Formação

Vida de São Bernardo de Claraval

Conheça a vida, espiritualidade, obras e legado de São Bernardo de Claraval, o Doutor Melífluo e grande reformador da Ordem Cisterciense.

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Vida de São Bernardo de Claraval

Conheça a vida, espiritualidade, obras e legado de São Bernardo de Claraval, o Doutor Melífluo e grande reformador da Ordem Cisterciense.

Data da Publicação: 19/08/2025
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC
Data da Publicação: 19/08/2025
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Autor: Redação MBC

Ao mergulharmos na vida de São Bernardo de Claraval, somos conduzidos a um tempo em que a fé moldava os corações, os mosteiros eram faróis de santidade e a voz de um homem podia reacender a chama do amor divino por toda a Cristandade. 

Conhecer sua trajetória é redescobrir a força da contemplação, o poder da pregação e a beleza de uma alma totalmente entregue a Deus.

Este artigo o convida a caminhar pelos passos de um dos maiores místicos da Igreja. Um homem que, com ternura mariana e vigor doutrinal, reformou, inspirou e conduziu a muitos pelo caminho da humildade, da caridade e da verdade. 

Quem foi São Bernardo de Claraval?

São Bernardo de Claraval, o Doutor Melífluo – título que remete à doçura de seu ensinamento e à unção de sua pregação –, é uma das figuras mais luminosas do século XII. Sua vida e obra moldaram profundamente a espiritualidade, a teologia e a própria história da Igreja.

Homem de alma ardente e intelecto privilegiado, uniu a mais profunda contemplação à mais intensa ação. Sua missão principal foi a reforma do monaquismo cisterciense, promovendo um retorno ao rigor e à pureza da Regra de São Bento.

Como fundador e primeiro abade da Abadia de Claraval, em 1115, transformou o mosteiro em um centro espiritual que irradiava santidade por toda a Europa — uma verdadeira schola pietatis, uma “escola da caridade”.

Era um místico autêntico. Sua pregação era comparada ao “aroma perfumado de um incenso que ardia em um coração aceso pelo Espírito Santo”, onde ele extraía “a doce essência da Escritura e dos Padres” e a transformava em “meditação amorosa”.

Sua devoção à Virgem Maria e ao Santíssimo Nome de Jesus o tornaram mestre do amor divino, e seus escritos, como a oração “Lembrai-vos”, continuam a alimentar a piedade dos fiéis.

Sua influência foi tamanha que um de seus discípulos, Bernardo de Pisa, tornou-se Papa com o nome de Eugênio III.

A Igreja reconheceu sua sabedoria e santidade ao declará-lo Doutor da Igreja em 1830, sob o pontificado de Pio VIII.

São Bernardo também é um exemplo de profunda humildade. Segundo Guilherme de Saint-Thierry, seu amigo e biógrafo, ele ensinava: “desprezar o mundo, não desprezar ninguém, desprezar a si mesmo, desprezar tudo” 1.

Quando e onde nasceu São Bernardo de Claraval?

Nasceu em 1090, no castelo de Fontaines-lès-Dijon, na Borgonha, França. Era o terceiro de sete filhos de uma família nobre e profundamente cristã.

Sua mãe, Aliete, é retratada como mulher santa, caridosa e evangelizadora dentro do lar. Ela tinha o costume de receber sacerdotes em casa para que seus filhos fossem tocados pela fé.

Desde cedo, Bernardo revelou um temperamento reflexivo e contemplativo, marcado por certa timidez, mas com sinais de vocação religiosa.

Quando e onde morreu São Bernardo de Claraval?

São Bernardo faleceu em 20 de agosto de 1153, um mês após a morte de seu discípulo e amigo, o Papa Eugênio III.

Morreu na própria Abadia de Claraval, local que ele fundara e onde viveu por décadas como abade e mestre espiritual. Ali, sentia-se em casa: era seu “habitat natural”, onde vivia “mais intensamente com Deus”.

Quando é o dia de São Bernardo de Claraval?

A memória litúrgica de São Bernardo é celebrada no dia 20 de agosto, data de sua morte.

Vinte e um anos após seu falecimento, foi canonizado. Em 1830, foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio VIII, reconhecimento de sua profundidade teológica e espiritual.

Um de seus milagres mais lembrados é o episódio em que converteu o Conde Guilherme com a simples exposição do Santíssimo Sacramento, evidenciando sua fé profunda na presença real de Cristo na Eucaristia 2.

A vida de São Bernardo de Claraval

A biografia de São Bernardo, abade de Claraval, é um testemunho eloquente da ação da graça divina na história da Igreja. Sua jornada, marcada por um ardor incomparável e uma dedicação plena à fé católica, desdobra-se em momentos centrais que influenciaram profundamente a espiritualidade, a teologia e o monaquismo do século XII.

Infância e juventude

São Bernardo nasceu em 1090, no castelo de Fontaines-lès-Dijon, na região da Borgonha, França. Era o terceiro de sete filhos de uma família nobre e profundamente cristã.

Seu pai, Tescelin, era um exemplo de autêntica nobreza, que temia a Deus e defendia a justiça. Sua mãe, Aliete, descendente da casa de Montbard, foi uma figura central em sua formação, vivendo conforme as orientações apostólicas e criando os filhos para obedecerem às boas maneiras.

Aliete era notável por sua caridade, visitando pobres e enfermos e prestando-lhes os serviços mais humildes. Com o intuito de familiarizar os filhos com sacerdotes e, assim, ajudá-los a encontrar a vocação, ela convidava padres do vilarejo ao castelo anualmente na festa de Santo Ambrósio. Ela educou os filhos para o “ermo, e não para a vida na corte”, com refeições muito frugais.

Bernardo, em sua juventude, era descrito como um jovem “silencioso, quieto e tímido, desajeitado nas atividades do dia a dia e muito responsável para a sua idade”. A morte precoce de sua mãe, ocorrida entre 1105 e 1110, quando ele estudava em Châtillon-sur-Seine, teve um impacto profundo. A imagem de sua santa mãe o perseguia, censurando-o por suas trivialidades e passatempos mundanos, o que, por fim, o impeliu a entrar no mosteiro aos 21 anos.

Vocação e missão

A vocação de Bernardo para a vida monástica em Cister não foi solitária. Embora sua decisão inicial tenha sido “fortemente reprovada por seus irmãos e por Tescelin, seu ardente entusiasmo por Cristo conseguiu estimular seus irmãos e outros jovens da vizinhança.

De fato, São Bernardo entrou para Cister levando trinta companheiros, incluindo seu tio Gaudrico e quatro de seus irmãos. O primeiro biógrafo de Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry, questionava: “Bernardo, Bernardo, por quê, com qual objetivo, você veio parar aqui, o que veio fazer aqui?”, e respondia que era para se entregar a Deus e ocupar-se de Deus.

Em 1115, com apenas 25 anos, Bernardo foi eleito abade da nova fundação de Cister, Claraval. A escolha, a despeito de sua saúde precária e pouca idade, revelava o discernimento do abade Estêvão, que o via como “o homem de gênio e de santidade que não se pode demorar a pôr no castiçal para que ilumine todos aqueles que dele se aproximam”.

Claraval, em pouco tempo, tornou-se uma “escola da ternura” (schola pietatis), um verdadeiro “epicentro da Cristandade”, de onde se irradiavam a vitalidade monástica e a profundidade da vida espiritual, expandindo a Ordem Cisterciense prodigiosamente. Para Bernardo, o claustro e o mosteiro eram o “pequeno leito onde repousa próximo a seu Esposo”.

Virtudes

São Bernardo de Claraval é reverenciado como o “Doutor Melífluo”, um nome que ressoa a doçura e a unção de sua pregação e de seus ensinamentos. Sua eloquência, nutrida por um estudo profundo da fé, extraía a doce essência da Escritura e dos Padres, refinando-a em uma meditação amorosa.

Entre suas virtudes mais notáveis, destacam-se:

  • Humildade: Bernardo praticava o que ensinava, compreendendo-a como a virtude “pela qual o homem, conhecendo-se verdadeiramente a si mesmo, se torna vil a si mesmo” 3. Antes mesmo de entrar no noviciado, ele já se comprometera a viver o que viria a ensinar.
  • Zelo: um ardor incansável o impulsionava, comparado por Bossuet a “um vinho balsâmico”. Esse zelo, unido à pureza, permeava toda a sua vida.
  • Sabedoria: sua inteligência era tal que “Deus encontrara em José, como outrora em Davi, um homem forjado segundo Seu próprio coração, a quem poderia confiar com segurança o segredo mais sagrado e mais íntimo de Seu Coração” 4.
  • Amor à Virgem Maria: tinha uma reverência especial pela Mãe Santíssima, que lhe havia sido inculcada por sua própria mãe. São Bernardo exaltava a dignidade singular de Maria, que “possui a alegria da maternidade e a honra da virgindade”, um privilégio “singular e inefável” 5.

Bernardo possuía uma impressão ardente de Jesus Cristo em seu coração. Sua vida foi um exemplo de como a ação e a contemplação podem ser perfeitamente conciliadas.

Mesmo com solicitude por todas as igrejas, ele encontrava em Claraval seu “habitat natural”, vivendo mais intensamente com Deus.

Sua capacidade de amar muitos amigos livremente, guiado pelo Espírito Santo, demonstra que a austeridade monástica não sufocava a caridade, mas a expandia e purificava.

Episódios marcantes da vida de São Bernardo

A vida de São Bernardo de Claraval foi marcada por acontecimentos decisivos que revelam sua profunda influência espiritual, intelectual e eclesial. Estes episódios, retirados da obra Vida de São Bernardo, de Robert Thomas 6, ilustram de modo vívido sua personalidade, sua missão e o impacto de sua atuação na Igreja e na sociedade do século XII.

O chamado de familiares e jovens ao mosteiro: sua capacidade de atrair outros ao ideal monástico com seu exemplo de santidade

Um dos episódios mais impressionantes da vida de São Bernardo foi sua entrada em Cister, em 1112. Seu ardor por Cristo era tão grande que não se contentou em seguir sozinho: levou consigo trinta companheiros, incluindo quatro de seus irmãos e até seu tio Gaudrico. Esse gesto marcante revelou seu dom de atrair almas para Deus e se tornou símbolo de seu futuro papel como guia e mestre espiritual. O ingresso coletivo transformou-se em um sinal da providência divina e prenúncio da força que Claraval teria para toda a Cristandade.

O confronto com Abelardo no Concílio de Sens: defesa da fé contra heresias e erros doutrinais com clareza e caridade

São Bernardo foi um incansável defensor da verdade da Fé Católica contra os erros doutrinais que ameaçavam a Igreja de sua época. Ele confrontou o célebre filósofo Pedro Abelardo, cuja inteligência singular e método dialético corriam o risco de “não respeitar suficientemente os mistérios que, precisamente, ultrapassam a razão, e pedem a esta última uma humilde submissão” 7.

Bernardo, partilhando dos receios de amigos teólogos, acreditava que “é preciso crer no mistério da Trindade, não discuti-lo” 7. Ao tomar conhecimento dos tratados de Abelardo que chocavam sua fé, como o Sic et Non e a Introdução à Teologia Cristã, Bernardo suplicou a bispos que interviessem contra essas “novidades perigosas que cheiravam a heresia” 7.

Ele redigiu um tratado dos erros de Abelardo, enviando-o ao Papa Inocêncio II, e escreveu “várias cartas à cúria romana” 7. No Concílio de Sens, em 1141, a intenção de Bernardo não era debater, mas condenar as doutrinas de Abelardo. Ele preparou a sessão com os bispos na ausência do adversário, de modo que, no momento decisivo, “a causa já havia sido decidida” 7.

A sentença contra Abelardo foi ratificada por Roma, pois Bernardo havia se antecipado, enviando mensagens ao Sumo Pontífice. Apesar da firmeza necessária ao combate à heresia, São Bernardo mantinha sua alma “calma, pacífica, de modo a poder compartilhar os ensinamentos com seus irmãos, usufruindo de total liberdade interior” 7.

Conselheiro de papas e mediador de conflitos: atuação decisiva na eleição do Papa Inocêncio II e na pacificação de disputas eclesiásticas

São Bernardo exerceu um papel singular como conselheiro de papas e mediador de importantes conflitos, sendo a eleição do Papa Inocêncio II um dos exemplos mais claros 8.

Em um momento de cisma, Bernardo interveio decisivamente, proclamando em nome de todos a necessidade de “acolher Inocêncio como soberano pontífice” 8. Sua declaração foi ratificada por todos os presentes, que “prometeram obediência ao Papa Inocêncio e subscreveram à sua eleição” 8. Ele agia com uma segurança que brotava de sua segurança com Deus, decidindo “por toda a Cristandade” 8.

Sua influência era tamanha que, ao saber da eleição de seu antigo pupilo e monge, Bernardo de Pisa, como Papa Eugênio III, ele, embora orgulhoso, lamentou o fato de o ver mergulhado “no tumulto e na confusão dos negócios” do papado, um homem que “só desejava uma coisa, que era manter-se longe de tudo isso” 8.

Além disso, São Bernardo interveio em disputas delicadas, como a que envolveu o rei  Henrique, arcebispo de Reims, acusado de simonia. Escreveu ao Papa Honório, expressando orações pela Igreja e louvando o Pontífice como “guardião tão fiel” da Esposa de Cristo, ao mesmo tempo em que alertava contra a perseguição à “piedade nascente” do arcebispo 8.

Pregação da Segunda Cruzada: seu papel como pregador oficial e o impacto espiritual de suas palavras

São Bernardo foi o principal motor espiritual da Segunda Cruzada, atuando como “pregador oficial da Cruzada” a mando do Papa Eugênio III 8.

Dotado do “dom da pregação” e conhecido como Doutor Melífluo, por ser doce como mel, suas palavras eram como “o aroma perfumado de um incenso que ardia em um coração aceso pelo Espírito Santo” 8. Sua eloquência brotava não de uma retórica vazia, mas de um “estudo profundo da Fé” 9.

As “pregações e as exortações por escrito de Bernardo lograram um êxito estrondoso”, mobilizando “guerreiros em número imenso – igual, senão superior, ao total da Primeira Cruzada” 9.

Após celebrar a Missa na catedral, Bernardo dirigiu-se ao Rei Conrado III, pedindo-lhe que tomasse a cruz. O rei respondeu: “Agora reconheço que isto à minha frente é nitidamente uma dádiva da graça divina; e não serei ingrato (…) estou pronto a servi-lo!” 9. Bernardo então “pegou uma cruz de pano já preparada e prendeu-a no rei” 9.

Essa adesão real inspirou outros nobres e clérigos, inclusive seu sobrinho, o futuro Frederico Barbarossa, a também tomarem a cruz 9. A missão de pregação de São Bernardo, ainda que vista com reservas em tempos posteriores, foi descrita como um “trabalho sagrado” de um homem “inteiramente dedicado a Cristo, à sua Igreja e ao seu vigário na Terra” 9.

A espiritualidade de São Bernardo de Claraval

A espiritualidade de São Bernardo é um convite a uma união profunda com Deus através da caridade e da devoção mariana, fruto de uma alma “fervorosa, cheia de fogo interior” 10 e “inteiramente devotada à Fé Católica” 11.

Saiba mais sobre o que foram as Cruzadas.

Teologia mística centrada na caridade e na união com Deus

São Bernardo é reconhecido como um “extraordinário teólogo”, cujos escritos se destacam por uma “alta piedade” 10. Sua sabedoria era extraída da “Sagrada Escritura por meio de contínua meditação” 11.

Os mestres cistercienses, com Bernardo entre os principais, são chamados de “verdadeiros doutores do amor divino” 10. A abadia de Claraval era uma schola pietatis, uma escola da ternura, especializada na caridade 10.

Sua vida era marcada por constante contemplação, uma busca interior que “arrebatava o ser” 11. Ele “criou uma solidão no coração e perseverou na oração” 11.

Aos noviços dizia: “Se desejas entrar aqui, deixa à porta o corpo que trouxeste do mundo contigo; aqui só há lugar para tua alma” 11. Ele próprio se perguntava diariamente: “A que fim vieste?” 11.

Para ele, o monge devia viver “puro e casto como os anjos”, “elevar seus pensamentos como os profetas” e “abandonar tudo como os Apóstolos” 11. Tinha a graça de “conciliar as necessidades exteriores com a profunda meditação interior” 8, permanecendo “totalmente voltado para dentro, em estado de contemplação” 8.

Durante a Santa Missa, seu coração “queimando de contrição”, oferecia a Deus seus pecados no sacrifício de Cristo 11.

Devoção à Virgem Maria

Entre as expressões mais belas da espiritualidade de São Bernardo está seu amor ardente pela Santíssima Virgem Maria. Desde a infância, nutrido por sua mãe Aliete, Bernardo cresceu na reverência à Mãe de Deus — e essa devoção floresceu com intensidade ao longo de sua vida monástica.

Ele via em Maria a medianeira de todas as graças e dizia com convicção que “nenhuma graça desce do céu senão pelas mãos de Maria” 11. Por isso, chamava-a com amor de “Porta do Céu”, expressão que ressoa até hoje na Ladainha Lauretana.

São Bernardo é tradicionalmente apontado como o autor da oração “Lembrai-vos” (Memorare), que por séculos tem sido recitada pelos fiéis com confiança filial. A simplicidade da súplica, unida à teologia da intercessão mariana, reflete o coração de Bernardo: intelectual refinado e filho devoto.

Ele desafiava seus ouvintes a “encontrarem algo de duro na fisionomia evangélica e tradicional da Mãe de Deus” 11, porque conhecia Maria como mãe compassiva, intercessora poderosa e modelo perfeito de humildade, pureza e confiança.

Na escola de Claraval, Maria não era apenas objeto de veneração, mas modelo de vida interior, presença silenciosa que formava os monges no amor a Cristo. Como mestre espiritual, São Bernardo nos recorda que quem ama Maria se aproxima com segurança de seu filho Jesus.

Não deixe de conferir o nosso guia completo para católicos sobre Nossa Senhora.

O legado de São Bernardo de Claraval

O legado de São Bernardo de Claraval transcende seu tempo. Ele é considerado, com razão, um dos maiores santos da Idade Média e um dos homens mais influentes da história da Igreja. Sua vida, marcada por contemplação profunda e ação apostólica fervorosa, serviu de ponte entre o ideal monástico e os grandes dilemas do mundo eclesial e político de sua época.

Com uma espiritualidade centrada na caridade, Bernardo formou gerações inteiras de monges, escreveu tratados, cartas, sermões e se envolveu em debates teológicos e decisões políticas que moldaram a Cristandade. Ele aconselhou papas, pacificou conflitos, converteu corações endurecidos e defendeu a ortodoxia com clareza e misericórdia.

Ribadeneira afirmou que “ele mesmo foi o primeiro e o maior de todos os milagres” 11. E de fato, mais do que os milagres realizados, foi sua própria vida — uma síntese de sabedoria, ternura, força e santidade — que permanece como sinal profético para a Igreja.

Sua influência modelou o espírito cisterciense e inspirou outros grandes reformadores, como São Norberto e São Bruno. O Papa Pio XII, ao escrever sua encíclica sobre São Bernardo no oitavo centenário de sua morte, reafirmou sua importância como “farol da fé, da doutrina e do zelo eclesial”.

A Igreja sempre teve grandes santos, mas poucos com a universalidade de impacto, a força de ação e a profundidade teológica de Bernardo de Claraval.

Canonização de São Bernardo de Claraval

A santidade de São Bernardo de Claraval foi reconhecida já em vida por toda a Cristandade. Seu prestígio, suas virtudes e sua sabedoria atraíam multidões e inspiravam confiança mesmo entre os mais altos dignitários da Igreja. Não por acaso, vinte e um anos após sua morte, ocorrida em 1153, ele foi canonizado solenemente.

A canonização foi proclamada pelo Papa Alexandre III, em 1174, apenas duas décadas após seu falecimento — um tempo relativamente breve para os padrões da época, o que atesta a comoção e a veneração popular já existente em torno de sua figura 11.

Séculos depois, sua doutrina foi formalmente reconhecida pela Igreja. Em 1830, o Papa Pio VIII declarou São Bernardo como Doutor da Igreja, elevando-o à mais alta dignidade teológica e espiritual reconhecida a um santo. Desde então, é chamado oficialmente de “Doutor Melífluo”, título que expressa a suavidade, profundidade e unção com que comunicava os mistérios divinos 11.

Em 1953, por ocasião do oitavo centenário de sua morte, o Papa Pio XII publicou a encíclica Doctor Mellifluus, inteiramente dedicada a São Bernardo. Nela, o Pontífice recorda sua “extraordinária influência sobre seu tempo”, a beleza de sua pregação e a atualidade de sua espiritualidade. Pio XII reafirmou que São Bernardo é “um dos maiores mestres da vida interior que a Igreja já teve”.

A canonização e a proclamação de seu doutorado são sinais perenes de que sua vida, escritos e exemplo não pertencem apenas ao passado, mas continuam a iluminar e formar os fiéis de todos os tempos.

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Obras de São Bernardo de Claraval

As obras de São Bernardo de Claraval são um verdadeiro tesouro de sabedoria divina, nascidas da oração, da contemplação e do zelo pastoral. Bernardo escrevia com suavidade e profundidade, como quem destilava o mel da Sagrada Escritura. Sua “ciência”, como diz a tradição, era extraída “da Escritura, por meio de contínua meditação” 11.

A seguir, destacamos suas principais obras:

Sermões sobre o Cântico dos Cânticos

Essa coletânea de 86 sermões inacabados é considerada uma das maiores expressões da teologia mística medieval. São Bernardo interpreta o Cântico de Salomão como um diálogo de amor entre Cristo e a alma, explorando as nuances do desejo espiritual, da união divina e da caridade perfeita.

Logo no início de um de seus sermões, ele invoca o Espírito Santo, dizendo: “Tão plenos do teu amor, ó Amor, que sejamos capazes de compreender o cântico do amor.” Ao final de outro sermão, percebe-se claramente a alma vibrante do santo: seu amor por Jesus, o Esposo da alma, transborda em cada linha.

De Diligendo Deo (Sobre o Amor de Deus)

Escrito a pedido de Amalrico, chanceler da cúria romana, este tratado breve e denso trata dos motivos e dos graus do amor a Deus. Bernardo conduz o leitor desde o amor por interesse até o amor puro a Deus por Ele mesmo — o auge da caridade cristã.

É uma das mais belas expressões da teologia afetiva cisterciense e ajuda o leitor a ordenar seus afetos à luz da graça.

De Gradibus Humilitatis et Superbiae (Os Graus da Humildade e da Soberba)

Nesta obra — publicada em português pela Minha Biblioteca Católica em 2020 — São Bernardo comenta o capítulo 7 da Regra de São Bento, descrevendo os 12 graus da humildade e os 12 graus da soberba. Foi escrita a pedido de seu primo e companheiro, Godofredo de la Roche-Vanneau.

Em tom humilde, Bernardo escreve: “Pode parecer-te que, em vez dos graus da humildade, descrevi os graus da soberba” 12. No prefácio da obra, revela-se sua alma: hesitante, mas obediente; temerosa, mas movida pelo amor.

Apologia a Guilherme de Saint-Thierry

Este texto surge de uma crise entre Cluny e Cister. Pressionado por seu amigo Guilherme, Bernardo escreve uma defesa equilibrada da austeridade cisterciense, mas também corrige os excessos de seus próprios irmãos de hábito. Ele denuncia escândalos, mas destaca que a caridade é a verdadeira regra da vida monástica e que o bem do outro deve ser considerado como próprio.

Vida de São Malaquias

Nesta comovente biografia, Bernardo narra a vida de seu amigo, o arcebispo irlandês Malaquias. O texto é repleto de milagres, exemplos de santidade e revelações espirituais. A amizade entre os dois é um exemplo de como a verdadeira caridade cristã une as almas em Cristo, e como a comunhão dos santos começa já nesta vida.

Cartas e Homilias

São Bernardo deixou uma vasta coleção de mais de 500 cartas, dirigidas a papas, reis, monges e leigos. São documentos preciosos para conhecer sua atuação pastoral e seu coração cheio de zelo pela Igreja.

Em suas homilias, abordava temas como a humildade, a ascese, os perigos da tibieza espiritual, e os ataques à fé. Em uma delas, denunciava os hereges maniqueus que destruíam a vinha do Senhor e rejeitavam os sacramentos. Em outra, descreve os perigos dos monges que, após certo fervor inicial, deixam de progredir por estagnação e soberba.

Essas obras não são apenas páginas do passado: são vozes vivas da tradição da Igreja, ensinando com doçura e firmeza o caminho da santidade.

São Bernardo de Claraval é padroeiro de quê?

São Bernardo de Claraval é reconhecido como padroeiro da Ordem Cisterciense, por ter sido não apenas um de seus maiores reformadores, mas também o fundador da abadia de Claraval, um verdadeiro farol espiritual da vida monástica no século XII. Seu exemplo de pobreza, caridade, disciplina e contemplação moldou definitivamente a identidade cisterciense.

Ele é também tradicionalmente considerado padroeiro dos apicultores e dos fabricantes de velas. Esse título deriva de sua fama como “Doutor Melífluo”, expressão que significa “doce como o mel”. Essa doçura não se refere apenas ao estilo de sua pregação, mas à profundidade e suavidade com que transmitia os mistérios de Deus — como o mel que, extraído com esforço, alimenta e cura.

Esse simbolismo da doçura da Palavra e da luz das velas está intimamente ligado à sua missão de clarear os corações e inflamar os fiéis com o amor de Deus. Daí também sua associação com os candeeiros de cera, que representam a luz suave, contínua e perfumada da fé.

A vida de São Bernardo de Claraval permanece como um farol que atravessa os séculos, iluminando os corações que desejam ardentemente a Deus. Monge, abade, místico, pregador, conselheiro de papas e doutor da Igreja — ele foi tudo isso, mas, acima de tudo, um homem que viveu profundamente a caridade. 

Sua sabedoria melíflua continua a tocar almas e a formar santos, porque brotou de um coração abrasado pelo amor a Cristo e à Virgem Maria. Que o exemplo deste gigante da fé nos leve a buscar a humildade verdadeira, a amar a Igreja com generosidade e a trilhar, com confiança, o caminho da santidade.

Referências

  1. GUILHERME DE SAINT-THIERRY, s.d., p. 263[]
  2. BUTLER, s.d., p. 103[]
  3. SÃO BOAVENTURA, s.d., p. 350[]
  4. SÃO BERNARDO apud BORGONGNI, s.d., p. 92[]
  5. SÃO BERNARDO apud BORGONGNI, s.d., p. 93[]
  6. Minha Biblioteca Católica, 2020[]
  7. THOMAS, 2020, p. 213[][][][][][]
  8. THOMAS, 2020, p. 137[][][][][][][][][][]
  9. THOMAS, 2020, p. 138[][][][][][]
  10. THOMAS, 2020, p. 159[][][][]
  11. THOMAS, 2020, p. 160[][][][][][][][][][][][][][]
  12. OS GRAUS DA HUMILDADE E DA SOBERBA, p. 103[]
Redação MBC

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Ao mergulharmos na vida de São Bernardo de Claraval, somos conduzidos a um tempo em que a fé moldava os corações, os mosteiros eram faróis de santidade e a voz de um homem podia reacender a chama do amor divino por toda a Cristandade. 

Conhecer sua trajetória é redescobrir a força da contemplação, o poder da pregação e a beleza de uma alma totalmente entregue a Deus.

Este artigo o convida a caminhar pelos passos de um dos maiores místicos da Igreja. Um homem que, com ternura mariana e vigor doutrinal, reformou, inspirou e conduziu a muitos pelo caminho da humildade, da caridade e da verdade. 

Quem foi São Bernardo de Claraval?

São Bernardo de Claraval, o Doutor Melífluo – título que remete à doçura de seu ensinamento e à unção de sua pregação –, é uma das figuras mais luminosas do século XII. Sua vida e obra moldaram profundamente a espiritualidade, a teologia e a própria história da Igreja.

Homem de alma ardente e intelecto privilegiado, uniu a mais profunda contemplação à mais intensa ação. Sua missão principal foi a reforma do monaquismo cisterciense, promovendo um retorno ao rigor e à pureza da Regra de São Bento.

Como fundador e primeiro abade da Abadia de Claraval, em 1115, transformou o mosteiro em um centro espiritual que irradiava santidade por toda a Europa — uma verdadeira schola pietatis, uma “escola da caridade”.

Era um místico autêntico. Sua pregação era comparada ao “aroma perfumado de um incenso que ardia em um coração aceso pelo Espírito Santo”, onde ele extraía “a doce essência da Escritura e dos Padres” e a transformava em “meditação amorosa”.

Sua devoção à Virgem Maria e ao Santíssimo Nome de Jesus o tornaram mestre do amor divino, e seus escritos, como a oração “Lembrai-vos”, continuam a alimentar a piedade dos fiéis.

Sua influência foi tamanha que um de seus discípulos, Bernardo de Pisa, tornou-se Papa com o nome de Eugênio III.

A Igreja reconheceu sua sabedoria e santidade ao declará-lo Doutor da Igreja em 1830, sob o pontificado de Pio VIII.

São Bernardo também é um exemplo de profunda humildade. Segundo Guilherme de Saint-Thierry, seu amigo e biógrafo, ele ensinava: “desprezar o mundo, não desprezar ninguém, desprezar a si mesmo, desprezar tudo” 1.

Quando e onde nasceu São Bernardo de Claraval?

Nasceu em 1090, no castelo de Fontaines-lès-Dijon, na Borgonha, França. Era o terceiro de sete filhos de uma família nobre e profundamente cristã.

Sua mãe, Aliete, é retratada como mulher santa, caridosa e evangelizadora dentro do lar. Ela tinha o costume de receber sacerdotes em casa para que seus filhos fossem tocados pela fé.

Desde cedo, Bernardo revelou um temperamento reflexivo e contemplativo, marcado por certa timidez, mas com sinais de vocação religiosa.

Quando e onde morreu São Bernardo de Claraval?

São Bernardo faleceu em 20 de agosto de 1153, um mês após a morte de seu discípulo e amigo, o Papa Eugênio III.

Morreu na própria Abadia de Claraval, local que ele fundara e onde viveu por décadas como abade e mestre espiritual. Ali, sentia-se em casa: era seu “habitat natural”, onde vivia “mais intensamente com Deus”.

Quando é o dia de São Bernardo de Claraval?

A memória litúrgica de São Bernardo é celebrada no dia 20 de agosto, data de sua morte.

Vinte e um anos após seu falecimento, foi canonizado. Em 1830, foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio VIII, reconhecimento de sua profundidade teológica e espiritual.

Um de seus milagres mais lembrados é o episódio em que converteu o Conde Guilherme com a simples exposição do Santíssimo Sacramento, evidenciando sua fé profunda na presença real de Cristo na Eucaristia 2.

A vida de São Bernardo de Claraval

A biografia de São Bernardo, abade de Claraval, é um testemunho eloquente da ação da graça divina na história da Igreja. Sua jornada, marcada por um ardor incomparável e uma dedicação plena à fé católica, desdobra-se em momentos centrais que influenciaram profundamente a espiritualidade, a teologia e o monaquismo do século XII.

Infância e juventude

São Bernardo nasceu em 1090, no castelo de Fontaines-lès-Dijon, na região da Borgonha, França. Era o terceiro de sete filhos de uma família nobre e profundamente cristã.

Seu pai, Tescelin, era um exemplo de autêntica nobreza, que temia a Deus e defendia a justiça. Sua mãe, Aliete, descendente da casa de Montbard, foi uma figura central em sua formação, vivendo conforme as orientações apostólicas e criando os filhos para obedecerem às boas maneiras.

Aliete era notável por sua caridade, visitando pobres e enfermos e prestando-lhes os serviços mais humildes. Com o intuito de familiarizar os filhos com sacerdotes e, assim, ajudá-los a encontrar a vocação, ela convidava padres do vilarejo ao castelo anualmente na festa de Santo Ambrósio. Ela educou os filhos para o “ermo, e não para a vida na corte”, com refeições muito frugais.

Bernardo, em sua juventude, era descrito como um jovem “silencioso, quieto e tímido, desajeitado nas atividades do dia a dia e muito responsável para a sua idade”. A morte precoce de sua mãe, ocorrida entre 1105 e 1110, quando ele estudava em Châtillon-sur-Seine, teve um impacto profundo. A imagem de sua santa mãe o perseguia, censurando-o por suas trivialidades e passatempos mundanos, o que, por fim, o impeliu a entrar no mosteiro aos 21 anos.

Vocação e missão

A vocação de Bernardo para a vida monástica em Cister não foi solitária. Embora sua decisão inicial tenha sido “fortemente reprovada por seus irmãos e por Tescelin, seu ardente entusiasmo por Cristo conseguiu estimular seus irmãos e outros jovens da vizinhança.

De fato, São Bernardo entrou para Cister levando trinta companheiros, incluindo seu tio Gaudrico e quatro de seus irmãos. O primeiro biógrafo de Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry, questionava: “Bernardo, Bernardo, por quê, com qual objetivo, você veio parar aqui, o que veio fazer aqui?”, e respondia que era para se entregar a Deus e ocupar-se de Deus.

Em 1115, com apenas 25 anos, Bernardo foi eleito abade da nova fundação de Cister, Claraval. A escolha, a despeito de sua saúde precária e pouca idade, revelava o discernimento do abade Estêvão, que o via como “o homem de gênio e de santidade que não se pode demorar a pôr no castiçal para que ilumine todos aqueles que dele se aproximam”.

Claraval, em pouco tempo, tornou-se uma “escola da ternura” (schola pietatis), um verdadeiro “epicentro da Cristandade”, de onde se irradiavam a vitalidade monástica e a profundidade da vida espiritual, expandindo a Ordem Cisterciense prodigiosamente. Para Bernardo, o claustro e o mosteiro eram o “pequeno leito onde repousa próximo a seu Esposo”.

Virtudes

São Bernardo de Claraval é reverenciado como o “Doutor Melífluo”, um nome que ressoa a doçura e a unção de sua pregação e de seus ensinamentos. Sua eloquência, nutrida por um estudo profundo da fé, extraía a doce essência da Escritura e dos Padres, refinando-a em uma meditação amorosa.

Entre suas virtudes mais notáveis, destacam-se:

  • Humildade: Bernardo praticava o que ensinava, compreendendo-a como a virtude “pela qual o homem, conhecendo-se verdadeiramente a si mesmo, se torna vil a si mesmo” 3. Antes mesmo de entrar no noviciado, ele já se comprometera a viver o que viria a ensinar.
  • Zelo: um ardor incansável o impulsionava, comparado por Bossuet a “um vinho balsâmico”. Esse zelo, unido à pureza, permeava toda a sua vida.
  • Sabedoria: sua inteligência era tal que “Deus encontrara em José, como outrora em Davi, um homem forjado segundo Seu próprio coração, a quem poderia confiar com segurança o segredo mais sagrado e mais íntimo de Seu Coração” 4.
  • Amor à Virgem Maria: tinha uma reverência especial pela Mãe Santíssima, que lhe havia sido inculcada por sua própria mãe. São Bernardo exaltava a dignidade singular de Maria, que “possui a alegria da maternidade e a honra da virgindade”, um privilégio “singular e inefável” 5.

Bernardo possuía uma impressão ardente de Jesus Cristo em seu coração. Sua vida foi um exemplo de como a ação e a contemplação podem ser perfeitamente conciliadas.

Mesmo com solicitude por todas as igrejas, ele encontrava em Claraval seu “habitat natural”, vivendo mais intensamente com Deus.

Sua capacidade de amar muitos amigos livremente, guiado pelo Espírito Santo, demonstra que a austeridade monástica não sufocava a caridade, mas a expandia e purificava.

Episódios marcantes da vida de São Bernardo

A vida de São Bernardo de Claraval foi marcada por acontecimentos decisivos que revelam sua profunda influência espiritual, intelectual e eclesial. Estes episódios, retirados da obra Vida de São Bernardo, de Robert Thomas 6, ilustram de modo vívido sua personalidade, sua missão e o impacto de sua atuação na Igreja e na sociedade do século XII.

O chamado de familiares e jovens ao mosteiro: sua capacidade de atrair outros ao ideal monástico com seu exemplo de santidade

Um dos episódios mais impressionantes da vida de São Bernardo foi sua entrada em Cister, em 1112. Seu ardor por Cristo era tão grande que não se contentou em seguir sozinho: levou consigo trinta companheiros, incluindo quatro de seus irmãos e até seu tio Gaudrico. Esse gesto marcante revelou seu dom de atrair almas para Deus e se tornou símbolo de seu futuro papel como guia e mestre espiritual. O ingresso coletivo transformou-se em um sinal da providência divina e prenúncio da força que Claraval teria para toda a Cristandade.

O confronto com Abelardo no Concílio de Sens: defesa da fé contra heresias e erros doutrinais com clareza e caridade

São Bernardo foi um incansável defensor da verdade da Fé Católica contra os erros doutrinais que ameaçavam a Igreja de sua época. Ele confrontou o célebre filósofo Pedro Abelardo, cuja inteligência singular e método dialético corriam o risco de “não respeitar suficientemente os mistérios que, precisamente, ultrapassam a razão, e pedem a esta última uma humilde submissão” 7.

Bernardo, partilhando dos receios de amigos teólogos, acreditava que “é preciso crer no mistério da Trindade, não discuti-lo” 7. Ao tomar conhecimento dos tratados de Abelardo que chocavam sua fé, como o Sic et Non e a Introdução à Teologia Cristã, Bernardo suplicou a bispos que interviessem contra essas “novidades perigosas que cheiravam a heresia” 7.

Ele redigiu um tratado dos erros de Abelardo, enviando-o ao Papa Inocêncio II, e escreveu “várias cartas à cúria romana” 7. No Concílio de Sens, em 1141, a intenção de Bernardo não era debater, mas condenar as doutrinas de Abelardo. Ele preparou a sessão com os bispos na ausência do adversário, de modo que, no momento decisivo, “a causa já havia sido decidida” 7.

A sentença contra Abelardo foi ratificada por Roma, pois Bernardo havia se antecipado, enviando mensagens ao Sumo Pontífice. Apesar da firmeza necessária ao combate à heresia, São Bernardo mantinha sua alma “calma, pacífica, de modo a poder compartilhar os ensinamentos com seus irmãos, usufruindo de total liberdade interior” 7.

Conselheiro de papas e mediador de conflitos: atuação decisiva na eleição do Papa Inocêncio II e na pacificação de disputas eclesiásticas

São Bernardo exerceu um papel singular como conselheiro de papas e mediador de importantes conflitos, sendo a eleição do Papa Inocêncio II um dos exemplos mais claros 8.

Em um momento de cisma, Bernardo interveio decisivamente, proclamando em nome de todos a necessidade de “acolher Inocêncio como soberano pontífice” 8. Sua declaração foi ratificada por todos os presentes, que “prometeram obediência ao Papa Inocêncio e subscreveram à sua eleição” 8. Ele agia com uma segurança que brotava de sua segurança com Deus, decidindo “por toda a Cristandade” 8.

Sua influência era tamanha que, ao saber da eleição de seu antigo pupilo e monge, Bernardo de Pisa, como Papa Eugênio III, ele, embora orgulhoso, lamentou o fato de o ver mergulhado “no tumulto e na confusão dos negócios” do papado, um homem que “só desejava uma coisa, que era manter-se longe de tudo isso” 8.

Além disso, São Bernardo interveio em disputas delicadas, como a que envolveu o rei  Henrique, arcebispo de Reims, acusado de simonia. Escreveu ao Papa Honório, expressando orações pela Igreja e louvando o Pontífice como “guardião tão fiel” da Esposa de Cristo, ao mesmo tempo em que alertava contra a perseguição à “piedade nascente” do arcebispo 8.

Pregação da Segunda Cruzada: seu papel como pregador oficial e o impacto espiritual de suas palavras

São Bernardo foi o principal motor espiritual da Segunda Cruzada, atuando como “pregador oficial da Cruzada” a mando do Papa Eugênio III 8.

Dotado do “dom da pregação” e conhecido como Doutor Melífluo, por ser doce como mel, suas palavras eram como “o aroma perfumado de um incenso que ardia em um coração aceso pelo Espírito Santo” 8. Sua eloquência brotava não de uma retórica vazia, mas de um “estudo profundo da Fé” 9.

As “pregações e as exortações por escrito de Bernardo lograram um êxito estrondoso”, mobilizando “guerreiros em número imenso – igual, senão superior, ao total da Primeira Cruzada” 9.

Após celebrar a Missa na catedral, Bernardo dirigiu-se ao Rei Conrado III, pedindo-lhe que tomasse a cruz. O rei respondeu: “Agora reconheço que isto à minha frente é nitidamente uma dádiva da graça divina; e não serei ingrato (…) estou pronto a servi-lo!” 9. Bernardo então “pegou uma cruz de pano já preparada e prendeu-a no rei” 9.

Essa adesão real inspirou outros nobres e clérigos, inclusive seu sobrinho, o futuro Frederico Barbarossa, a também tomarem a cruz 9. A missão de pregação de São Bernardo, ainda que vista com reservas em tempos posteriores, foi descrita como um “trabalho sagrado” de um homem “inteiramente dedicado a Cristo, à sua Igreja e ao seu vigário na Terra” 9.

A espiritualidade de São Bernardo de Claraval

A espiritualidade de São Bernardo é um convite a uma união profunda com Deus através da caridade e da devoção mariana, fruto de uma alma “fervorosa, cheia de fogo interior” 10 e “inteiramente devotada à Fé Católica” 11.

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Teologia mística centrada na caridade e na união com Deus

São Bernardo é reconhecido como um “extraordinário teólogo”, cujos escritos se destacam por uma “alta piedade” 10. Sua sabedoria era extraída da “Sagrada Escritura por meio de contínua meditação” 11.

Os mestres cistercienses, com Bernardo entre os principais, são chamados de “verdadeiros doutores do amor divino” 10. A abadia de Claraval era uma schola pietatis, uma escola da ternura, especializada na caridade 10.

Sua vida era marcada por constante contemplação, uma busca interior que “arrebatava o ser” 11. Ele “criou uma solidão no coração e perseverou na oração” 11.

Aos noviços dizia: “Se desejas entrar aqui, deixa à porta o corpo que trouxeste do mundo contigo; aqui só há lugar para tua alma” 11. Ele próprio se perguntava diariamente: “A que fim vieste?” 11.

Para ele, o monge devia viver “puro e casto como os anjos”, “elevar seus pensamentos como os profetas” e “abandonar tudo como os Apóstolos” 11. Tinha a graça de “conciliar as necessidades exteriores com a profunda meditação interior” 8, permanecendo “totalmente voltado para dentro, em estado de contemplação” 8.

Durante a Santa Missa, seu coração “queimando de contrição”, oferecia a Deus seus pecados no sacrifício de Cristo 11.

Devoção à Virgem Maria

Entre as expressões mais belas da espiritualidade de São Bernardo está seu amor ardente pela Santíssima Virgem Maria. Desde a infância, nutrido por sua mãe Aliete, Bernardo cresceu na reverência à Mãe de Deus — e essa devoção floresceu com intensidade ao longo de sua vida monástica.

Ele via em Maria a medianeira de todas as graças e dizia com convicção que “nenhuma graça desce do céu senão pelas mãos de Maria” 11. Por isso, chamava-a com amor de “Porta do Céu”, expressão que ressoa até hoje na Ladainha Lauretana.

São Bernardo é tradicionalmente apontado como o autor da oração “Lembrai-vos” (Memorare), que por séculos tem sido recitada pelos fiéis com confiança filial. A simplicidade da súplica, unida à teologia da intercessão mariana, reflete o coração de Bernardo: intelectual refinado e filho devoto.

Ele desafiava seus ouvintes a “encontrarem algo de duro na fisionomia evangélica e tradicional da Mãe de Deus” 11, porque conhecia Maria como mãe compassiva, intercessora poderosa e modelo perfeito de humildade, pureza e confiança.

Na escola de Claraval, Maria não era apenas objeto de veneração, mas modelo de vida interior, presença silenciosa que formava os monges no amor a Cristo. Como mestre espiritual, São Bernardo nos recorda que quem ama Maria se aproxima com segurança de seu filho Jesus.

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O legado de São Bernardo de Claraval

O legado de São Bernardo de Claraval transcende seu tempo. Ele é considerado, com razão, um dos maiores santos da Idade Média e um dos homens mais influentes da história da Igreja. Sua vida, marcada por contemplação profunda e ação apostólica fervorosa, serviu de ponte entre o ideal monástico e os grandes dilemas do mundo eclesial e político de sua época.

Com uma espiritualidade centrada na caridade, Bernardo formou gerações inteiras de monges, escreveu tratados, cartas, sermões e se envolveu em debates teológicos e decisões políticas que moldaram a Cristandade. Ele aconselhou papas, pacificou conflitos, converteu corações endurecidos e defendeu a ortodoxia com clareza e misericórdia.

Ribadeneira afirmou que “ele mesmo foi o primeiro e o maior de todos os milagres” 11. E de fato, mais do que os milagres realizados, foi sua própria vida — uma síntese de sabedoria, ternura, força e santidade — que permanece como sinal profético para a Igreja.

Sua influência modelou o espírito cisterciense e inspirou outros grandes reformadores, como São Norberto e São Bruno. O Papa Pio XII, ao escrever sua encíclica sobre São Bernardo no oitavo centenário de sua morte, reafirmou sua importância como “farol da fé, da doutrina e do zelo eclesial”.

A Igreja sempre teve grandes santos, mas poucos com a universalidade de impacto, a força de ação e a profundidade teológica de Bernardo de Claraval.

Canonização de São Bernardo de Claraval

A santidade de São Bernardo de Claraval foi reconhecida já em vida por toda a Cristandade. Seu prestígio, suas virtudes e sua sabedoria atraíam multidões e inspiravam confiança mesmo entre os mais altos dignitários da Igreja. Não por acaso, vinte e um anos após sua morte, ocorrida em 1153, ele foi canonizado solenemente.

A canonização foi proclamada pelo Papa Alexandre III, em 1174, apenas duas décadas após seu falecimento — um tempo relativamente breve para os padrões da época, o que atesta a comoção e a veneração popular já existente em torno de sua figura 11.

Séculos depois, sua doutrina foi formalmente reconhecida pela Igreja. Em 1830, o Papa Pio VIII declarou São Bernardo como Doutor da Igreja, elevando-o à mais alta dignidade teológica e espiritual reconhecida a um santo. Desde então, é chamado oficialmente de “Doutor Melífluo”, título que expressa a suavidade, profundidade e unção com que comunicava os mistérios divinos 11.

Em 1953, por ocasião do oitavo centenário de sua morte, o Papa Pio XII publicou a encíclica Doctor Mellifluus, inteiramente dedicada a São Bernardo. Nela, o Pontífice recorda sua “extraordinária influência sobre seu tempo”, a beleza de sua pregação e a atualidade de sua espiritualidade. Pio XII reafirmou que São Bernardo é “um dos maiores mestres da vida interior que a Igreja já teve”.

A canonização e a proclamação de seu doutorado são sinais perenes de que sua vida, escritos e exemplo não pertencem apenas ao passado, mas continuam a iluminar e formar os fiéis de todos os tempos.

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Obras de São Bernardo de Claraval

As obras de São Bernardo de Claraval são um verdadeiro tesouro de sabedoria divina, nascidas da oração, da contemplação e do zelo pastoral. Bernardo escrevia com suavidade e profundidade, como quem destilava o mel da Sagrada Escritura. Sua “ciência”, como diz a tradição, era extraída “da Escritura, por meio de contínua meditação” 11.

A seguir, destacamos suas principais obras:

Sermões sobre o Cântico dos Cânticos

Essa coletânea de 86 sermões inacabados é considerada uma das maiores expressões da teologia mística medieval. São Bernardo interpreta o Cântico de Salomão como um diálogo de amor entre Cristo e a alma, explorando as nuances do desejo espiritual, da união divina e da caridade perfeita.

Logo no início de um de seus sermões, ele invoca o Espírito Santo, dizendo: “Tão plenos do teu amor, ó Amor, que sejamos capazes de compreender o cântico do amor.” Ao final de outro sermão, percebe-se claramente a alma vibrante do santo: seu amor por Jesus, o Esposo da alma, transborda em cada linha.

De Diligendo Deo (Sobre o Amor de Deus)

Escrito a pedido de Amalrico, chanceler da cúria romana, este tratado breve e denso trata dos motivos e dos graus do amor a Deus. Bernardo conduz o leitor desde o amor por interesse até o amor puro a Deus por Ele mesmo — o auge da caridade cristã.

É uma das mais belas expressões da teologia afetiva cisterciense e ajuda o leitor a ordenar seus afetos à luz da graça.

De Gradibus Humilitatis et Superbiae (Os Graus da Humildade e da Soberba)

Nesta obra — publicada em português pela Minha Biblioteca Católica em 2020 — São Bernardo comenta o capítulo 7 da Regra de São Bento, descrevendo os 12 graus da humildade e os 12 graus da soberba. Foi escrita a pedido de seu primo e companheiro, Godofredo de la Roche-Vanneau.

Em tom humilde, Bernardo escreve: “Pode parecer-te que, em vez dos graus da humildade, descrevi os graus da soberba” 12. No prefácio da obra, revela-se sua alma: hesitante, mas obediente; temerosa, mas movida pelo amor.

Apologia a Guilherme de Saint-Thierry

Este texto surge de uma crise entre Cluny e Cister. Pressionado por seu amigo Guilherme, Bernardo escreve uma defesa equilibrada da austeridade cisterciense, mas também corrige os excessos de seus próprios irmãos de hábito. Ele denuncia escândalos, mas destaca que a caridade é a verdadeira regra da vida monástica e que o bem do outro deve ser considerado como próprio.

Vida de São Malaquias

Nesta comovente biografia, Bernardo narra a vida de seu amigo, o arcebispo irlandês Malaquias. O texto é repleto de milagres, exemplos de santidade e revelações espirituais. A amizade entre os dois é um exemplo de como a verdadeira caridade cristã une as almas em Cristo, e como a comunhão dos santos começa já nesta vida.

Cartas e Homilias

São Bernardo deixou uma vasta coleção de mais de 500 cartas, dirigidas a papas, reis, monges e leigos. São documentos preciosos para conhecer sua atuação pastoral e seu coração cheio de zelo pela Igreja.

Em suas homilias, abordava temas como a humildade, a ascese, os perigos da tibieza espiritual, e os ataques à fé. Em uma delas, denunciava os hereges maniqueus que destruíam a vinha do Senhor e rejeitavam os sacramentos. Em outra, descreve os perigos dos monges que, após certo fervor inicial, deixam de progredir por estagnação e soberba.

Essas obras não são apenas páginas do passado: são vozes vivas da tradição da Igreja, ensinando com doçura e firmeza o caminho da santidade.

São Bernardo de Claraval é padroeiro de quê?

São Bernardo de Claraval é reconhecido como padroeiro da Ordem Cisterciense, por ter sido não apenas um de seus maiores reformadores, mas também o fundador da abadia de Claraval, um verdadeiro farol espiritual da vida monástica no século XII. Seu exemplo de pobreza, caridade, disciplina e contemplação moldou definitivamente a identidade cisterciense.

Ele é também tradicionalmente considerado padroeiro dos apicultores e dos fabricantes de velas. Esse título deriva de sua fama como “Doutor Melífluo”, expressão que significa “doce como o mel”. Essa doçura não se refere apenas ao estilo de sua pregação, mas à profundidade e suavidade com que transmitia os mistérios de Deus — como o mel que, extraído com esforço, alimenta e cura.

Esse simbolismo da doçura da Palavra e da luz das velas está intimamente ligado à sua missão de clarear os corações e inflamar os fiéis com o amor de Deus. Daí também sua associação com os candeeiros de cera, que representam a luz suave, contínua e perfumada da fé.

A vida de São Bernardo de Claraval permanece como um farol que atravessa os séculos, iluminando os corações que desejam ardentemente a Deus. Monge, abade, místico, pregador, conselheiro de papas e doutor da Igreja — ele foi tudo isso, mas, acima de tudo, um homem que viveu profundamente a caridade. 

Sua sabedoria melíflua continua a tocar almas e a formar santos, porque brotou de um coração abrasado pelo amor a Cristo e à Virgem Maria. Que o exemplo deste gigante da fé nos leve a buscar a humildade verdadeira, a amar a Igreja com generosidade e a trilhar, com confiança, o caminho da santidade.

Referências

  1. GUILHERME DE SAINT-THIERRY, s.d., p. 263[]
  2. BUTLER, s.d., p. 103[]
  3. SÃO BOAVENTURA, s.d., p. 350[]
  4. SÃO BERNARDO apud BORGONGNI, s.d., p. 92[]
  5. SÃO BERNARDO apud BORGONGNI, s.d., p. 93[]
  6. Minha Biblioteca Católica, 2020[]
  7. THOMAS, 2020, p. 213[][][][][][]
  8. THOMAS, 2020, p. 137[][][][][][][][][][]
  9. THOMAS, 2020, p. 138[][][][][][]
  10. THOMAS, 2020, p. 159[][][][]
  11. THOMAS, 2020, p. 160[][][][][][][][][][][][][][]
  12. OS GRAUS DA HUMILDADE E DA SOBERBA, p. 103[]

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