Formação

A Cidade de Deus de Santo Agostinho

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A Cidade de Deus de Santo Agostinho

Data da Publicação: 04/05/2023
Tempo de leitura:
Autor: MBC
Data da Publicação: 04/05/2023
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Autor: MBC

Desde que Santo Agostinho se tornara bispo de Hipona, no norte da África, em 395, muitas missões e dificuldades encontrou para propagar a nossa fé. Mas o que abalou mesmo o santo foi a notícia de que a cidade de Roma havia sido saqueada pelos bárbaros em 410, sob a liderança do rei visigodo Alarico, que era adepto da heresia ariana. A repercussão foi tão rápida que outras regiões pertencentes ao Império começaram a receber tropas bárbaras de todos os cantos, ao ponto de o santo comentar: “Coisas horrendas nos contam: ruínas, incêndios, saques, torturas, desonras. Mil vezes nos contaram, e outras tantas as lamentamos e choramos, sem ainda podermos nos consolar”.1 O fato não abalou somente Santo Agostinho, mas também São Jerônimo: “Minha voz embarga, e os soluços me interrompem […]. A cidade que conquistou o universo foi conquistada […] a cabeça do mundo foi abatida”. 2 A tristeza assolou toda a cristandade do Ocidente, que há pouco tinha visto tamanha alegria com o cristianismo oficializado como religião romana. A preocupação dos doutores estava no fato de Roma ser a sede da Igreja, a cidade memorável de Pedro e Paulo e fonte da graça universal, que agora estava sendo dominada pela barbárie, promiscuidade e imoralidade.

Aquela considerada a cidade eterna desmoronou, mostrou suas fraquezas. O saque de Roma abalou a sociedade antiga como um todo. Já Santo Agostinho, mesmo abalado, não agiu só pela emoção, mas pelo seu ofício (escritor e professor), pela sua moral filosófica e pela sua fé cristã. Ao examinar o episódio com veemência, concluiu que as civilizações são como os seres mortais, sujeitas a mudanças, perdas e a um fim. Assim, agregando filosofia com teologia, Santo Agostinho comparou a queda de Roma à queda de Tróia, descrita nos livros de Homero, e à queda de Sodoma,3 descrita na Bíblia, contemplando a ideia de que a “queda de Roma não era o fim do mundo, mas o anúncio do fim de um mundo”.4 Nessas reflexões Santo Agostinho encontrou uma forma de compreender a Providência Divina, sob a razão da qual tragédias e sofrimentos fazem parte da vida humana no presente, e que o futuro será modificado pela ação divina, de modo que Deus está e sempre estará no comando, com o rumo da vitória e da glória.

Com sua racionalidade aguçada e um olhar profundamente cristão, Santo Agostinho analisou a situação com uma finalidade: legitimar a história e visualizar as consequências. Dessa maneira, ficou evidente que a tomada de Roma não era o “fim dos tempos” – assim pensavam muitos cristãos romanos – e não era um simples fato para ser lembrado de forma individual e supérflua, mas sim algo para ser contemplado como uma possibilidade de construção do amanhã, sem mágoas, choros nem tristezas, tendo em vista a civilização do amor inspirada na vida dos Apóstolos.

 Santo Agostinho em seu gabinete de estudo, de Sandro Botticelli (1445–1510).

Um grande santo é forçado pelas provações e dificuldades que ele supera por amor a Deus. Não foi diferente com Santo Agostinho. Paralelamente ao fato já citado, o santo iniciou mais duas missões: combater os boatos sobre a Igreja em relação a Roma e iniciar o seu ofício de sábio e doutor. O primeiro episódio se justificava pelas afirmações de que a queda de Roma teria ocorrido por causa da nova religião, o cristianismo, que impedira a adoração aos deuses romanos, os quais, em vingança, destruíram a cidade, o que acarretou divisão e medo entre os cristãos; o segundo episódio, por causa de Pelágio (350–423), que começara a espalhar a sua heresia pelo norte da África e Europa, segundo a qual o homem, com as forças naturais do livre-arbítrio, poderia cumprir com todos os preceitos divinos, superar todas as tentações e paixões e alcançar a perfeição sem a ajuda da graça.5 Assim, a partir do ano de 412 e inspirado pelos seus amigos, Santo Agostinho iniciou o trabalho de refutação à heresia pelagiana e de construção de uma nova perspectiva de visão histórica. Mesmo sem abandonar as funções episcopais, Santo Agostinho se dedicou intensamente à escrita, fazendo com que sua obra ganhasse uma amplitude magnífica, compilada em vinte e dois livros. Treze anos se passaram para a conclusão, sendo publicada somente no ano de 426, sob o título De Civitate Dei (“A Cidade de Deus”).

A obra é realmente inigualável, sendo uma das primeiras a relacionar filosofia clássica – com inspiração em Platão – e teologia cristã. Dentro dos vinte e dois livros que englobam a obra, é possível elencar inúmeros assuntos tratados: filosofia da história, teoria do sistema de Estado e de vida social, e a visão do plano imanente (ou histórico) a partir da dimensão transcendente. Enfim, o livro percorre assuntos desde a queda de Roma até o Juízo Final, mostrando costumes bárbaros e cristãos, alguns sistemas filosóficos, relações entre conflitos imperiais e a hierarquia dos anjos e às vezes sintetizando ideias em pequenos conceitos, o que torna o livro inesgotável, denso e complexo pelas obras que a completam:

A obra de Santo Agostinho De Civitate Dei responde a uns e outros. Neste mundo, estão confundidas e em luta constante a cidade do demônio e a cidade de Deus. A Providência prepara a vitória da cidade de Deus, que não consiste no bem temporal, mas no eterno. Quaisquer que sejam os acontecimentos, a cidade de Deus triunfará, embora na terra ela seja sempre militante.6

A relação entre eventos terrestres e vontade divina é constante no decorrer da obra, percorrendo tempos históricos distintos, revelando o passado, contemplando o presente e planejando o futuro. O interessante da obra é a habilidade com que o santo revela como todos os destinos e feitos humanos giram em torno da religião cristã, sendo “um valor permanente do espírito”, ou seja, tudo começa e tudo termina em Deus. A obra de Santo Agostinho não é superficial por se tratar de vários assuntos e ideias, muito pelo contrário, retrata os problemas terrenos com profundidade e ênfase nas consequências eternas que esses problemas nos causam, evidenciando que os conflitos existentes estão em todos os homens, interna e externamente. Assim, “A Cidade de Deus é a teologia vivida no marco histórico da humanidade, tal como As confissões são a teologia vivida numa alma; em ambos os livros, Deus é a única e a suprema razão”.4

O título A Cidade de Deus nos traz à mente a ideia do céu ou de uma cidade governada por seres divinos, ou até mesmo pelo próprio Deus. É aí que ocorre o equívoco, pois Santo Agostinho se inspirou nos Salmos e na Epístola aos Hebreus, nos quais é apresentada a promessa divina aos homens de fé de instaurar uma cidade perfeita, inenarrável, bela, movida pelas coisas divinas. Mas em meio à construção dela haveria uma outra, movida pelo pecado. Por isso Santo Ambrósio esclarece na antítese do livro de Santo Agostinho: “Dois amores fundaram duas cidades. A cidade terrena, pelo amor de si próprio, levado até o desprezo de Deus; a cidade celeste, pelo amor de Deus, levado até o desprezo de si próprio… Nós dividimos o gênero humano em duas categorias, uma composta por aqueles que vivem segundo o homem, outra formada pelos que vivem segundo Deus”. Ou seja, a história se desenvolve no conflito entre duas civilizações constituídas por humanos. Enquanto uma se preocupa com os amores terrenos e a si própria, a outra busca, de todas as maneiras, elevar a cidade dos homens ao modelo divino. Basicamente a obra nos leva a compreender e contemplar as finalidades que têm guiado a nossa vida: ou elas são terrenas, baseadas nas coisas supérfluas e passageiras, cedendo ao pecado, ou são divinas, baseadas nas virtudes e coisas eternas, em luta contra o pecado.

O título A Cidade de Deus nos traz à mente a ideia do céu ou de uma cidade governada por seres divinos, ou até mesmo pelo próprio Deus. É aí que ocorre o equívoco, pois Santo Agostinho se inspirou nos Salmos e na Epístola aos Hebreus, nos quais é apresentada a promessa divina aos homens de fé de instaurar uma cidade perfeita, inenarrável, bela, movida pelas coisas divinas. Mas em meio à construção dela haveria uma outra, movida pelo pecado. Por isso Santo Ambrósio esclarece na antítese do livro de Santo Agostinho: “Dois amores fundaram duas cidades. A cidade terrena, pelo amor de si próprio, levado até o desprezo de Deus; a cidade celeste, pelo amor de Deus, levado até o desprezo de si próprio… Nós dividimos o gênero humano em duas categorias, uma composta por aqueles que vivem segundo o homem, outra formada pelos que vivem segundo Deus”. Ou seja, a história se desenvolve no conflito entre duas civilizações constituídas por humanos. Enquanto uma se preocupa com os amores terrenos e a si própria, a outra busca, de todas as maneiras, elevar a cidade dos homens ao modelo divino. Basicamente a obra nos leva a compreender e contemplar as finalidades que têm guiado a nossa vida: ou elas são terrenas, baseadas nas coisas supérfluas e passageiras, cedendo ao pecado, ou são divinas, baseadas nas virtudes e coisas eternas, em luta contra o pecado.

Contemplando A Cidade de Deus, é possível dividi-la em duas partes: do livro I ao livro X, e do livro XI ao livro XXII. Na primeira, o santo faz uma intensa crítica ao paganismo e suas limitações, uma vez que as suas filosofias e imoralidades tornariam seus seguidores inaptos para a prosperidade humana e a felicidade eterna. Na segunda parte, apresenta as duas cidades, revelando suas doutrinas, origens, desdobramentos e finalidades. Aprofundando mais sobre a obra, a perspectiva lógica é desenvolvida acerca de atitudes e ações divino-humanas, relacionando o ordinário ao extraordinário. Essa perspectiva se desenvolveu em cinco ações: a criação do homem como semelhança de Deus, o homem sendo corrompido pelo seu orgulho e assim afundando em si mesmo, a educação dada por Deus pelo ensinamento dos princípios éticos, a vida de Cristo como modelo e exemplo de vida para a aplicação da semelhança divina e a decisão final que coloca a eternidade como escolha do próprio homem pela sua vida. A sequência teológica que fica sobre esses ensinamentos se constitui em Criação, Queda, Revelação, Encarnação e Ressurreição. O que torna essa obra mais primorosa é a relação que Santo Agostinho faz desses conceitos teológicos com a filosofia, edificando todo o ensinamento em algo aplicável na vida ativa e na contemplativa.

É nessa reflexão que se encontra a essência dessa obra-prima, o que a torna um ponto chave na história da Igreja e na história da filosofia. Santo Agostinho se assemelhou aos antigos filósofos do século II, porém ultrapassou os meios eruditos e polemistas por sua integração de filosofia e teologia, apresentando o cristianismo como única prova do tempo passado, presente e futuro, logo inegável.

Santo Agostinho, ao escrever essa obra, mostrou ao mundo que a cidade que possivelmente morrerá será substituída por outra cidade que jamais irá sucumbir a qualquer outra. O esforço, a vontade e a dedicação são cruciais para aplicar os princípios apostólicos ensinados por Cristo na Cidade dos Homens. Essa obra foi tão profética e propícia para aquele tempo que houve uma mudança drástica no campo filosófico e teológico, pois não mostrou somente que a queda de Roma seria superada pela Cidade de Deus, mas que qualquer outro fato que venha a ocorrer na história não superará a Cidade de Deus, pois ela é uma fortaleza, um baluarte.

Por fim, esse livro dramático e enfático em aventuras trágicas comparadas com os grandes escritores e literatos romanos de seu tempo revela que Santo Agostinho buscou atingir todos aqueles que buscam firmemente o que é bom, belo e verdadeiro, vencendo qualquer tipo de contrariedade existente entre os céticos e críticos do santo. Com o afinco de alimentar a esperança da humanidade por tempos melhores e com um fim eterno, Santo Agostinho expõe que as coisas terrenas envelhecem e morrem, que o próprio mundo está propenso a envelhecer e morrer, mas um verdadeiro cristão não se abalará com isso, pois saberá que no final sua juventude será revigorada na eternidade.

O triunfo de Santo Agostinho, de Claudio Coello (1642–1693).

Referências

  1. Padre Alfredo Sáenz, História da Santa Igreja: a Barca e as tempestades. Tomo I: do nascimento da Igreja ao islamismo (Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2020), p. 245–246.[]
  2. Ibid., p. 246.[]
  3. Gn 19,1–29. Santo Agostinho descreve a comparação no sermão De Urbis Excidio.[]
  4. Henri Daniel-Rops, op. cit., p. 48.[][]
  5. Cf. Santo Afonso de Ligório, História das heresias e suas refutações (Campinas: Ecclesiae, 2020), p. 123, par. 6.[]
  6. Padre Álvaro Negromonte, História da Igreja (Rio de Janeiro: José Olympio, 1954), p. 54.[]

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    MBC

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    Desde que Santo Agostinho se tornara bispo de Hipona, no norte da África, em 395, muitas missões e dificuldades encontrou para propagar a nossa fé. Mas o que abalou mesmo o santo foi a notícia de que a cidade de Roma havia sido saqueada pelos bárbaros em 410, sob a liderança do rei visigodo Alarico, que era adepto da heresia ariana. A repercussão foi tão rápida que outras regiões pertencentes ao Império começaram a receber tropas bárbaras de todos os cantos, ao ponto de o santo comentar: “Coisas horrendas nos contam: ruínas, incêndios, saques, torturas, desonras. Mil vezes nos contaram, e outras tantas as lamentamos e choramos, sem ainda podermos nos consolar”.1 O fato não abalou somente Santo Agostinho, mas também São Jerônimo: “Minha voz embarga, e os soluços me interrompem […]. A cidade que conquistou o universo foi conquistada […] a cabeça do mundo foi abatida”. 2 A tristeza assolou toda a cristandade do Ocidente, que há pouco tinha visto tamanha alegria com o cristianismo oficializado como religião romana. A preocupação dos doutores estava no fato de Roma ser a sede da Igreja, a cidade memorável de Pedro e Paulo e fonte da graça universal, que agora estava sendo dominada pela barbárie, promiscuidade e imoralidade.

    Aquela considerada a cidade eterna desmoronou, mostrou suas fraquezas. O saque de Roma abalou a sociedade antiga como um todo. Já Santo Agostinho, mesmo abalado, não agiu só pela emoção, mas pelo seu ofício (escritor e professor), pela sua moral filosófica e pela sua fé cristã. Ao examinar o episódio com veemência, concluiu que as civilizações são como os seres mortais, sujeitas a mudanças, perdas e a um fim. Assim, agregando filosofia com teologia, Santo Agostinho comparou a queda de Roma à queda de Tróia, descrita nos livros de Homero, e à queda de Sodoma,3 descrita na Bíblia, contemplando a ideia de que a “queda de Roma não era o fim do mundo, mas o anúncio do fim de um mundo”.4 Nessas reflexões Santo Agostinho encontrou uma forma de compreender a Providência Divina, sob a razão da qual tragédias e sofrimentos fazem parte da vida humana no presente, e que o futuro será modificado pela ação divina, de modo que Deus está e sempre estará no comando, com o rumo da vitória e da glória.

    Com sua racionalidade aguçada e um olhar profundamente cristão, Santo Agostinho analisou a situação com uma finalidade: legitimar a história e visualizar as consequências. Dessa maneira, ficou evidente que a tomada de Roma não era o “fim dos tempos” – assim pensavam muitos cristãos romanos – e não era um simples fato para ser lembrado de forma individual e supérflua, mas sim algo para ser contemplado como uma possibilidade de construção do amanhã, sem mágoas, choros nem tristezas, tendo em vista a civilização do amor inspirada na vida dos Apóstolos.

     Santo Agostinho em seu gabinete de estudo, de Sandro Botticelli (1445–1510).

    Um grande santo é forçado pelas provações e dificuldades que ele supera por amor a Deus. Não foi diferente com Santo Agostinho. Paralelamente ao fato já citado, o santo iniciou mais duas missões: combater os boatos sobre a Igreja em relação a Roma e iniciar o seu ofício de sábio e doutor. O primeiro episódio se justificava pelas afirmações de que a queda de Roma teria ocorrido por causa da nova religião, o cristianismo, que impedira a adoração aos deuses romanos, os quais, em vingança, destruíram a cidade, o que acarretou divisão e medo entre os cristãos; o segundo episódio, por causa de Pelágio (350–423), que começara a espalhar a sua heresia pelo norte da África e Europa, segundo a qual o homem, com as forças naturais do livre-arbítrio, poderia cumprir com todos os preceitos divinos, superar todas as tentações e paixões e alcançar a perfeição sem a ajuda da graça.5 Assim, a partir do ano de 412 e inspirado pelos seus amigos, Santo Agostinho iniciou o trabalho de refutação à heresia pelagiana e de construção de uma nova perspectiva de visão histórica. Mesmo sem abandonar as funções episcopais, Santo Agostinho se dedicou intensamente à escrita, fazendo com que sua obra ganhasse uma amplitude magnífica, compilada em vinte e dois livros. Treze anos se passaram para a conclusão, sendo publicada somente no ano de 426, sob o título De Civitate Dei (“A Cidade de Deus”).

    A obra é realmente inigualável, sendo uma das primeiras a relacionar filosofia clássica – com inspiração em Platão – e teologia cristã. Dentro dos vinte e dois livros que englobam a obra, é possível elencar inúmeros assuntos tratados: filosofia da história, teoria do sistema de Estado e de vida social, e a visão do plano imanente (ou histórico) a partir da dimensão transcendente. Enfim, o livro percorre assuntos desde a queda de Roma até o Juízo Final, mostrando costumes bárbaros e cristãos, alguns sistemas filosóficos, relações entre conflitos imperiais e a hierarquia dos anjos e às vezes sintetizando ideias em pequenos conceitos, o que torna o livro inesgotável, denso e complexo pelas obras que a completam:

    A obra de Santo Agostinho De Civitate Dei responde a uns e outros. Neste mundo, estão confundidas e em luta constante a cidade do demônio e a cidade de Deus. A Providência prepara a vitória da cidade de Deus, que não consiste no bem temporal, mas no eterno. Quaisquer que sejam os acontecimentos, a cidade de Deus triunfará, embora na terra ela seja sempre militante.6

    A relação entre eventos terrestres e vontade divina é constante no decorrer da obra, percorrendo tempos históricos distintos, revelando o passado, contemplando o presente e planejando o futuro. O interessante da obra é a habilidade com que o santo revela como todos os destinos e feitos humanos giram em torno da religião cristã, sendo “um valor permanente do espírito”, ou seja, tudo começa e tudo termina em Deus. A obra de Santo Agostinho não é superficial por se tratar de vários assuntos e ideias, muito pelo contrário, retrata os problemas terrenos com profundidade e ênfase nas consequências eternas que esses problemas nos causam, evidenciando que os conflitos existentes estão em todos os homens, interna e externamente. Assim, “A Cidade de Deus é a teologia vivida no marco histórico da humanidade, tal como As confissões são a teologia vivida numa alma; em ambos os livros, Deus é a única e a suprema razão”.4

    O título A Cidade de Deus nos traz à mente a ideia do céu ou de uma cidade governada por seres divinos, ou até mesmo pelo próprio Deus. É aí que ocorre o equívoco, pois Santo Agostinho se inspirou nos Salmos e na Epístola aos Hebreus, nos quais é apresentada a promessa divina aos homens de fé de instaurar uma cidade perfeita, inenarrável, bela, movida pelas coisas divinas. Mas em meio à construção dela haveria uma outra, movida pelo pecado. Por isso Santo Ambrósio esclarece na antítese do livro de Santo Agostinho: “Dois amores fundaram duas cidades. A cidade terrena, pelo amor de si próprio, levado até o desprezo de Deus; a cidade celeste, pelo amor de Deus, levado até o desprezo de si próprio… Nós dividimos o gênero humano em duas categorias, uma composta por aqueles que vivem segundo o homem, outra formada pelos que vivem segundo Deus”. Ou seja, a história se desenvolve no conflito entre duas civilizações constituídas por humanos. Enquanto uma se preocupa com os amores terrenos e a si própria, a outra busca, de todas as maneiras, elevar a cidade dos homens ao modelo divino. Basicamente a obra nos leva a compreender e contemplar as finalidades que têm guiado a nossa vida: ou elas são terrenas, baseadas nas coisas supérfluas e passageiras, cedendo ao pecado, ou são divinas, baseadas nas virtudes e coisas eternas, em luta contra o pecado.

    O título A Cidade de Deus nos traz à mente a ideia do céu ou de uma cidade governada por seres divinos, ou até mesmo pelo próprio Deus. É aí que ocorre o equívoco, pois Santo Agostinho se inspirou nos Salmos e na Epístola aos Hebreus, nos quais é apresentada a promessa divina aos homens de fé de instaurar uma cidade perfeita, inenarrável, bela, movida pelas coisas divinas. Mas em meio à construção dela haveria uma outra, movida pelo pecado. Por isso Santo Ambrósio esclarece na antítese do livro de Santo Agostinho: “Dois amores fundaram duas cidades. A cidade terrena, pelo amor de si próprio, levado até o desprezo de Deus; a cidade celeste, pelo amor de Deus, levado até o desprezo de si próprio… Nós dividimos o gênero humano em duas categorias, uma composta por aqueles que vivem segundo o homem, outra formada pelos que vivem segundo Deus”. Ou seja, a história se desenvolve no conflito entre duas civilizações constituídas por humanos. Enquanto uma se preocupa com os amores terrenos e a si própria, a outra busca, de todas as maneiras, elevar a cidade dos homens ao modelo divino. Basicamente a obra nos leva a compreender e contemplar as finalidades que têm guiado a nossa vida: ou elas são terrenas, baseadas nas coisas supérfluas e passageiras, cedendo ao pecado, ou são divinas, baseadas nas virtudes e coisas eternas, em luta contra o pecado.

    Contemplando A Cidade de Deus, é possível dividi-la em duas partes: do livro I ao livro X, e do livro XI ao livro XXII. Na primeira, o santo faz uma intensa crítica ao paganismo e suas limitações, uma vez que as suas filosofias e imoralidades tornariam seus seguidores inaptos para a prosperidade humana e a felicidade eterna. Na segunda parte, apresenta as duas cidades, revelando suas doutrinas, origens, desdobramentos e finalidades. Aprofundando mais sobre a obra, a perspectiva lógica é desenvolvida acerca de atitudes e ações divino-humanas, relacionando o ordinário ao extraordinário. Essa perspectiva se desenvolveu em cinco ações: a criação do homem como semelhança de Deus, o homem sendo corrompido pelo seu orgulho e assim afundando em si mesmo, a educação dada por Deus pelo ensinamento dos princípios éticos, a vida de Cristo como modelo e exemplo de vida para a aplicação da semelhança divina e a decisão final que coloca a eternidade como escolha do próprio homem pela sua vida. A sequência teológica que fica sobre esses ensinamentos se constitui em Criação, Queda, Revelação, Encarnação e Ressurreição. O que torna essa obra mais primorosa é a relação que Santo Agostinho faz desses conceitos teológicos com a filosofia, edificando todo o ensinamento em algo aplicável na vida ativa e na contemplativa.

    É nessa reflexão que se encontra a essência dessa obra-prima, o que a torna um ponto chave na história da Igreja e na história da filosofia. Santo Agostinho se assemelhou aos antigos filósofos do século II, porém ultrapassou os meios eruditos e polemistas por sua integração de filosofia e teologia, apresentando o cristianismo como única prova do tempo passado, presente e futuro, logo inegável.

    Santo Agostinho, ao escrever essa obra, mostrou ao mundo que a cidade que possivelmente morrerá será substituída por outra cidade que jamais irá sucumbir a qualquer outra. O esforço, a vontade e a dedicação são cruciais para aplicar os princípios apostólicos ensinados por Cristo na Cidade dos Homens. Essa obra foi tão profética e propícia para aquele tempo que houve uma mudança drástica no campo filosófico e teológico, pois não mostrou somente que a queda de Roma seria superada pela Cidade de Deus, mas que qualquer outro fato que venha a ocorrer na história não superará a Cidade de Deus, pois ela é uma fortaleza, um baluarte.

    Por fim, esse livro dramático e enfático em aventuras trágicas comparadas com os grandes escritores e literatos romanos de seu tempo revela que Santo Agostinho buscou atingir todos aqueles que buscam firmemente o que é bom, belo e verdadeiro, vencendo qualquer tipo de contrariedade existente entre os céticos e críticos do santo. Com o afinco de alimentar a esperança da humanidade por tempos melhores e com um fim eterno, Santo Agostinho expõe que as coisas terrenas envelhecem e morrem, que o próprio mundo está propenso a envelhecer e morrer, mas um verdadeiro cristão não se abalará com isso, pois saberá que no final sua juventude será revigorada na eternidade.

    O triunfo de Santo Agostinho, de Claudio Coello (1642–1693).

    Referências

    1. Padre Alfredo Sáenz, História da Santa Igreja: a Barca e as tempestades. Tomo I: do nascimento da Igreja ao islamismo (Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2020), p. 245–246.[]
    2. Ibid., p. 246.[]
    3. Gn 19,1–29. Santo Agostinho descreve a comparação no sermão De Urbis Excidio.[]
    4. Henri Daniel-Rops, op. cit., p. 48.[][]
    5. Cf. Santo Afonso de Ligório, História das heresias e suas refutações (Campinas: Ecclesiae, 2020), p. 123, par. 6.[]
    6. Padre Álvaro Negromonte, História da Igreja (Rio de Janeiro: José Olympio, 1954), p. 54.[]

    MBC

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