Destaque, Formação

Papa Francisco: vida, pontificado e principais contribuições para a Igreja

Papa Francisco, o primeiro jesuíta e latino-americano no trono de Pedro. Pontificado marcado pela misericórdia e pela justiça social.

Papa Francisco: vida, pontificado e principais contribuições para a Igreja
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Papa Francisco: vida, pontificado e principais contribuições para a Igreja

Papa Francisco, o primeiro jesuíta e latino-americano no trono de Pedro. Pontificado marcado pela misericórdia e pela justiça social.

Data da Publicação: 21/02/2025
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC
Data da Publicação: 21/02/2025
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Autor: Redação MBC

Papa Francisco, o 266º Sumo Pontífice da Igreja Católica, entrou para a história como o primeiro Papa jesuíta e o primeiro latino-americano a ocupar o trono de Pedro. Desde o início de seu pontificado, dedicou-se a temas essenciais para a Igreja e o mundo, como a misericórdia, a justiça social, a bioética, a ecologia e o combate aos abusos. Também destacou-se por incentivar a evangelização no ambiente digital e abordar questões emergentes como a inteligência artificial, sempre buscando um diálogo entre a fé e os desafios contemporâneos.

Quem é o Papa Francisco?

Papa Francisco jovem sentado à mesa com sua avó Rosa.
Durante sua infância passou muito tempo com outra pessoa que é especial para ele: sua avó Rosa. Quando nasceu, como o primeiro de quatro irmãos mais novos, sua avó costumava levá-lo para casa com ela e ele passava o dia todo lá. Ela quem o ensinou a rezar e lhe contou sobre a vida dos santos.

Jorge Mario Bergoglio nasceu em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires, Argentina. Filho de imigrantes italianos, cresceu em um ambiente familiar profundamente católico. Desde jovem, demonstrou inclinação para a vida religiosa e ingressou na Companhia de Jesus, tornando-se jesuíta.

Ordenado sacerdote em 1969, Bergoglio destacou-se por sua simplicidade, humildade e proximidade com o povo. Atuou como professor, reitor e, posteriormente, tornou-se Arcebispo de Buenos Aires em 1998. Sua trajetória pastoral sempre foi marcada pelo compromisso com os pobres e a defesa da justiça social.

Em 13 de março de 2013, foi eleito o 266º Papa da Igreja Católica, adotando o nome Francisco, em referência a São Francisco de Assis. Sua escolha simbolizou um pontificado voltado para a humildade, a misericórdia e a preocupação com os mais necessitados. Desde então, tem promovido reformas na Igreja e incentivado um diálogo aberto com fiéis e não fiéis, buscando sempre a unidade e a paz.

Papa Francisco é o primeiro pontífice jesuíta e o primeiro latino-americano a liderar a Igreja Católica. Seu pontificado continua a inspirar milhões de pessoas ao redor do mundo, guiando a Igreja com uma mensagem de amor, compaixão e esperança.

Vocação e vida religiosa

Papa Francisco ingressou na Companhia de Jesus (Jesuítas) em 1958, iniciando sua formação religiosa com um forte espírito missionário e dedicação ao serviço. Como jesuíta, destacou-se por sua disciplina, profundo senso de humildade e proximidade com o povo.

Foi ordenado sacerdote em 13 de dezembro de 1969 e, ao longo dos anos, exerceu um papel fundamental na formação de novos religiosos, atuando como professor e reitor do seminário. Seu trabalho pastoral sempre esteve marcado pelo compromisso com a educação e o desenvolvimento espiritual dos seminaristas, preparando-os para servir à Igreja e à sociedade.

Em 1998, foi nomeado Arcebispo de Buenos Aires, assumindo a missão de guiar espiritualmente a capital argentina. Durante esse período, ficou conhecido por seu estilo de vida simples, sua defesa incansável dos mais pobres e sua proximidade com os fiéis. Ao invés de morar no palácio episcopal, preferiu uma residência modesta e utilizava o transporte público, refletindo seu compromisso com a simplicidade evangélica.

Reconhecendo seu trabalho pastoral, o Papa João Paulo II o criou Cardeal em 2001. Como membro do Colégio Cardinalício, Bergoglio manteve sua postura discreta e sua dedicação aos mais necessitados, tornando-se uma referência de liderança espiritual e humildade dentro da Igreja.

Foto da ordenação episcopal de dom Jorge Mario Bergoglio, em 27 de junho de 1992, na Catedral de Buenos Aires. Fonte: Vatican News.

Essa trajetória de serviço e compromisso com os princípios do Evangelho preparou o caminho para sua eleição como Papa em 2013, dando início a um pontificado marcado pela misericórdia, pela inclusão e pela renovação da Igreja.

A eleição ao papado e o nome Francisco

Conclave de 2013

O Conclave de 2013 foi convocado após a histórica renúncia do Papa Bento XVI, um evento raro na Igreja Católica. Os cardeais reuniram-se na Capela Sistina para eleger o novo pontífice, buscando um líder que pudesse guiar a Igreja em um período de desafios e renovação.

Em 13 de março de 2013, após cinco escrutínios, Jorge Mario Bergoglio foi escolhido como o 266º Papa da Igreja Católica, tornando-se o primeiro pontífice jesuíta e o primeiro latino-americano a assumir o trono de São Pedro. Sua eleição marcou um momento significativo na história da Igreja, simbolizando uma nova fase de proximidade com os fiéis e compromisso com os mais necessitados.

Ao ser eleito, Bergoglio escolheu o nome Francisco, inspirado em São Francisco de Assis. Essa escolha foi altamente simbólica, refletindo os valores do santo de humildade, paz e amor aos pobres. Desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco tem enfatizado a importância da simplicidade, da misericórdia e do serviço aos marginalizados, promovendo uma Igreja mais próxima das realidades humanas e voltada para a fraternidade universal.

Seu pontificado continua a ser marcado por um chamado à conversão pastoral, à reforma da Cúria Romana e à construção de pontes entre diferentes povos e religiões, sempre com um olhar atento aos mais vulneráveis.

Neste artigo, descubra como é escolhido um Papa.

Os primeiros gestos como Papa

Desde os primeiros momentos após sua eleição, o Papa Francisco demonstrou um estilo simples e próximo do povo, quebrando protocolos e reforçando sua visão de uma Igreja mais humilde e acessível.

A casa Santa Marta, a casa do Papa.

Ao aparecer pela primeira vez na varanda da Basílica de São Pedro, surpreendeu ao pedir, antes de conceder a tradicional bênção Urbi et Orbi, que os fiéis rezassem por ele. Esse gesto simbolizou sua profunda humildade e a consciência de que a missão do Papa deve ser sustentada pela oração e pelo apoio do povo de Deus.

Outra decisão marcante foi sua escolha de residir na Casa Santa Marta, recusando os aposentos pontifícios no Palácio Apostólico. Optou por viver em um espaço mais simples e comunitário, compartilhando as refeições com outros membros da Cúria. Esse gesto reforçou sua preocupação com a proximidade e a simplicidade, características que se tornaram marcas de seu pontificado.

Desde o início, o Papa Francisco tem buscado uma Igreja menos burocrática e mais voltada ao serviço, com um olhar atento aos pobres e marginalizados. Seus primeiros gestos como pontífice foram sinais claros de que sua liderança seria pautada pelo exemplo de humildade, misericórdia e compromisso com o Evangelho.

Os principais temas do pontificado do Papa Francisco

O pontificado do Papa Francisco, iniciado em 2013, é marcado por uma série de temas centrais que refletem sua visão de uma Igreja mais misericordiosa, inclusiva e atenta aos desafios contemporâneos.

O nome de Deus é misericórdia

A misericórdia ocupa um lugar central no ministério do Papa Francisco. Em 2015, ele proclamou o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, um ano santo que se estendeu até 2016, com o objetivo de incentivar os fiéis a vivenciarem o perdão e a reconciliação de maneira mais profunda.

Durante esse período, Francisco enfatizou que “ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus” e que a Igreja deve ser “a casa que acolhe todos e não rejeita ninguém”. A abertura das “Portas Santas” em todo o mundo simbolizou o convite para que todos experimentassem a compaixão divina.

Acolhimento dos mais vulneráveis

Desde o início de seu pontificado, Francisco destacou a necessidade de a Igreja estar próxima dos pobres, imigrantes e marginalizados. Ele frequentemente critica a “cultura do descarte” e chama a atenção para as injustiças sociais que afetam os mais vulneráveis.

Em sua encíclica Fratelli Tutti, o Papa Francisco aborda a fraternidade e a amizade social, conclamando a humanidade a construir pontes em vez de muros. Também se posicionou contra a gentrificação e o aumento descontrolado dos aluguéis, que deslocam comunidades menos favorecidas, afirmando que tais práticas transformam bairros em “espaços de luxo” e excluem os pobres.

No que diz respeito aos casais em segunda união, o Papa Francisco promoveu uma abordagem pastoral mais compassiva. Na exortação apostólica “Amoris Laetitia“, ele reconhece os desafios enfrentados por esses casais e sugere que, em determinadas circunstâncias, e após um discernimento cuidadoso, eles possam ser reintegrados na vida da Igreja. Essa perspectiva busca equilibrar a fidelidade à doutrina com a compreensão das complexidades da vida humana.

Papa Francisco reiterou que as pessoas homossexuais devem ser acolhidas com respeito e dignidade. Embora a Igreja mantenha seus ensinamentos tradicionais sobre moral sexual, o Papa enfatiza que “ninguém deve ser excluído ou se sentir excluído da Igreja” por causa de sua orientação sexual. Ele também destacou que a defesa dos pobres e marginalizados é central ao Evangelho, e não uma questão de ideologia política.

Entre as demais pautas, Papa Francisco abordou questões como a ecologia integral, destacada na encíclica “Laudato Si‘”, onde chama à responsabilidade coletiva pelo cuidado da “casa comum”. Ele também tem se posicionado firmemente contra a violência e o terrorismo, condenando ações que vitimizam civis inocentes, como observado em sua autobiografia “Esperança”

Santidade acessível

A Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate“, publicada pelo Papa Francisco em 2018, é um chamado à santidade no mundo contemporâneo. O título, que significa “Alegrai-vos e exultai”, é extraído do Evangelho de Mateus (5,12) e reflete o convite de Jesus à alegria mesmo diante das adversidades. Nesta exortação, o Papa enfatiza que a busca pela santidade não é reservada a uma elite espiritual, mas é uma vocação universal, acessível a todos os fiéis em suas realidades cotidianas.

Desde as primeiras linhas do documento, Francisco destaca que o Senhor “quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa”. A santidade, portanto, não se manifesta apenas em grandes feitos ou em momentos extraordinários, mas também nas pequenas ações diárias realizadas com amor e fé. O Papa menciona que muitos santos “ao pé da porta” são aqueles que vivem próximos de nós e refletem a presença de Deus através de suas vidas simples e dedicadas.

Um aspecto central da “Gaudete et Exsultate” é a desconstrução da ideia de que a santidade é inalcançável ou exclusiva. Francisco afirma que “para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso”. Cada pessoa, em sua singularidade, é chamada a seguir um caminho de santidade, seja no ambiente de trabalho, na vida familiar ou nas interações sociais.

Bioética, aborto e eutanásia

O Papa Francisco se posicionou firmemente contra o aborto e a eutanásia, reafirmando a doutrina da Igreja que defende a inviolabilidade da vida humana desde a concepção até a morte natural. Em diversas ocasiões, ele destacou que práticas como o aborto e a eutanásia são manifestações de uma “cultura do descarte”, onde vidas humanas são tratadas como objetos descartáveis.

Em um discurso à Associação de Médicos Católicos da Itália, Francisco alertou contra uma “falsa compaixão” que justifica o aborto e a eutanásia, enfatizando que essas práticas não promovem a verdadeira dignidade humana. Ele afirmou que “com a vida não se brinca” e que a defesa da vida em todas as suas fases é essencial para uma sociedade justa e compassiva.1

O Papa ressaltou que a defesa da vida não se limita apenas ao início e ao fim dela, mas abrange todas as suas etapas. Ele enfatizou a necessidade de uma visão global da bioética que promova a dignidade humana em todas as circunstâncias, rejeitando práticas que instrumentalizam ou desvalorizam a vida.

Leia mais sobre a Igreja Católica e o aborto.

Política de tolerância zero com abusos

Em maio de 2019, o Papa Francisco promulgou o motu proprio Vos Estis Lux Mundi (“Vós sois a luz do mundo”), estabelecendo diretrizes rigorosas para combater abusos sexuais dentro da Igreja e assegurar a responsabilização de bispos e superiores religiosos que negligenciem ou encubram tais casos. Este documento reforça o compromisso da Igreja em proteger os fiéis e promover uma cultura de transparência e justiça.

Entre as principais disposições do Vos Estis Lux Mundi, destaca-se a obrigatoriedade de que todas as dioceses implementem, até junho de 2020, sistemas públicos, estáveis e facilmente acessíveis para a recepção de denúncias de abusos. Esses sistemas visam facilitar o relato de casos por parte de vítimas e testemunhas, garantindo que suas vozes sejam ouvidas e que as denúncias sejam tratadas com seriedade e celeridade.

O documento impõe a obrigação para clérigos e membros de institutos de vida consagrada de reportarem prontamente às autoridades eclesiásticas quaisquer casos de abusos dos quais tenham conhecimento ou suspeita fundamentada. Essa medida busca assegurar que os líderes religiosos atuem de maneira proativa na proteção dos vulneráveis, evitando omissões que possam perpetuar situações de abuso.

Em dezembro de 2019, reforçando o compromisso com a transparência, o Papa Francisco aboliu o “segredo pontifício” em casos de abusos sexuais, permitindo que informações relacionadas a esses casos sejam compartilhadas com autoridades civis e partes interessadas, conforme as leis locais. Essa decisão visa eliminar obstáculos que anteriormente dificultavam investigações e processos judiciais, promovendo uma maior colaboração entre a Igreja e as autoridades civis na busca por justiça.

Mais recentemente, em março de 2023, o Papa Francisco tornou permanentes as disposições do Vos Estis Lux Mundi, ampliando seu escopo para incluir líderes leigos de associações internacionais de fiéis. Essa atualização reflete o compromisso contínuo da Igreja em adaptar e reforçar suas políticas de proteção, garantindo que todos os membros da comunidade eclesial sejam responsabilizados por suas ações.2

Para saber mais sobre o assunto, confira a coluna: Feridas e reconstrução: o caminho da Igreja na luta contra os abusos

Justiça social

O Papa Francisco se destacou pela ênfase em temas de justiça social, abordando questões como pobreza, imigração, consumismo, conflitos armados e crises globais, como a pandemia de COVID-19.

Pobreza

Desde o início de seu pontificado, Francisco enfatiza a “opção preferencial pelos pobres”, um princípio central da Doutrina Social da Igreja que prioriza os mais necessitados nas ações e políticas. Ele critica sistemas econômicos que perpetuam a desigualdade e a exclusão, afirmando que “não há democracia com fome, nem desenvolvimento com pobreza, nem justiça na desigualdade”.

Em sua encíclica Fratelli Tutti, o Papa destaca a necessidade de uma economia mais solidária, que coloque a dignidade humana acima do lucro. Recentemente, em seu livro “La esperanza no defrauda nunca“, Francisco criticou a gentrificação e o aumento descontrolado dos aluguéis, que transformam comunidades em espaços de luxo e deslocam os menos privilegiados.

Imigração e refugiados

Papa Francisco é um defensor fervoroso dos direitos dos imigrantes e refugiados, pedindo acolhimento e políticas humanitárias que respeitem a dignidade dessas pessoas, muitas vezes forçadas a deixar suas terras devido a conflitos ou pobreza. Na Fratelli Tutti, ele alerta contra a “mentalidade xenófoba” e enfatiza que os migrantes “têm a mesma dignidade intrínseca de toda e qualquer pessoa”.

Crítica ao consumismo e cultura do descarte

O Papa criticou o consumismo desenfreado e a “cultura do descarte”, onde indivíduos são valorizados apenas pelo que possuem ou consomem. Ele alerta que essa mentalidade leva à exclusão dos mais vulneráveis e à degradação ambiental. Francisco destaca que o consumismo é uma redução antropológica promovida pelo modelo econômico dominante, que reduz a dignidade humana à capacidade de consumir.

Conflitos armados: Ucrânia, Rússia e Oriente Médio

Diante de conflitos como os na Ucrânia e no Oriente Médio, Francisco faz apelos frequentes pelo fim das hostilidades e pela busca de soluções pacíficas. Ele incentiva a mediação diplomática e o diálogo como meios para alcançar a paz, condenando o uso da violência e destacando o sofrimento das populações afetadas.

Pandemia de COVID-19

Durante a pandemia, o Papa chamou à solidariedade global e enfatizou a importância da ciência aliada à fé. Ele destacou que a crise sanitária revelou desigualdades estruturais e a necessidade de repensar modelos econômicos e sociais. Em um momento histórico, Francisco concedeu a bênção Urbi et Orbi em uma Praça de São Pedro vazia, simbolizando esperança e união em tempos de adversidade.

Papa Francisco na histórica benção Urbi et Orbi, em 2020.
Papa Francisco na histórica benção Urbi et Orbi, em 2020.

Evangelização nas mídias digitais e inteligência artificial

O Papa Francisco tem enfatizado a importância da presença da Igreja no mundo digital como meio eficaz de evangelização, ao mesmo tempo em que alerta para os desafios éticos emergentes, especialmente no que tange à inteligência artificial (IA).

A pandemia de COVID-19 evidenciou a relevância da evangelização digital. Com as restrições presenciais, muitas comunidades religiosas adaptaram-se, utilizando transmissões online para manter a conexão com os fiéis. O Papa reconheceu esse movimento, ressaltando que a presença da Igreja no ambiente digital demonstra sua atenção às mudanças culturais e tecnológicas da sociedade contemporânea.

Ele reconheceu o vasto alcance e influência das plataformas digitais, Papa Francisco incentivou a comunidade católica a utilizar esses meios para disseminar a mensagem do Evangelho. Em mensagem dirigida ao Congresso Mundial da Associação Internacional Católica de Comunicação (SIGNIS) em 2022, ele destacou que a mídia digital é “um meio potente para promover a paz”. No entanto, também alertou sobre os perigos potenciais, observando que “os sites da mídia tornaram-se locais tóxicos, com discursos de ódio e fake news“, e enfatizou a necessidade de ajudar os jovens a usarem essas plataformas com senso crítico.3.

Inteligência Artificial: desafios éticos e uso para o bem comum

Em relação à inteligência artificial, Francisco tem manifestado preocupações sobre os desafios éticos associados ao seu desenvolvimento e aplicação. Na Mensagem para o 57º Dia Mundial da Paz, celebrada em 1º de janeiro de 2024, intitulada “Inteligência Artificial e Paz”, o Papa enfatizou que a IA “tornar-se-á cada vez mais importante” e que os desafios que ela apresenta “não são apenas de ordem técnica, mas também antropológica, educacional, social e política”. Ou seja, tem-se a necessidade de orientar o desenvolvimento e uso da IA de maneira responsável, assegurando que esteja a serviço da humanidade e da proteção da nossa casa comum.

Convocou um “diálogo aberto sobre o significado dessas novas tecnologias” e instou para que se trabalhe de “forma responsável” na produção e utilização da IA, garantindo que essas ferramentas promovam o bem comum e respeitem a dignidade humana.

Em sua quarta encíclica, “Dilexit Nos” (“Nos Amou”), publicada em outubro de 2024, o Papa aprofundou a reflexão sobre o papel da tecnologia na vida humana. Ele chamou a atenção para a necessidade de “voltar ao coração” como antídoto contra a frieza e previsibilidade dos algoritmos, enfatizando a importância do amor verdadeiro e das relações pessoais em um mundo cada vez mais dominado pela racionalidade tecnológica.

Os principais documentos do Papa Francisco

O Papa Francisco, desde o início de seu pontificado, tem enriquecido a Doutrina Social da Igreja por meio de importantes documentos que abordam questões contemporâneas à luz da fé cristã. Dentre suas principais encíclicas, destacam-se:

Lumen Fidei (2013)

Esta encíclica, cujo título significa “A Luz da Fé”, foi iniciada pelo Papa Bento XVI e concluída por Francisco. O documento explora a natureza da fé cristã, destacando-a como uma luz que guia os fiéis em meio às trevas do mundo moderno. Enfatiza a continuidade da tradição apostólica e a importância da fé na vida cotidiana dos cristãos.

Laudato Si’ (2015)

Intitulada “Louvado Sejas”, esta encíclica aborda o cuidado com a “casa comum”, enfocando questões ambientais e ecológicas. Francisco chama a atenção para os desafios da degradação ambiental, das mudanças climáticas e da injustiça social, convocando todos a uma conversão ecológica que una preocupações ambientais e justiça para com os pobres.

Fratelli Tutti (2020)

Com o título “Todos Irmãos”, esta encíclica reflete sobre a fraternidade e a amizade social. Inspirado no exemplo de São Francisco de Assis, o Papa Francisco aborda temas como a cultura do descarte, o individualismo e as desigualdades sociais, propondo um amor que transcende fronteiras e promove a solidariedade global.

Dilexit Nos (2024)

Publicada em 24 de outubro de 2024, “Dilexit Nos” (Ele nos amou) é a quarta encíclica do Papa Francisco, dedicada ao amor humano e divino manifestado no Coração de Jesus. O documento enfatiza a necessidade de recuperar o “coração” em um mundo cada vez mais dominado pela racionalidade tecnológica e pelos algoritmos.

Ele convida os fiéis a meditarem sobre o amor de Cristo como fonte de renovação espiritual e eclesial, destacando que a devoção ao Sagrado Coração é um antídoto contra a frieza e a previsibilidade impostas pela tecnologia moderna. A encíclica também coincide com o 350º aniversário da primeira aparição do Sagrado Coração a Santa Margarida Maria Alacoque em 1673.

Exortações Apostólicas

O Papa Francisco, ao longo de seu pontificado, tem oferecido orientações pastorais por meio de diversas exortações apostólicas. Esses documentos abordam temas centrais para a vida da Igreja e dos fiéis. A seguir, uma breve descrição das principais exortações:

Evangelii Gaudium (2013)

Intitulada “A Alegria do Evangelho”, esta exortação aborda o anúncio do Evangelho no mundo atual. O Papa Francisco enfatizou a necessidade de uma Igreja em saída, missionária, que leve a mensagem de Jesus Cristo a todos os cantos, com alegria e entusiasmo. Ele também destaca a importância da renovação eclesial e da inclusão social dos pobres.

Amoris Laetitia (2016)

Conhecida como “A Alegria do Amor”, esta exortação trata do amor na família e dos desafios pastorais relacionados. Resultado dos Sínodos sobre a Família, o documento oferece reflexões sobre a beleza do matrimônio e da vida familiar, abordando também questões complexas, como a situação dos divorciados recasados, sempre com uma perspectiva de misericórdia e acolhimento.

Gaudete et Exsultate (2018)

Com o título “Alegrai-vos e Exultai”, esta exortação é um chamado à santidade na vida cotidiana. O Papa Francisco ressaltou que a santidade não é reservada a uma elite, mas é uma vocação para todos. Ele oferece orientações práticas sobre como viver a santidade nos desafios diários, alertando contra os perigos do individualismo e do consumismo.

Christus Vivit (2019)

Dirigida especialmente aos jovens, “Cristo Vive” é uma exortação que surge após o Sínodo dos Bispos sobre os jovens e as vocações. O Papa Francisco encorajou os jovens a serem protagonistas na Igreja e no mundo, reconhecendo seus dons e potencialidades. Ele também aborda temas como discernimento vocacional, acompanhamento e a importância de uma Igreja que escuta e caminha junto com a juventude.

Querida Amazônia (2020)

Esta exortação apresenta as reflexões do Papa Francisco sobre a Amazônia e seus desafios sociais e eclesiais, após o Sínodo para a Amazônia. No documento, o Papa expressa seus “sonhos” para a região: um sonho social, cultural, ecológico e eclesial. Também destacou a necessidade de proteger os povos indígenas, preservar o meio ambiente e encontrar novos caminhos para a evangelização na região.

Constituições Apostólicas

A Constituição Apostólica Praedicate Evangelium, promulgada pelo Papa Francisco em 19 de março de 2022, representa uma reforma significativa da Cúria Romana, enfatizando sua natureza missionária e serviço à Igreja universal. Este documento substitui a constituição anterior, Pastor Bonus, de 1988, e entrou em vigor em 5 de junho de 2022, na Solenidade de Pentecostes.

Entre as principais mudanças introduzidas, destacou-se a possibilidade de leigos, homens e mulheres, assumirem posições de liderança nos dicastérios da Cúria, refletindo uma visão mais inclusiva e corresponsável na administração eclesial.

A reforma reorganizou os dicastérios, colocando o Dicastério para a Evangelização em posição central, ressaltando a prioridade da evangelização na missão da Igreja. A Praedicate Evangelium também promove uma maior sinodalidade e colaboração entre os diversos departamentos da Cúria, buscando uma atuação mais eficiente e coerente com os desafios contemporâneos.

Legado do pontificado do Papa Francisco

O pontificado do Papa Francisco representou um marco de renovação, tanto na vida da Igreja quanto na sociedade contemporânea. Sua trajetória, pautada na simplicidade, na misericórdia e no compromisso com os mais vulneráveis, transformou a forma como a Igreja se relacionou com o mundo.

Desde sua ênfase na opção preferencial pelos pobres, passando por sua crítica ao consumismo e pela defesa dos direitos dos imigrantes e refugiados, até a abordagem inovadora diante dos desafios éticos da inteligência artificial, o Papa demonstrou que a fé não era apenas um legado de tradições, mas um chamado urgente à ação em prol da dignidade humana e da justiça social.

Através de suas encíclicas e exortações apostólicas – como Lumen Fidei, Laudato Si’, Fratelli Tutti, Dilexit Nos, Evangelii Gaudium, Amoris Laetitia, Gaudete et Exsultate, Christus Vivit e Querida Amazônia – Francisco traçou um caminho de diálogo, inclusão e responsabilidade ética, promovendo uma Igreja que se abre constantemente ao novo e se compromete com a transformação do mundo. A reforma da Cúria Romana, consagrada na Praedicate Evangelium, reforça seu empenho em tornar as estruturas da Igreja mais transparentes, sinodais e orientadas para a missão evangelizadora.

Portanto, o legado do Papa Francisco é uma inspiradora convocação para que cada um de nós vivencie a fé com autenticidade e coragem, enfrente os desafios do mundo atual com esperança e solidariedade. Seu pontificado nos convida a refletir sobre o verdadeiro sentido da nossa existência e a trabalhar, juntos, por uma sociedade mais justa, fraterna e ecologicamente sustentável. Através de seu exemplo, somos lembrados de que a mudança começa no coração e se manifesta em gestos concretos de amor, compaixão e serviço ao próximo.

Referências

  1. Disponível na íntegra em: https://agencia.ecclesia.pt/portal/vaticano-com-a-vida-nao-se-brinca-diz-o-papa/[]
  2. Disponível em: https://www.vaticannews.va/en/pope/news/2019-05/pope-francis-motu-proprio-sex-abuse-clergy-religious-church.html[]
  3. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2022-07/papa-francisco-mensagem-signis-midia-digital-meio-potente-paz.html?[]
Redação MBC

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Papa Francisco, o 266º Sumo Pontífice da Igreja Católica, entrou para a história como o primeiro Papa jesuíta e o primeiro latino-americano a ocupar o trono de Pedro. Desde o início de seu pontificado, dedicou-se a temas essenciais para a Igreja e o mundo, como a misericórdia, a justiça social, a bioética, a ecologia e o combate aos abusos. Também destacou-se por incentivar a evangelização no ambiente digital e abordar questões emergentes como a inteligência artificial, sempre buscando um diálogo entre a fé e os desafios contemporâneos.

Quem é o Papa Francisco?

Papa Francisco jovem sentado à mesa com sua avó Rosa.
Durante sua infância passou muito tempo com outra pessoa que é especial para ele: sua avó Rosa. Quando nasceu, como o primeiro de quatro irmãos mais novos, sua avó costumava levá-lo para casa com ela e ele passava o dia todo lá. Ela quem o ensinou a rezar e lhe contou sobre a vida dos santos.

Jorge Mario Bergoglio nasceu em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires, Argentina. Filho de imigrantes italianos, cresceu em um ambiente familiar profundamente católico. Desde jovem, demonstrou inclinação para a vida religiosa e ingressou na Companhia de Jesus, tornando-se jesuíta.

Ordenado sacerdote em 1969, Bergoglio destacou-se por sua simplicidade, humildade e proximidade com o povo. Atuou como professor, reitor e, posteriormente, tornou-se Arcebispo de Buenos Aires em 1998. Sua trajetória pastoral sempre foi marcada pelo compromisso com os pobres e a defesa da justiça social.

Em 13 de março de 2013, foi eleito o 266º Papa da Igreja Católica, adotando o nome Francisco, em referência a São Francisco de Assis. Sua escolha simbolizou um pontificado voltado para a humildade, a misericórdia e a preocupação com os mais necessitados. Desde então, tem promovido reformas na Igreja e incentivado um diálogo aberto com fiéis e não fiéis, buscando sempre a unidade e a paz.

Papa Francisco é o primeiro pontífice jesuíta e o primeiro latino-americano a liderar a Igreja Católica. Seu pontificado continua a inspirar milhões de pessoas ao redor do mundo, guiando a Igreja com uma mensagem de amor, compaixão e esperança.

Vocação e vida religiosa

Papa Francisco ingressou na Companhia de Jesus (Jesuítas) em 1958, iniciando sua formação religiosa com um forte espírito missionário e dedicação ao serviço. Como jesuíta, destacou-se por sua disciplina, profundo senso de humildade e proximidade com o povo.

Foi ordenado sacerdote em 13 de dezembro de 1969 e, ao longo dos anos, exerceu um papel fundamental na formação de novos religiosos, atuando como professor e reitor do seminário. Seu trabalho pastoral sempre esteve marcado pelo compromisso com a educação e o desenvolvimento espiritual dos seminaristas, preparando-os para servir à Igreja e à sociedade.

Em 1998, foi nomeado Arcebispo de Buenos Aires, assumindo a missão de guiar espiritualmente a capital argentina. Durante esse período, ficou conhecido por seu estilo de vida simples, sua defesa incansável dos mais pobres e sua proximidade com os fiéis. Ao invés de morar no palácio episcopal, preferiu uma residência modesta e utilizava o transporte público, refletindo seu compromisso com a simplicidade evangélica.

Reconhecendo seu trabalho pastoral, o Papa João Paulo II o criou Cardeal em 2001. Como membro do Colégio Cardinalício, Bergoglio manteve sua postura discreta e sua dedicação aos mais necessitados, tornando-se uma referência de liderança espiritual e humildade dentro da Igreja.

Foto da ordenação episcopal de dom Jorge Mario Bergoglio, em 27 de junho de 1992, na Catedral de Buenos Aires. Fonte: Vatican News.

Essa trajetória de serviço e compromisso com os princípios do Evangelho preparou o caminho para sua eleição como Papa em 2013, dando início a um pontificado marcado pela misericórdia, pela inclusão e pela renovação da Igreja.

A eleição ao papado e o nome Francisco

Conclave de 2013

O Conclave de 2013 foi convocado após a histórica renúncia do Papa Bento XVI, um evento raro na Igreja Católica. Os cardeais reuniram-se na Capela Sistina para eleger o novo pontífice, buscando um líder que pudesse guiar a Igreja em um período de desafios e renovação.

Em 13 de março de 2013, após cinco escrutínios, Jorge Mario Bergoglio foi escolhido como o 266º Papa da Igreja Católica, tornando-se o primeiro pontífice jesuíta e o primeiro latino-americano a assumir o trono de São Pedro. Sua eleição marcou um momento significativo na história da Igreja, simbolizando uma nova fase de proximidade com os fiéis e compromisso com os mais necessitados.

Ao ser eleito, Bergoglio escolheu o nome Francisco, inspirado em São Francisco de Assis. Essa escolha foi altamente simbólica, refletindo os valores do santo de humildade, paz e amor aos pobres. Desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco tem enfatizado a importância da simplicidade, da misericórdia e do serviço aos marginalizados, promovendo uma Igreja mais próxima das realidades humanas e voltada para a fraternidade universal.

Seu pontificado continua a ser marcado por um chamado à conversão pastoral, à reforma da Cúria Romana e à construção de pontes entre diferentes povos e religiões, sempre com um olhar atento aos mais vulneráveis.

Neste artigo, descubra como é escolhido um Papa.

Os primeiros gestos como Papa

Desde os primeiros momentos após sua eleição, o Papa Francisco demonstrou um estilo simples e próximo do povo, quebrando protocolos e reforçando sua visão de uma Igreja mais humilde e acessível.

A casa Santa Marta, a casa do Papa.

Ao aparecer pela primeira vez na varanda da Basílica de São Pedro, surpreendeu ao pedir, antes de conceder a tradicional bênção Urbi et Orbi, que os fiéis rezassem por ele. Esse gesto simbolizou sua profunda humildade e a consciência de que a missão do Papa deve ser sustentada pela oração e pelo apoio do povo de Deus.

Outra decisão marcante foi sua escolha de residir na Casa Santa Marta, recusando os aposentos pontifícios no Palácio Apostólico. Optou por viver em um espaço mais simples e comunitário, compartilhando as refeições com outros membros da Cúria. Esse gesto reforçou sua preocupação com a proximidade e a simplicidade, características que se tornaram marcas de seu pontificado.

Desde o início, o Papa Francisco tem buscado uma Igreja menos burocrática e mais voltada ao serviço, com um olhar atento aos pobres e marginalizados. Seus primeiros gestos como pontífice foram sinais claros de que sua liderança seria pautada pelo exemplo de humildade, misericórdia e compromisso com o Evangelho.

Os principais temas do pontificado do Papa Francisco

O pontificado do Papa Francisco, iniciado em 2013, é marcado por uma série de temas centrais que refletem sua visão de uma Igreja mais misericordiosa, inclusiva e atenta aos desafios contemporâneos.

O nome de Deus é misericórdia

A misericórdia ocupa um lugar central no ministério do Papa Francisco. Em 2015, ele proclamou o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, um ano santo que se estendeu até 2016, com o objetivo de incentivar os fiéis a vivenciarem o perdão e a reconciliação de maneira mais profunda.

Durante esse período, Francisco enfatizou que “ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus” e que a Igreja deve ser “a casa que acolhe todos e não rejeita ninguém”. A abertura das “Portas Santas” em todo o mundo simbolizou o convite para que todos experimentassem a compaixão divina.

Acolhimento dos mais vulneráveis

Desde o início de seu pontificado, Francisco destacou a necessidade de a Igreja estar próxima dos pobres, imigrantes e marginalizados. Ele frequentemente critica a “cultura do descarte” e chama a atenção para as injustiças sociais que afetam os mais vulneráveis.

Em sua encíclica Fratelli Tutti, o Papa Francisco aborda a fraternidade e a amizade social, conclamando a humanidade a construir pontes em vez de muros. Também se posicionou contra a gentrificação e o aumento descontrolado dos aluguéis, que deslocam comunidades menos favorecidas, afirmando que tais práticas transformam bairros em “espaços de luxo” e excluem os pobres.

No que diz respeito aos casais em segunda união, o Papa Francisco promoveu uma abordagem pastoral mais compassiva. Na exortação apostólica “Amoris Laetitia“, ele reconhece os desafios enfrentados por esses casais e sugere que, em determinadas circunstâncias, e após um discernimento cuidadoso, eles possam ser reintegrados na vida da Igreja. Essa perspectiva busca equilibrar a fidelidade à doutrina com a compreensão das complexidades da vida humana.

Papa Francisco reiterou que as pessoas homossexuais devem ser acolhidas com respeito e dignidade. Embora a Igreja mantenha seus ensinamentos tradicionais sobre moral sexual, o Papa enfatiza que “ninguém deve ser excluído ou se sentir excluído da Igreja” por causa de sua orientação sexual. Ele também destacou que a defesa dos pobres e marginalizados é central ao Evangelho, e não uma questão de ideologia política.

Entre as demais pautas, Papa Francisco abordou questões como a ecologia integral, destacada na encíclica “Laudato Si‘”, onde chama à responsabilidade coletiva pelo cuidado da “casa comum”. Ele também tem se posicionado firmemente contra a violência e o terrorismo, condenando ações que vitimizam civis inocentes, como observado em sua autobiografia “Esperança”

Santidade acessível

A Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate“, publicada pelo Papa Francisco em 2018, é um chamado à santidade no mundo contemporâneo. O título, que significa “Alegrai-vos e exultai”, é extraído do Evangelho de Mateus (5,12) e reflete o convite de Jesus à alegria mesmo diante das adversidades. Nesta exortação, o Papa enfatiza que a busca pela santidade não é reservada a uma elite espiritual, mas é uma vocação universal, acessível a todos os fiéis em suas realidades cotidianas.

Desde as primeiras linhas do documento, Francisco destaca que o Senhor “quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa”. A santidade, portanto, não se manifesta apenas em grandes feitos ou em momentos extraordinários, mas também nas pequenas ações diárias realizadas com amor e fé. O Papa menciona que muitos santos “ao pé da porta” são aqueles que vivem próximos de nós e refletem a presença de Deus através de suas vidas simples e dedicadas.

Um aspecto central da “Gaudete et Exsultate” é a desconstrução da ideia de que a santidade é inalcançável ou exclusiva. Francisco afirma que “para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso”. Cada pessoa, em sua singularidade, é chamada a seguir um caminho de santidade, seja no ambiente de trabalho, na vida familiar ou nas interações sociais.

Bioética, aborto e eutanásia

O Papa Francisco se posicionou firmemente contra o aborto e a eutanásia, reafirmando a doutrina da Igreja que defende a inviolabilidade da vida humana desde a concepção até a morte natural. Em diversas ocasiões, ele destacou que práticas como o aborto e a eutanásia são manifestações de uma “cultura do descarte”, onde vidas humanas são tratadas como objetos descartáveis.

Em um discurso à Associação de Médicos Católicos da Itália, Francisco alertou contra uma “falsa compaixão” que justifica o aborto e a eutanásia, enfatizando que essas práticas não promovem a verdadeira dignidade humana. Ele afirmou que “com a vida não se brinca” e que a defesa da vida em todas as suas fases é essencial para uma sociedade justa e compassiva.1

O Papa ressaltou que a defesa da vida não se limita apenas ao início e ao fim dela, mas abrange todas as suas etapas. Ele enfatizou a necessidade de uma visão global da bioética que promova a dignidade humana em todas as circunstâncias, rejeitando práticas que instrumentalizam ou desvalorizam a vida.

Leia mais sobre a Igreja Católica e o aborto.

Política de tolerância zero com abusos

Em maio de 2019, o Papa Francisco promulgou o motu proprio Vos Estis Lux Mundi (“Vós sois a luz do mundo”), estabelecendo diretrizes rigorosas para combater abusos sexuais dentro da Igreja e assegurar a responsabilização de bispos e superiores religiosos que negligenciem ou encubram tais casos. Este documento reforça o compromisso da Igreja em proteger os fiéis e promover uma cultura de transparência e justiça.

Entre as principais disposições do Vos Estis Lux Mundi, destaca-se a obrigatoriedade de que todas as dioceses implementem, até junho de 2020, sistemas públicos, estáveis e facilmente acessíveis para a recepção de denúncias de abusos. Esses sistemas visam facilitar o relato de casos por parte de vítimas e testemunhas, garantindo que suas vozes sejam ouvidas e que as denúncias sejam tratadas com seriedade e celeridade.

O documento impõe a obrigação para clérigos e membros de institutos de vida consagrada de reportarem prontamente às autoridades eclesiásticas quaisquer casos de abusos dos quais tenham conhecimento ou suspeita fundamentada. Essa medida busca assegurar que os líderes religiosos atuem de maneira proativa na proteção dos vulneráveis, evitando omissões que possam perpetuar situações de abuso.

Em dezembro de 2019, reforçando o compromisso com a transparência, o Papa Francisco aboliu o “segredo pontifício” em casos de abusos sexuais, permitindo que informações relacionadas a esses casos sejam compartilhadas com autoridades civis e partes interessadas, conforme as leis locais. Essa decisão visa eliminar obstáculos que anteriormente dificultavam investigações e processos judiciais, promovendo uma maior colaboração entre a Igreja e as autoridades civis na busca por justiça.

Mais recentemente, em março de 2023, o Papa Francisco tornou permanentes as disposições do Vos Estis Lux Mundi, ampliando seu escopo para incluir líderes leigos de associações internacionais de fiéis. Essa atualização reflete o compromisso contínuo da Igreja em adaptar e reforçar suas políticas de proteção, garantindo que todos os membros da comunidade eclesial sejam responsabilizados por suas ações.2

Para saber mais sobre o assunto, confira a coluna: Feridas e reconstrução: o caminho da Igreja na luta contra os abusos

Justiça social

O Papa Francisco se destacou pela ênfase em temas de justiça social, abordando questões como pobreza, imigração, consumismo, conflitos armados e crises globais, como a pandemia de COVID-19.

Pobreza

Desde o início de seu pontificado, Francisco enfatiza a “opção preferencial pelos pobres”, um princípio central da Doutrina Social da Igreja que prioriza os mais necessitados nas ações e políticas. Ele critica sistemas econômicos que perpetuam a desigualdade e a exclusão, afirmando que “não há democracia com fome, nem desenvolvimento com pobreza, nem justiça na desigualdade”.

Em sua encíclica Fratelli Tutti, o Papa destaca a necessidade de uma economia mais solidária, que coloque a dignidade humana acima do lucro. Recentemente, em seu livro “La esperanza no defrauda nunca“, Francisco criticou a gentrificação e o aumento descontrolado dos aluguéis, que transformam comunidades em espaços de luxo e deslocam os menos privilegiados.

Imigração e refugiados

Papa Francisco é um defensor fervoroso dos direitos dos imigrantes e refugiados, pedindo acolhimento e políticas humanitárias que respeitem a dignidade dessas pessoas, muitas vezes forçadas a deixar suas terras devido a conflitos ou pobreza. Na Fratelli Tutti, ele alerta contra a “mentalidade xenófoba” e enfatiza que os migrantes “têm a mesma dignidade intrínseca de toda e qualquer pessoa”.

Crítica ao consumismo e cultura do descarte

O Papa criticou o consumismo desenfreado e a “cultura do descarte”, onde indivíduos são valorizados apenas pelo que possuem ou consomem. Ele alerta que essa mentalidade leva à exclusão dos mais vulneráveis e à degradação ambiental. Francisco destaca que o consumismo é uma redução antropológica promovida pelo modelo econômico dominante, que reduz a dignidade humana à capacidade de consumir.

Conflitos armados: Ucrânia, Rússia e Oriente Médio

Diante de conflitos como os na Ucrânia e no Oriente Médio, Francisco faz apelos frequentes pelo fim das hostilidades e pela busca de soluções pacíficas. Ele incentiva a mediação diplomática e o diálogo como meios para alcançar a paz, condenando o uso da violência e destacando o sofrimento das populações afetadas.

Pandemia de COVID-19

Durante a pandemia, o Papa chamou à solidariedade global e enfatizou a importância da ciência aliada à fé. Ele destacou que a crise sanitária revelou desigualdades estruturais e a necessidade de repensar modelos econômicos e sociais. Em um momento histórico, Francisco concedeu a bênção Urbi et Orbi em uma Praça de São Pedro vazia, simbolizando esperança e união em tempos de adversidade.

Papa Francisco na histórica benção Urbi et Orbi, em 2020.
Papa Francisco na histórica benção Urbi et Orbi, em 2020.

Evangelização nas mídias digitais e inteligência artificial

O Papa Francisco tem enfatizado a importância da presença da Igreja no mundo digital como meio eficaz de evangelização, ao mesmo tempo em que alerta para os desafios éticos emergentes, especialmente no que tange à inteligência artificial (IA).

A pandemia de COVID-19 evidenciou a relevância da evangelização digital. Com as restrições presenciais, muitas comunidades religiosas adaptaram-se, utilizando transmissões online para manter a conexão com os fiéis. O Papa reconheceu esse movimento, ressaltando que a presença da Igreja no ambiente digital demonstra sua atenção às mudanças culturais e tecnológicas da sociedade contemporânea.

Ele reconheceu o vasto alcance e influência das plataformas digitais, Papa Francisco incentivou a comunidade católica a utilizar esses meios para disseminar a mensagem do Evangelho. Em mensagem dirigida ao Congresso Mundial da Associação Internacional Católica de Comunicação (SIGNIS) em 2022, ele destacou que a mídia digital é “um meio potente para promover a paz”. No entanto, também alertou sobre os perigos potenciais, observando que “os sites da mídia tornaram-se locais tóxicos, com discursos de ódio e fake news“, e enfatizou a necessidade de ajudar os jovens a usarem essas plataformas com senso crítico.3.

Inteligência Artificial: desafios éticos e uso para o bem comum

Em relação à inteligência artificial, Francisco tem manifestado preocupações sobre os desafios éticos associados ao seu desenvolvimento e aplicação. Na Mensagem para o 57º Dia Mundial da Paz, celebrada em 1º de janeiro de 2024, intitulada “Inteligência Artificial e Paz”, o Papa enfatizou que a IA “tornar-se-á cada vez mais importante” e que os desafios que ela apresenta “não são apenas de ordem técnica, mas também antropológica, educacional, social e política”. Ou seja, tem-se a necessidade de orientar o desenvolvimento e uso da IA de maneira responsável, assegurando que esteja a serviço da humanidade e da proteção da nossa casa comum.

Convocou um “diálogo aberto sobre o significado dessas novas tecnologias” e instou para que se trabalhe de “forma responsável” na produção e utilização da IA, garantindo que essas ferramentas promovam o bem comum e respeitem a dignidade humana.

Em sua quarta encíclica, “Dilexit Nos” (“Nos Amou”), publicada em outubro de 2024, o Papa aprofundou a reflexão sobre o papel da tecnologia na vida humana. Ele chamou a atenção para a necessidade de “voltar ao coração” como antídoto contra a frieza e previsibilidade dos algoritmos, enfatizando a importância do amor verdadeiro e das relações pessoais em um mundo cada vez mais dominado pela racionalidade tecnológica.

Os principais documentos do Papa Francisco

O Papa Francisco, desde o início de seu pontificado, tem enriquecido a Doutrina Social da Igreja por meio de importantes documentos que abordam questões contemporâneas à luz da fé cristã. Dentre suas principais encíclicas, destacam-se:

Lumen Fidei (2013)

Esta encíclica, cujo título significa “A Luz da Fé”, foi iniciada pelo Papa Bento XVI e concluída por Francisco. O documento explora a natureza da fé cristã, destacando-a como uma luz que guia os fiéis em meio às trevas do mundo moderno. Enfatiza a continuidade da tradição apostólica e a importância da fé na vida cotidiana dos cristãos.

Laudato Si’ (2015)

Intitulada “Louvado Sejas”, esta encíclica aborda o cuidado com a “casa comum”, enfocando questões ambientais e ecológicas. Francisco chama a atenção para os desafios da degradação ambiental, das mudanças climáticas e da injustiça social, convocando todos a uma conversão ecológica que una preocupações ambientais e justiça para com os pobres.

Fratelli Tutti (2020)

Com o título “Todos Irmãos”, esta encíclica reflete sobre a fraternidade e a amizade social. Inspirado no exemplo de São Francisco de Assis, o Papa Francisco aborda temas como a cultura do descarte, o individualismo e as desigualdades sociais, propondo um amor que transcende fronteiras e promove a solidariedade global.

Dilexit Nos (2024)

Publicada em 24 de outubro de 2024, “Dilexit Nos” (Ele nos amou) é a quarta encíclica do Papa Francisco, dedicada ao amor humano e divino manifestado no Coração de Jesus. O documento enfatiza a necessidade de recuperar o “coração” em um mundo cada vez mais dominado pela racionalidade tecnológica e pelos algoritmos.

Ele convida os fiéis a meditarem sobre o amor de Cristo como fonte de renovação espiritual e eclesial, destacando que a devoção ao Sagrado Coração é um antídoto contra a frieza e a previsibilidade impostas pela tecnologia moderna. A encíclica também coincide com o 350º aniversário da primeira aparição do Sagrado Coração a Santa Margarida Maria Alacoque em 1673.

Exortações Apostólicas

O Papa Francisco, ao longo de seu pontificado, tem oferecido orientações pastorais por meio de diversas exortações apostólicas. Esses documentos abordam temas centrais para a vida da Igreja e dos fiéis. A seguir, uma breve descrição das principais exortações:

Evangelii Gaudium (2013)

Intitulada “A Alegria do Evangelho”, esta exortação aborda o anúncio do Evangelho no mundo atual. O Papa Francisco enfatizou a necessidade de uma Igreja em saída, missionária, que leve a mensagem de Jesus Cristo a todos os cantos, com alegria e entusiasmo. Ele também destaca a importância da renovação eclesial e da inclusão social dos pobres.

Amoris Laetitia (2016)

Conhecida como “A Alegria do Amor”, esta exortação trata do amor na família e dos desafios pastorais relacionados. Resultado dos Sínodos sobre a Família, o documento oferece reflexões sobre a beleza do matrimônio e da vida familiar, abordando também questões complexas, como a situação dos divorciados recasados, sempre com uma perspectiva de misericórdia e acolhimento.

Gaudete et Exsultate (2018)

Com o título “Alegrai-vos e Exultai”, esta exortação é um chamado à santidade na vida cotidiana. O Papa Francisco ressaltou que a santidade não é reservada a uma elite, mas é uma vocação para todos. Ele oferece orientações práticas sobre como viver a santidade nos desafios diários, alertando contra os perigos do individualismo e do consumismo.

Christus Vivit (2019)

Dirigida especialmente aos jovens, “Cristo Vive” é uma exortação que surge após o Sínodo dos Bispos sobre os jovens e as vocações. O Papa Francisco encorajou os jovens a serem protagonistas na Igreja e no mundo, reconhecendo seus dons e potencialidades. Ele também aborda temas como discernimento vocacional, acompanhamento e a importância de uma Igreja que escuta e caminha junto com a juventude.

Querida Amazônia (2020)

Esta exortação apresenta as reflexões do Papa Francisco sobre a Amazônia e seus desafios sociais e eclesiais, após o Sínodo para a Amazônia. No documento, o Papa expressa seus “sonhos” para a região: um sonho social, cultural, ecológico e eclesial. Também destacou a necessidade de proteger os povos indígenas, preservar o meio ambiente e encontrar novos caminhos para a evangelização na região.

Constituições Apostólicas

A Constituição Apostólica Praedicate Evangelium, promulgada pelo Papa Francisco em 19 de março de 2022, representa uma reforma significativa da Cúria Romana, enfatizando sua natureza missionária e serviço à Igreja universal. Este documento substitui a constituição anterior, Pastor Bonus, de 1988, e entrou em vigor em 5 de junho de 2022, na Solenidade de Pentecostes.

Entre as principais mudanças introduzidas, destacou-se a possibilidade de leigos, homens e mulheres, assumirem posições de liderança nos dicastérios da Cúria, refletindo uma visão mais inclusiva e corresponsável na administração eclesial.

A reforma reorganizou os dicastérios, colocando o Dicastério para a Evangelização em posição central, ressaltando a prioridade da evangelização na missão da Igreja. A Praedicate Evangelium também promove uma maior sinodalidade e colaboração entre os diversos departamentos da Cúria, buscando uma atuação mais eficiente e coerente com os desafios contemporâneos.

Legado do pontificado do Papa Francisco

O pontificado do Papa Francisco representou um marco de renovação, tanto na vida da Igreja quanto na sociedade contemporânea. Sua trajetória, pautada na simplicidade, na misericórdia e no compromisso com os mais vulneráveis, transformou a forma como a Igreja se relacionou com o mundo.

Desde sua ênfase na opção preferencial pelos pobres, passando por sua crítica ao consumismo e pela defesa dos direitos dos imigrantes e refugiados, até a abordagem inovadora diante dos desafios éticos da inteligência artificial, o Papa demonstrou que a fé não era apenas um legado de tradições, mas um chamado urgente à ação em prol da dignidade humana e da justiça social.

Através de suas encíclicas e exortações apostólicas – como Lumen Fidei, Laudato Si’, Fratelli Tutti, Dilexit Nos, Evangelii Gaudium, Amoris Laetitia, Gaudete et Exsultate, Christus Vivit e Querida Amazônia – Francisco traçou um caminho de diálogo, inclusão e responsabilidade ética, promovendo uma Igreja que se abre constantemente ao novo e se compromete com a transformação do mundo. A reforma da Cúria Romana, consagrada na Praedicate Evangelium, reforça seu empenho em tornar as estruturas da Igreja mais transparentes, sinodais e orientadas para a missão evangelizadora.

Portanto, o legado do Papa Francisco é uma inspiradora convocação para que cada um de nós vivencie a fé com autenticidade e coragem, enfrente os desafios do mundo atual com esperança e solidariedade. Seu pontificado nos convida a refletir sobre o verdadeiro sentido da nossa existência e a trabalhar, juntos, por uma sociedade mais justa, fraterna e ecologicamente sustentável. Através de seu exemplo, somos lembrados de que a mudança começa no coração e se manifesta em gestos concretos de amor, compaixão e serviço ao próximo.

Referências

  1. Disponível na íntegra em: https://agencia.ecclesia.pt/portal/vaticano-com-a-vida-nao-se-brinca-diz-o-papa/[]
  2. Disponível em: https://www.vaticannews.va/en/pope/news/2019-05/pope-francis-motu-proprio-sex-abuse-clergy-religious-church.html[]
  3. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2022-07/papa-francisco-mensagem-signis-midia-digital-meio-potente-paz.html?[]

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