Saiba o que a Igreja nos ensina por meio da liturgia do primeiro domingo da Quaresma 2026, meditando cada uma das leituras.
Saiba o que a Igreja nos ensina por meio da liturgia do primeiro domingo da Quaresma 2026, meditando cada uma das leituras.
“Eis o tempo de conversão, eis o dia da salvação.” A Quaresma chega e, ano após ano, essa música, entoada em nossas paróquias, já nos impulsiona à meditação. Mas você sabia que a cada domingo a liturgia vai nos propondo um caminho espiritual?
Confira, abaixo, o texto que preparamos para que você perceba a beleza da liturgia do primeiro domingo da quaresma, à qual a Igreja vai nos impelindo no início desta caminhada.
Antes de começar, encontre tudo o que um católico precisa saber sobre a o Tempo da Quaresma.
A Quaresma é esse tempo de árdua e profunda luta ascética em vista de nossa conversão pessoal e preparação para a vida nova na Páscoa. Com efeito, a liturgia deste primeiro domingo da quaresma vai abrir-nos, desde já, o horizonte para o qual vamos nos dirigir neste itinerário espiritual.
Em síntese, a liturgia deste primeiro domingo da quaresma apresenta temas fundamentais para essa caminhada espiritual: a Aliança de Deus com o homem, a força da Palavra divina e o combate às tentações. Desde o início deste itinerário, a Igreja nos lembra que a conversão é uma luta diária, mas que Deus está sempre presente para nos sustentar em nossas fraquezas.
A Primeira Leitura deste Primeiro Domingo da Quaresma nos leva às origens da humanidade. O Livro do Gênesis apresenta, de maneira simbólica e profundamente teológica, a criação do homem e a realidade do primeiro pecado.
O texto começa com uma imagem belíssima: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7). O homem não é fruto do acaso. Ele é moldado pelas mãos de Deus e recebe diretamente d’Ele o sopro da vida. Aqui está afirmada a dignidade incomparável da pessoa humana: somos criaturas, mas criaturas queridas, pensadas e amadas por Deus.
Deus coloca o homem no jardim do Éden, lugar de harmonia e comunhão. No centro do jardim estão duas árvores: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Esta última representa o limite inscrito na própria condição humana. O homem é livre, mas sua liberdade não é absoluta; ela deve reconhecer que Deus é o Senhor.
É então que entra a serpente, descrita como “o mais astuto de todos os animais”. A tentação começa com uma distorção da palavra divina: “É verdade que Deus vos disse: ‘Não comereis de nenhuma das árvores do jardim?’”. O inimigo exagera a proibição para insinuar que Deus seria opressor. A estratégia é clara: gerar desconfiança.
A mulher responde, mas acrescenta um detalhe não mencionado no mandato original: “nem sequer o toqueis”. Em seguida, a serpente contradiz abertamente a Deus: “Não, vós não morrereis”. Aqui está o núcleo do pecado: a suspeita de que Deus mente e a pretensão de ser como Deus.
O pecado nasce quando o homem deixa de confiar no amor do Criador e deseja autonomia absoluta. “Colheu um fruto, comeu e deu também ao marido.” O resultado é imediato: “os olhos dos dois se abriram; e, vendo que estavam nus…”. Não se trata de iluminação, mas de ruptura. A harmonia é quebrada, surge a vergonha, entra no mundo a desordem interior.
A Igreja ensina que esse episódio revela a realidade do pecado original, uma queda nas origens da humanidade. O Catecismo afirma:
“Constituído por Deus em estado de santidade, o homem, seduzido pelo Maligno, desde o início da história, abusou da própria liberdade” 1.
A Quaresma começa recordando essa verdade fundamental: o pecado não é apenas um erro moral isolado, mas uma ruptura com Deus que traz consequências para toda a humanidade.
Contudo, esta leitura prepara o terreno para o Evangelho: onde Adão caiu, Cristo vencerá. Onde o primeiro homem cedeu à tentação, o novo Adão permanecerá fiel.
O Salmo 50(51) é um dos mais conhecidos salmos penitenciais da Sagrada Escritura. Tradicionalmente atribuído ao rei Davi após o seu pecado, ele se torna, neste Primeiro Domingo da Quaresma, a resposta da humanidade caída ao drama narrado na Primeira Leitura.
Se no Gênesis vemos a origem do pecado, aqui encontramos o caminho da conversão.
A antífona resume o espírito quaresmal: “Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra vós.” Não há justificativas, não há transferência de culpa. O salmista reconhece sua responsabilidade: “Eu reconheço toda a minha iniquidade, o meu pecado está sempre à minha frente.”
A Quaresma é precisamente este tempo de lucidez espiritual. Não se trata de culpa estéril, mas de verdade diante de Deus. O pecado é chamado pelo nome: “Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei.” Toda falta, mesmo quando atinge o próximo, é antes de tudo uma ofensa ao amor divino.
Mas o tom do salmo não é de desespero — é de confiança. O orante apela à imensidão do amor de Deus. A misericórdia é maior que o pecado.
O ponto mais profundo do salmo aparece no pedido: “Criai em mim um coração que seja puro.” O verbo “criar” recorda o próprio ato criador de Deus no Gênesis. O salmista não pede apenas perdão; ele suplica uma nova criação interior. É uma súplica por renovação radical.
A Igreja sempre viu neste salmo uma preparação para o Sacramento da Confissão. O Catecismo ensina:
“O arrependimento interior é uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão a Deus de todo o coração” 2.
Por isso, o Salmo 50 é profundamente quaresmal: ele nos ensina que reconhecer o pecado não é o fim, mas o início da restauração. Deus não deseja afastar o homem de sua presença, mas recriá-lo, devolver-lhe “a alegria de ser salvo”.
Se no Éden o homem escondeu-se de Deus, neste salmo o pecador clama para permanecer diante d’Ele.
A Segunda Leitura apresenta uma das passagens mais densas da teologia de São Paulo. Depois de contemplarmos, no Gênesis, a queda de Adão e, no Salmo, o clamor arrependido do pecador, agora a Carta aos Romanos revela o horizonte da redenção.
São Paulo estabelece um paralelo entre dois homens: Adão e Cristo.
“O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte.” Com essas palavras, o Apóstolo confirma a realidade do pecado original já apresentada na Primeira Leitura. A morte — não apenas física, mas espiritual — passou a toda a humanidade. Há uma solidariedade no mal: o pecado de um afetou a todos.
Adão é chamado de “figura daquele que devia vir”. Ele é o primeiro homem; Cristo é o novo homem. Adão representa a humanidade que desobedece; Cristo inaugura a humanidade reconciliada.
Mas São Paulo faz questão de sublinhar que não há simetria perfeita entre queda e redenção. A graça é infinitamente maior que o pecado:
“A transgressão de um só levou a multidão humana à morte, mas foi de modo bem mais superior que a graça de Deus se derramou em abundância sobre todos.”
É aqui que ecoa a grande esperança quaresmal: o pecado é real, suas consequências são graves, mas a graça é superabundante. A iniciativa de salvação parte de Deus.
O Catecismo da Igreja Católica ensina:
“O pecado original é chamado ‘pecado’ de modo analógico: é um pecado ‘contraído’ e não ‘cometido’, um estado e não um ato” 3.
Contudo, Paulo mostra que esse estado não é definitivo. “Pela desobediência de um só homem a humanidade toda foi estabelecida numa situação de pecado; assim também, pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça.”
Se Adão estendeu os braços para tomar o fruto proibido, Cristo estenderá os braços na cruz em obediência ao Pai.
A Quaresma, portanto, não é apenas memória da queda, mas preparação para celebrar a vitória do novo Adão. Onde o pecado reinou, a graça não apenas compensou — ela superabundou.
E essa graça nos é oferecida sacramentalmente, especialmente na Reconciliação e na Eucaristia.
O Evangelho deste Primeiro Domingo da Quaresma nos apresenta Jesus no deserto, onde jejua por quarenta dias e enfrenta as tentações do diabo. Se a Primeira Leitura mostrou a derrota de Adão no jardim, aqui contemplamos a vitória de Cristo no deserto.
“O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.” Não se trata de um acaso. O próprio Espírito conduz o Senhor a esse combate. O deserto, na tradição bíblica, é lugar de provação, mas também de purificação e intimidade com Deus. Ali Israel foi testado durante quarenta anos; agora, durante quarenta dias, o novo Israel e novo Adão enfrenta o tentador.
Após o jejum, Jesus tem fome. É nesse momento de fragilidade humana que o diabo se aproxima. As três tentações que se seguem não são aleatórias: a tradição da Igreja sempre viu nelas um resumo das inclinações desordenadas que marcam o coração humano.
A primeira tentação — “manda que estas pedras se transformem em pães” — toca a concupiscência da carne. Trata-se da busca da satisfação imediata, da redução da vida ao nível das necessidades materiais. O tentador propõe que Jesus use seu poder para si mesmo. Mas Cristo responde com a Escritura: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” Ele afirma que a verdadeira vida nasce da confiança no Pai.
A segunda tentação acontece no alto do Templo. O diabo cita a própria Escritura e sugere que Jesus se lance para ser amparado pelos anjos. Aqui se revela a soberba espiritual, a tentação de usar Deus para provar algo, de buscar reconhecimento religioso, de instrumentalizar o sagrado. Jesus responde com firmeza: “Não tentarás o Senhor teu Deus.” A confiança não exige espetáculo.
A terceira tentação é a mais explícita: “Eu te darei todos os reinos do mundo, se te ajoelhares diante de mim.” Trata-se da concupiscência da posse e do poder, da promessa de glória sem cruz, de domínio sem obediência. É a sedução da idolatria. Jesus rejeita categoricamente: “Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto.”
São João resume essas três inclinações quando afirma: “Tudo o que há no mundo — a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida — não procede do Pai” (1Jo 2,16). Cristo vence exatamente onde a humanidade costuma cair.
O Catecismo da Igreja Católica ensina:
“A tentação de Jesus manifesta a maneira como o Filho de Deus é Messias, contrariamente à que lhe propõe Satanás” 4.
Onde Adão quis “ser como Deus”, Cristo permanece Filho obediente. Onde o primeiro homem desconfiou, o novo Adão confia. Onde houve desobediência, agora há fidelidade.
Ao final, “o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus.” A vitória pertence à obediência.
A Igreja coloca este Evangelho no início da Quaresma para nos recordar que também nós enfrentamos essas três tentações: o apego aos prazeres, a busca de reconhecimento e o desejo de poder. Mas não lutamos sozinhos. Unidos a Cristo, podemos vencer.
Se no Éden o homem caiu diante da serpente, no deserto o Filho vence Satanás — e abre para nós o caminho da verdadeira liberdade.

Para aprofundar-se no tema do Evangelho, conheça o que são as tentações e como podemos combatê-las.
A liturgia deste primeiro domingo de Quaresma nos ensina que a caminhada rumo à conversão passa pela fidelidade a Deus, pela confiança nele e pela luta contra as tentações. Desde o início deste tempo sagrado, somos chamados a colocar Deus no centro de nossas vidas, especialmente por meio da oração, da esmola e do jejum.
As leituras nos mostram que a fidelidade ao Senhor é a base da nossa vida espiritual. Assim como Jesus, que foi conduzido ao deserto, também nós somos “levados” a um combate espiritual. Esse caminho exige renúncia, vigilância e confiança constante na proteção divina, que nunca nos abandona.
A Quaresma todo ano recorda-nos que, para vencer as provas, precisamos estar ancorados na Palavra de Deus e na oração. É Deus quem nos sustenta na luta contra o pecado e nos conduz à verdadeira liberdade. Esse itinerário quaresmal é, sobretudo, um convite à conversão, para que renovemos nossa adesão ao projeto de Deus e, assim, busquemos a santidade não somente neste tempo, mas durante toda a nossa vida.
Confira como viver bem a Quaresma em 5 dicas práticas
E que tal refletir um pouco mais com uma meditação de Santo Afonso de Ligório para este domingo?
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“Eis o tempo de conversão, eis o dia da salvação.” A Quaresma chega e, ano após ano, essa música, entoada em nossas paróquias, já nos impulsiona à meditação. Mas você sabia que a cada domingo a liturgia vai nos propondo um caminho espiritual?
Confira, abaixo, o texto que preparamos para que você perceba a beleza da liturgia do primeiro domingo da quaresma, à qual a Igreja vai nos impelindo no início desta caminhada.
Antes de começar, encontre tudo o que um católico precisa saber sobre a o Tempo da Quaresma.
A Quaresma é esse tempo de árdua e profunda luta ascética em vista de nossa conversão pessoal e preparação para a vida nova na Páscoa. Com efeito, a liturgia deste primeiro domingo da quaresma vai abrir-nos, desde já, o horizonte para o qual vamos nos dirigir neste itinerário espiritual.
Em síntese, a liturgia deste primeiro domingo da quaresma apresenta temas fundamentais para essa caminhada espiritual: a Aliança de Deus com o homem, a força da Palavra divina e o combate às tentações. Desde o início deste itinerário, a Igreja nos lembra que a conversão é uma luta diária, mas que Deus está sempre presente para nos sustentar em nossas fraquezas.
A Primeira Leitura deste Primeiro Domingo da Quaresma nos leva às origens da humanidade. O Livro do Gênesis apresenta, de maneira simbólica e profundamente teológica, a criação do homem e a realidade do primeiro pecado.
O texto começa com uma imagem belíssima: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7). O homem não é fruto do acaso. Ele é moldado pelas mãos de Deus e recebe diretamente d’Ele o sopro da vida. Aqui está afirmada a dignidade incomparável da pessoa humana: somos criaturas, mas criaturas queridas, pensadas e amadas por Deus.
Deus coloca o homem no jardim do Éden, lugar de harmonia e comunhão. No centro do jardim estão duas árvores: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Esta última representa o limite inscrito na própria condição humana. O homem é livre, mas sua liberdade não é absoluta; ela deve reconhecer que Deus é o Senhor.
É então que entra a serpente, descrita como “o mais astuto de todos os animais”. A tentação começa com uma distorção da palavra divina: “É verdade que Deus vos disse: ‘Não comereis de nenhuma das árvores do jardim?’”. O inimigo exagera a proibição para insinuar que Deus seria opressor. A estratégia é clara: gerar desconfiança.
A mulher responde, mas acrescenta um detalhe não mencionado no mandato original: “nem sequer o toqueis”. Em seguida, a serpente contradiz abertamente a Deus: “Não, vós não morrereis”. Aqui está o núcleo do pecado: a suspeita de que Deus mente e a pretensão de ser como Deus.
O pecado nasce quando o homem deixa de confiar no amor do Criador e deseja autonomia absoluta. “Colheu um fruto, comeu e deu também ao marido.” O resultado é imediato: “os olhos dos dois se abriram; e, vendo que estavam nus…”. Não se trata de iluminação, mas de ruptura. A harmonia é quebrada, surge a vergonha, entra no mundo a desordem interior.
A Igreja ensina que esse episódio revela a realidade do pecado original, uma queda nas origens da humanidade. O Catecismo afirma:
“Constituído por Deus em estado de santidade, o homem, seduzido pelo Maligno, desde o início da história, abusou da própria liberdade” 1.
A Quaresma começa recordando essa verdade fundamental: o pecado não é apenas um erro moral isolado, mas uma ruptura com Deus que traz consequências para toda a humanidade.
Contudo, esta leitura prepara o terreno para o Evangelho: onde Adão caiu, Cristo vencerá. Onde o primeiro homem cedeu à tentação, o novo Adão permanecerá fiel.
O Salmo 50(51) é um dos mais conhecidos salmos penitenciais da Sagrada Escritura. Tradicionalmente atribuído ao rei Davi após o seu pecado, ele se torna, neste Primeiro Domingo da Quaresma, a resposta da humanidade caída ao drama narrado na Primeira Leitura.
Se no Gênesis vemos a origem do pecado, aqui encontramos o caminho da conversão.
A antífona resume o espírito quaresmal: “Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra vós.” Não há justificativas, não há transferência de culpa. O salmista reconhece sua responsabilidade: “Eu reconheço toda a minha iniquidade, o meu pecado está sempre à minha frente.”
A Quaresma é precisamente este tempo de lucidez espiritual. Não se trata de culpa estéril, mas de verdade diante de Deus. O pecado é chamado pelo nome: “Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei.” Toda falta, mesmo quando atinge o próximo, é antes de tudo uma ofensa ao amor divino.
Mas o tom do salmo não é de desespero — é de confiança. O orante apela à imensidão do amor de Deus. A misericórdia é maior que o pecado.
O ponto mais profundo do salmo aparece no pedido: “Criai em mim um coração que seja puro.” O verbo “criar” recorda o próprio ato criador de Deus no Gênesis. O salmista não pede apenas perdão; ele suplica uma nova criação interior. É uma súplica por renovação radical.
A Igreja sempre viu neste salmo uma preparação para o Sacramento da Confissão. O Catecismo ensina:
“O arrependimento interior é uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão a Deus de todo o coração” 2.
Por isso, o Salmo 50 é profundamente quaresmal: ele nos ensina que reconhecer o pecado não é o fim, mas o início da restauração. Deus não deseja afastar o homem de sua presença, mas recriá-lo, devolver-lhe “a alegria de ser salvo”.
Se no Éden o homem escondeu-se de Deus, neste salmo o pecador clama para permanecer diante d’Ele.
A Segunda Leitura apresenta uma das passagens mais densas da teologia de São Paulo. Depois de contemplarmos, no Gênesis, a queda de Adão e, no Salmo, o clamor arrependido do pecador, agora a Carta aos Romanos revela o horizonte da redenção.
São Paulo estabelece um paralelo entre dois homens: Adão e Cristo.
“O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte.” Com essas palavras, o Apóstolo confirma a realidade do pecado original já apresentada na Primeira Leitura. A morte — não apenas física, mas espiritual — passou a toda a humanidade. Há uma solidariedade no mal: o pecado de um afetou a todos.
Adão é chamado de “figura daquele que devia vir”. Ele é o primeiro homem; Cristo é o novo homem. Adão representa a humanidade que desobedece; Cristo inaugura a humanidade reconciliada.
Mas São Paulo faz questão de sublinhar que não há simetria perfeita entre queda e redenção. A graça é infinitamente maior que o pecado:
“A transgressão de um só levou a multidão humana à morte, mas foi de modo bem mais superior que a graça de Deus se derramou em abundância sobre todos.”
É aqui que ecoa a grande esperança quaresmal: o pecado é real, suas consequências são graves, mas a graça é superabundante. A iniciativa de salvação parte de Deus.
O Catecismo da Igreja Católica ensina:
“O pecado original é chamado ‘pecado’ de modo analógico: é um pecado ‘contraído’ e não ‘cometido’, um estado e não um ato” 3.
Contudo, Paulo mostra que esse estado não é definitivo. “Pela desobediência de um só homem a humanidade toda foi estabelecida numa situação de pecado; assim também, pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça.”
Se Adão estendeu os braços para tomar o fruto proibido, Cristo estenderá os braços na cruz em obediência ao Pai.
A Quaresma, portanto, não é apenas memória da queda, mas preparação para celebrar a vitória do novo Adão. Onde o pecado reinou, a graça não apenas compensou — ela superabundou.
E essa graça nos é oferecida sacramentalmente, especialmente na Reconciliação e na Eucaristia.
O Evangelho deste Primeiro Domingo da Quaresma nos apresenta Jesus no deserto, onde jejua por quarenta dias e enfrenta as tentações do diabo. Se a Primeira Leitura mostrou a derrota de Adão no jardim, aqui contemplamos a vitória de Cristo no deserto.
“O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.” Não se trata de um acaso. O próprio Espírito conduz o Senhor a esse combate. O deserto, na tradição bíblica, é lugar de provação, mas também de purificação e intimidade com Deus. Ali Israel foi testado durante quarenta anos; agora, durante quarenta dias, o novo Israel e novo Adão enfrenta o tentador.
Após o jejum, Jesus tem fome. É nesse momento de fragilidade humana que o diabo se aproxima. As três tentações que se seguem não são aleatórias: a tradição da Igreja sempre viu nelas um resumo das inclinações desordenadas que marcam o coração humano.
A primeira tentação — “manda que estas pedras se transformem em pães” — toca a concupiscência da carne. Trata-se da busca da satisfação imediata, da redução da vida ao nível das necessidades materiais. O tentador propõe que Jesus use seu poder para si mesmo. Mas Cristo responde com a Escritura: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” Ele afirma que a verdadeira vida nasce da confiança no Pai.
A segunda tentação acontece no alto do Templo. O diabo cita a própria Escritura e sugere que Jesus se lance para ser amparado pelos anjos. Aqui se revela a soberba espiritual, a tentação de usar Deus para provar algo, de buscar reconhecimento religioso, de instrumentalizar o sagrado. Jesus responde com firmeza: “Não tentarás o Senhor teu Deus.” A confiança não exige espetáculo.
A terceira tentação é a mais explícita: “Eu te darei todos os reinos do mundo, se te ajoelhares diante de mim.” Trata-se da concupiscência da posse e do poder, da promessa de glória sem cruz, de domínio sem obediência. É a sedução da idolatria. Jesus rejeita categoricamente: “Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto.”
São João resume essas três inclinações quando afirma: “Tudo o que há no mundo — a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida — não procede do Pai” (1Jo 2,16). Cristo vence exatamente onde a humanidade costuma cair.
O Catecismo da Igreja Católica ensina:
“A tentação de Jesus manifesta a maneira como o Filho de Deus é Messias, contrariamente à que lhe propõe Satanás” 4.
Onde Adão quis “ser como Deus”, Cristo permanece Filho obediente. Onde o primeiro homem desconfiou, o novo Adão confia. Onde houve desobediência, agora há fidelidade.
Ao final, “o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus.” A vitória pertence à obediência.
A Igreja coloca este Evangelho no início da Quaresma para nos recordar que também nós enfrentamos essas três tentações: o apego aos prazeres, a busca de reconhecimento e o desejo de poder. Mas não lutamos sozinhos. Unidos a Cristo, podemos vencer.
Se no Éden o homem caiu diante da serpente, no deserto o Filho vence Satanás — e abre para nós o caminho da verdadeira liberdade.

Para aprofundar-se no tema do Evangelho, conheça o que são as tentações e como podemos combatê-las.
A liturgia deste primeiro domingo de Quaresma nos ensina que a caminhada rumo à conversão passa pela fidelidade a Deus, pela confiança nele e pela luta contra as tentações. Desde o início deste tempo sagrado, somos chamados a colocar Deus no centro de nossas vidas, especialmente por meio da oração, da esmola e do jejum.
As leituras nos mostram que a fidelidade ao Senhor é a base da nossa vida espiritual. Assim como Jesus, que foi conduzido ao deserto, também nós somos “levados” a um combate espiritual. Esse caminho exige renúncia, vigilância e confiança constante na proteção divina, que nunca nos abandona.
A Quaresma todo ano recorda-nos que, para vencer as provas, precisamos estar ancorados na Palavra de Deus e na oração. É Deus quem nos sustenta na luta contra o pecado e nos conduz à verdadeira liberdade. Esse itinerário quaresmal é, sobretudo, um convite à conversão, para que renovemos nossa adesão ao projeto de Deus e, assim, busquemos a santidade não somente neste tempo, mas durante toda a nossa vida.
Confira como viver bem a Quaresma em 5 dicas práticas
E que tal refletir um pouco mais com uma meditação de Santo Afonso de Ligório para este domingo?