Formação

O problema do mal

Se Deus é tão bom, por que seu mundo é tão ruim? Conheça o que Santo Agostinho diz sobre o problema do mal.

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O problema do mal

Se Deus é tão bom, por que seu mundo é tão ruim? Conheça o que Santo Agostinho diz sobre o problema do mal.

Data da Publicação: 05/05/2023
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC
Data da Publicação: 05/05/2023
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC
Autor: Peter Kreeft | Tradução: Equipe Minha Biblioteca Católica

O problema do mal é um dos mais sérios e mais tratados no mundo todo. E é também a mais importante objeção séria à existência de Deus.

Quando Santo Tomás de Aquino escreveu a sua grande “Suma Teológica”1, a princípio, só conseguiu achar duas objeções à existência de Deus, embora tenha se esforçado em enumerar pelo menos três objeções para cada uma das milhares de teses que procurou demonstrar em sua grande obra. A primeira das objeções é a superficial capacidade da ciência natural em explicar tudo com nossa experiência, mas sem Deus; e a segunda das objeções foi o problema do mal.

Muitas pessoas abandonaram sua fé por conta do problema do mal, antes que por qualquer outro motivo. É certamente o maior teste de fé, a maior tentação à incredulidade. E não é apenas uma objeção intelectual. Nós a sentimos. Nós a vivemos. Por isso o Livro de Jó é tão admirável.

O problema fundamental pode se expressar de forma simples: se Deus é tão bom, por que seu mundo é tão ruim? Se um Deus todo-bom, todo-sábio, todo-amoroso, justo e todo-poderoso está comandando o “show”, por que ele aparenta estar fazendo um trabalho tão miserável? Por que coisas más acontecem com pessoas boas?

O incrédulo que faz uso dessas perguntas costuma ter ressentimento e revoltar-se contra Deus, e não por falta de provas da sua existência. C. S. Lewis afirmava, como o ateu que tinha sido, que ele “não acreditava na existência de Deus”. “Eu estava furioso com Deus por não existir. E estava igualmente zangado com Ele por ter criado o mundo.”

Há quatro maneiras para a solução do problema do mal:

1. “O mal não é uma coisa, mas uma escolha errada.”


Em primeiro lugar, o mal não é uma coisa, uma entidade, um ser. Todos os seres são o Criador ou as criaturas criadas pelo Criador. Mas tudo o que Deus criou é bom, de acordo com o livro do Gênesis. É comum imaginarmos o mal como uma coisa – uma nuvem preta, ou uma tempestade perigosa, ou uma cara de sofrimento, ou sujeira. Porém, essas imagens nos enganam. Se Deus é o Criador de todas as coisas e o mal é uma coisa, então Deus seria o criador do mal, e Ele seria o principal culpado por sua existência. Não, o mal não é uma coisa, mas sim uma escolha errada, ou o dano causado por uma escolha errada. O mal não é mais positivo do que a cegueira, mas é tão real quanto.

2. “O Deus todo-poderoso nos fez participantes do seu poder para escolher livremente.”


Em segundo lugar, a origem do mal não é o Criador, mas a criatura que escolhe livremente o pecado e o egoísmo. Ou seja, tire todo pecado e egoísmo e você terá como resultado o Céu na terra. Mesmo os demais males físicos não nos fariam sofrer mais e não nos encheriam mais de amargura. Os santos suportam e até abraçam o sofrimento e a morte, como os amantes abraçam os desafios heróicos. Mas eles não abraçam o pecado. 

Além disso, a causa do mal físico é o mal espiritual. A causa do sofrimento é o pecado. Depois de que o Gênesis conta a história do bom Deus criando um mundo bom, ele responde em seguida à pergunta óbvia: “Então, de onde veio o mal?” pela história da queda da humanidade. Como devemos entender isso? Como o mal espiritual (pecado) pode causar o mal físico (sofrimento ou morte)? 

Deus é a fonte de toda vida e alegria. Portanto, quando a alma humana se rebela contra Deus, ela perde sua vida e alegria. Agora, um ser humano é tanto corpo quanto alma. Ou seja, somos criaturas individuais, não duais: não somos corpo e alma de forma separada, mas alma encarnada ou corpo com alma. Portanto, o corpo também deve compartilhar o castigo inevitável da alma. Isto é, uma punição tão natural e inevitável como quando os ossos quebram ao saltar de um penhasco, ou, outro exemplo, quando o estômago fica doente por comer comida podre, ou pode ser uma punição tão artificial e externa como a nota de uma prova ou uma bofetada nas mãos por pegar biscoitos da estante sem permissão.

Se esta consequência do pecado  foi uma mudança física no mundo ou apenas uma mudança espiritual na consciência humana – se os “espinhos e cardos” cresceram no jardim somente após a queda ou se eles sempre estiveram lá, mas só foram sentidos como dolorosos pelas consciências caídas –  é outra questão. Mas, em ambos os casos, a conexão entre o mal espiritual e o mal físico tem que ser tão estreita quanto a conexão entre as duas coisas que eles afetam, a alma humana  e o corpo humano. 

Se a origem do mal é o livre arbítrio, e Deus é a origem do livre arbítrio, então Deus é a origem do mal? Ou só os pais são a origem das maldades que seus filhos cometem por serem a origem de seus filhos? Deus onipotente nos fez participar do seu poder de escolher livremente. Então, preferiríamos que Ele não o tivesse feito, e nos tivesse criado como robôs em lugar de seres humanos?

3. “A cruz por parte de Deus é a solução prática para o mal. Nossa parte é nos arrepender, para acreditar e trabalhar com Deus no combate ao mal, através do amor”


Em terceiro lugar, esta parte da solução para o problema do mal é a parte mais importante: como resolver o problema na prática, não apenas na teoria; na vida, não apenas no pensamento. Embora o mal seja um problema sério para o pensamento (pois parece refutar a existência de Deus), ele é ainda um problema a mais na vida (pois é a verdadeira exclusão de Deus). Mesmo que você pense que tal solução no pensamento é obscura e incerta, a solução na prática é tão forte e clara quanto o sol;  é o Filho. A solução de Deus para o problema do mal é Seu Filho Jesus Cristo. O amor do Pai enviou seu Filho para morrer por nós, para derrotar o poder do mal na natureza humana: esse é o coração da história cristã. Não adoramos um Deus deísta, um senhor ausente que ignora seu povo; adoramos um Deus vivo que desceu direto à pior miséria para nos resgatar. Como tiramos Deus do centro por permitir o mal? Deus não está fora do centro; pelo contrário: Deus é o centro. Esse é o sentido de uma crucifixão. 

A cruz é, por parte de Deus, a solução prática para o mal. Nossa parte, de acordo com o Evangelho, é nos arrepender, acreditar e trabalhar como Deus na luta contra o mal pelo poder do amor. O Rei invadiu; estamos culminando a operação limpeza. 

4. “Por que acontecem coisas ruins às boas pessoas? A pergunta faz três suposições questionáveis.”


Por último, e quanto ao problema filosófico? Não é logicamente contraditório dizer que um Deus todo-poderoso e todo-amoroso tolera tanto mal quando ele poderia erradicá-lo? Por que acontecem coisas ruins às boas pessoas? A pergunta faz três suposições questionáveis.

Primeiro, quem pode dizer que somos pessoas boas? A pergunta não deveria ser “Por que coisas ruins acontecem com boas pessoas?”, mas “Por que coisas boas acontecem com pessoas ruins?”. Se a fada madrinha diz para a Cinderela que ela pode usar seu vestido mágico até a meia-noite, a pergunta não deveria ser “Por que não depois da meia-noite?” mas “Por que eu pude usá-lo, afinal?” A pergunta não é por que o copo de água está meio vazio, mas por que está meio cheio, pois toda bondade é um dom. As melhores pessoas são as que mais relutam em se autodenominarem boas pessoas. Os pecadores pensam que são santos, mas os santos sabem que são pecadores. O melhor homem que já viveu disse uma vez: “Por que me chamas bom? Só Deus é bom.”

Segundo, quem pode dizer que todo sofrimento é ruim? A vida sem ele produziria pirralhos e tiranos mimados, não santos alegres. O rabino Abraham Heschel diz simplesmente: “O homem que não tem sofrido, o que ele pode saber, afinal? ”. O sofrimento pode  ajustar-se para o bem maior da sabedoria. Não é verdade que todas as coisas são boas, mas é verdade que “todas as coisas operam conjuntamente para o bem daqueles que amam a Deus”.

Terceiro, quem pode dizer que temos de conhecer todas as razões de Deus? Quem já nos prometeu todas as respostas? Os animais não podem entender muito sobre nós; por que nós devemos ser capazes de entender tudo sobre Deus? O ponto óbvio do Livro de Jó, sobre o problema do mal no mundo, é que simplesmente não sabemos o que Deus está fazendo. Que dura lição a aprender: primeira lição, que somos ignorantes, que somos crianças! Não é de se estranhar que Sócrates tenha sido declarado, pelo Oráculo de Delfos, como o homem mais sábio do mundo. Ele interpretou essa declaração no sentido de que só ele sabia que não tinha sabedoria, e essa era a verdadeira sabedoria para o homem.

Uma criança no décimo andar de um edifício em chamas não enxerga os bombeiros com sua rede de segurança na rua. Eles chamam: “Pule! Nós o pegaremos. Confie em nós”. A criança se opôs: “Mas eu não  vejo vocês”. O bombeiro responde: “Está tudo bem. Eu posso te ver”. Nós somos como aquela criança, o mal é como o fogo, nossa ignorância é como a fumaça, Deus é como o bombeiro, e Cristo é como a rede de segurança. Se há situações como esta, em que devemos confiar nossas vidas mesmo a seres humanos falíveis, onde temos que confiar no que ouvimos, não no que vemos, então é razoável que devamos confiar no infalível, Deus, Aquele que tudo vê, quando ouvimos Sua Palavra, mas não vemos com nossa razão ou experiência. Não podemos conhecer todas as razões de Deus, mas podemos saber por que não podemos saber. 

Deus tem nos deixado saber muitas coisas. Ele levantou a cortina sobre o problema do mal com Cristo. Ali, o maior mal que já aconteceu, tanto o maior mal espiritual quanto o maior mal físico, tanto o maior pecado ( deicídio) quanto o maior sofrimento (amor perfeito odiado e crucificado), é revelado como seu plano sábio e amoroso para realizar o maior bem, a salvação do mundo do pecado e do sofrimento eterno. Ali, a maior injustiça já praticada de todos os tempos está integrada no plano de salvação, aquilo que São Paulo chama de “a justiça de Deus”. O amor encontra um caminho. O amor pode até ser muito complicado. Mas o amor precisa ser confiável. 

O pior aspecto do problema do mal é o mal eterno, o inferno. Então, será que o inferno não contradiz um Deus amoroso e onipotente? Não, pois o inferno é a consequência do livre arbítrio. Nós escolhemos livremente o inferno para nós mesmos; Deus não lança ninguém no inferno contra sua vontade. Se  uma criatura é realmente livre para dizer sim ou não à oferta de amor e casamento espiritual do Criador, então deve ser possível para a criatura dizer não. E isso é o inferno, essencialmente. O livre arbítrio, por sua vez, foi criado a partir do amor de Deus. Portanto, o inferno é um resultado do amor de Deus. Ou seja, tudo é resultado do amor de Deus. 

Nenhuma pessoa em seu pleno juízo quer que o inferno exista. Nenhuma pessoa em sã consciência quer que o mal exista. Mas o inferno é apenas o mal eternizado. Se há o mal e se existe a eternidade, pode haver o inferno. Se é intelectualmente desonesto não acreditar no mal só porque ele é chocante e desconfortável, o mesmo acontece com o inferno. A realidade tem cantos difíceis, surpresas e perigos terríveis dentro dela. Precisamos desesperadamente de um verdadeiro mapa de estradas, não de sentimentos agradáveis, se quisermos voltar para casa. É verdade, como as pessoas costumam dizer, que “o inferno simplesmente se sente irreal, impossível”. Sim, impossível, para Auschwitz também. Assim como impossível o calvário. 

Referências

  1. em latim; Summa Theologiae[]
Redação MBC

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Autor: Peter Kreeft | Tradução: Equipe Minha Biblioteca Católica

O problema do mal é um dos mais sérios e mais tratados no mundo todo. E é também a mais importante objeção séria à existência de Deus.

Quando Santo Tomás de Aquino escreveu a sua grande “Suma Teológica”1, a princípio, só conseguiu achar duas objeções à existência de Deus, embora tenha se esforçado em enumerar pelo menos três objeções para cada uma das milhares de teses que procurou demonstrar em sua grande obra. A primeira das objeções é a superficial capacidade da ciência natural em explicar tudo com nossa experiência, mas sem Deus; e a segunda das objeções foi o problema do mal.

Muitas pessoas abandonaram sua fé por conta do problema do mal, antes que por qualquer outro motivo. É certamente o maior teste de fé, a maior tentação à incredulidade. E não é apenas uma objeção intelectual. Nós a sentimos. Nós a vivemos. Por isso o Livro de Jó é tão admirável.

O problema fundamental pode se expressar de forma simples: se Deus é tão bom, por que seu mundo é tão ruim? Se um Deus todo-bom, todo-sábio, todo-amoroso, justo e todo-poderoso está comandando o “show”, por que ele aparenta estar fazendo um trabalho tão miserável? Por que coisas más acontecem com pessoas boas?

O incrédulo que faz uso dessas perguntas costuma ter ressentimento e revoltar-se contra Deus, e não por falta de provas da sua existência. C. S. Lewis afirmava, como o ateu que tinha sido, que ele “não acreditava na existência de Deus”. “Eu estava furioso com Deus por não existir. E estava igualmente zangado com Ele por ter criado o mundo.”

Há quatro maneiras para a solução do problema do mal:

1. “O mal não é uma coisa, mas uma escolha errada.”


Em primeiro lugar, o mal não é uma coisa, uma entidade, um ser. Todos os seres são o Criador ou as criaturas criadas pelo Criador. Mas tudo o que Deus criou é bom, de acordo com o livro do Gênesis. É comum imaginarmos o mal como uma coisa – uma nuvem preta, ou uma tempestade perigosa, ou uma cara de sofrimento, ou sujeira. Porém, essas imagens nos enganam. Se Deus é o Criador de todas as coisas e o mal é uma coisa, então Deus seria o criador do mal, e Ele seria o principal culpado por sua existência. Não, o mal não é uma coisa, mas sim uma escolha errada, ou o dano causado por uma escolha errada. O mal não é mais positivo do que a cegueira, mas é tão real quanto.

2. “O Deus todo-poderoso nos fez participantes do seu poder para escolher livremente.”


Em segundo lugar, a origem do mal não é o Criador, mas a criatura que escolhe livremente o pecado e o egoísmo. Ou seja, tire todo pecado e egoísmo e você terá como resultado o Céu na terra. Mesmo os demais males físicos não nos fariam sofrer mais e não nos encheriam mais de amargura. Os santos suportam e até abraçam o sofrimento e a morte, como os amantes abraçam os desafios heróicos. Mas eles não abraçam o pecado. 

Além disso, a causa do mal físico é o mal espiritual. A causa do sofrimento é o pecado. Depois de que o Gênesis conta a história do bom Deus criando um mundo bom, ele responde em seguida à pergunta óbvia: “Então, de onde veio o mal?” pela história da queda da humanidade. Como devemos entender isso? Como o mal espiritual (pecado) pode causar o mal físico (sofrimento ou morte)? 

Deus é a fonte de toda vida e alegria. Portanto, quando a alma humana se rebela contra Deus, ela perde sua vida e alegria. Agora, um ser humano é tanto corpo quanto alma. Ou seja, somos criaturas individuais, não duais: não somos corpo e alma de forma separada, mas alma encarnada ou corpo com alma. Portanto, o corpo também deve compartilhar o castigo inevitável da alma. Isto é, uma punição tão natural e inevitável como quando os ossos quebram ao saltar de um penhasco, ou, outro exemplo, quando o estômago fica doente por comer comida podre, ou pode ser uma punição tão artificial e externa como a nota de uma prova ou uma bofetada nas mãos por pegar biscoitos da estante sem permissão.

Se esta consequência do pecado  foi uma mudança física no mundo ou apenas uma mudança espiritual na consciência humana – se os “espinhos e cardos” cresceram no jardim somente após a queda ou se eles sempre estiveram lá, mas só foram sentidos como dolorosos pelas consciências caídas –  é outra questão. Mas, em ambos os casos, a conexão entre o mal espiritual e o mal físico tem que ser tão estreita quanto a conexão entre as duas coisas que eles afetam, a alma humana  e o corpo humano. 

Se a origem do mal é o livre arbítrio, e Deus é a origem do livre arbítrio, então Deus é a origem do mal? Ou só os pais são a origem das maldades que seus filhos cometem por serem a origem de seus filhos? Deus onipotente nos fez participar do seu poder de escolher livremente. Então, preferiríamos que Ele não o tivesse feito, e nos tivesse criado como robôs em lugar de seres humanos?

3. “A cruz por parte de Deus é a solução prática para o mal. Nossa parte é nos arrepender, para acreditar e trabalhar com Deus no combate ao mal, através do amor”


Em terceiro lugar, esta parte da solução para o problema do mal é a parte mais importante: como resolver o problema na prática, não apenas na teoria; na vida, não apenas no pensamento. Embora o mal seja um problema sério para o pensamento (pois parece refutar a existência de Deus), ele é ainda um problema a mais na vida (pois é a verdadeira exclusão de Deus). Mesmo que você pense que tal solução no pensamento é obscura e incerta, a solução na prática é tão forte e clara quanto o sol;  é o Filho. A solução de Deus para o problema do mal é Seu Filho Jesus Cristo. O amor do Pai enviou seu Filho para morrer por nós, para derrotar o poder do mal na natureza humana: esse é o coração da história cristã. Não adoramos um Deus deísta, um senhor ausente que ignora seu povo; adoramos um Deus vivo que desceu direto à pior miséria para nos resgatar. Como tiramos Deus do centro por permitir o mal? Deus não está fora do centro; pelo contrário: Deus é o centro. Esse é o sentido de uma crucifixão. 

A cruz é, por parte de Deus, a solução prática para o mal. Nossa parte, de acordo com o Evangelho, é nos arrepender, acreditar e trabalhar como Deus na luta contra o mal pelo poder do amor. O Rei invadiu; estamos culminando a operação limpeza. 

4. “Por que acontecem coisas ruins às boas pessoas? A pergunta faz três suposições questionáveis.”


Por último, e quanto ao problema filosófico? Não é logicamente contraditório dizer que um Deus todo-poderoso e todo-amoroso tolera tanto mal quando ele poderia erradicá-lo? Por que acontecem coisas ruins às boas pessoas? A pergunta faz três suposições questionáveis.

Primeiro, quem pode dizer que somos pessoas boas? A pergunta não deveria ser “Por que coisas ruins acontecem com boas pessoas?”, mas “Por que coisas boas acontecem com pessoas ruins?”. Se a fada madrinha diz para a Cinderela que ela pode usar seu vestido mágico até a meia-noite, a pergunta não deveria ser “Por que não depois da meia-noite?” mas “Por que eu pude usá-lo, afinal?” A pergunta não é por que o copo de água está meio vazio, mas por que está meio cheio, pois toda bondade é um dom. As melhores pessoas são as que mais relutam em se autodenominarem boas pessoas. Os pecadores pensam que são santos, mas os santos sabem que são pecadores. O melhor homem que já viveu disse uma vez: “Por que me chamas bom? Só Deus é bom.”

Segundo, quem pode dizer que todo sofrimento é ruim? A vida sem ele produziria pirralhos e tiranos mimados, não santos alegres. O rabino Abraham Heschel diz simplesmente: “O homem que não tem sofrido, o que ele pode saber, afinal? ”. O sofrimento pode  ajustar-se para o bem maior da sabedoria. Não é verdade que todas as coisas são boas, mas é verdade que “todas as coisas operam conjuntamente para o bem daqueles que amam a Deus”.

Terceiro, quem pode dizer que temos de conhecer todas as razões de Deus? Quem já nos prometeu todas as respostas? Os animais não podem entender muito sobre nós; por que nós devemos ser capazes de entender tudo sobre Deus? O ponto óbvio do Livro de Jó, sobre o problema do mal no mundo, é que simplesmente não sabemos o que Deus está fazendo. Que dura lição a aprender: primeira lição, que somos ignorantes, que somos crianças! Não é de se estranhar que Sócrates tenha sido declarado, pelo Oráculo de Delfos, como o homem mais sábio do mundo. Ele interpretou essa declaração no sentido de que só ele sabia que não tinha sabedoria, e essa era a verdadeira sabedoria para o homem.

Uma criança no décimo andar de um edifício em chamas não enxerga os bombeiros com sua rede de segurança na rua. Eles chamam: “Pule! Nós o pegaremos. Confie em nós”. A criança se opôs: “Mas eu não  vejo vocês”. O bombeiro responde: “Está tudo bem. Eu posso te ver”. Nós somos como aquela criança, o mal é como o fogo, nossa ignorância é como a fumaça, Deus é como o bombeiro, e Cristo é como a rede de segurança. Se há situações como esta, em que devemos confiar nossas vidas mesmo a seres humanos falíveis, onde temos que confiar no que ouvimos, não no que vemos, então é razoável que devamos confiar no infalível, Deus, Aquele que tudo vê, quando ouvimos Sua Palavra, mas não vemos com nossa razão ou experiência. Não podemos conhecer todas as razões de Deus, mas podemos saber por que não podemos saber. 

Deus tem nos deixado saber muitas coisas. Ele levantou a cortina sobre o problema do mal com Cristo. Ali, o maior mal que já aconteceu, tanto o maior mal espiritual quanto o maior mal físico, tanto o maior pecado ( deicídio) quanto o maior sofrimento (amor perfeito odiado e crucificado), é revelado como seu plano sábio e amoroso para realizar o maior bem, a salvação do mundo do pecado e do sofrimento eterno. Ali, a maior injustiça já praticada de todos os tempos está integrada no plano de salvação, aquilo que São Paulo chama de “a justiça de Deus”. O amor encontra um caminho. O amor pode até ser muito complicado. Mas o amor precisa ser confiável. 

O pior aspecto do problema do mal é o mal eterno, o inferno. Então, será que o inferno não contradiz um Deus amoroso e onipotente? Não, pois o inferno é a consequência do livre arbítrio. Nós escolhemos livremente o inferno para nós mesmos; Deus não lança ninguém no inferno contra sua vontade. Se  uma criatura é realmente livre para dizer sim ou não à oferta de amor e casamento espiritual do Criador, então deve ser possível para a criatura dizer não. E isso é o inferno, essencialmente. O livre arbítrio, por sua vez, foi criado a partir do amor de Deus. Portanto, o inferno é um resultado do amor de Deus. Ou seja, tudo é resultado do amor de Deus. 

Nenhuma pessoa em seu pleno juízo quer que o inferno exista. Nenhuma pessoa em sã consciência quer que o mal exista. Mas o inferno é apenas o mal eternizado. Se há o mal e se existe a eternidade, pode haver o inferno. Se é intelectualmente desonesto não acreditar no mal só porque ele é chocante e desconfortável, o mesmo acontece com o inferno. A realidade tem cantos difíceis, surpresas e perigos terríveis dentro dela. Precisamos desesperadamente de um verdadeiro mapa de estradas, não de sentimentos agradáveis, se quisermos voltar para casa. É verdade, como as pessoas costumam dizer, que “o inferno simplesmente se sente irreal, impossível”. Sim, impossível, para Auschwitz também. Assim como impossível o calvário. 

Referências

  1. em latim; Summa Theologiae[]

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