho. Na nossa cultura o Natal é uma festa muito voltada pras crianças, e isso pode nos ajudar a olhar o mundo com um novo deslumbramento, com o entusiasmo próprio do mistério de Deus que se fez um bebê por nós, com o desconcerto que produz um sorriso alegre.
Por último, o Natal é um convite à generosidade. É a etapa das mãos, dos braços, porque as emoções impelem à ação. Quem se sente amado naturalmente ama de volta e deseja manifestar esse amor na prática. “Sic nos amante, quis non redamaret?” (“Àquele que assim nos amou, quem não amará em troca?”) perguntamo-nos quando cantamos estes dias o Adeste fideles. É natural que queiramos ser generosos, como vemos no Scrooge ao final do conto de Dickens. Como os reis magos e seus dons. Como os presentes que trocamos estes dias. E oxalá também com a nossa piedade, com o desejo de manifestar ao Senhor nossa gratidão através do nosso louvor e da luta por sermos melhores.
“Quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 50). Viver plenamente o Natal é permitir que Cristo nasça em nós, se encarne no nosso coração e nas nossas ações, a partir do alto, abrindo nossos olhos à luz desta Noite Feliz. Maria, que nos apresenta Jesus no seu colo, é quem melhor nos serve de modelo de como perceber e responder ao maior dom que Deus nos fez.
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O Advento é tempo de espera, de silêncio interior e preparação para o encontro com Cristo. Em sintonia com a nossa campanha de Advento 2025 — “Nós esperamos” —, reunimos aqui as homilias preparadas especialmente pelo padre Pedro Willemsens para este tempo de graça. A cada dia, somos convidados a caminhar com a liturgia, escutar a Palavra e deixar que ela transforme o nosso coração. Que estas reflexões fortaleçam em nós o desejo por Aquele que vem e nos ajudem a viver bem essa espera.
Na primeira semana do Advento, a liturgia nos convida a olhar para o fim dos tempos e para a vinda gloriosa de Cristo. Antes de nos voltarmos para o presépio e o nascimento do Salvador, somos chamados a refletir sobre a sua promessa de voltar, e sobre como devemos viver enquanto esperamos. Os dois primeiros domingos do Advento nos colocam diante desse mistério: Jesus virá como justo juiz, e é preciso estar preparados. Comecemos este tempo com o desejo sincero de reencontrar o essencial e de nos colocar a caminho, com o coração voltado para Deus. A seguir, acompanhe as homilias do padre Pedro Willemsens para essa semana:
Santo Agostinho sempre teve um coração inquieto. Um coração que o levava a buscar mais. Inicialmente mais experiências, mais prazeres, mais emoções… Depois mais prestígio, mais sucesso na sua carreira. Por último, mais sabedoria, verdades mais profundas, respostas mais claras para os grandes problemas da vida. Mas depois de um entusiasmo inicial, sempre encontrava decepção: não era verdadeiramente aquilo que ele buscava.
Após rodar muito pela vida, começou a se aprofundar na religião da sua mãe, no cristianismo, que a princípio tinha lhe parecido estranho e sem graça. Mas ao tomar a Bíblia com os olhos novos, começou a encontrar ali um tesouro insuspeitado. Porém havia um problema. Ele sabia que abraçar a fé cristã implicaria abandonar seus velhos hábitos pecaminosos, e essa oposição entre sua crescente convicção na verdade da fé e seu apego ao pecado começou a lhe dilacerar por dentro.
Até que chegou o dia. Estava no jardim de sua casa, quando ouviu umas crianças brincando ali perto. Elas cantavam o que pareciam ser duas palavras: “tolle, lege – tolle, lege…”, em latim: “toma e lê”. E ele entendeu que deveria tomar Bíblia e ler, e foi isso que fez. Topou-se com a passagem que se lê na 2ª leitura deste domingo da epístola aos Romanos.
“Irmãos: vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé. A noite já vai adiantada, o dia vem chegando: despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz.”
E isso foi o suficiente. Ele sentiu “como que uma luz de segurança derramada no meu coração”, com a qual “todas as dúvidas das trevas se desfizeram”.
“Já é hora de despertardes do sono”. Estamos num momento muito marcante do ano. Na realidade, no começo do ano litúrgico: no 1º domingo do Advento. Que traz consigo um convite à renovação. Um voltar a preparar-se para o encontro com Deus. E para isso a liturgia se reveste do roxo, que é a cor penitencial, convidando-nos a não nos perder demais nas celebrações de dezembro, mas saber empreender um caminho interior de conversão, de preparação para o Natal.
Depois da sua conversão S. Agostinho se lamentava em oração: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu lá fora; e fora te buscava… Estavas comigo, e eu não estava contigo.”
Na sua regra, S. Bento explica que a meta do monge deve ser “habitare secum” – viver em si, dentro de si mesmo, não disperso, perdido no exterior, na vida dos sentidos. Dentro é que nós vamos encontrar o caminho, vamos encontrar Deus. Como na parábola do filho pródigo a sua conversão começa quando ele “entra em si”.
E essa me parece uma boa maneira para começarmos este advento: fomentando o desejo de conversão, de não nos perder tanto nas dispersões desta vida, deste mundo, mas lutar por entrar mais dentro de nós mesmo e, dessa forma, voltar para a casa do Pai.
Leia aqui a liturgia completa do dia.
A gente lê na 1ª leitura da Missa de hoje um trecho do profeta Isaías.
“Quando o Senhor tiver lavado as imundícies das filhas de Sião, e limpado as manchas de sangue dentro de Jerusalém, com espírito de justiça e de purificação, ele criará em todo lugar do monte Sião e em suas assembleias uma nuvem durante o dia, e fumaça e clarão de chamas durante a noite: e será proteção para toda a sua glória, uma tenda para dar sombra contra o calor do dia, abrigo e refúgio contra a ventania e a chuva” (Is 4, 5s).
Nuvem durante o dia e chamas durante a noite. Aqui há uma clara referência ao Êxodo do Egito, quando Deus se fazia presente na fuga de Israel dessas duas formas: uma coluna de fogo de noite e de fumaça de dia, para afastar os egípcios e guiar os hebreus.
Isaías se refere a uma situação séculos depois do êxodo do Egito, mas semelhante a ele. Trata-se do exílio na Babilônia. Quando os profetas alimentam a esperança no povo escolhido fazendo referência ao primeiro êxodo, com a promessa que algo similar irá ocorrer, que Deus enviará um novo Moisés, que guiará o povo à liberdade da Terra prometida.
No entanto, mesmo depois do povo retornar à sua terra, esses escritos dos profetas continuam sendo lidos, só que agora são interpretados num novo plano, o de um êxodo espiritual. E o novo Moisés será o messias, que vai conduzir para o Reino dos Céus. Por isso a Igreja nos apresenta esse texto no começo do Advento.
Diversos autores antigos chamam o Advento de “a pequena Quaresma”. Pois assim como a Quaresma prepara para a Páscoa, que se refere originariamente ao evento do Êxodo, o Advento quer nos preparar para o encontro com o novo Moisés que é Cristo, e para a passagem definitiva ao seu Reino. E nesse novo contexto –o nosso– a simbologia da coluna de fogo e de fumaça continua tendo o seu valor.
O povo tinha que atravessar o deserto, suportando o calor. Por isso a nuvem é muito bem-vinda. Na nossa vida muitas vezes experimentamos o cansaço, o peso das muitas tarefas. Na oração e na Eucarisita vamos encontrar o necessário descanso, o consolo, para não ficar exauridos pelo caminho. “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11, 28).
Por outro lado a noite também representa um obstáculo para o progresso no caminho, por não saber para onde ir. A luz se torna fundamental, para saber onde pôr os pés. A penitência e a confissão nos impelem a superar as nossas misérias, nosso comodismo, nos comunicando essa boa exigência de superação, lutar por sermos melhores. A luz de Cristo nos mostra nossas obras más, ao mesmo tempo que nos convida para uma vida nova.
Peçamos a Nossa Senhora, consoladora dos aflitos e estrela da manhã, que esteja sempre ao nosso lado nos conduzindo pelo caminho da vida e em particular nestas semanas do Advento.
Leia aqui a liturgia completa do dia.
“Naquele dia, nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor; sobre ele repousará o espírito do Senhor” (Is 11, 1).
No Advento a grande maioria dos textos da primeira leitura da Missa é tirada do profeta Isaías, um livro muito importante e rico do Antigo Testamento e que contêm algumas das referências mais significativas sobre o Messias e sua missão.
Na Missa de hoje se lê o capítulo 11, que descreve o Messias através dos diversos Dons do Espírito Santo. Ele é apresentado como um figura muito forte e poderosa, que vai castigar os maus, e trazer a paz e a justiça para os bons. Inclusive entre os animais se descreve uma paz e convivência pacífica.
Depois, no Evangelho, escutamos Jesus se apresentar como o anunciado pelos profetas. Em concreto Ele diz aos discípulos: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes! Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais vendo, e não puderam ver; quiseram ouvir o que estais ouvindo, e não puderam ouvir” (Lc 10, 23s).
E é especialmente significativa a distinção que Ele faz no começo da passagem evangélica de hoje. Nosso Senhor reza a seu Pai dizendo: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos” (Lc 10, 21). E aqui dá um chave importante para distinguir quem são esses bons que Ele irá favorecer, e os maus que irá punir. O ponto chave da distinção desses dois grupos é a humildade.
Jesus não vem pra punir quem não se encaixa em um código de conduta mais ou menos arbitrário. Ele vem trazer a salvação, para todos. Mas para abraçar essa salvação é preciso ter consciência de que se necessita dela. Aquele que não se acha doente, não será curado. A sua graça não nos é forçada, somos nós que temos que abrir o nosso coração a ela. Mas só o faremos realmente se estivermos entre esse pequeninos, entre aqueles que se sabem necessitados de perdão e da misericórdia.
No primeiro lugar entre esses pequeninos do Senhor está sua própria Mãe. Porque – como Ela mesma diz – “Ele olhou para a humildade (para a pequenez) da sua serva… e fez para mim coisas grandiosas… Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1, 46-52).
Leia aqui a liturgia completa do dia.
Hoje a liturgia nos traz na primeira leitura mais um trecho muito interessante do profeta Isaías que guarda uma forte conexão com o trecho do Evangelho que lemos. Profetiza-se um grande evento que ocorrerá no Monte Sião, em Jerusalém, no qual duas coisas irão acontecer. Primeiro será dado “um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos”. Depois o Senhor “removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações”. Em paralelo no Evangelho S. Mateus nos apresenta Jesus subindo a um monte onde faz também duas coisas: cura os doentes –os liberta de suas enfermidades– e os alimenta multiplicando os pães e os peixes.
Já os padres da Igreja –comentando a parábola do Bom samaritano– dizem que o homem assaltado na parábola representa a humanidade que –pelo pecado– foi “despojada da graça e ferida na sua natureza” (expoliatus in gratuitis, vulneratus in naturalibus). Por isso vemos Nosso Senhor agindo nesses dois campos: curando a ferida causada pelo pecado, nos libertando da escravidão do vício; e enchendo a nossa vida de um sentido novo, de um sentido sobrenatural, do Pão da Palavra de Deus que traz a Vida eterna.
“Removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações”. Hoje é também a memória litúrgica de S. Francisco Xavier, que foi missionário no extremo oriente, tendo inclusive feito escala no Brasil no seu caminho por mar. E é bonito comprovar tantos relatos de pessoas entrando em contado com a fé cristã pela primeira vez e experimentando a partir daí uma nova liberdade. Vemos isso, por exemplo, entre os índios da América, os japoneses e mesmo os vikings. Jesus realiza no plano espiritual o gesto de Alexandre o grande, que venceu o desafio do nó górdio cortando-o com a sua espada. Jesus liberta todos os povos da escravidão do pecado, cravando no mundo a espada da Cruz. Oxalá abramos a Ele neste Advento o nosso coração, para experimentar com nova força essa liberdade que Ele veio nos trazer.
Leia aqui a liturgia completa do dia.
“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus.”
Aristóteles explica que há 3 componentes na retórica: o páthos, o lógos e o éthos. O primeiro são as emoções, que são o mais fácil de alterar nas pessoas que estão te escutando – não é tão difícil gerar rapidamente um sentimento de ternura e compaixão, ou de indignação e raiva. O segundo são as ideias, os raciocínios. E mudar o que as pessoas pensam já se demonstra uma tarefa mais árdua do que mudar os sentimentos. O último é o comportamento, que é de longe o mais desafiador de influenciar, mas também o mais importante.
Muitas pessoas talvez enxerguem na religião uma ferramenta. Um recurso para lhes ajudar a conseguirem o que querem, através de uns ritos ou orações. Algumas o que buscam é um sentimento positivo, seja de consolo ou de entusiasmo. E avaliam a qualidade de um evento religioso pelo volume do seu arroubo emocional.
Mas as emoções são fugazes. Assim como vêm num segundo, se vão no outro. E não é essa a religião que Cristo nos propõem.
Nosso Senhor nos desenha o caminho para o Céu não como o de sentir belos sentimentos e dizer belas palavras a Deus, mas no fazer a sua Vontade. Na mudança da nossa vida.
A pessoa que vive o cristianismo apenas como um componente mais da sua vida –como podem ser as músicas que escuta, o esporte que pratica, os livros que lê…– não vai experimentar toda a força que este é capaz de nos dar. Viver o cristianismo como um verniz, como um adorno, ao invés de como o fundamento último da minha conduta é como construir uma casa sobre a areia –como lemos na passagem de hoje. Virão as múltiplas vicissitudes da vida, e aquela pessoa estará desprotegida.
Mas quem não só escuta as palavras do Senhor, mas trata de as pôr em prática, é como alguém que construiu sua casa sobre a rocha. Não importa o que vier, ele estará firme estando edificado e enraizado em Cristo (cfr. Col 2, 7).
Escutar e pôr em prática. Essa dupla aparece diversas vezes nos Evangelhos. Os padres da Igreja viram um paralelo entre elas e outros dois verbos que em geral vêm juntos: conceber e dar à luz. O próprio Jesus diz que sua mãe e seus irmãos são os que escutam suas palavras e as põem em prática (cfr. Lc 8, 21). Por isso Nossa Senhora é o modelo mais perfeito do seguimento de Cristo. Ela escuta – recebe a Palavra de Deus, o Verbo –, e põem em prática – permite que essa Palavra se encarne nEla, na sua vida. Peçamos a Ela neste Advento que ajude a abrir-nos cada vez melhor para que o Senhor possa de fato transformar a nossa vida.
«Jesus tocou nos olhos deles, dizendo: “Faça-se conforme a vossa fé”. E os olhos deles se abriram.»
Nas homilias precedentes falamos sobre o Advento como ocasião para acordar para a vida espiritual, como um chamado à penitência, à humildade, à docilidade… como um caminho para a autêntica liberdade… Nos textos desta primeira 6ª feira vemos muito claramente presente o tema da fé e da luz. Da necessidade da fé para se abrir aos dons de Deus e da consequência da luz que entra na nossa vida e a ilumina poderosamente.
Na primeira leitura, Isaías apresenta como sinal dos tempos messiânicos que «os surdos ouvirão as palavras do livro e os olhos dos cegos verão, no meio das trevas e das sombras» (Is 29, 18). No Salmo rezamos dizendo: «O Senhor é minha luz e salvação» (Sal 26 ou 27). E o Evangelho narra o encontro de Nosso Senhor com dois cegos a quem cura fazendo com que enxerguem.
A iluminação é um símbolo muito presente na tradição cristã e mais além dela, em outras religiões. A epístola aos Hebreus se refere ao cristãos como iluminados e é isso que significa Buda, que não é um nome, mas um título: o iluminado, aquele que está acordado. Na noite Natal o símbolo da chegada da luz se faz presente para expressar com beleza a vinda de Cristo, luz do mundo: “O povo que ficava nas trevas viu uma grande luz, para os habitantes da região sombria da morte uma luz surgiu” (Mt 4,16 citando Is 9, 2). Inclusive o Natal é celebrado no hemisfério norte no solstício de inverno, quando –depois de ir-se reduzindo– o dia volta a crescer: a luz começa a vencer a escuridão.
Tudo isso nos remete ao convite que Deus nos faz nestas semanas de Advento a abrir-nos à sua luz. Essa luz que é capaz de nos mostrar o caminho para a Vida e aquecer os nossos frios corações. O que traz consigo –é verdade– um certo drama.
Drama porque uma parte de nós não quer a luz, rejeita a luz, porque “as suas obras são más” (Jo 3, 19s). Por isso é preciso armar-se de coragem para se abrir à luz de Cristo. Confiar que vale a pena apresentar-lhe nossos olhos turvos, com suas traves. Deixar que Ele os toque e remova os obstáculos depositados na nossa visão pelos nossos vícios, para se protegerem.
Uma vez me explicaram que os mosquitos têm uma saliva anestésica. Assim antes de nos picar ele cospem na nossa pele, para que a gente não sinta na hora a agressão. Quando começa a coceira o danado já foi embora levando o nosso sangue.
O pecado funciona de forma semelhante: ele começa sequestrando a nossa racionalidade, adormecendo a nossa consciência. E –se nos descuidamos– essa deformação da visão vai se solidificando, tornando-se permanente. “Quem não vive como pensa, acaba pensando como vive”.
Aproveitemos pois este tempo de graça para nos abrir a essa luz transformadora, para deixar que Cristo entre na nossa alma revelando-nos o nosso caminho para Ele, para o Céu, para a Vida.
“Povo de Sião, que habitas em Jerusalém, não terás motivo algum para chorar: ele se comoverá à voz do teu clamor” (Is 30, 19). O começo da primeira leitura de hoje nos coloca de cara diante do tema central dos textos do dia: a misericórdia de Deus.
Fechando esta primeira semana exploramos diversas atitudes a desenvolver para nos preparar para um encontro transformador com o Senhor que vem: como a humildade, a fé e a docilidade. A liturgia parece querer hoje fomentar em nós a confiança. A confiança em que vale a pena o nosso esforço, que da parte de Deus vamos encontrar uma resposta ao nosso empenho, vamos encontrar um coração compassivo, vamos encontrar misericórdia. O nosso Deus é um deus que se comove “à voz do teu clamor”.
E se isso está presente já no Antigo Testamento, no Evangelho se torna patente em um nível maravilhoso, como vemos no trecho de hoje.
“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9, 36). O verbo utilizado aqui (splagchnizomai) vem de uma palavra que significa entranhas, vísceras, intestino. A ideia é que quando uma emoção é muito intensa a gente experimenta uma sensação nessa região do corpo. Uma ideia que permanece registrada na nossa linguagem atual, por exemplo, quando falamos de “friozinho na barriga”, de um momento entranhável, ou de uma emoção visceral. E a raiz da ideia parece ser o fato de que, depois do cérebro, o lugar do corpo com a maior concentração de neurônios é precisamente nessa região da barriga, junto ao estômago e aos intestinos. Por isso é significativo que os Evangelhos apliquem esse verbo oito vezes a Cristo, porque implica um sentimento muito intenso, como o que sente a mãe pelo seu filho – fruto de suas entranhas, como comenta o papa Bento XVI no seu livro Jesus de Nazaré 1.
Jesus se apresenta não como um personagem distante, frio. Um visionário religioso que conseguiu um grande destacamento emocional das realidades desta terra e, do alto da sua sublime sabedoria, condescende em revelar aos demais os segredos do caminho espiritual. Não. Ele, sendo perfeito Deus, é também perfeito homem. Com tudo o que implica ser humano, inclusive os afetos, os sentimentos, a capacidade de se encarinhar das pessoas. Essa realidade nos é especialmente apresentada na devoção ao Sagrado Coração de Jesus e é muito importante para a nossa vida interior.
Necessitamos confiar nesse seu amor por nós, na sua Misericórdia. Como uma criança pequena precisa confiar no amor do seus pais para poder avançar pela vida. E a boa notícia é que podemos, com certeza, confiar naquele que nos amou tanto que deu a sua vida por nós.
Na segunda semana do Advento, a liturgia nos apresenta com mais destaque a figura de João Batista, o grande precursor. Sua voz firme no deserto nos convida à conversão, à retidão de vida e à preparação do coração para acolher o Senhor. Ao lado dele, emerge também a presença materna de Maria, especialmente celebrada nesta semana pela solenidade da Imaculada Conceição e pela festa de Nossa Senhora de Guadalupe. Com ele e com Ela, a Igreja nos ajuda a manter vivo o espírito de espera, agora mais atento e purificado. A seguir, acompanhe as homilias diárias do padre Pedro Willemsens para esta etapa do caminho:
“Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!” (Mt 3, 3).
Depois de uma primeira semana em que meditamos sobre uma série de atitudes necessárias para nos preparar para a vinda do Senhor, a liturgia de Advento nos coloca diante de uma figura muito marcante, que é a de João Batista, o precursor. Assim como a passagem de hoje, os trechos do Evangelho a serem lidos a partir da 5ª-feira (dia 11) até o começo a novena de Natal (dia 17) irão girar ao redor desse santo do deserto.
Ele divide o protagonismo em nos ajudar na preparação deste tempo litúrgico com a Mãe de Deus, que entra em cena com especial intensidade nesses últimos nove dias antes do Natal. E pode ser oportuno pensar nessa espécie de colaboração de papeis que se vê entre ambos: entre o primo e a mãe, o homem e a mulher, o asceta do deserto e a dona de casa.
Na arquitetura sacra oriental é tradicional que haja nas igrejas uma fileira de ícones conhecida como a deesis, que significa intercessão. No centro se coloca a figura de Cristo Pantocrátor – todo-poderoso. À sua direita o primeiro ícone é de Nossa Senhora. À esquerda de João Batista. Depois é frequente enxergar à direita S. Pedro, e à esquerda S. Paulo. E não se trata de uma disposição arbitrária, e sim carregada de significado. Podemos lembrar de Cristo no Juízo final dizendo aos da sua direita: “vinde a mim, benditos do meu Pai”, e aos da sua esquerda: “afastai-vos de mim”. Assim entendemos que alguns santos nos remetem mais à unidade da Igreja, à união com Cristo, à sua compaixão; e outros que nos falam mais da expansão da Igreja, da pluralidade dos santos, da justiça divina. O movimento centrípeto dos apóstolos –escolhidos por Jesus para estarem com Ele– que se compõem com o centrífugo –sendo enviados pelo Mestre a todos os cantos da terra.
Se pensar em Nossa Senhora nos anima a aproximar-nos com ternura e confiança do Menino Jesus que acaba de nascer (dom da piedade), João Batista nos ajuda a fomentar a contrição e desejo de conversão diante da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos (dom do temor). Como a mãe mais facilmente acolhe e acalma e o pai exige e estimula.
Talvez o mundo tenha nas últimas décadas se voltado para uma cultura excessivamente feminino-materna. No sentido de buscar construir um mundo confortável e não agressivo, mas quem sabe pouco desafiador – ao menos para as pessoas que contam com um poder aquisitivo mínimo para gozar da nossa sociedade de abundância. E por vezes se viu nos próprios pregadores católicos um medo exagerado de ofender as sensibilidades, de provocar possíveis mágoas nas pessoas. Por isso mesmo a figura de João Batista parece tão oportuna. Para nos lembrar com a exigência das suas palavras duras a verdade dos nossos pecados; da nossa insuficiência diante da Grandeza de Deus; da necessidade que temos de reformar seriamente a nossa vida, para estarmos preparados para o encontro definitivo com a Verdade e a Justiça.
“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” – “Ave gratia plena!” (Lc 1, 28).
Hoje temos a alegria de celebrar a solenidade da Imaculada Conceição de Maria. Uma festa tão importante que é um dos quatro dias de preceito no Brasil fora dos domingos. Foi o penúltimo dogma mariano a ser proclamado e pode se dizer que foi um dogma bastante batalhado.
Quando eu morava na Espanha um amigo advogado me mostrou o juramento que, durante séculos, os advogados espanhóis tinham que fazer pra começar a exercer sua profissão. Um juramento que incluía colocar todos os meios ao seu dispor para que esse dogma fosse proclamado. E esse empenho vemos também na vida de alguns santos, como S. Pedro de Betancur, que se dedicaram apaixonadamente nessa causa.
Mas por que todo esse esforço? Por que esse dogma é tão importante pra tanta gente? Parece-me que o é por essas pessoas verem detrás da afirmação da sua Conceição Imaculada uma defesa da singular beleza de Nossa Senhora. Diz uma oração do século IV que é costume cantar em gregoriano: “Tota pulchra es, Maria. Et macula originalis non est in Te” – “Toda bela sois, Maria, e a mancha original não existe em ti”.
Já entre os cavaleiros medievais existia o costume de defender –se fosse preciso com violência– a beleza de suas damas, como lemos no Dom Quixote. E a defesa da honra da própria mãe sempre foi algo muito natural e forte. Dai se entende que os devotos de Santa Maria tenho tomado muito a peito a proclamação desse dogma.
Contudo, mais além do percurso histórico, celebrar a beleza de Nossa Senhora faz muito sentido no caminho cristão. É famosa a afirmação de Dostoiévski de que “a beleza salvará o mundo”. E não é difícil observar o papel do fascínio que a beleza exerceu na vida dos santos.
Na primeira canonização do seu pontificado Bento XVI dizia: “O santo é aquele que é totalmente fascinado pela beleza de Deus e pela sua perfeita verdade até ser progressivamente transformado nela. Por essa beleza e verdade está pronto a renunciar a tudo, até a si mesmo” (23/10/05). E um documento da Assembléia Plenária do Pontifício Conselho da Cultura, 2006 diz que “se a santidade cristã se configura à beleza do Filho, a Imaculada Conceição é a perfeitíssima ilustração desta ‘obra de beleza’” (Via Pulchritudinis).
A contemplação da beleza desperta a esperança. E esperança é o principal motor que nos move. Por isso neste tempo de Advento, e sempre, é muito oportuno contemplar na oração a beleza de Deus. Também enquanto espelhada na vida dos santos e, especialmente, na Virgem imaculada que nos ajudará a sonhar com os belos planos de Deus para nós. Desse Deus que “nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis (imaculados) sob o seu olhar, no amor” (2ª leitura, Ef 1, 4).
O coração humano é um mistério. Se já pode ser bem difícil saber o que tá acontecendo no nosso próprio interior, que dizer sobre o dos outros. E isso pode ser especialmente dramático se dependemos de algum modo do afeto, do amor de alguém por nós.
Por isso é muito reconfortante ouvir Nosso Senhor nos revelando o coração misericordioso de Deus. E é que vemos Ele fazendo no Evangelho desta 3ª-feira, através de duas pequenas parábolas: a da ovelha e da dracma perdida.
Na lógica humana, uma ovelha entre cem não parece ter lá muita importância; mas na lógica divina, cada pessoa é insubstituível. Ele não se conforma em perder ninguém. Vai atrás, procura, chama. Como uma mãe que não se consola enquanto não encontra o filho, Deus se inquieta por nós e, quando nos encontra, põe-nos aos ombros e se alegra mais por essa volta do que pelos noventa e nove que não se extraviaram.
Essa é a atitude de Deus. Mas há também a nossa parte na história. Para nos deixar encontrar, é preciso reconhecer que estamos perdidos. A ovelha é um animal que tem uma visão péssima: basta se afastar um pouco pra não encontrar o caminho de volta. O que ela tem que não é tão ruim assim é a sua audição. Por isso, quando se perde (o que ocorre com facilidade) precisa ser dócil, deixar-se reconduzir ao aprisco. Assim também nós: precisamos muito da humildade de admitir que estamos perdidos e a docilidade para nos deixar guiar. Como Santa Teresinha que dizia: “Nunca serei mais do que uma pecadora perdoada.”
Essas parábolas falam, portanto, de duas conversões: a de Deus, que “se converte” ao homem e vai ao seu encontro, e a do homem, que se deixa reencontrar. Mas o processo está chamado a se estender ainda mais, porque Nosso Senhor com alguma frequência nos sugere que devemos espelhar com relação aos outros a atitude de Deus para conosco. E se é assim que Ele nos busca, também nós devemos buscar os outros. “O Filho do Homem veio salvar o que estava perdido” – e essa é também missão nossa. Acender a lâmpada, varrer a casa, procurar com paciência, ir atrás das pessoas que possam estar um pouco perdidas na vida. E se há festa no Céu pela conversão de um pecador, quando somos instrumentos de Deus para isso, também tomamos parte dessa grande alegria, da festa dos anjos.
Nossa Senhora entende bem essas parábolas. Ela também “perdeu” o seu Filho e o reencontrou com imensa alegria. Por isso, pode ajudar-nos a reencontrar Cristo quando nos afastamos e a conduzir outros ao redil. Que Ela nos ensine a reconhecer o assobio do Bom Pastor e a voltar sempre, trazendo muitos conosco.
“Cansam-se as crianças e param, os jovens tropeçam e caem, mas os que esperam no Senhor renovam suas forças, criam asas como as águias, correm sem se cansar, caminham sem parar” (Is 40, 30s).
A vida em geral e a vida cristã em particular muitas vezes é comparada a um caminho, uma jornada, uma corrida na qual queremos chegar até o final (cfr. 2 Tim 4, 7). Na primeira leitura de hoje escutamos o Senhor falando pelo profeta como é capaz de nos sustentar com a sua graça para que sejamos capazes de ir muito além das nossas forças. E o modo como Ele faz isso vem depois mais desenvolvido no Evangelho do dia.
“Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11, 28). Os esforço físico nos cansa, por isso se torna necessário descansar. E Nosso Senhor promete Ele mesmo nos dar o necessário descanso para sermos capazes de seguir em frente.
“Tomai sobre vós o meu jugo… pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 28, 29s). Esse convite do Senhor pode parecer à primeira vista bastante desconcertante, por Ele nos indicar que devemos tomar o seu jugo, precisamente quando já estamos cansados e fatigados. Contudo a coisa faz mais sentido se pensamos no jugo levado habitualmente por dois animais, por exemplo, para arar a terra. Se um deles é mais forte, irá sobrar menos peso para o débil.
Essa é a mágica que se esconde detrás da Cruz do Senhor que se faz presente na nossa vida. Quando esperneamos com revolta diante do sofrimento, ele pode chegar a nos esmagar, tornar nossa vida insuportável. Mas se o abraçamos com voluntariedade, com sentido sobrenatural, aquilo que antes parecia impossível de carregar se torna levadeiro, leve. Porém isso não ocorre sem que haja uma mudança em nós, no nosso coração.
“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (Mt 28, 29s). A paz profunda que o Senhor veio nos trazer (cfr. Jo 14, 27) não se resume à ausência de perturbações externas, mas nos remete a algo espiritual, interior. Uma paz vem se somos mansos. E teremos essa mansidão se formos humildes.
As irritações quase sempre supõem orgulho. Pode ser inclusive bastante difícil tirar do sério uma pessoa profundamente humilde. “Não há nada como a humildade para produzir doçura. O orgulho é sempre impaciente e colérico” (Louis Lavelle, O erro de Narciso).
É singela a cena do Antigo Testamento em que Ester se apresenta diante do rei sem ser convocada por ele, sendo que isso era considerado um crime punido com a pena de morte. Mas a sua presença “mudou em doçura o ânimo do rei” (Est 15, 11), e este impediu que ela fosse punida. Assim também nós, quando nos sintamos cansados ou irritadiços, podemos olhar para Nossa Senhora, que Ela nos ajudará a acudir ao Senhor e obter a sua paz.
“Transformarei o deserto em lagos e a terra seca em nascentes d’água. Plantarei no deserto o cedro, a acácia e a murta e a oliveira” (Is 41, 18s).
Conforme já comentamos na homilia do passado domingo, a partir de hoje até a novena de Natal, todos os Evangelhos da Missa giram ao redor da figura de João Batista. Um personagem muito importante e elogiado de modo bastante marcante por Nosso Senhor, como se escuta na passagem de hoje: “de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista” (Mt 11, 11). Também escutamos Jesus explicar que “ele é o Elias que há de vir” (Mt 11, 15) e penso que essa afirmação merece alguma explicação.
Havia, em tempos de Cristo, uma viva expectativa da chegada do messias, mas também de que –antes dele– Elias voltaria para preparar-lhe o caminho. Pois isso havia sido profetizado por Malaquias: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o dia do Senhor, grande e terrível. Ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos aos pais, para que eu não venha ferir a terra com o interdito” (Ml 3, 23s ou 4, 5ss).
Alguns entendiam que o mesmo Elias que tinha sido ao Céu num carro de fogo –por não ter morrido– desceria para realizar essa missão. No entanto as palavras do Senhor nos fazem entender que não. Que era João Batista (nascido de S. Isabel) que iria realizar o papel equivalente a Elias assumindo o papel de precursor.
De fato, o Batista e o profeta guardam não poucas semelhanças. Ambos se vestiam com pele animal, usando um cinto de couro. Moravam em locais desertos alimentando-se do que a natureza lhes dava. Elias repreendeu duramente o rei de Israel (o reino do Norte, a Galiléia) Acab e sua esposa. O Batista repreendeu Herodes Antipas também governante da Galiléia, por ter um caso com sua cunhada. E ambos foram perseguidos pela audácia da sua pregação.
Pode-se dizer que ambos inauguraram uma espécie de família de santos, dentro da qual poderíamos incluir posteriormente S. Francisco de Assis. São os que no cristianismo russo se chama de os yuródivyie, os loucos de Cristo – pessoas que não se encaixam no restante da sociedade, mas vivem uma vida à parte, em grande parte inconvencional, podendo parecer aos demais, loucos, insensatos ou simplórios. “Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para confundir os sábios, e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes” (1 Cor 1, 27).
A força imediata do testemunho de pessoas que escolheram o deserto, que abandonaram tudo para seguir o chamado de Deus, será sempre pra nós um recordatório muito poderoso para nos ajudar a não perder-nos nas coisas desta vida, mas dedicar-nos a elas sempre tendo em vista os bens que não passam. A estarmos devidamente preparados para o nosso destino último, para o encontro definitivo com o Senhor.
“Acaso não estou eu aqui, que sou tua mãe?”
Era o ano de 1531. Os antes orgulhosos índios astecas tinham sido derrotados por estranhos homens chegados do mar, com seus cavalos, armaduras e armas de fogo. Não podiam mais fazer os sacrifícios humanos que sua religião dizia que mantinha o sol vivo e o mundo funcionado. Tinham sido devastados pelos novos vírus trazidos da Europa. Junto com a aparição de um cometa, tinham experimentado três terremotos e um recente eclipse solar. Tudo parecia indicar que o mundo, de fato, estava acabando.
Quando a um desses índios começa a aparecer uma bela senhora, dizendo a ele que é a Mãe de Cristo, a Rainha do Céu, e pedindo que lhe construam uma casinha na Cidade do México, onde ela receberá os seus filhos que quiserem acudir a ela. Como sinal deixa impressa de forma milagrosa sua imagem no avental do índio. Um avental que, devido ao seu tecido, já deveria ter se decomposto há séculos, mas continua inteiro até os dias de hoje. Uma imagem que a ciência não explica como foi fixada no tecido, uma vez que não foi pintada, que continua com suas cores vivas até hoje. E aquecendo os corações de um povo que, quando se achava perdido, descobriu uma mãe que o acolheu e guiou para uma nova vida.
No Brasil hoje a liturgia do advento dá espaço para celebrarmos a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira das Américas. No século em que a reforma protestante iria afastar da unidade católica parte considerável da Europa, Deus se serviu de sua mãe como uma espécie de embaixadora, para ganhar para si o coração dos povos do novo mundo.
Estima-se que nos sete anos que se seguiram às aparições mexicanas, cerca de oito milhões de nativos se converteram à fé, o que representa mais de três mil conversões diárias. Trata-se de um fenômeno nunca antes visto na história como um todo. Conversões que não nasceram do aço frio das espadas espanholas, mas do carinho materno manifestado na Imagem de Guadalupe.
Os índios visitavam sua imagem, contemplavam e entendiam. Porque ali estão expressadas as verdades fundamentais da fé cristã, nos seus próprio símbolos. No seu cabelo solto que a marca com uma virgem. No seu cinturão preto que indica que está grávida. Na flor solar no seu ventre que indica que está grávida de Deus. No sol que a circunda, na lua a seus pés, nas estrelas do seu manto…
E, junto com todas essa linguagem nativa, também se faz presente o novo. Sobretudo nas suas feições de mestiça: meio índia, meio espanhola. Indicando um novo povo que iria nascer do encontro dessa duas culturas. Um povo que seguiria um novo Deus: o Filho da Senhora de Guadalupe.
“Naqueles dias, o profeta Elias surgiu como um fogo, e sua palavra queimava como uma tocha” (Eclo 48, 1).
A liturgia de hoje volta a nos apresentar a identificação entre João Batista e o profeta Elias. Mais em concreto nessa característica comum aos dois: de pregaram com intrepidez e, como reação, encontrarem oposição ao seu redor. Um destino que ambos compartilham com o próprio Cristo – como Ele diz no Evangelho de hoje: “Elias já veio, mas eles não o reconheceram. Ao contrário, fizeram com ele tudo o que quiseram. Assim também o Filho do Homem será maltratado por eles” (Mt 17, 12). Isso pode nos servir para refletir sobre a missão profética da Igreja.
Apoiada nas últimas palavras de Cristo antes da sua Ascensão, a Igreja costuma entender sua missão como dividida em três principais tarefas (em latim: tria munera): 1) conduzir o povo fiel e o mundo, como Cristo pastor e Rei (munus regendi), 2) ser canal para a graça de Deus no mundo, como Cristo sacerdote (munus santificandi), 3) ensinar as verdades que lhe foram confiadas por Deus, como Cristo profeta e mestre (munus docendi). E, se isso se aplica à Igreja como um todo, também se aplica a todo cristão, a cada um de nós.
Estamos chamados a ser, de certa forma, profetas para o mundo ao nosso redor. Assim como os profetas, ensinar os caminhos de Deus, mesmo que isso desagrade aos ouvidos que nos escutam.
Não é raro escutar críticas sobre como a Igreja deveria se adaptar mais aos tempos atuais. Que ela está presa a critérios morais já antiquada para a sensibilidade dos nosso tempos. Por exemplo no âmbito da sexualidade e da família, na abertura do sacerdócio ordenado às mulheres ou do casamento aos homossexuais. Nesse sentido, ver S. João Batista sendo condenado por lembrar a Herodes que o adultério era um pecado grave, pode ajudar a perceber a importância de saber fazer frente a costumes que, por mais que passem a ser aceitos socialmente, sempre irão contra o caminho da plenitude da vida humana, a verdade e o bem. Dizia S. Josemaria Escrivá: “Não é a doutrina de Jesus que deve adaptar-se aos tempos, mas os tempos que devem abrir-se para a luz do Salvador”.
Claro que fez todo sentido os pregadores terem um dia trocado o púlpito por um microfone elétrico, que o papa e os bispos possam buscar continuamente novas formas de exercer sua autoridade, que tantos cristãos aproveitem as redes sociais para difundir a mensagem cristã… Sim, os cristãos podem e devem adaptar-se na sua vivência e na transmissão da fé às mudanças culturais, como vemos a Igreja fazendo desde as suas origens. O corpo está chamado a crescer e a adaptar-se. Mas se uma célula aparece com um DNA diferente, aquilo não é um crescimento sadio, mas um câncer.
Que este Advento nos sirva pra pensar se não deixamos entrar na nossa vida algo estranho aos nossos valores e ao Evangelho. Se não podemos nos tornar melhores discípulos do Senhor crescendo numa fidelidade mais radical ao Senhor e seus ensinamentos.
Nesta terceira semana do Advento, a liturgia nos convida a renovar o coração com esperança e alegria, pois a vinda do Senhor está próxima. As homilias do Pe. Pedro Willemsens nos acompanham nessa reta final de preparação, ajudando-nos a olhar para dentro, discernir com mais clareza a vontade de Deus e responder a ela com generosidade.
Temas como a conversão, a escuta da Palavra, a humildade de Maria, a obediência de José e o testemunho de João Batista se entrelaçam nas reflexões diárias, iluminando o caminho espiritual rumo ao Natal. Que esta semana seja, para cada um de nós, uma oportunidade concreta de abrir o coração à graça e acolher com fé o Salvador que vem.
“Jesus começou a falar às multidões, sobre João” (Mt 11, 7).
Domingo passado nos trouxe uma passagem do começo do Evangelho de S. Mateus apresentando a figura de João Batista e a sua pregação. Este domingo traz uma passagem muito mais na frente desse Evangelho quando Nosso Senhor já iniciou a sua pregação e o Batista foi preso, e se dá uma interação entre ambos.
Primeiro João busca se informar para se assegurar se Jesus é mesmo o Messias esperado, enviando seus discípulos para lhe perguntar. Ao invés de uma resposta direta, Jesus lhes apresenta como sinais de credibilidade as obras do seu ministério, como fará também outras vezes (cfr. Jo 10, 38 e Jo 14, 11). Em concreto fala do seu cuidado com os cegos, os paralíticos, os leprosos, os surdos, os pobres e até os mortos.
Não há como não pensar na primeira exortação apostólica recentemente publicada pelo Papa Leão XIV, a Dilexit te, na qual fala do cuidado aos menos favorecidos como uma marca fundamental do cristianismo que nunca devemos descurar. De fato, como vemos nessa passagem, Jesus, que nos disse que os cristãos seriam reconhecidos por se amarem uns aos outros (cfr. Jo 13, 35), se apresenta a si mesmo para ser reconhecido como o cristo, o messias, pela atenção que dá a estes grupos de pessoas que sofrem pelos mais diversos motivos.
Na segunda metade da passagem de hoje, quando os discípulos do Batista já partiram levando sua resposta, Nosso Senhor começa a falar às multidões sobre João, elogiando de forma muito marcante o precursor: “de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista” (Mt 11, 11). Porém também chama a atenção a ressalva que segue a essas palavras: “No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”.
João foi como que o último dos profetas. Estes falaram do Messias, enquanto ele teve a sorte de lhe apontar já presente. Teve uma missão privilegiada. No entanto, mais privilegiados somos nós que já contamos com os meios de salvação que Cristo nos obteve com sua Paixão e Ressurreição.
Conhecer a vida dos santos é uma grande oportunidade para que nos maravilhemos das maravilhas que a graça pode produzir na alma de uma pessoa que corresponde a ela, alguém que se deixa conduzir pelo Espírito Santo. Nosso Senhor chega a prometer aos seus discípulos que eles farão não só as mesmas obras que Ele fazia, mas obras inclusive maiores (cfr. Jo 14, 12).
Tudo isso deve nos levar a pensar. A sonhar. Entendendo o tesouro que nos foi confiado é natural que fomentemos desejos de retribuir cada dia melhor. Buscando neste Advento examinar a nossa vida, para que ela dê os frutos saborosos que Deus quer encontrar em nós.
“Eu o vejo, mas não agora; e o contemplo, mas não de perto. Uma estrela sai de Jacó, e um cetro se levanta de Israel” (Num 24, 17). Na primeira leitura de hoje nos deparamos com um personagem bíblico bastante curioso que se chama Balaão. Ele era uma espécie mágico, adivinho, feiticeiro famoso, não era judeu. Ele é citado até em livros não bíblicos daquela época.
Os reis contratavam ele para abençoar ou amaldiçoar, acreditando que aquilo funcionava. E alguém lhe contrata para amaldiçoar Israel, mas o tiro sai pela culatra. Ele não só não consegue amaldiçoar, com abençoa fortemente, sendo movido por Deus a isso. E, no final, diz a profecia da estrela, onde vemos o indício que levou os reis magos a virem adorar o rei dos judeus quando previram que ele iria nascer.
Já no Evangelho aparece mais uma vez a figura de João Batista, só que agora como objeto de disputa entre Jesus e os fariseus. Nosso Senhor lhes coloca a simples questão sobre se o batismo de João era dos homens ou do céu. Eles se esquivam a responder essa pergunta e, dessa maneira, perdem o direito a que Jesus lhes responda também.
Trata-se de uma tarefa muito importante da autoridade religiosa: ajudar as pessoas a discernir os espíritos: se algo vem de Deus ou não. É algo que o magistério da Igreja faz, por exemplo, diante de pretensos eventos sobrenaturais, para evitar que as pessoas sejam levadas por algum engano. Mas todos nós vamos precisar de discernir os espíritos na nossa vida, para sermos capazes de nos deixar guiar por Deus, como os reis magos souberam fazer. Mas como podemos fazer isso?
Penso que podemos atentar à origem dos pensamento, o seu conteúdo e aonde ele me leva.
Quanto à origem ajuda muito a luta ascética por dominar as nossas paixões, uma vez que elas se imiscuem nas nossas decisões e tratam de pintar de nobreza mesmo os nossos maiores vícios. A vida penitente de João Batista servia de um claro argumento de credibilidade acerca da retidão da sua mensagem.
O conteúdo deve estar em harmonia com o resto. Deus é coerente. Se eu me sinto inclinado a algo que claramente vai contra a minha vocação e ao cumprimento dos meus deveres, aquilo não vem de Deus, por muito grandioso e bom que possa se apresentar diante de mim.
Quanto ao efeito, conforme explica S. Inácio de Loyola, um pensamento que nos perturba o espírito, rouba a paz e nos entristece, não virá de Deus. Pois suas inspirações podem sim nos tirar inicialmente da zona de conforto, mas logo nos conduzem a uma paz mais profunda e verdadeira.
Diferente de Zacarias, Nossa Senhora entendeu e aceitou na hora a mensagem de S. Gabriel. Que Ela nos ajude a discernir a Vontade de Deus pra nós no meio dos nossos afazeres de cada dia.
“Darei aos povos, nesse tempo, lábios purificados… eu afastarei do teu meio teus fanfarrões arrogantes, e não continuarás a fazer de meu santo monte motivo de tuas vanglórias. E deixarei entre vós um punhado de homens humildes e pobres” (Sof 3, 9.11ss).
Neste que é o último dia do Advento antes da Novena do Natal, a liturgia volta nos insistir sobre a importância da conversão.
O Senhor quer nos conduzir a essa purificação e nos dá os meios para isso. Porém, ao mesmo tempo, promete uma purificação de Israel, e do mundo, que se há de operar, mesmo se tantos não se abrirem a essa caminho de conversão e mudança que Ele nos propõem. Esses serão removidos da cidade santa.
“Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” (Mt 22, 14). Deus quer a salvação de todos, mas, como diz S. Agostinho, “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. Ele nos deu a liberdade e sempre a respeita. Vemos isso na história de Israel. Todos os filhos de Jacó constituem originariamente o povo escolhido, mas com o tempo tribos inteiras se desviam dos caminhos dos seus pais, e deixam de ser herdeiras das promessas feitas aos patriarcas. Sempre sobrou e sempre sobrará um resto de Israel, fiel aos mandamentos do Senhor. O que não está claro é quem vai participar desse resto. Isso depende de cada um de nós.
E qual é o critério para essa divisão? “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7, 21). O caminho para a salvação não está em fazer belas orações, em ser capaz de se emocionar ao ouvir uma música que fala de Jesus, ou em um mero concordar com a doutrina cristã. O que é necessário é fazer a Vontade de Deus. É o que fica claro na passagem do Evangelho de hoje.
Após apresentar a parábola dos dois irmãos a quem o pai manda ir trabalhar na sua vinha, Nosso Senhor compara aquele que a princípio se resistiu mas depois obedeceu com os publicanos e as meretrizes, que se arrependeram com a pregação de João Batista. Estes precederão os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo no Reino dos Céus, porque terminaram por seguir o convite que lhe foi oferecido por Deus pela boca do precursor. Ao passo que aqueles homens que se pensavam justos na realidade estavam fechados à graça pelo seu orgulho e comodismo.
E tudo isso deve nos levar a pensar: o quanto eu tenho me aberto ao que Deus quer de mim neste Advento? Tenho de verdade buscado escutar a sua voz, seu convite à conversão, e buscado ser dócil a ele?
Neste dia 17 começa liturgicamente uma espécie de contagem regressiva: a novena de Natal. Por isso os textos litúrgicos passam a já não depender do dia da semana, mas sim do dia do mês.
E o primeiro Evangelho nessa novena é o da genealogia de Cristo, conforme descrita por S. Mateus. Com ela, o evangelista quer situar Nosso Senhor na história, em particular na história do povo escolhido, de quem Ele é um filho e um membro.
E faz-se finca-pé no número de gerações: sempre quatorze nos intervalos de Abraão até Davi, de Davi até o exílio na Babilônia e deste até o próprio Jesus. Por que quatorze?
No mundo antigo eles não tinham ainda os numerais que nós utilizamos, por isso recorriam às letras, atribuindo a elas valores numéricos. Onde é mais fácil observar isso é nos algarismos latinos, onde o I vale 1, o V vale 5, o X vale 10, etc. Uma consequência dessa atribuição era que as palavras acabam ganhando valores numéricos, que vinham da soma dos valores dos seus diversos caracteres. Quatorze é o valor numérico equivalente do nome Davi. Por isso, S. Mateus está apresentando Jesus aqui de uma forma especial como descendente, como filho, de Davi.
E não deixa de ser interessante o fato de que tal descendência se dá através daquela que tinha sido a esposa de Urias, com a qual Davi tinha adulterado. E tanto Davi quanto Nosso Senhor são descendentes de Judá, que aparece entre louvores na primeira leitura. E no entanto Judá também teve os seus pecados, entre eles o de ter vendido por inveja seu irmão José como escravo.
Penso que tais constatações podem nos servir para pensar como Deus é capaz de tirar coisas boas de coisas ruins. Mesmo dos nossos pecados. E essa é mais uma mostra da sua omnipotência misericordiosa.
Pode-se dizer que o samba e o rock-n-roll só existem devido ao encontro de culturas que nasceu da escravidão de africanos na América. Isso faz com que a escravidão tenha sido algo bom? Claro que não. Mas mostra como é possível tirar coisas boas de coisas ruins, mesmo que estas permaneçam ruins.
Assim é capaz de fazer Deus com os nossos pecados. Se nos arrependemos profundamente, podemos sair daquele vacilo melhor do que entramos. Mais humildes e mais agradecidos.
Foi o que fez S. Agostinho após sua conversão. Certamente sua autobiografia não teria o mesmo impacto que teve na história se não narrasse uma conversão tão intensa, pelos seus pecados prévios. E esses mesmos pecados, uma vez envoltos na sua contrição tornada eficaz com a graça da Confissão, certamente lhe servirão no seu caminho para Deus.
Deus tira coisas boas de coisas ruins. Mas tenho eu deixado Ele tirar coisas boas da minha vida, dos meus erros pessoais?
“José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo” (Mt 1, 20).
Para uma descrição do momento da Encarnação, em que o Verbo se fez carne nas entranhas virginais de Maria, precisamos acudir ao Evangelho de S. Lucas. A passagem de hoje de S. Mateus se ocupa do que ocorreu logo em seguida entre Maria e José.
A passagem esclarece que Ela “estava prometida em casamento” a José. Naquela época o casamento era feito em duas etapas. Na primeira o casal ficava comprometido um com o outro. Porém se tratava mais do que de um mero noivado: eles já eram considerados marido e mulher. A partir daí o homem tratava de preparar uma casa para receber sua esposa. Assim, depois talvez de um ano, chegava o segundo momento, que ocorria com a condução da esposa à casa do esposo. Nossa Senhora ficou grávida entre as duas coisas.
Isso não era algo tão infrequente (uma vez que já estavam casados), mas sim era considerado um pouco vergonhoso, pois se entendia que o homem não tinha sabido esperar o momento adequado para iniciar a convivência marital. Por isso dá pra imaginar que quando os sinais da gravidez de Maria foram ficando evidentes, S. José começaria a receber olhares curiosos ou mesmo escutar algum comentário jocoso sobre o fato. E isso lhe teria perturbado.
Por uma lado, se ele esclarecesse que aquele filho não era seu, isso equivaleria a denunciar Nossa Senhora, como diz o Evangelho. A pena para a dedutivel infidelidade de Maria seria a pena de morte. Por outro lado, S. José tão-pouco queria entrar no jogo e fazer de conta que o filho de fato era seu: sendo um homem justo e santo, tudo que se assemelhasse a uma mentira lhe causava grande repugnância. Por isso se decide pelo caminho em que preservaria a vida de sua noiva, ao mesmo tempo que não teria que se manchar com a mentira. Isso sim, o que ficaria manchada seria sua reputação.
Ao abandoná-la secretamente, pareceria que José, após ter engravidado sua jovem esposa, tinha fugido da correspondente responsabilidade de cuidar dela e do filho. O que já não seria pouco sofrimento pra ele. Mas podemos pensar que maior dor lhe viria do próprio fato de ter que abandonar aquela moça a quem tanto amava. No entanto, essa é sua decisão, por não pensar em si, mas nela. No entanto, a modo semelhante ao de Abraão quando aceita sacrificar o seu filho Isaac, na última hora Deus previne José de dar esse passo terrível, enviando-lhe seu anjo durante o sonho.
Exemplo acabado de tantas virtudes, o santo Patriarca nos ensina com sua atitude a beleza da abnegação: do saber sacrificar o próprio conforto pelo bem dos outros. Ainda que não tenha sido biologicamente pai de Jesus, torna-se um exemplo maravilhoso de paternidade, que sempre implica esquecimento próprio e entrega. Busquemos nos inspirar no seu modelo para que Jesus nasça nas nossas vidas neste Natal.
“Nos dias de Herodes, rei da Judeia, vivia um sacerdote chamado Zacarias” (Lc 1, 5).
Ontem lemos um trecho do Evangelho de S. Mateus, e no domingo leremos outro, mas em todos os outros dias da novena de Natal lemos S. Lucas, que é o evangelista que descreve com mais detalhe os acontecimentos ao redor do nascimento de Nosso Senhor.
Por isso hoje vamos ao comecinho desse Evangelho, começando pelo 5º versículo, que nos apresenta Zacarias, sacerdote e casado com Isabel, prima de Nossa Senhora. Ele foi sorteado para um serviço muito importante que era oferecer o sacrifício de incenso no recinto conhecido como o “santo”, no Templo de Jerusalém. O santo ficava separado por um véu de um lugar mais santo ainda chamado “santo dos santos”, onde os sacerdotes não entravam habitualmente. No santo havia três coisas: a menorá (candelabro de sete velas), a mesa com os doze pães de preposição e o altar do incenso. Ao lado deste, onde Zacarias ia oferecer o sacrifício, apareceu o arcanjo S. Gabriel e lhe anunciou o nascimento do seu filho João, que seria conhecido como o Batista.
Agora, acontece que sua esposa Isabel era estéril e ele já era mais velho. Por isso Zacarias parece não prestar muita atenção à todas as coisas impressionantes que o anjo diz que seu filho fará, porque fica preso na dúvida, se de fato seria possível para ele ainda ter um filho. E questiona Gabriel nesse sentido.
O arcanjo não reage muito bem àquele questionamento. Mais ou menos diz aquilo de “você sabe com quem você tá falando?”, e lhe pune com a mudez. As coisas que foram profetizadas se hão de cumprir, apesar da incredulidade do sacerdote, porque essa é a vontade de Deus, mas ele mesmo não vai conseguir falar até ter visto o cumprimento da que o anjo lhe tinha anunciado. E assim se dá.
E tudo isso nos faz pensar. O Natal é a celebração de um nascimento. Todo nascimento é de certa forma um milagre. Como é o ressurgimento da natureza na primavera, nos países de clima mais temperado. A vida que, depois de experimentar o desgaste, o cansaço, a perda de ímpeto, se renova, revive. Surge algo novo.
“Ele dá ânimo ao cansado, recupera as forças do enfraquecido. Até os jovens se afadigam e cansam e mesmo os guerreiros às vezes tropeçam! Mas os que esperam no Senhor, renovam suas forças, criam asas como águia, correm e não se afadigam, andam, andam e nunca se cansam” (Is 40, 29ss).
Que bom momento esse do Natal e da virada do ano para buscar nos renovar junto a Deus, a olhar para a nossa vida com olhos de criança, a querer sonhar os sonhos de Deus para nós.
“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1, 38).
O Evangelho de hoje nos traz a outra embaixada realizada por S. Gabriel por conta do nascimento do Senhor: o anúncio a Maria, a cena conhecida como a Anunciação. E se na primeira Zacarias nos deu um exemplo de que não devemos fazer, Nossa Senhora nos oferece o modelo perfeito de como receber o Senhor na nossa vida. Não é à toa que muitos cristãos temos o costume de rezar diariamente a oração do Angelus, que resgata à nossa memória esse momento e esse exemplo.
A recente nota doutrinal Mater Populi fidelis esclarece que a cooperação de Santa Maria na nossa salvação é sobretudo dispositiva (cfr. num. 46): nos ajuda a termos as devidas disposições para receber a graça divina. Como vemos ela fazendo em Caná quando indica aos criados que façam o que o Senhor lhes disser e o milagre resultante serve para abrir os olhos dos discípulos, que começaram a acreditar no Senhor (cfr. Jo 2). Contemplar a cena da Anunciação certamente pode nos ajudar nesse sentido: ao nos apresentar as disposições que melhor irão nos preparar para o encontro com Cristo neste Natal.
Quando se apresenta diante dela, S. Gabriel a saúda com um cumprimento muito singular, que em português traduzimos como cheia de graça. O anjo vê a beleza de alma daquela donzela e solta um quase que galanteio. Diante disso o Evangelho não indica uma resposta de Maria, mas seu silêncio, um pouco perturbada diante da honra que lhe era tributada, tentando entender de que se tratava. Nossa Senhora é uma mulher humilde e meditativa, não se aproxima do sagrado com irreverência, mas uma consciência clara da sua pequenez diante de Deus.
O anjo se adianta para lhe tranquilizar e profetiza que será mãe de Jesus, que reinará no lugar de Davi.
Agora ela fala, perguntando como se fará isso. O que pode parecer uma pergunta surpreendente, uma vez que ela já estava inclusive prometida em casamento. A explicação mais razoável para essa sua indagação (e que encontramos na tradição cristã) é que ela tinha feito um voto de permanecer virgem, mesmo dentro do casamento. Voto que deveria ter comunicado previamente a seu noivo, pois a aceitação dele era inclusive uma condição para validade do voto (cfr. Num 30).
Daí a sua perplexidade diante do anúncio de que teria um filho. O que poderia nos lembrar a atitude de Zacarias, questionando justamente que seria pai na sua idade avançada. No entanto com a jovem donzela o arcanjo tem uma atitude muito distante da severidade que demonstrou com o sacerdote. Isso porque Ela não está questionando se o que lhe dizem é verdade ou não, mas sim como se dará. Por isso vemos aqui não incredulidade, mas o desejo de ser fiel aos caminhos pelos quais a tinha conduzido, de sempre buscar os modos de perseverar nos seus bons propósitos.
Uma vez esclarecida a questão, Nossa Senhora é de uma docilidade total e imediata: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1, 38).
Na quarta semana do Advento, já muito próximos do Natal, a liturgia nos introduz no mistério do Deus que se faz pequeno, próximo e acessível. José, Maria e João Batista continuam a nos acompanhar como guias neste caminho final, cada um com sua missão. A ternura da Mãe, a humildade do Precursor e a fidelidade do pai adotivo de Jesus nos ajudam a preparar o coração para acolher com gratidão e alegria o Salvador que vem. A seguir, acompanhe as homilias do padre Pedro Willemsens para esses últimos dias de espera.
“Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel” (Is 7, 14).
O 4º domingo do Advento sempre cai dentro da novena do Natal e por isso “quebra”, de certa forma, o fluxo das leituras da novena, fazendo com que ela seja diferente a cada ano. O trecho do Evangelho deste domingo inclusive repete o que já lemos na 5ª-feira, dia 18: a narrativa do nascimento de Cristo segundo Mateus. No entanto, as outras leituras não coincidem com as do dia 18, o que nos ajuda a prestar atenção em outros aspectos do Evangelho.
Em concreto a primeira leitura traz a profecia de Isaías citada pelo anjo no sonho de José: o anúncio desse sinal extraordinário de uma virgem concebendo e dando à luz. Isso serve de imediato para resolver o drama pessoal de S. José (como vimos em nossa homilia do dia 18), mas também nos ajuda a meditar sobre a natureza desse Menino que vai nascer no Natal, dentro de poucos dias.
“Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está conosco” (Mt 1, 23). Jesus significa “Deus salva”, expressando a sua missão, o que Ele veio fazer. Emmanuel fala sobre a sua natureza divina: Deus conosco.
Essa realidade nos foi anunciada de diversas formas. Desde outras passagens do Antigo Testamento, por exemplo, quando Deus repreende os maus pastores de Israel e diz que virá Ele mesmo pastorear suas ovelhas (cfr. Ez 34), até a parábola dos vinhateiros homicidas, quando, depois de enviar empregados para cobrar os agricultores o dono da vinha decide enviar seu próprio filho (cfr. Mt 21, 33-46). E é algo que deveria nos fazer pensar, quem sabe nos maravilhar.
Penso que não é difícil encontrar pessoas que acreditam na existência de um Deus criador, mas o vêem como distante, muito além do que podemos alcançar com nossos limitados meios. E a visão cristã concorda com isso, parcialmente. Sim, não tem sentido entender a Deus como um ser que eu possa manipular com magias ou rituais, ou mesmo que eu possa compreender com minha filosofia ou ciência. No entanto, nós acreditamos que esse Deus todo-poderoso quis se fazer próximo, quis “habitar entre nós” (Jo 1, 14).
E mais, esse Deus não só se fez próximo, mas inclusive pequeno: quis nascer como nós: uma criança pequena e indefesa, que certamente não pertencia às elites sociais do seu tempo. Deus se desarmou, para que nós nos desarmássemos diante desse espetáculo extraordinário.
É difícil não se enternecer diante de um bebê. Poder-se-ia argumentar inclusive que é um pouco apelativo usar crianças pequenas para aumentar a carga emocional de um vídeo ou imagem, ou para pedir dinheiro. O Natal é como uma apelação de Deus. Talvez depois de tentar ganhar, sem muito sucesso, o nosso coração com seu poder, Ele decidiu mudar de estratégia, e ganhar-nos pelo amor.
Oxalá neste Natal nos deixemos seduzir, deixemos que se derreta a dureza do nosso coração.
“A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1, 46).
Num encontro de ex-colegas de colégio no Natal passado, uma colega me comentou como seu filho tinha perguntado na catequese: “se João Batista batizou Jesus, quem batizou João Batista?” Achei a pergunta divertida. E penso que a resposta poderia ser: Nossa Senhora.
Se o dia 21 não tivesse caído no domingo teríamos lido nele a passagem referente à visitação, ou seja, o encontro entre Maria e sua prima Isabel. No anúncio de S. Gabriel, Nossa Senhora ficou sabendo que sua prima também estava grávida, e já no sexto mês. Por isso foi com pressa ajudar sua prima que já estava mais velha e agradeceria uma ajuda com os preparativos e tarefas domésticas.
A cena do encontro das duas é tocante e inspiradora. Basta que a voz de Nossa Senhora chegue aos ouvidos da prima que esta fica repleta da presença do Espírito Santo, e seu filho João dentro dela. E a graça de Deus se manifesta numa explosão de alegria. Nenhuma das duas esperava mais ter filhos, e eis que agora estão ambas grávidas por uma especial atuação de Deus em suas vidas.
Nesse contexto, depois das palavras de Isabel, escutamos Maria entoar um hino de louvor a Deus, repleto de gratidão. Hino que se conhece como o Magnificat, pois é com essa palavra que começa em latim: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva”.
As palavras seguintes parecem ser uma resposta ao elogio que lhe faz Isabel quando lhe diz “bendita entre as mulheres”. Pois Maria diz: “Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor”. E é muito interessante ver como ela não se esquiva ao louvor da prima, mas inclusive o amplifica, como quem diz: não é só você que diz isso, mas em todos os tempos as pessoas o dirão. Só que, isso sim, não atribui o mérito a si mesma, mas a Deus, por tudo o que Ele fez por Ela.
Assim, Nossa Senhora nos dá uma aula sobre a verdadeira humildade, que não é encolhimento nem fechar os olhos para a verdade. Antes é reconhecer os incontáveis dons de Deus na nossa vida e nos regozijar com eles, mas sabendo sempre render a devida glória ao nosso criador, fonte de tudo o que temos de bom.
Oxalá neste Natal também nós nos deixemos contagiar um pouco da sua humildade, da sua alegria e dessa abundante graça que Ela carrega e que transborda aonde quer que esteja.
“Levantai vossa cabeça e olhai, pois, a vossa redenção se aproxima!” (Lc 21, 28)
Chegamos então na véspera da véspera do Natal. E no paralelo que vamos acompanhando entre as duas embaixadas de S. Gabriel, entre a gravidez de Isabel e de Maria, hoje lemos no Evangelho o nascimento de João Batista.
Ao redor do seu nascimento se cria uma certa polêmica quanto ao nome da criança. Porque a mãe indica o nome de João, mas as pessoas estranham, uma vez que ninguém na família se chamava dessa forma. Por isso fazem pressão para que o dê o nome do pai: Zacarias, e vão consultá-lo. Zacarias, que antes tinha se comportado mal e tinha ficado mudo por isso, agora acerta. Escrevendo, confirma que o nome deve ser João.
João significa: o Senhor mostrou o seu favor, concedeu a sua graça. Assim seu pai deixa de lado um nome que faria referência a si mesmo, para fazer uma referência a Deus, enxergando naquele nascimento uma graça. Não escolhe o nome: “Deus me castigou”, mas sim “Deus me agraciou”. A perspectiva de ter um filho é-lhe muito mais significativa do que o incômodo de estar mudo. Zacarias adota uma postura humilde, agradecida e também dócil, porque João era o nome que S. Gabriel tinha lhe indicado.
Em seguida sua língua se solta e ele se põe a louvar a Deus. O que nos remete de certa forma ao próprio Céu: onde os santos continuamente louvam agradecidos a Deus por tudo o que fez em suas vidas, pela sua misericórdia. E lembra ainda o nascimento de seu antepassado Isaac, também nascido de um casal mais velho, sem filhos, onde a mulher, Sara, era considerada estéril. A boca desta se abre num sorriso, quando escuta o anúncio de que será mãe, por isso põem no seu filho o nome de riso ou risada, que é esse o significado de Isaac.
Antes Zacarias tinha se demonstrado fechado aos planos de Deus, por isso emudece. Agora que é dócil, volta a falar, e cumprir plenamente a sua vocação de sacerdote louvando a Deus diante dos demais. Para falar, primeiro é necessário ouvir.
Uma vez perguntaram a S. João Paulo II como o papa rezava. Ele respondeu: “como qualquer cristão. O papa fala e escuta. Por vezes fala menos e é aí quando escuta mais.”
Se conta de um rapaz que se aproximou um dia de Sócrates com um longo discurso pedindo que o admitisse como um dos seus discípulos. Sócrates topou e indicou o preço. Reparando que o valor era o dobro do que cobrava dos outros, o moço lhe perguntou o por quê da diferença. Ele explicou que com ele o trabalho seria dobrado: primeiro teria que ensinar a calar, para depois ensinar a falar.
Se Zacarias começou mal e terminou bem, mas com Nossa Senhora o trabalho de Deus não foi dobrado. Ela desde o começo se apresenta como a escrava do Senhor, alguém disposto a fazer tudo o que o Senhor quiser dela. Que o seu exemplo nos ajude a crescer em docilidade diante dos planos de Deus para nós.
No dia 22 ouvimos no Evangelho o Magnificat, o hino de louvor entoado por Nossa Senhora em casa de sua prima Isabel. Hoje escutamos o Benedictus, que é o hino de Zacarias, esposo de Isabel, por ocasião do nascimento do seu filho João.
Entre as chamadas horas da liturgia das horas, duas das mais importantes são as Laudes, que se rezam de manhã, e às Vésperas, que se rezam de noite. Nas Laudes se rezam sempre o Benedictus, nas Vésperas o Magnificat. Por sua força e beleza, a Igreja achou por bem na sua oração institucional oficial que esse dois hinos fossem repetidos todos os dias.
Para os gregos os artistas recebiam as suas criativas inspirações da visita sobrenatural das musas. No Evangelho, os dois que foram visitados pelo arcanjo S. Gabriel são apresentados entoando hinos que ficaram para a posteridade sendo constantemente repetidos. Já na própria noite de Natal, após anunciar aos pastores o nascimento do Salvador, são os próprios anjos que entoam seu canto de Glória ao Criador.
O Benedictus pode ser dividido em duas metades. Na primeira Zacarias cita Abraão e lembra as maravilhas de Deus que visita o seu povo para o libertar, como fez no Egito, e diversas outras vezes depois. Na segunda o pai se volta diretamente para seu filho que acaba de nascer e profetiza o seu destino.
“E tu, Menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois irás adiante do Senhor para preparar-lhe os caminhos, anunciando ao seu povo a salvação, pelo perdão dos seus pecados. Graças à misericordiosa compaixão do nosso Deus, o sol que nasce do alto nos visitará, para iluminar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte, e dirigir nossos passos no caminho da paz” (Lc 1, 76-79).
João não será o salvador, mas seu heraldo: aquele que vai à frente anunciando a chegada do rei. É uma composição muito presente já no Antigo Testamento: Samuel e Davi, o sacerdote (João é da tribo de Levi) e o rei (Jesus é da tribo de Judá), o profeta e o messias. João anuncia a chegada do sol, daquele que se apresentará como “a luz do mundo” (Jo 8, 12).
O 25 de dezembro era para os romanos o chamado solstício de inverno: o dia em, no hemisfério norte, a noite chega à sua maior duração e, pouco a pouco, a luz do dia começa a ganhar espaço à escuridão. O que nos indica que chegou a hora de recebermos o Senhor e sua luz na nossa vida. Que ele afugente as trevas do nosso coração e nos conduza para a sua paz.
Busquemos celebrar esta noite feliz com uma esperança sobrenatural muito viva. Com gratidão e o desejo de não só nos deixarmos conduzir cada vez melhor por Deus, mas levar a sua luz e a sua paz a muitas pessoas ao nosso redor.
Talvez a história de Natal mais famosa seja o Conto de Natal do inglês Charles Dickens. Nele se conta a história do anti-protagonista Scrooge, dominado pela avareza e detestando o Natal por interferir com seus negócios. Porém, após ser visitado pelo fantasma dos Natais passados, o fantasma dos Natais presentes e o dos Natais futuros, Scrooge muda completamente de atitude, torna-se um novo homem, a pessoa mais feliz do Natal.
“Em verdade, em verdade, te digo: se alguém não nascer de novo, não poderá ver o Reino de Deus!” (Jo 3, 3). Essa frase que Nosso Senhor diz a Nicodemos por vezes se traduz assim –como nascer de novo– outras por nascer do alto. E ambas versões estão corretas, pois a palavra ἄνωθεν literalmente significa a partir do alto mas no uso prático queria dizer mais frequentemente de novo, como quando a gente pede para uma pessoa reler uma página a partir do topo.
No Natal celebramos o Nascimento de Jesus e somos também nós convidados a nascer de novo, nascer do alto. E isso se dará através de três etapas, de três convites.
Primeiro o convite à gratidão. É a etapa da cabeça, pois a nossa interação com o mundo começa com a nossa percepção desse mundo. Como S. Mateus estava na mesa de coletar impostos quando Jesus o chamou, também Scrooge teve que tirar por um momento os olhos do dinheiro que tanto lhe ocupava. “Levantai os vossos olhos” (Jo 4, 35). A presença do Menino Jesus entre nós é um apelo de Deus para que nos demos conta da realidade do seu Amor por nós. “Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado o seu Filho único, para que vivamos por Ele” (1 Jo 4, 9). Não seria pouca mostra de amor que o príncipe de Mônaco viesse morar numa favela brasileira pro ter se apaixonado por uma moça daqui. Pois muito mais foi o que Deus fez por cada um de nós.
Depois, o Natal é também um convite à alegria. É a etapa do coração. A partir da percepção da realidade, o normal é termos uma reação emocional correspondente. E a reação que corresponde ao saber-se amado é a alegria: uma profunda satisfação interior, uma confirmação na vida, no existir. “O Senhor me fez rir” (Gen 21, 6), disse Sara, considerada estéril e já mais velha, quando soube que teria um filho. Na nossa cultura o Natal é uma festa muito voltada pras crianças, e isso pode nos ajudar a olhar o mundo com um novo deslumbramento, com o entusiasmo próprio do mistério de Deus que se fez um bebê por nós, com o desconcerto que produz um sorriso alegre.
Por último, o Natal é um convite à generosidade. É a etapa das mãos, dos braços, porque as emoções impelem à ação. Quem se sente amado naturalmente ama de volta e deseja manifestar esse amor na prática. “Sic nos amante, quis non redamaret?” (“Àquele que assim nos amou, quem não amará em troca?”) perguntamo-nos quando cantamos estes dias o Adeste fideles. É natural que queiramos ser generosos, como vemos no Scrooge ao final do conto de Dickens. Como os reis magos e seus dons. Como os presentes que trocamos estes dias. E oxalá também com a nossa piedade, com o desejo de manifestar ao Senhor nossa gratidão através do nosso louvor e da luta por sermos melhores.
“Quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 50). Viver plenamente o Natal é permitir que Cristo nasça em nós, se encarne no nosso coração e nas nossas ações, a partir do alto, abrindo nossos olhos à luz desta Noite Feliz. Maria, que nos apresenta Jesus no seu colo, é quem melhor nos serve de modelo de como perceber e responder ao maior dom que Deus nos fez.