Formação

Fé e razão: qual é a relação entre elas?

Fé e razão podem andar juntas? Entenda a posição da Igreja a respeito deste debate antigo e, ao mesmo tempo, tão atual.

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Fé e razão: qual é a relação entre elas?

Fé e razão podem andar juntas? Entenda a posição da Igreja a respeito deste debate antigo e, ao mesmo tempo, tão atual.

Data da Publicação: 11/04/2023
Tempo de leitura:
Autor: admin
Data da Publicação: 11/04/2023
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Autor: admin

Não é raro sermos taxados de anti racionalistas ou fundamentalistas por conta da fé que professamos. Com frequência, o senso comum da sociedade, seja nas redes sociais, seja nas escolas, universidades e empresas, confunde o que significa a fé e o que significa a razão, e, mais complexo que isso – porém, longe de ser uma tarefa impossível – a relação de ambas para nós enquanto católicos.

Se você já passou por isso ou se não se sente preparado para enfrentar acusações das mais variadas, que constantemente contrapõe a fé e a razão, ou antes, acusações que alegam serem elas excludentes entre si, esse artigo é feito para ti.

A verdade é esta: precisamos estar prontos para responder e defender a todos aqueles que pedem as razões da nossa esperança e da nossa fé, mas sempre com suavidade e com respeito, como nos ensina nosso primeiro papa, São Pedro. 1

O que diz o senso comum?


Não é difícil de se perceber que a sociedade, como um todo, tem uma certa dificuldade em entender a justa relação existente entre fé e razão. Em nosso meio e com muita facilidade, sobretudo em nossas universidades e nas redes sociais, a Igreja é atacada como sendo anti racional em suas doutrinas e artigos de fé e moral. Muitos professores das áreas de humanas repetem discursos prontos e pouco científicos – o que chega a ser ironia – com doses de anacronismo (que é, em poucas palavras, julgar o passado com os critérios e princípios modernos), para atacar a Instituição católica e os cristãos como um todo.

Os argumentos e contraposições são dos mais variados tipos: desde a crença em milagres e devoções, até ataques à própria estrutura hierárquica da Igreja, como sendo algo autoritário e ditador, bem como a fatos isolados da história desses 2 mil anos de Tradição.

Aqui, a lista parece até clichê, sendo usada em qualquer debate sobre fé e ciência, por quem quer atacar a Igreja, de modo aleatório, como sendo uma carta coringa que pode ser empregada indevidamente a fim de tentar “destruir” na argumentação: escravidão, queima de bruxas, inquisição e assassinato com os mais variados instrumentos de tortura, Cruzadas, Igreja e nazismo, Igreja e monarquias autoritárias, e por aí vai. Mais que criar uma verdadeira guerra cultural com a modernidade e com essa visão distorcida, precisamos aprofundar nossa própria doutrina, e estar conscientes da profundidade que há na ligação entre fé e razão se quisermos ser, de fato, sal da terra e luz do mundo 2, neste tempo de tanta confusão e de ataques à Verdade.

A fé dos homens da ciência


Quanto mais conhecemos e nos aprofundamos na verdade dos fatos e das coisas como elas são, e sendo a Igreja uma fé embasada no seguimento não de um homem ou de uma ideia, mas do Homem, o Filho de Deus, que não apontou um caminho ou uma verdade, mas que disse ser Ele o Caminho, a Verdade e a Vida; quanto mais se investiga, mais se questiona e se pesquisa, seja no campo da ciência que for, com espírito honesto e sincero, inevitavelmente se chegará ao catolicismo: a religião preparada e revelada por Deus, como a única verdadeira, que equilibra, perfeitamente, as aparentes tensões entre fé e razão que o homem carrega dentro de si.

A lista de homens e mulheres, leigos, padres e religiosos, é vasta no que se refere à busca da verdade de modo sincero, até chegar ao catolicismo como doutrina que consegue saciar a sede do infinito. Assim, vemos um Santo Agostinho, que depois de tantos anos, andando por doutrinas contrárias à fé católica, como o maniqueísmo, se converte num dos maiores expoentes da filosofia e da teologia, sendo referência até hoje. Ou, ainda, Edith Stein, filósofa que, de judia, sendo a primeira mulher a lecionar na faculdade de sua época, se torna agnóstica, até que se depara com a verdade do catolicismo, se converte, torna-se freira carmelita, e morre em um campo de concentração nazista como mártir.

A bem da verdade é que a Igreja sempre – sempre mesmo – bancou e investiu em buscas honestas da verdade e da ciência, pois, para ela, a busca científica sempre é vista como uma busca a Deus. Por exemplo, Nicolau Copérnico, que em 1543 redescobriu a ideia do heliocentrismo, era um clérigo católico. Ou, ainda, no século 19, Gregor Mendel, que formulou as leis da herança genética, era um monge. Nomes esses que ouvimos nas escolas, por diversas vezes, sem a referência católica. Pascal, Ampère, Einstein, Newton, e tantos outros, percebiam a necessidade de uma justa proporção entre fé e razão, e, mais, jamais entenderam a ciência como oposta da fé e da religião. Muitos dos grandes cientistas que a modernidade exalta hoje, eram católicos convictos de suas crenças.

O que a Igreja ensina sobre Fé e Razão


A dimensão da fé e da razão é desenvolvida, de modo extensivo, pelo próprio Magistério da Igreja, em documentos, encíclicas, cartas, além, evidentemente, de inúmeros fiéis, como teólogos e filósofos, que se debruçam neste tema. A Igreja, inclusive, possui a Pontifícia Academia das Ciências, no Vaticano, que promove congressos dos mais variados temas científicos. Além disso, financia um Observatório Astronômico, que é respeitado mundialmente. A Igreja não só incentiva, como subsidia pesquisas arqueológicas, filológicas e científicas da própria Escritura. Tudo, para melhor conhecer a Verdade, que é Deus.

Fé e razão: duas vias para o conhecimento de uma mesma realidade


A fé e a razão servem uma à outra, e ambas servem ao homem que busca conhecer a realidade. A razão ajuda a fé a demonstrar os seus fundamentos; cultiva e ilumina, unida sempre à fé, a ciência das coisas divinas. Em suma, a razão é o que permite a fé ser lógica e racional, e não superficial ou supersticiosa. A fé, por sua vez, guarda a razão dos erros, ajudando-a a enriquecer com vários conhecimentos. De maneira sucinta, ao invés de censurar, a Igreja auxilia e promove o cultivo das artes e das ciências. A Igreja exorta e estimula a seus fiéis a estudarem, com espírito livre e sincero, cada vez mais, pois sabe que, desta forma, se chegará com mais convicção a Deus, com uma fé mais sólida e inabalável. 3

O embate, sobretudo moderno, reside no fato de que a Igreja jamais abrirá mão de princípios fundamentais da própria realidade, pois, daí sim, seria decretada a irracionalidade dos homens da Igreja. Quando a ciência busca por avançar a todo custo, e, com isso, passar por sobre princípios básicos da moral, como é o caso da geração in vitro, ou do aborto, ou, ainda, da ideologia de gênero, a Igreja permanecerá inabalável na defesa da realidade como ela é, ancorada na sã filosofia e salvaguardando o depósito da fé, a saber: que a vida é um valor inegociável desde a concepção natural; e que homem e mulher, Deus os criou 4. Ainda que para isso a Igreja tenha que ser atacada e difamada como anti-científica.

A verdade liberta 5, e ela precisa ser defendida a todo custo, no meio de uma sociedade que perde, por vezes, o senso da fé e da própria razão. A Igreja, com efeito, é o último bastião, que permanece de pé, a fim de iluminar os homens, quando estes já jazem nas trevas da ignorância.

Por que fé e razão jamais podem se contradizer?


Ainda que a fé e a razão sejam duas ordens de conhecimento, distintas entre si pelo modo de conhecer em seu princípio e pelo objeto de conhecimento, sendo que a razão conhece de modo natural, e a fé, a partir do divino, ambas são vias para a compreensão da mesma realidade que nos cerca. A fé, por se tratar das coisas sobrenaturais e delas provir, é mais elevada que a razão, mas jamais pode haver contradição entre uma e outra, pois o mesmo “Deus que revela os mistérios e infunde a fé, dotou o espírito humano da luz da razão; e Deus não pode negar-se a si mesmo, nem a verdade jamais contradizer à verdade.“ 6. Mas, ao mesmo tempo, a Igreja recebeu o mandato do Senhor de guardar o depósito da fé, e, por isso, ela afasta toda e qualquer asserção que seja contrária à própria revelação divina.

Com efeito, numa das Encíclicas mais belas sobre o tema, a chamada Fides et Ratio, escrita por ninguém menos que São João Paulo II, que desde sempre esteve aberto a dialogar com as ciências e com as artes, é nos proposta uma imagem belíssima da relação que há entre a fé e a razão. “A fé e a razão constituem como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para contemplar a verdade” 7.

A esse mesmo respeito, Joseph Ratzinger, que foi um dos maiores expoentes de teologia da atualidade, que jamais teve medo, assim como São João Paulo II, de confrontar fé e razão, salienta que, assim como Santo Agostinho, que acredita e tem fé para compreender a realidade de modo mais claro e abrangente, e não, como pensam alguns, crer no absurdo por ser absurdo. Ratzinger salienta que “assim como a criação vem da razão e é racional, a fé, por assim dizer, é primeiro a realização da criação e, por isso, a porta para a compreensão. Crer significa, portanto, entrar nessa compreensão e nesse pensamento”. 8

Fé e Razão em Santo Agostinho e Santo Tomás


Quando se pensa em filosofia e teologia na atualidade, tende-se, como se faz com a fé e a razão, a contrapor as duas ciências humanas. Na verdade, tal oposição é fruto dessa mentalidade moderna que não entende o papel de ambas. A filosofia e a teologia, por séculos, andaram de mãos dadas na busca por compreender a Verdade das coisas. 

Quando se pensa acerca disso, é impossível não recorrer a duas figuras, dois grandes santos, que não só desenvolveram importantes temas filosófico-teológicos, como influenciaram, e influenciam, toda uma civilização. O primeiro deles é Santo Agostinho de Hipona que, já no século IV, elaborou a primeira grande síntese entre pensamento filosófico e teológico, unindo correntes de pensamento do mundo grego e do mundo latino. O Doutor ocidental, partindo do ensinamento bíblico, soube, com maestria, desenvolver todo um pensamento especulativo sobre a Revelação divina. Tal síntese foi, e ainda é, uma das formas mais elevadas de reflexão que o Ocidente conheceu. 9

Mas, especial destaque mesmo para a Igreja, e para a sociedade como um todo, é a figura perene do pensamento de Santo Tomás de Aquino. O Aquinate soube não só desenvolver o maior sistema de pensamento já conhecido, como dialogar com todas as culturas, correntes de pensamento, sejam filosóficos sejam teológicos. Nos diz o Doutor Angélico que a luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus, por isso não se podem contradizer entre si. 10. Todo empenho deste grande santo o faz ser considerado, com razão, apóstolo da verdade 11. Toda obra de Tomás de Aquino deve ser aprofundada por todo aquele que, desejoso de entender o que é a verdade, o ser das coisas, e que busca fazer uma síntese clara entre a fé e a razão. 12

Leia mais:
Doutores da Igreja: quem são eles?

Conhecereis a Verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8, 32)


A Igreja sempre impulsionará os seus fiéis a progredirem no conhecimento da verdade das ciências e das artes como um todo, pois ela tem a importante missão de fazer com que Deus seja conhecido por todos os homens. Com efeito, os homens e mulheres de hoje não devem ter medo de se debruçar nos livros e documentos, nos temas mais espinhosos e áridos, até os mais suaves e simples, para que possam sempre mais, segundo o pensamento agostiniano, crer para entender, e entender para crer, e conduzir os homens modernos até à luz da Verdade.

É essa nossa missão, para que sempre em todos os lugares, em todas as ciências, seja louvado e conhecido o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para saber mais sobre este assunto, assista também a este vídeo do nosso canal:

Referências

  1. cf. IPd 3, 15[]
  2. cf. Mt 5, 13-14[]
  3. cf. Dei Filius IV[]
  4. Gn 1, 27[]
  5. cf. Jo 8, 32[]
  6. Dei Filius, cap. IV[]
  7. Fides et Ratio[]
  8. cf. RATZINGER, Joseph. O Sal da terra, p. 28[]
  9. cf. Fides et Ratio 40[]
  10. cf. Santo Tomás de Aquino, Summa contra gentiles, I, VII[]
  11. cf. Paulo VI, Carta ap. Lumen Ecclesiae[]
  12. cf. Fides et Ratio 43[]

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    Não é raro sermos taxados de anti racionalistas ou fundamentalistas por conta da fé que professamos. Com frequência, o senso comum da sociedade, seja nas redes sociais, seja nas escolas, universidades e empresas, confunde o que significa a fé e o que significa a razão, e, mais complexo que isso – porém, longe de ser uma tarefa impossível – a relação de ambas para nós enquanto católicos.

    Se você já passou por isso ou se não se sente preparado para enfrentar acusações das mais variadas, que constantemente contrapõe a fé e a razão, ou antes, acusações que alegam serem elas excludentes entre si, esse artigo é feito para ti.

    A verdade é esta: precisamos estar prontos para responder e defender a todos aqueles que pedem as razões da nossa esperança e da nossa fé, mas sempre com suavidade e com respeito, como nos ensina nosso primeiro papa, São Pedro. 1

    O que diz o senso comum?


    Não é difícil de se perceber que a sociedade, como um todo, tem uma certa dificuldade em entender a justa relação existente entre fé e razão. Em nosso meio e com muita facilidade, sobretudo em nossas universidades e nas redes sociais, a Igreja é atacada como sendo anti racional em suas doutrinas e artigos de fé e moral. Muitos professores das áreas de humanas repetem discursos prontos e pouco científicos – o que chega a ser ironia – com doses de anacronismo (que é, em poucas palavras, julgar o passado com os critérios e princípios modernos), para atacar a Instituição católica e os cristãos como um todo.

    Os argumentos e contraposições são dos mais variados tipos: desde a crença em milagres e devoções, até ataques à própria estrutura hierárquica da Igreja, como sendo algo autoritário e ditador, bem como a fatos isolados da história desses 2 mil anos de Tradição.

    Aqui, a lista parece até clichê, sendo usada em qualquer debate sobre fé e ciência, por quem quer atacar a Igreja, de modo aleatório, como sendo uma carta coringa que pode ser empregada indevidamente a fim de tentar “destruir” na argumentação: escravidão, queima de bruxas, inquisição e assassinato com os mais variados instrumentos de tortura, Cruzadas, Igreja e nazismo, Igreja e monarquias autoritárias, e por aí vai. Mais que criar uma verdadeira guerra cultural com a modernidade e com essa visão distorcida, precisamos aprofundar nossa própria doutrina, e estar conscientes da profundidade que há na ligação entre fé e razão se quisermos ser, de fato, sal da terra e luz do mundo 2, neste tempo de tanta confusão e de ataques à Verdade.

    A fé dos homens da ciência


    Quanto mais conhecemos e nos aprofundamos na verdade dos fatos e das coisas como elas são, e sendo a Igreja uma fé embasada no seguimento não de um homem ou de uma ideia, mas do Homem, o Filho de Deus, que não apontou um caminho ou uma verdade, mas que disse ser Ele o Caminho, a Verdade e a Vida; quanto mais se investiga, mais se questiona e se pesquisa, seja no campo da ciência que for, com espírito honesto e sincero, inevitavelmente se chegará ao catolicismo: a religião preparada e revelada por Deus, como a única verdadeira, que equilibra, perfeitamente, as aparentes tensões entre fé e razão que o homem carrega dentro de si.

    A lista de homens e mulheres, leigos, padres e religiosos, é vasta no que se refere à busca da verdade de modo sincero, até chegar ao catolicismo como doutrina que consegue saciar a sede do infinito. Assim, vemos um Santo Agostinho, que depois de tantos anos, andando por doutrinas contrárias à fé católica, como o maniqueísmo, se converte num dos maiores expoentes da filosofia e da teologia, sendo referência até hoje. Ou, ainda, Edith Stein, filósofa que, de judia, sendo a primeira mulher a lecionar na faculdade de sua época, se torna agnóstica, até que se depara com a verdade do catolicismo, se converte, torna-se freira carmelita, e morre em um campo de concentração nazista como mártir.

    A bem da verdade é que a Igreja sempre – sempre mesmo – bancou e investiu em buscas honestas da verdade e da ciência, pois, para ela, a busca científica sempre é vista como uma busca a Deus. Por exemplo, Nicolau Copérnico, que em 1543 redescobriu a ideia do heliocentrismo, era um clérigo católico. Ou, ainda, no século 19, Gregor Mendel, que formulou as leis da herança genética, era um monge. Nomes esses que ouvimos nas escolas, por diversas vezes, sem a referência católica. Pascal, Ampère, Einstein, Newton, e tantos outros, percebiam a necessidade de uma justa proporção entre fé e razão, e, mais, jamais entenderam a ciência como oposta da fé e da religião. Muitos dos grandes cientistas que a modernidade exalta hoje, eram católicos convictos de suas crenças.

    O que a Igreja ensina sobre Fé e Razão


    A dimensão da fé e da razão é desenvolvida, de modo extensivo, pelo próprio Magistério da Igreja, em documentos, encíclicas, cartas, além, evidentemente, de inúmeros fiéis, como teólogos e filósofos, que se debruçam neste tema. A Igreja, inclusive, possui a Pontifícia Academia das Ciências, no Vaticano, que promove congressos dos mais variados temas científicos. Além disso, financia um Observatório Astronômico, que é respeitado mundialmente. A Igreja não só incentiva, como subsidia pesquisas arqueológicas, filológicas e científicas da própria Escritura. Tudo, para melhor conhecer a Verdade, que é Deus.

    Fé e razão: duas vias para o conhecimento de uma mesma realidade


    A fé e a razão servem uma à outra, e ambas servem ao homem que busca conhecer a realidade. A razão ajuda a fé a demonstrar os seus fundamentos; cultiva e ilumina, unida sempre à fé, a ciência das coisas divinas. Em suma, a razão é o que permite a fé ser lógica e racional, e não superficial ou supersticiosa. A fé, por sua vez, guarda a razão dos erros, ajudando-a a enriquecer com vários conhecimentos. De maneira sucinta, ao invés de censurar, a Igreja auxilia e promove o cultivo das artes e das ciências. A Igreja exorta e estimula a seus fiéis a estudarem, com espírito livre e sincero, cada vez mais, pois sabe que, desta forma, se chegará com mais convicção a Deus, com uma fé mais sólida e inabalável. 3

    O embate, sobretudo moderno, reside no fato de que a Igreja jamais abrirá mão de princípios fundamentais da própria realidade, pois, daí sim, seria decretada a irracionalidade dos homens da Igreja. Quando a ciência busca por avançar a todo custo, e, com isso, passar por sobre princípios básicos da moral, como é o caso da geração in vitro, ou do aborto, ou, ainda, da ideologia de gênero, a Igreja permanecerá inabalável na defesa da realidade como ela é, ancorada na sã filosofia e salvaguardando o depósito da fé, a saber: que a vida é um valor inegociável desde a concepção natural; e que homem e mulher, Deus os criou 4. Ainda que para isso a Igreja tenha que ser atacada e difamada como anti-científica.

    A verdade liberta 5, e ela precisa ser defendida a todo custo, no meio de uma sociedade que perde, por vezes, o senso da fé e da própria razão. A Igreja, com efeito, é o último bastião, que permanece de pé, a fim de iluminar os homens, quando estes já jazem nas trevas da ignorância.

    Por que fé e razão jamais podem se contradizer?


    Ainda que a fé e a razão sejam duas ordens de conhecimento, distintas entre si pelo modo de conhecer em seu princípio e pelo objeto de conhecimento, sendo que a razão conhece de modo natural, e a fé, a partir do divino, ambas são vias para a compreensão da mesma realidade que nos cerca. A fé, por se tratar das coisas sobrenaturais e delas provir, é mais elevada que a razão, mas jamais pode haver contradição entre uma e outra, pois o mesmo “Deus que revela os mistérios e infunde a fé, dotou o espírito humano da luz da razão; e Deus não pode negar-se a si mesmo, nem a verdade jamais contradizer à verdade.“ 6. Mas, ao mesmo tempo, a Igreja recebeu o mandato do Senhor de guardar o depósito da fé, e, por isso, ela afasta toda e qualquer asserção que seja contrária à própria revelação divina.

    Com efeito, numa das Encíclicas mais belas sobre o tema, a chamada Fides et Ratio, escrita por ninguém menos que São João Paulo II, que desde sempre esteve aberto a dialogar com as ciências e com as artes, é nos proposta uma imagem belíssima da relação que há entre a fé e a razão. “A fé e a razão constituem como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para contemplar a verdade” 7.

    A esse mesmo respeito, Joseph Ratzinger, que foi um dos maiores expoentes de teologia da atualidade, que jamais teve medo, assim como São João Paulo II, de confrontar fé e razão, salienta que, assim como Santo Agostinho, que acredita e tem fé para compreender a realidade de modo mais claro e abrangente, e não, como pensam alguns, crer no absurdo por ser absurdo. Ratzinger salienta que “assim como a criação vem da razão e é racional, a fé, por assim dizer, é primeiro a realização da criação e, por isso, a porta para a compreensão. Crer significa, portanto, entrar nessa compreensão e nesse pensamento”. 8

    Fé e Razão em Santo Agostinho e Santo Tomás


    Quando se pensa em filosofia e teologia na atualidade, tende-se, como se faz com a fé e a razão, a contrapor as duas ciências humanas. Na verdade, tal oposição é fruto dessa mentalidade moderna que não entende o papel de ambas. A filosofia e a teologia, por séculos, andaram de mãos dadas na busca por compreender a Verdade das coisas. 

    Quando se pensa acerca disso, é impossível não recorrer a duas figuras, dois grandes santos, que não só desenvolveram importantes temas filosófico-teológicos, como influenciaram, e influenciam, toda uma civilização. O primeiro deles é Santo Agostinho de Hipona que, já no século IV, elaborou a primeira grande síntese entre pensamento filosófico e teológico, unindo correntes de pensamento do mundo grego e do mundo latino. O Doutor ocidental, partindo do ensinamento bíblico, soube, com maestria, desenvolver todo um pensamento especulativo sobre a Revelação divina. Tal síntese foi, e ainda é, uma das formas mais elevadas de reflexão que o Ocidente conheceu. 9

    Mas, especial destaque mesmo para a Igreja, e para a sociedade como um todo, é a figura perene do pensamento de Santo Tomás de Aquino. O Aquinate soube não só desenvolver o maior sistema de pensamento já conhecido, como dialogar com todas as culturas, correntes de pensamento, sejam filosóficos sejam teológicos. Nos diz o Doutor Angélico que a luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus, por isso não se podem contradizer entre si. 10. Todo empenho deste grande santo o faz ser considerado, com razão, apóstolo da verdade 11. Toda obra de Tomás de Aquino deve ser aprofundada por todo aquele que, desejoso de entender o que é a verdade, o ser das coisas, e que busca fazer uma síntese clara entre a fé e a razão. 12

    Leia mais:
    Doutores da Igreja: quem são eles?

    Conhecereis a Verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8, 32)


    A Igreja sempre impulsionará os seus fiéis a progredirem no conhecimento da verdade das ciências e das artes como um todo, pois ela tem a importante missão de fazer com que Deus seja conhecido por todos os homens. Com efeito, os homens e mulheres de hoje não devem ter medo de se debruçar nos livros e documentos, nos temas mais espinhosos e áridos, até os mais suaves e simples, para que possam sempre mais, segundo o pensamento agostiniano, crer para entender, e entender para crer, e conduzir os homens modernos até à luz da Verdade.

    É essa nossa missão, para que sempre em todos os lugares, em todas as ciências, seja louvado e conhecido o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Para saber mais sobre este assunto, assista também a este vídeo do nosso canal:

    Referências

    1. cf. IPd 3, 15[]
    2. cf. Mt 5, 13-14[]
    3. cf. Dei Filius IV[]
    4. Gn 1, 27[]
    5. cf. Jo 8, 32[]
    6. Dei Filius, cap. IV[]
    7. Fides et Ratio[]
    8. cf. RATZINGER, Joseph. O Sal da terra, p. 28[]
    9. cf. Fides et Ratio 40[]
    10. cf. Santo Tomás de Aquino, Summa contra gentiles, I, VII[]
    11. cf. Paulo VI, Carta ap. Lumen Ecclesiae[]
    12. cf. Fides et Ratio 43[]

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