Devoção, Formação

Santos Filósofos

Você sabia que alguns santos também foram filósofos? Conheça-os, sua contribuição e a relação entre o catolicismo e a filosofia.

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Você sabia que alguns santos também foram filósofos? Conheça-os, sua contribuição e a relação entre o catolicismo e a filosofia.

Data da Publicação: 03/07/2023
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC
Data da Publicação: 03/07/2023
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC

Você sabe quais santos também foram filósofos? Separamos alguns para contar sua história, sua contribuição e a relação entre o catolicismo e a filosofia.


Quando falamos de filosofia, geralmente pensamos na história antiga dos gregos e dos romanos. Mas muito raramente relacionamos a filosofia com o cristianismo e, menos ainda, com santos filósofos.

Desde tempos imemoriais, desde os gregos ou até muito antes deles, o homem se dedicou à filosofia. É por isso que quando pensamos em filosofia, geralmente pensamos na antiguidade clássica, em sábios e, às vezes, para muitos pode até parecer perda de tempo. Seja muito ou pouco o que sabemos de filosofia, o que realmente importa é que ela existe há séculos na história da humanidade. 

Toda a filosofia greco-romana que gira em torno do “amor à sabedoria” ganha sentido na plenitude dos tempos com a “sabedoria encarnada”. E este é o ponto de partida, o centro da história da criação, o antes e o depois, o centro de toda a história da Salvação, da ascensão do conhecimento humano, pois seria a mesma “sabedoria encarnada” que estaria entre nós: “o Emanuel”. E da mesma forma que “Deus conosco” é o centro de todo o cosmos, é o centro da nossa fé católica, apostólica e romana. E isso incumbe diretamente à Igreja.

E, neste sentido, a Igreja preocupa-se com o conhecimento filosófico ou com a própria filosofia, na medida em que a “sabedoria encarnada” é o centro da nossa doutrina eclesial. De igual modo, muitos santos se preocuparam com os estudos filosóficos e teológicos. E tudo em busca da defesa da nossa fé.

Por isso, vamos conhecer um pouco mais da riqueza da Igreja Católica, a filosofia e seus santos filósofos. 

A Igreja Católica, a Filosofia e os santos filósofos

São Josemaria Escrivá, durante uma Santa Missa que presidiu na Universidade de Navarra, fundada por ele. (Foto: opusdei.org)


Para a Igreja Católica, desde seus primeiros alicerces, sempre foi importante a filosofia como um caminho para evangelizar e chegar a Deus, seja de forma explícita ou implícita. De fato, como foi dito acima, a filosofia, por definição, é “amor à sabedoria”. Ou seja, na plenitude dos tempos, quando todo o conhecimento ocidental ganha sentido, tal definição de filosofia poderia ser completada como “amor à sabedoria encarnada”, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Os próprios apóstolos, depois os Padres da Igreja, assim como os santos filósofos, fariam uso dessa filosofia para levar o Evangelho ao mundo todo. 

Porém, a Igreja, como corpo místico de Cristo, não possui uma filosofia própria, muito menos endossa um conceito filosófico em detrimento de outras filosofias. E isso ocorre pelo simples fato de que uma posição filosófica que não está alinhada com a Verdade, isto é, o “Logos Divino”, que é o centro da nossa fé, não serviria, e resultaria em mera banalidade.  

Talvez muitos pensem que a Igreja, enquanto instituição, sustentou uma filosofia entre todas as correntes filosóficas ao longo da história. Mas isso não é verdade. O estudo filosófico como “ancilla theologiae” (filha da teologia) serve à Igreja na medida em que esta disciplina aplica seus próprios métodos em busca da verdade, caso contrário, seria um conhecimento vão e sem um fim. E já que a filosofia, por definição, é “o estudo das causas primeiras e últimas do ser”, ela deve contribuir principalmente para esclarecer uma verdade objetiva. 

Por isso, a Igreja, mãe e mestra da Verdade revelada, tem e deve, como instituição, julgar a veracidade desses conhecimentos, bem como apontar aqueles que são a favor ou em detrimento da doutrina cristã. Caso contrário, o conhecimento adquirido e difundido em todos os lugares pode não garantir uma orientação para a verdade, que é o principal objetivo da Igreja, o que não serviria ao bem objetivo da humanidade e dos filhos de Deus.

Podemos ver isso muito claramente na Carta encíclica Fides et Ratio, do Sumo Pontífice João Paulo II aos bispos da Igreja Católica sobre as relações entre fé e razão. Nesta, um vigário de Cristo ocupa-se de um tema tão importante para a Igreja e seus fiéis e, como bom pastor, exorta suas ovelhas:

A Igreja não propõe uma filosofia própria, nem canoniza uma das correntes filosóficas em detrimento de outras. A razão profunda desta reserva está no fato de que a filosofia, mesmo quando entra em relação com a teologia, deve proceder segundo os seus métodos e regras; caso contrário, não haveria garantia de permanecer orientada para a verdade, tendendo para a mesma através dum processo racionalmente controlável.1

Além disso, este ensinamento do Sumo Pontífice é precisamente o ponto central entre a fé e a razão: A fé e a razão (fides et ratio) constituem como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio.2 Assim, o Magistério eclesiástico pode e deve, de uma forma ou de outra, exercer com autoridade, à luz da fé, um juízo crítico sobre as diversas correntes de pensamentos que possam existir e todas as afirmações que possam contradizer a doutrina cristã. Em suma, a Igreja como corpo místico instituído por Cristo, a própria Verdade revelada aos homens, tem o dever de indicar o que pode ou não existir de incompatibilidade com nossa fé em um sistema filosófico.

Por conseguinte, o Magistério eclesiástico pode, e deve, exercer com autoridade, à luz da fé, o discernimento crítico sobre filosofias e afirmações que contradigam a doutrina cristã. Ao Magistério compete, antes de mais, indicar os pressupostos e as conclusões filosóficas que são incompatíveis com a Verdade revelada, formulando assim as exigências que, do ponto de vista da fé, se impõem à filosofia. Além disso, no desenvolvimento do saber filosófico, surgiram diversas escolas de pensamento; ora, este pluralismo impõe ao Magistério a responsabilidade de exprimir o seu juízo sobre a compatibilidade ou incompatibilidade das concepções de base, defendidas por essas escolas, com as exigências próprias da palavra de Deus e da reflexão teológica.

A Igreja tem o dever de indicar aquilo que pode existir, num sistema filosófico, de incompatível com a sua fé. Na verdade, muitos conteúdos filosóficos — relativos, por exemplo, a Deus, ao homem, à sua liberdade e ao seu comportamento ético —, têm a ver diretamente com a Igreja, porque tocam na Verdade revelada que ela guarda. Quando nós, Bispos, realizamos o referido discernimento, temos a obrigação de ser « testemunhas da verdade », no cumprimento dum serviço humilde, mas firme, que todo filósofo devia prezar, em benefício da reta ratio, ou seja, da razão que reflete corretamente sobre a verdade.3

E, partindo dessa autoridade da Igreja, muitos santos filósofos tiveram de assumir a responsabilidade de defender a fé cristã com argumentos filosóficos e teológicos. Entre eles: Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santo Alberto Magno, São Tomás de Aquino, São Boaventura, e poderíamos citar uma lista enorme de santos que não somente foram filósofos, mas também teólogos. 

Muitos deles tiveram que enfrentar problemas complexos, como a existência ontológica do mal. De igual modo, nos primórdios do cristianismo, começou a tomar forma uma filosofia cristã, ou mais conhecida como apologética cristã, que é justamente a ciência que defende a fé cristã e faz uso da filosofia. Outro caso particular foi a elaboração do credo da nossa fé, o credo niceno-constantinopolitano, que é símbolo e declaração dogmática dos conteúdos da fé cristã, promulgado no Concílio de Nicéia I e ampliado no Concílio de Constantinopla. Vale ressaltar que todos os artigos de fé foram objeto de longas discussões filosóficas e teológicas ao longo de sua elaboração. E santos filósofos foram protagonistas dessa façanha, ou seja, da elaboração da nossa profissão de fé, onde está contida a síntese do que cremos, para que não haja discussão ou desconfiança sobre a veracidade de cada um dos artigos. 

Em conclusão, a Igreja Católica, além de ser o corpo místico de Jesus Cristo, é também mãe e mestra. E seus filhos ouvem sua voz. A filosofia como “filha da teologia” desempenha um papel fundamental na defesa da fé cristã e muitos santos filósofos dela se valeram para o bem da humanidade. E a esposa de Cristo, que eternamente imita Nossa Senhora, “sede da sabedoria”, sempre exortou, exorta e exortará o mal que se deve evitar e o bem que se deve praticar em qualquer área do conhecimento. À imitação de cada um dos santos, que deram a vida com seus conhecimentos por amor a Deus, cada membro da Igreja é chamado a encontrar na filosofia aquilo que é bom, belo e verdadeiro. 

Fé e razão


A fé e a razão (fides et ratio) constituem como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio.4

Santo Agostinho, um dos maiores filósofos de todos os tempos.

Embora a fé esteja acima da razão, nunca pode haver desacordo entre as duas, ao contrário, elas se complementam. Podemos entender a fé como um dom de Deus, ele mesmo que se revela não pode negar-se a si próprio. Por outro lado, a razão humana que emana de sua inteligência busca a verdade e vai ao encontro de Deus somente à luz da razão. É como ver Deus através da fé, e ele nos leva pela mão através da inteligência, conduzidos por Ele para um encontro íntimo entre “o Criador e a criatura”.

A razão mais sublime da dignidade humana consiste na sua vocação à comunhão com Deus. Desde o começo da sua existência, o homem é convidado a dialogar com Deus: pois se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele, e por amor, constantemente conservado: nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e não se entregar ao seu Criador.5

Como diria Santo Agostinho: “Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousar em ti.” Foi Deus quem colocou esse sentimento inscrito no coração do homem, pois o homem foi criado por Deus e para Deus. E, por isso, Deus não para de atrair o homem para Si, pois é em Deus que a razão humana encontra a verdade e a felicidade eterna.

E assim como muitos santos encontraram em Deus o descanso de seus corações, como Santo Agostinho, poderíamos citar uma enorme lista de santos filósofos que lutaram e dedicaram suas vidas inteiras por amor a Deus e à sua Igreja. Muitos deles falaram sobre a fé e razão, e agora vamos ver alguns que nos inspiram todos os dias nessa busca genuína pela verdade.

Você pode saber mais sobre a relação entre fé e razão neste artigo.

5 santos que foram filósofos


Santo Agostinho

Santo Agostinho foi um grande influenciador cristão no que diz respeito à filosofia e à teologia. As suas contribuições abrangem uma vasta gama de tópicos, mas os mais destacados em relação à filosofia são: sobre o livre-arbítrio, a natureza do tempo, a teoria do conhecimento e o problema do mal.

De fato, uma das questões mais significativas abordadas pelo santo foi o problema do mal. E, até hoje, continua sendo uma referência na área da filosofia medieval pelas suas abordagens profundas e, sobretudo, pela sua acuidade intelectual.

Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás não só contribuiu para a filosofia, mas também levou a teologia ao seu pico mais alto no que é chamado de Suma Teológica. Graças à grande entrega e proeminente inteligência do Doutor Angélico, hoje, as grandes obras são fonte de consulta sobre temas filosóficos e teológicos. Por muito tempo na idade média ele foi considerado o Aristóteles Medieval, pois embutiu seus conhecimentos com base nas teorias do Estagirita.

O grande sintetizador da fé cristã fez uso da filosofia aristotélica para explicar vários temas da teologia cristã, como a existência de Deus, moral, dogma de fé, etc. E também todas e cada uma das áreas como: metafísica, ética, teoria hilemórfica e teoria do conhecimento.

Conheça a oração de Santo Tomás para os estudos.

Santo Anselmo

A contribuição de Santo Anselmo para a filosofia foi o famoso  “argumento ontológico para provar a existência de Deus”. O santo inicia sua argumentação para provar a existência de Deus de forma puramente racional, deixando de lado as evidências empíricas. Ou seja, passar de conceitos simples à existência de Deus.

Os argumentos ontológicos de Santo Anselmo têm sido objeto de muitos debates e críticas ao longo da história. Um dos que mais tarde defendeu sua teoria e acrescentou mais argumentos foi Leibniz.

Iluminura do século XII das meditações de Anselmo da Cantuária, um dos santos filósofos.
Iluminura do século XII das meditações de Anselmo da Cantuária.

São João da Cruz

São João da Cruz pode não ter sido um proeminente filósofo cristão, mas obviamente consumiu grande parte da cultura ocidental, seja ela filosófica ou teológica, para produzir grandes obras e ser apontado como o grande místico de todos os tempos.

O santo explorou profundamente a natureza da alma humana em suas obras “Subida ao Monte Carmelo” e “Noite Escura”. Aquele percurso espiritual tão bem descrito pelo Santo valeu-lhe o título de “místico” que viria a influenciar não só o pensamento cristão, mas todo o estudo da mística em geral.

Saiba mais sobre a vida de São João da Cruz.

Santa Edith Stein

Santa Edith Stein, faz parte do rol de santos filósofos.
Foto de Santa Edith Stein feita por meio de Inteligência Artificial.

Santa Teresa Benedita da Cruz, mais conhecida como Edith Stein, foi aluna de Edmund Husserl, criador da teoria fenomenológica. Mais tarde, ela daria uma contribuição significativa para a fenomenologia. Além disso, desenvolveu uma filosofia da pessoa, tendo como centro a importância do indivíduo e de sua dignidade intrínseca. 

Ela continuaria a aplicar o método filosófico de Edmund Husserl até o final da vida, tendo um olhar extremamente aguçado em todas as áreas da ciência. A sua obra “A Ciência da Cruz” é um exemplo do seu pensamento fenomenológico, na qual une perfeitamente o pensamento filosófico à mística carmelitana. Além disso, também se destaca seu trabalho magistral em “Ser finito e ser eterno”.

Referências

  1. Cf. João Paulo II, Carta enc. Fides et Ratio (14 de setembro de 1998) Cap. V, I.  “Intervenções do magistério em matéria filosófica.”[]
  2. Cf. João Paulo II, Carta enc. Fides et Ratio (14 de setembro de 1998) Introdução.[]
  3. Cf. João Paulo II, Carta enc. Fides et Ratio (14 de setembro de 1998) Cap. V, I.  “Intervenções do magistério em matéria filosófica.”[]
  4. Cf. João Paulo II, Carta enc. Fides et Ratio (14 de setembro de 1998) (cf. Ex 33, 18; Sal 2726, 8-9; 6362, 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo 3, 2).[]
  5. CIC. 27.[]
Redação MBC

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Você sabe quais santos também foram filósofos? Separamos alguns para contar sua história, sua contribuição e a relação entre o catolicismo e a filosofia.


Quando falamos de filosofia, geralmente pensamos na história antiga dos gregos e dos romanos. Mas muito raramente relacionamos a filosofia com o cristianismo e, menos ainda, com santos filósofos.

Desde tempos imemoriais, desde os gregos ou até muito antes deles, o homem se dedicou à filosofia. É por isso que quando pensamos em filosofia, geralmente pensamos na antiguidade clássica, em sábios e, às vezes, para muitos pode até parecer perda de tempo. Seja muito ou pouco o que sabemos de filosofia, o que realmente importa é que ela existe há séculos na história da humanidade. 

Toda a filosofia greco-romana que gira em torno do “amor à sabedoria” ganha sentido na plenitude dos tempos com a “sabedoria encarnada”. E este é o ponto de partida, o centro da história da criação, o antes e o depois, o centro de toda a história da Salvação, da ascensão do conhecimento humano, pois seria a mesma “sabedoria encarnada” que estaria entre nós: “o Emanuel”. E da mesma forma que “Deus conosco” é o centro de todo o cosmos, é o centro da nossa fé católica, apostólica e romana. E isso incumbe diretamente à Igreja.

E, neste sentido, a Igreja preocupa-se com o conhecimento filosófico ou com a própria filosofia, na medida em que a “sabedoria encarnada” é o centro da nossa doutrina eclesial. De igual modo, muitos santos se preocuparam com os estudos filosóficos e teológicos. E tudo em busca da defesa da nossa fé.

Por isso, vamos conhecer um pouco mais da riqueza da Igreja Católica, a filosofia e seus santos filósofos. 

A Igreja Católica, a Filosofia e os santos filósofos

São Josemaria Escrivá, durante uma Santa Missa que presidiu na Universidade de Navarra, fundada por ele. (Foto: opusdei.org)


Para a Igreja Católica, desde seus primeiros alicerces, sempre foi importante a filosofia como um caminho para evangelizar e chegar a Deus, seja de forma explícita ou implícita. De fato, como foi dito acima, a filosofia, por definição, é “amor à sabedoria”. Ou seja, na plenitude dos tempos, quando todo o conhecimento ocidental ganha sentido, tal definição de filosofia poderia ser completada como “amor à sabedoria encarnada”, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Os próprios apóstolos, depois os Padres da Igreja, assim como os santos filósofos, fariam uso dessa filosofia para levar o Evangelho ao mundo todo. 

Porém, a Igreja, como corpo místico de Cristo, não possui uma filosofia própria, muito menos endossa um conceito filosófico em detrimento de outras filosofias. E isso ocorre pelo simples fato de que uma posição filosófica que não está alinhada com a Verdade, isto é, o “Logos Divino”, que é o centro da nossa fé, não serviria, e resultaria em mera banalidade.  

Talvez muitos pensem que a Igreja, enquanto instituição, sustentou uma filosofia entre todas as correntes filosóficas ao longo da história. Mas isso não é verdade. O estudo filosófico como “ancilla theologiae” (filha da teologia) serve à Igreja na medida em que esta disciplina aplica seus próprios métodos em busca da verdade, caso contrário, seria um conhecimento vão e sem um fim. E já que a filosofia, por definição, é “o estudo das causas primeiras e últimas do ser”, ela deve contribuir principalmente para esclarecer uma verdade objetiva. 

Por isso, a Igreja, mãe e mestra da Verdade revelada, tem e deve, como instituição, julgar a veracidade desses conhecimentos, bem como apontar aqueles que são a favor ou em detrimento da doutrina cristã. Caso contrário, o conhecimento adquirido e difundido em todos os lugares pode não garantir uma orientação para a verdade, que é o principal objetivo da Igreja, o que não serviria ao bem objetivo da humanidade e dos filhos de Deus.

Podemos ver isso muito claramente na Carta encíclica Fides et Ratio, do Sumo Pontífice João Paulo II aos bispos da Igreja Católica sobre as relações entre fé e razão. Nesta, um vigário de Cristo ocupa-se de um tema tão importante para a Igreja e seus fiéis e, como bom pastor, exorta suas ovelhas:

A Igreja não propõe uma filosofia própria, nem canoniza uma das correntes filosóficas em detrimento de outras. A razão profunda desta reserva está no fato de que a filosofia, mesmo quando entra em relação com a teologia, deve proceder segundo os seus métodos e regras; caso contrário, não haveria garantia de permanecer orientada para a verdade, tendendo para a mesma através dum processo racionalmente controlável.1

Além disso, este ensinamento do Sumo Pontífice é precisamente o ponto central entre a fé e a razão: A fé e a razão (fides et ratio) constituem como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio.2 Assim, o Magistério eclesiástico pode e deve, de uma forma ou de outra, exercer com autoridade, à luz da fé, um juízo crítico sobre as diversas correntes de pensamentos que possam existir e todas as afirmações que possam contradizer a doutrina cristã. Em suma, a Igreja como corpo místico instituído por Cristo, a própria Verdade revelada aos homens, tem o dever de indicar o que pode ou não existir de incompatibilidade com nossa fé em um sistema filosófico.

Por conseguinte, o Magistério eclesiástico pode, e deve, exercer com autoridade, à luz da fé, o discernimento crítico sobre filosofias e afirmações que contradigam a doutrina cristã. Ao Magistério compete, antes de mais, indicar os pressupostos e as conclusões filosóficas que são incompatíveis com a Verdade revelada, formulando assim as exigências que, do ponto de vista da fé, se impõem à filosofia. Além disso, no desenvolvimento do saber filosófico, surgiram diversas escolas de pensamento; ora, este pluralismo impõe ao Magistério a responsabilidade de exprimir o seu juízo sobre a compatibilidade ou incompatibilidade das concepções de base, defendidas por essas escolas, com as exigências próprias da palavra de Deus e da reflexão teológica.

A Igreja tem o dever de indicar aquilo que pode existir, num sistema filosófico, de incompatível com a sua fé. Na verdade, muitos conteúdos filosóficos — relativos, por exemplo, a Deus, ao homem, à sua liberdade e ao seu comportamento ético —, têm a ver diretamente com a Igreja, porque tocam na Verdade revelada que ela guarda. Quando nós, Bispos, realizamos o referido discernimento, temos a obrigação de ser « testemunhas da verdade », no cumprimento dum serviço humilde, mas firme, que todo filósofo devia prezar, em benefício da reta ratio, ou seja, da razão que reflete corretamente sobre a verdade.3

E, partindo dessa autoridade da Igreja, muitos santos filósofos tiveram de assumir a responsabilidade de defender a fé cristã com argumentos filosóficos e teológicos. Entre eles: Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santo Alberto Magno, São Tomás de Aquino, São Boaventura, e poderíamos citar uma lista enorme de santos que não somente foram filósofos, mas também teólogos. 

Muitos deles tiveram que enfrentar problemas complexos, como a existência ontológica do mal. De igual modo, nos primórdios do cristianismo, começou a tomar forma uma filosofia cristã, ou mais conhecida como apologética cristã, que é justamente a ciência que defende a fé cristã e faz uso da filosofia. Outro caso particular foi a elaboração do credo da nossa fé, o credo niceno-constantinopolitano, que é símbolo e declaração dogmática dos conteúdos da fé cristã, promulgado no Concílio de Nicéia I e ampliado no Concílio de Constantinopla. Vale ressaltar que todos os artigos de fé foram objeto de longas discussões filosóficas e teológicas ao longo de sua elaboração. E santos filósofos foram protagonistas dessa façanha, ou seja, da elaboração da nossa profissão de fé, onde está contida a síntese do que cremos, para que não haja discussão ou desconfiança sobre a veracidade de cada um dos artigos. 

Em conclusão, a Igreja Católica, além de ser o corpo místico de Jesus Cristo, é também mãe e mestra. E seus filhos ouvem sua voz. A filosofia como “filha da teologia” desempenha um papel fundamental na defesa da fé cristã e muitos santos filósofos dela se valeram para o bem da humanidade. E a esposa de Cristo, que eternamente imita Nossa Senhora, “sede da sabedoria”, sempre exortou, exorta e exortará o mal que se deve evitar e o bem que se deve praticar em qualquer área do conhecimento. À imitação de cada um dos santos, que deram a vida com seus conhecimentos por amor a Deus, cada membro da Igreja é chamado a encontrar na filosofia aquilo que é bom, belo e verdadeiro. 

Fé e razão


A fé e a razão (fides et ratio) constituem como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio.4

Santo Agostinho, um dos maiores filósofos de todos os tempos.

Embora a fé esteja acima da razão, nunca pode haver desacordo entre as duas, ao contrário, elas se complementam. Podemos entender a fé como um dom de Deus, ele mesmo que se revela não pode negar-se a si próprio. Por outro lado, a razão humana que emana de sua inteligência busca a verdade e vai ao encontro de Deus somente à luz da razão. É como ver Deus através da fé, e ele nos leva pela mão através da inteligência, conduzidos por Ele para um encontro íntimo entre “o Criador e a criatura”.

A razão mais sublime da dignidade humana consiste na sua vocação à comunhão com Deus. Desde o começo da sua existência, o homem é convidado a dialogar com Deus: pois se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele, e por amor, constantemente conservado: nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e não se entregar ao seu Criador.5

Como diria Santo Agostinho: “Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousar em ti.” Foi Deus quem colocou esse sentimento inscrito no coração do homem, pois o homem foi criado por Deus e para Deus. E, por isso, Deus não para de atrair o homem para Si, pois é em Deus que a razão humana encontra a verdade e a felicidade eterna.

E assim como muitos santos encontraram em Deus o descanso de seus corações, como Santo Agostinho, poderíamos citar uma enorme lista de santos filósofos que lutaram e dedicaram suas vidas inteiras por amor a Deus e à sua Igreja. Muitos deles falaram sobre a fé e razão, e agora vamos ver alguns que nos inspiram todos os dias nessa busca genuína pela verdade.

Você pode saber mais sobre a relação entre fé e razão neste artigo.

5 santos que foram filósofos


Santo Agostinho

Santo Agostinho foi um grande influenciador cristão no que diz respeito à filosofia e à teologia. As suas contribuições abrangem uma vasta gama de tópicos, mas os mais destacados em relação à filosofia são: sobre o livre-arbítrio, a natureza do tempo, a teoria do conhecimento e o problema do mal.

De fato, uma das questões mais significativas abordadas pelo santo foi o problema do mal. E, até hoje, continua sendo uma referência na área da filosofia medieval pelas suas abordagens profundas e, sobretudo, pela sua acuidade intelectual.

Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás não só contribuiu para a filosofia, mas também levou a teologia ao seu pico mais alto no que é chamado de Suma Teológica. Graças à grande entrega e proeminente inteligência do Doutor Angélico, hoje, as grandes obras são fonte de consulta sobre temas filosóficos e teológicos. Por muito tempo na idade média ele foi considerado o Aristóteles Medieval, pois embutiu seus conhecimentos com base nas teorias do Estagirita.

O grande sintetizador da fé cristã fez uso da filosofia aristotélica para explicar vários temas da teologia cristã, como a existência de Deus, moral, dogma de fé, etc. E também todas e cada uma das áreas como: metafísica, ética, teoria hilemórfica e teoria do conhecimento.

Conheça a oração de Santo Tomás para os estudos.

Santo Anselmo

A contribuição de Santo Anselmo para a filosofia foi o famoso  “argumento ontológico para provar a existência de Deus”. O santo inicia sua argumentação para provar a existência de Deus de forma puramente racional, deixando de lado as evidências empíricas. Ou seja, passar de conceitos simples à existência de Deus.

Os argumentos ontológicos de Santo Anselmo têm sido objeto de muitos debates e críticas ao longo da história. Um dos que mais tarde defendeu sua teoria e acrescentou mais argumentos foi Leibniz.

Iluminura do século XII das meditações de Anselmo da Cantuária, um dos santos filósofos.
Iluminura do século XII das meditações de Anselmo da Cantuária.

São João da Cruz

São João da Cruz pode não ter sido um proeminente filósofo cristão, mas obviamente consumiu grande parte da cultura ocidental, seja ela filosófica ou teológica, para produzir grandes obras e ser apontado como o grande místico de todos os tempos.

O santo explorou profundamente a natureza da alma humana em suas obras “Subida ao Monte Carmelo” e “Noite Escura”. Aquele percurso espiritual tão bem descrito pelo Santo valeu-lhe o título de “místico” que viria a influenciar não só o pensamento cristão, mas todo o estudo da mística em geral.

Saiba mais sobre a vida de São João da Cruz.

Santa Edith Stein

Santa Edith Stein, faz parte do rol de santos filósofos.
Foto de Santa Edith Stein feita por meio de Inteligência Artificial.

Santa Teresa Benedita da Cruz, mais conhecida como Edith Stein, foi aluna de Edmund Husserl, criador da teoria fenomenológica. Mais tarde, ela daria uma contribuição significativa para a fenomenologia. Além disso, desenvolveu uma filosofia da pessoa, tendo como centro a importância do indivíduo e de sua dignidade intrínseca. 

Ela continuaria a aplicar o método filosófico de Edmund Husserl até o final da vida, tendo um olhar extremamente aguçado em todas as áreas da ciência. A sua obra “A Ciência da Cruz” é um exemplo do seu pensamento fenomenológico, na qual une perfeitamente o pensamento filosófico à mística carmelitana. Além disso, também se destaca seu trabalho magistral em “Ser finito e ser eterno”.

Referências

  1. Cf. João Paulo II, Carta enc. Fides et Ratio (14 de setembro de 1998) Cap. V, I.  “Intervenções do magistério em matéria filosófica.”[]
  2. Cf. João Paulo II, Carta enc. Fides et Ratio (14 de setembro de 1998) Introdução.[]
  3. Cf. João Paulo II, Carta enc. Fides et Ratio (14 de setembro de 1998) Cap. V, I.  “Intervenções do magistério em matéria filosófica.”[]
  4. Cf. João Paulo II, Carta enc. Fides et Ratio (14 de setembro de 1998) (cf. Ex 33, 18; Sal 2726, 8-9; 6362, 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo 3, 2).[]
  5. CIC. 27.[]

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