Conheça a história e o significado da Oração Salve Rainha, entenda cada trecho dessa antiga devoção mariana e descubra como rezá-la.
Conheça a história e o significado da Oração Salve Rainha, entenda cada trecho dessa antiga devoção mariana e descubra como rezá-la.
Cantada ou recitada na Liturgia das Horas, rezada ao final do Rosário e presente em tantas devoções, a oração Salve Rainha acompanha a vida da Igreja há quase mil anos. Essa antiga antífona mariana reúne, em uma única súplica, o louvor à Mãe de Deus, a confiança em sua intercessão e a esperança de contemplar a Cristo. Ao conhecer sua história, seu significado e seu lugar na tradição católica, torna-se possível compreender por que ela permanece tão presente na oração dos fiéis.
A oração Salve Rainha é uma das quatro antífonas marianas tradicionalmente associadas ao Ofício Divino, juntamente com o Alma Redemptoris Mater, o Ave Regina caelorum e o Regina Caeli. Cantadas ou recitadas em diferentes períodos do ano litúrgico, essas antífonas expressam o louvor à Virgem Maria e a confiança da Igreja em sua intercessão.
Na Salve Rainha, Maria é invocada como Mãe de Misericórdia. A oração apresenta a súplica dos fiéis que, reconhecendo as dificuldades da peregrinação terrena, recorrem à sua intercessão e renovam a esperança de alcançar a vida eterna.
Além de integrar a tradição do Ofício Divino, a Salve Rainha tornou-se especialmente conhecida entre os fiéis por seu uso ao término do Santo Rosário, acompanhando há séculos a piedade mariana da Igreja.
A autoria da Salve Rainha permanece incerta. Tradicionalmente, o texto é atribuído ao Bem-aventurado Hermano de Reichenau (1013–1054), também conhecido como Hermannus Contractus, monge beneditino do século XI. Ao longo da história, porém, a composição também foi relacionada a outros nomes, entre eles São Bernardo de Claraval, Pedro de Monsoro e Adhemar de Monteil, sem que tenha sido possível estabelecer sua autoria de maneira definitiva.
A antífona alcançou ampla difusão durante a Idade Média. Os cistercienses contribuíram para sua propagação nos mosteiros e, por volta de 1221, segundo a tradição dominicana, os frades passaram a cantar a Salve Rainha após as Completas, costume associado ao período de governo do Bem-aventurado Jordão da Saxônia e posteriormente difundido pela Ordem. Os franciscanos também tiveram papel importante na expansão de seu uso.
Ao longo do século XIII, a Salve Rainha foi progressivamente incorporada às tradições litúrgicas de diferentes ordens religiosas e acabou entrando no Breviário Romano. Sua presença entre dominicanos, franciscanos e outras comunidades favoreceu sua consolidação como uma das mais conhecidas antífonas marianas do Ocidente cristão.
Na tradição litúrgica romana, as quatro antífonas marianas são distribuídas de acordo com diferentes períodos do ano. No Breviário Romano em sua forma pré-conciliar, a Salve Rainha é utilizada desde as Primeiras Vésperas da Santíssima Trindade até o sábado anterior ao Primeiro Domingo do Advento. Sua presença durante esse longo período do ano litúrgico acompanha a peregrinação da Igreja depois das celebrações pascais.
Tradicionalmente, o Alma Redemptoris Mater acompanha o período que vai do Advento à Festa da Apresentação do Senhor; o Ave Regina caelorum, o período seguinte até a Semana Santa; o Regina Caeli, o Tempo Pascal; e a Salve Rainha, o período iniciado nas Primeiras Vésperas da Santíssima Trindade e encerrado antes do Advento. Essa distribuição conheceu variações ao longo da história e das diferentes edições do Ofício, mas expressa o lugar reservado às antífonas marianas na tradição litúrgica romana.
Fora do Ofício Divino, a Salve Rainha também se tornou profundamente ligada à piedade popular. Há séculos, é costume rezá-la ao término do Santo Rosário, depois da contemplação dos mistérios da vida de Cristo.
A oração Salve Rainha possui uma unidade que conduz os fiéis por diferentes movimentos espirituais. A súplica começa com uma saudação régia e materna à Virgem, chamada Rainha e Mãe de Misericórdia, e logo passa ao reconhecimento da condição humana expressa nas palavras “degredados filhos de Eva”.
Dessa consciência nasce o pedido de auxílio. Os fiéis recorrem àquela que invocam como Advogada, pedindo que volte para eles seus “olhos misericordiosos” em meio às dificuldades da peregrinação terrena. Louvor, reconhecimento da própria fragilidade e súplica aparecem, assim, intimamente unidos.
O último movimento revela para onde toda a oração está orientada. Ao pedir “mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre”, a Salve Rainha encontra seu ponto culminante em Cristo. É a partir desse percurso que cada uma de suas invocações pode ser compreendida com maior profundidade.
Cada expressão da oração Salve Rainha possui um significado que foi aprofundado ao longo dos séculos pela reflexão espiritual da Igreja. Em Glórias de Maria, Santo Afonso Maria de Ligório dedica a primeira parte da obra a comentar essa antífona, meditando sobre a maternidade de Maria, sua intercessão e a confiança dos fiéis que a invocam.
A oração começa saudando Maria como Rainha e Mãe de Misericórdia. Sua realeza deve ser compreendida à luz de sua união com Cristo e da maternidade que exerce em favor dos fiéis. Por isso, a primeira invocação já aproxima dois aspectos inseparáveis: a dignidade singular da Virgem e sua solicitude materna.
Santo Afonso Maria de Ligório insiste justamente no caráter misericordioso dessa realeza: “Maria, a qual, ainda que rainha, todavia não é rainha da justiça, dedicada ao castigo dos malfeitores, mas rainha da misericórdia, dedicada apenas à piedade e ao perdão dos pecadores.” 1.
Quando chama Maria de “vida” e “doçura”, a Salve Rainha não lhe atribui aquilo que pertence somente a Deus, fonte da vida e da graça. A expressão está ligada à ação materna de Maria em favor daqueles por quem intercede, pedindo a Deus as graças necessárias para a vida cristã.
Santo Afonso explica esse sentido ao relacionar a vida da alma à graça divina: “Maria, portanto, obtendo por meio da sua intercessão aos pecadores a posse da graça, assim lhes devolve a vida.” 2.
A esperança cristã tem seu fundamento em Deus. Ainda assim, a Igreja chama Maria de “esperança nossa” porque reconhece nela uma poderosa intercessora e confia que sua missão materna está inteiramente subordinada à ação salvadora de Cristo.
Ao comentar essa invocação, Santo Afonso observa que a própria oração da Igreja conserva esse título: “A Santa Igreja quer que a cada dia todos os sacerdotes e todos os religiosos […] chamem Maria com este doce nome de esperança nossa.” 3. A expressão, portanto, não coloca Maria no lugar de Deus, mas manifesta a confiança dos fiéis n’Aquela que intercede junto a Ele.
Com as palavras “degredados filhos de Eva”, a oração recorda a condição da humanidade depois da queda. O homem vive distante da plenitude para a qual foi criado e experimenta as consequências do pecado, embora permaneça chamado por Deus à salvação.
É dessa condição que nasce o clamor dirigido a Maria. Santo Afonso descreve a confiança com que os fiéis devem recorrer à Virgem: “Maria mesma sai à busca destas coisas, isto é, ser sempre invocada e requerida por nós […] a fim de que, crescendo assim a nossa confiança e devoção, possa melhor nos socorrer e consolar.” 4.
A expressão “vale de lágrimas” reconhece uma realidade que atravessa toda existência humana: a vida presente é marcada pelo sofrimento, pelas perdas e pela fragilidade. A Salve Rainha não ignora essa experiência, mas a transforma em oração.
O cristão que geme e chora não o faz sem esperança. Sua vida está orientada para uma promessa que ultrapassa as dores presentes, e o recurso à intercessão de Maria ajuda a perseverar nessa caminhada. As lágrimas deixam, assim, de representar apenas o peso do sofrimento para se tornarem também expressão de uma esperança voltada para a salvação.
Maria é chamada de Advogada porque, segundo o ensinamento da Igreja, continua a exercer sua missão materna por meio da intercessão em favor dos filhos. Essa missão não diminui nem substitui a única mediação de Cristo, da qual depende inteiramente.
Santo Afonso destaca a singular confiança que nasce dessa maternidade: “Maria possui […] este privilégio junto do Filho, o de ser poderosíssima para obter o quanto queira […] porque as preces de Maria são preces de mãe.” 5.
Pedir que Maria volte para nós seus “olhos misericordiosos” é recorrer a uma imagem que expressa proximidade, cuidado e compaixão. O olhar materno representa a atenção d’Aquela que conhece as necessidades de seus filhos e apresenta suas súplicas a Deus.
Esse olhar também possui uma direção. Maria não concentra em si mesma a esperança dos fiéis: toda a sua missão está relacionada ao mistério de Cristo. Por isso, imediatamente depois de pedir seu olhar misericordioso, a oração passa ao pedido que constitui o centro de toda a súplica.
Toda a Salve Rainha converge para estas palavras. Depois de saudar Maria, reconhecer a própria fragilidade e pedir sua intercessão, os fiéis revelam aquilo que verdadeiramente desejam: contemplar a Jesus.
É nessa súplica que aparece de maneira mais evidente o caráter cristocêntrico da autêntica devoção mariana. Maria não é apresentada como o fim da caminhada, mas como a Mãe que acompanha os discípulos de Cristo durante sua peregrinação. Pedir que ela nos mostre Jesus significa desejar a comunhão definitiva com Aquele que é o “bendito fruto” de seu ventre e o único Salvador.
A oração termina com três invocações que retomam a confiança expressa desde o início. Maria é chamada de clemente, piedosa e doce, palavras que evocam sua misericórdia, sua solicitude diante das necessidades dos fiéis e a ternura de sua maternidade espiritual.
Santo Afonso, citando São Bernardo, apresenta essa tríplice invocação como expressão das diferentes formas pelas quais os fiéis experimentam a bondade materna de Maria. Depois de toda a súplica, a Salve Rainha termina, portanto, em louvor Àquela que a Igreja reconhece como Mãe e intercessora.
Embora o texto da Salve Rainha não apareça literalmente nas Sagradas Escrituras, suas palavras estão ligadas a temas centrais da história da salvação. A referência aos “degredados filhos de Eva” recorda o relato da queda e a promessa de Deus: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela” 6. A tradição cristã reconhece nessa passagem o anúncio da vitória definitiva de Cristo sobre o pecado.
Desde os primeiros séculos, a Igreja também estabeleceu um paralelo entre Eva e Maria. Se por Eva a desobediência entrou na história humana, em Maria a resposta obediente ao desígnio de Deus aparece associada à vinda do Salvador. É nesse sentido que a Virgem é contemplada como a Nova Eva, inseparavelmente ligada a Cristo, o Novo Adão.
Essa relação aparece ainda no Evangelho de São Lucas. Isabel proclama Maria “bendita entre as mulheres” e chama Jesus de “bendito fruto” de seu ventre 7, expressão retomada pela Salve Rainha. No Magnificat, Maria reconhece as maravilhas realizadas por Deus e anuncia que todas as gerações a chamarão bem-aventurada 8. Assim, a oração parte da condição dos filhos de Eva e termina no desejo de contemplar a Jesus, em quem se realiza plenamente a esperança da salvação.
Um dos momentos mais tradicionais para rezar a Salve Rainha é o encerramento do Santo Rosário (ou terço), depois da contemplação dos mistérios da vida de Cristo. Na Liturgia das Horas, ela também pertence à tradição das antífonas marianas associadas ao término das Completas, de acordo com as normas e costumes litúrgicos próprios.
Em algumas comunidades, a Salve Rainha também é rezada ou cantada após a Santa Missa, conforme os costumes locais e já fora da própria ação litúrgica. Na oração pessoal ou familiar, pode acompanhar diferentes momentos do dia, especialmente situações de dificuldade, pedidos de intercessão ou a oração da noite.
Depois de compreender o significado de cada uma de suas invocações, você pode rezar a Salve Rainha acompanhando o texto completo em português ou em latim.
Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve!
A vós bradamos, os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.
Eia, pois, Advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.
E depois deste desterro, mostrai‑nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre.
Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria.
V. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
Salve, Regina, mater misericordiae; vita, dulcedo et spes nostra, salve.
Ad te clamamus, exsules filii Evae.
Ad te suspiramus, gementes et flentes in hac lacrimarum valle.
Eia ergo, advocata nostra, illos tuos misericordes oculos ad nos converte.
Et Iesum, benedictum fructum ventris tui, nobis post hoc exsilium ostende.
O clemens, O pia, O dulcis Virgo Maria.
V. Ora pro nobis, sancta Dei Genetrix.
R. Ut digni efficiamur promissionibus Christi.
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Cantada ou recitada na Liturgia das Horas, rezada ao final do Rosário e presente em tantas devoções, a oração Salve Rainha acompanha a vida da Igreja há quase mil anos. Essa antiga antífona mariana reúne, em uma única súplica, o louvor à Mãe de Deus, a confiança em sua intercessão e a esperança de contemplar a Cristo. Ao conhecer sua história, seu significado e seu lugar na tradição católica, torna-se possível compreender por que ela permanece tão presente na oração dos fiéis.
A oração Salve Rainha é uma das quatro antífonas marianas tradicionalmente associadas ao Ofício Divino, juntamente com o Alma Redemptoris Mater, o Ave Regina caelorum e o Regina Caeli. Cantadas ou recitadas em diferentes períodos do ano litúrgico, essas antífonas expressam o louvor à Virgem Maria e a confiança da Igreja em sua intercessão.
Na Salve Rainha, Maria é invocada como Mãe de Misericórdia. A oração apresenta a súplica dos fiéis que, reconhecendo as dificuldades da peregrinação terrena, recorrem à sua intercessão e renovam a esperança de alcançar a vida eterna.
Além de integrar a tradição do Ofício Divino, a Salve Rainha tornou-se especialmente conhecida entre os fiéis por seu uso ao término do Santo Rosário, acompanhando há séculos a piedade mariana da Igreja.
A autoria da Salve Rainha permanece incerta. Tradicionalmente, o texto é atribuído ao Bem-aventurado Hermano de Reichenau (1013–1054), também conhecido como Hermannus Contractus, monge beneditino do século XI. Ao longo da história, porém, a composição também foi relacionada a outros nomes, entre eles São Bernardo de Claraval, Pedro de Monsoro e Adhemar de Monteil, sem que tenha sido possível estabelecer sua autoria de maneira definitiva.
A antífona alcançou ampla difusão durante a Idade Média. Os cistercienses contribuíram para sua propagação nos mosteiros e, por volta de 1221, segundo a tradição dominicana, os frades passaram a cantar a Salve Rainha após as Completas, costume associado ao período de governo do Bem-aventurado Jordão da Saxônia e posteriormente difundido pela Ordem. Os franciscanos também tiveram papel importante na expansão de seu uso.
Ao longo do século XIII, a Salve Rainha foi progressivamente incorporada às tradições litúrgicas de diferentes ordens religiosas e acabou entrando no Breviário Romano. Sua presença entre dominicanos, franciscanos e outras comunidades favoreceu sua consolidação como uma das mais conhecidas antífonas marianas do Ocidente cristão.
Na tradição litúrgica romana, as quatro antífonas marianas são distribuídas de acordo com diferentes períodos do ano. No Breviário Romano em sua forma pré-conciliar, a Salve Rainha é utilizada desde as Primeiras Vésperas da Santíssima Trindade até o sábado anterior ao Primeiro Domingo do Advento. Sua presença durante esse longo período do ano litúrgico acompanha a peregrinação da Igreja depois das celebrações pascais.
Tradicionalmente, o Alma Redemptoris Mater acompanha o período que vai do Advento à Festa da Apresentação do Senhor; o Ave Regina caelorum, o período seguinte até a Semana Santa; o Regina Caeli, o Tempo Pascal; e a Salve Rainha, o período iniciado nas Primeiras Vésperas da Santíssima Trindade e encerrado antes do Advento. Essa distribuição conheceu variações ao longo da história e das diferentes edições do Ofício, mas expressa o lugar reservado às antífonas marianas na tradição litúrgica romana.
Fora do Ofício Divino, a Salve Rainha também se tornou profundamente ligada à piedade popular. Há séculos, é costume rezá-la ao término do Santo Rosário, depois da contemplação dos mistérios da vida de Cristo.
A oração Salve Rainha possui uma unidade que conduz os fiéis por diferentes movimentos espirituais. A súplica começa com uma saudação régia e materna à Virgem, chamada Rainha e Mãe de Misericórdia, e logo passa ao reconhecimento da condição humana expressa nas palavras “degredados filhos de Eva”.
Dessa consciência nasce o pedido de auxílio. Os fiéis recorrem àquela que invocam como Advogada, pedindo que volte para eles seus “olhos misericordiosos” em meio às dificuldades da peregrinação terrena. Louvor, reconhecimento da própria fragilidade e súplica aparecem, assim, intimamente unidos.
O último movimento revela para onde toda a oração está orientada. Ao pedir “mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre”, a Salve Rainha encontra seu ponto culminante em Cristo. É a partir desse percurso que cada uma de suas invocações pode ser compreendida com maior profundidade.
Cada expressão da oração Salve Rainha possui um significado que foi aprofundado ao longo dos séculos pela reflexão espiritual da Igreja. Em Glórias de Maria, Santo Afonso Maria de Ligório dedica a primeira parte da obra a comentar essa antífona, meditando sobre a maternidade de Maria, sua intercessão e a confiança dos fiéis que a invocam.
A oração começa saudando Maria como Rainha e Mãe de Misericórdia. Sua realeza deve ser compreendida à luz de sua união com Cristo e da maternidade que exerce em favor dos fiéis. Por isso, a primeira invocação já aproxima dois aspectos inseparáveis: a dignidade singular da Virgem e sua solicitude materna.
Santo Afonso Maria de Ligório insiste justamente no caráter misericordioso dessa realeza: “Maria, a qual, ainda que rainha, todavia não é rainha da justiça, dedicada ao castigo dos malfeitores, mas rainha da misericórdia, dedicada apenas à piedade e ao perdão dos pecadores.” 1.
Quando chama Maria de “vida” e “doçura”, a Salve Rainha não lhe atribui aquilo que pertence somente a Deus, fonte da vida e da graça. A expressão está ligada à ação materna de Maria em favor daqueles por quem intercede, pedindo a Deus as graças necessárias para a vida cristã.
Santo Afonso explica esse sentido ao relacionar a vida da alma à graça divina: “Maria, portanto, obtendo por meio da sua intercessão aos pecadores a posse da graça, assim lhes devolve a vida.” 2.
A esperança cristã tem seu fundamento em Deus. Ainda assim, a Igreja chama Maria de “esperança nossa” porque reconhece nela uma poderosa intercessora e confia que sua missão materna está inteiramente subordinada à ação salvadora de Cristo.
Ao comentar essa invocação, Santo Afonso observa que a própria oração da Igreja conserva esse título: “A Santa Igreja quer que a cada dia todos os sacerdotes e todos os religiosos […] chamem Maria com este doce nome de esperança nossa.” 3. A expressão, portanto, não coloca Maria no lugar de Deus, mas manifesta a confiança dos fiéis n’Aquela que intercede junto a Ele.
Com as palavras “degredados filhos de Eva”, a oração recorda a condição da humanidade depois da queda. O homem vive distante da plenitude para a qual foi criado e experimenta as consequências do pecado, embora permaneça chamado por Deus à salvação.
É dessa condição que nasce o clamor dirigido a Maria. Santo Afonso descreve a confiança com que os fiéis devem recorrer à Virgem: “Maria mesma sai à busca destas coisas, isto é, ser sempre invocada e requerida por nós […] a fim de que, crescendo assim a nossa confiança e devoção, possa melhor nos socorrer e consolar.” 4.
A expressão “vale de lágrimas” reconhece uma realidade que atravessa toda existência humana: a vida presente é marcada pelo sofrimento, pelas perdas e pela fragilidade. A Salve Rainha não ignora essa experiência, mas a transforma em oração.
O cristão que geme e chora não o faz sem esperança. Sua vida está orientada para uma promessa que ultrapassa as dores presentes, e o recurso à intercessão de Maria ajuda a perseverar nessa caminhada. As lágrimas deixam, assim, de representar apenas o peso do sofrimento para se tornarem também expressão de uma esperança voltada para a salvação.
Maria é chamada de Advogada porque, segundo o ensinamento da Igreja, continua a exercer sua missão materna por meio da intercessão em favor dos filhos. Essa missão não diminui nem substitui a única mediação de Cristo, da qual depende inteiramente.
Santo Afonso destaca a singular confiança que nasce dessa maternidade: “Maria possui […] este privilégio junto do Filho, o de ser poderosíssima para obter o quanto queira […] porque as preces de Maria são preces de mãe.” 5.
Pedir que Maria volte para nós seus “olhos misericordiosos” é recorrer a uma imagem que expressa proximidade, cuidado e compaixão. O olhar materno representa a atenção d’Aquela que conhece as necessidades de seus filhos e apresenta suas súplicas a Deus.
Esse olhar também possui uma direção. Maria não concentra em si mesma a esperança dos fiéis: toda a sua missão está relacionada ao mistério de Cristo. Por isso, imediatamente depois de pedir seu olhar misericordioso, a oração passa ao pedido que constitui o centro de toda a súplica.
Toda a Salve Rainha converge para estas palavras. Depois de saudar Maria, reconhecer a própria fragilidade e pedir sua intercessão, os fiéis revelam aquilo que verdadeiramente desejam: contemplar a Jesus.
É nessa súplica que aparece de maneira mais evidente o caráter cristocêntrico da autêntica devoção mariana. Maria não é apresentada como o fim da caminhada, mas como a Mãe que acompanha os discípulos de Cristo durante sua peregrinação. Pedir que ela nos mostre Jesus significa desejar a comunhão definitiva com Aquele que é o “bendito fruto” de seu ventre e o único Salvador.
A oração termina com três invocações que retomam a confiança expressa desde o início. Maria é chamada de clemente, piedosa e doce, palavras que evocam sua misericórdia, sua solicitude diante das necessidades dos fiéis e a ternura de sua maternidade espiritual.
Santo Afonso, citando São Bernardo, apresenta essa tríplice invocação como expressão das diferentes formas pelas quais os fiéis experimentam a bondade materna de Maria. Depois de toda a súplica, a Salve Rainha termina, portanto, em louvor Àquela que a Igreja reconhece como Mãe e intercessora.
Embora o texto da Salve Rainha não apareça literalmente nas Sagradas Escrituras, suas palavras estão ligadas a temas centrais da história da salvação. A referência aos “degredados filhos de Eva” recorda o relato da queda e a promessa de Deus: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela” 6. A tradição cristã reconhece nessa passagem o anúncio da vitória definitiva de Cristo sobre o pecado.
Desde os primeiros séculos, a Igreja também estabeleceu um paralelo entre Eva e Maria. Se por Eva a desobediência entrou na história humana, em Maria a resposta obediente ao desígnio de Deus aparece associada à vinda do Salvador. É nesse sentido que a Virgem é contemplada como a Nova Eva, inseparavelmente ligada a Cristo, o Novo Adão.
Essa relação aparece ainda no Evangelho de São Lucas. Isabel proclama Maria “bendita entre as mulheres” e chama Jesus de “bendito fruto” de seu ventre 7, expressão retomada pela Salve Rainha. No Magnificat, Maria reconhece as maravilhas realizadas por Deus e anuncia que todas as gerações a chamarão bem-aventurada 8. Assim, a oração parte da condição dos filhos de Eva e termina no desejo de contemplar a Jesus, em quem se realiza plenamente a esperança da salvação.
Um dos momentos mais tradicionais para rezar a Salve Rainha é o encerramento do Santo Rosário (ou terço), depois da contemplação dos mistérios da vida de Cristo. Na Liturgia das Horas, ela também pertence à tradição das antífonas marianas associadas ao término das Completas, de acordo com as normas e costumes litúrgicos próprios.
Em algumas comunidades, a Salve Rainha também é rezada ou cantada após a Santa Missa, conforme os costumes locais e já fora da própria ação litúrgica. Na oração pessoal ou familiar, pode acompanhar diferentes momentos do dia, especialmente situações de dificuldade, pedidos de intercessão ou a oração da noite.
Depois de compreender o significado de cada uma de suas invocações, você pode rezar a Salve Rainha acompanhando o texto completo em português ou em latim.
Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve!
A vós bradamos, os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.
Eia, pois, Advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.
E depois deste desterro, mostrai‑nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre.
Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria.
V. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
Salve, Regina, mater misericordiae; vita, dulcedo et spes nostra, salve.
Ad te clamamus, exsules filii Evae.
Ad te suspiramus, gementes et flentes in hac lacrimarum valle.
Eia ergo, advocata nostra, illos tuos misericordes oculos ad nos converte.
Et Iesum, benedictum fructum ventris tui, nobis post hoc exsilium ostende.
O clemens, O pia, O dulcis Virgo Maria.
V. Ora pro nobis, sancta Dei Genetrix.
R. Ut digni efficiamur promissionibus Christi.