Formação

Perseguições da Igreja Primitiva

Neste artigo, apresentamos perseguições da Igreja Primitiva, os primeiros seguidores do cristianismo, enfrentaram na sua época.

Perseguições da Igreja Primitiva
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Perseguições da Igreja Primitiva

Neste artigo, apresentamos perseguições da Igreja Primitiva, os primeiros seguidores do cristianismo, enfrentaram na sua época.

Data da Publicação: 23/05/2024
Tempo de leitura:
Autor: Redação Minha Biblioteca Católica
Data da Publicação: 23/05/2024
Tempo de leitura:
Autor: Redação Minha Biblioteca Católica

Neste artigo, vamos rever as perseguições da Igreja Primitiva, eventos históricos em que os primeiros seguidores do cristianismo enfrentaram por parte das autoridades políticas e religiosas da época.

A Igreja Primitiva é o nome dado aos cristãos dos primeiros séculos depois de Cristo e, inicialmente, enfrentou oposição significativa, especialmente do Império Romano e de outras autoridades locais.

Obra de Jean Léon Gérôme – A última oração dos mártires cristãos.

Como os cristãos enxergam as perseguições?

As perseguições da Igreja Primitiva como uma bem-aventurança

Entre os católicos, a perseguição por causa da fé é vista como uma bem-aventurança, ou seja, uma virtude característica dos que desejam permanecer com Cristo na Eternidade. No Sermão da Montanha, Jesus proclama as Bem-aventuranças, entre elas, a oitava bem-aventurança fala diretamente sobre a perseguição.

8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
9 Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.
10 Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos céus.
1

A Igreja ensina que sofrer por Cristo é uma forma de estar unido a Ele, que também sofreu perseguição e morte injusta. Os fiéis que enfrentam perseguição estão, de certa forma, seguindo os passos de Jesus. O sofrimento aceito com fé é visto como um meio de santificação pessoal. Ao suportar a perseguição com paciência e fé, o cristão se purifica e se aproxima de Deus.

Como testemunho de fé, a perseguição oferece uma oportunidade para os cristãos. Os mártires, que deram suas vidas por causa da fé, são especialmente venerados na Igreja Católica como exemplos de fé inabalável e coragem.
Na evangelização, o exemplo de cristãos que sofrem perseguição pode inspirar outros, mostrando a profundidade e a verdade da fé cristã.

O martírio e a eternidade

Conforme ensinado por Jesus, os perseguidos por causa da justiça têm a promessa do Reino dos Céus. Esta recompensa é vista como infinitamente maior do que qualquer sofrimento terreno. Os cristãos perseguidos mantiveram a esperança e até mesmo a alegria em meio ao sofrimento, sabendo que estão acumulando tesouros no céu.

Para os católicos primitivos, a vida eterna – os tesouros no céu – significava viver para sempre com Deus em um estado de perfeita felicidade e comunhão com o Criador. “Deus lhes enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem mais dor, porque as primeiras coisas passaram”2

Os cristão enxergam também a bem-aventurança como uma forma de imitar a Cristo e um cumprimento de algo que o próprio cristo disse: “Lembrai-vos daquela palavra que eu vos disse: ‘O servo não é maior do que seu senhor. Se eles me perseguiram a mim, também vos hão de perseguir a vós; se eles guardaram a minha palavra, também hão de guardar a vossa.3

E, por fim, os mártires têm “lugar cativo” no céu, como mostra no cap. 7 do Apocalipse (os de vestes brancas que lavaram as vestes no sangue do cordeiro). Portanto, morrer é lucro para o Cristão, “Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro”.4

Herodes Antipas, a raposa tetrarca da Galileia e da Perea

Herodes Antipas é uma figura sombria e infame, principalmente por seu papel na morte de João Batista, o precursor de Jesus Cristo. No Evangelho de Lucas, Herodes é descrito como um governante curioso e supersticioso, que tinha interesse em ouvir sobre Jesus, mas também como alguém que foi responsável por atos terríveis, influenciado por seus desejos e pela pressão de sua corte. E, no mesmo Evangelho, Jesus o chama de “raposa” (Lucas 13,31-32).

Herodes Antipas mandou prender João Batista porque este denunciava publicamente o casamento de Herodes com Herodíades, a esposa de seu irmão Filipe, considerando tal união ilegítima aos olhos da lei judaica. Herodíades, ofendida pelas palavras de João, desejava a sua morte. Embora Herodes respeitasse João e o considerasse um homem justo e santo, ele acabou cedendo aos desejos de Herodíades e da pressão da corte.

a decapitação de são joão batista precursora das perseguições da igreja primitiva
“A decapitação de São João Batista” por Caravaggio (1608).

O ápice dessa história trágica é descrito no Evangelho de Marcos (Marcos 6,14-29), onde é relatado que Herodes, durante uma festa de aniversário, ofereceu à filha de Herodíades – Salomé – qualquer coisa que ela desejasse, como recompensa por sua dança. A jovem, instruída por sua mãe, pediu a cabeça de João Batista em um prato. Herodes, embora relutante, por causa de seu juramento e dos convidados presentes, ordenou que João fosse decapitado na prisão.

Herodes e Jesus

No Evangelho de Lucas (Lucas 23,7-12), Herodes Antipas aparece novamente durante o julgamento de Jesus. Quando Pilatos soube que Jesus era galileu, enviou-O a Herodes, que estava em Jerusalém na época. Herodes, que havia ouvido falar de Jesus e desejava ver algum milagre realizado por Ele, questionou-O extensivamente, mas Jesus permaneceu em silêncio. Desapontado e frustrado, Herodes, junto com seus soldados, zombou e ridicularizou Jesus, enviando-O de volta a Pilatos.

Perseguição da Igreja Primitiva por Líderes Judaicos

Jesus Cristo enfrentou intensa perseguição de várias facções dentro da comunidade judaica. Essa oposição veio não apenas dos fariseus, mas também de outros grupos poderosos e influentes da sociedade judaica da época.

E quem eram os fariseus?

Os fariseus (hebraico: Perushim) surgiram como um grupo distinto logo após a revolta dos Macabeus, cerca de 165-160 a.C.; eles eram, geralmente se acredita, descendentes espirituais dos hassidianos.

Os fariseus eram um grupo judaico que se destacou no período do Segundo Templo. Conhecidos por sua rígida observância da Lei Mosaica (Torá) e das tradições orais, os fariseus buscavam uma vida de pureza ritual e moral. Eles acreditavam na ressurreição dos mortos, nos anjos e na vida após a morte, ao contrário dos saduceus, outro grupo significativo.

Os fariseus exerciam uma grande influência sobre o povo comum e eram vistos como os guardiões da Lei. Sua oposição a Jesus e, posteriormente, aos apóstolos, originava-se em grande parte do desafio que o Cristianismo nascente representava à sua interpretação da Lei e às tradições judaicas estabelecidas.

Outros Grupos Judaicos Envolvidos na Perseguição

Os saduceus eram uma seita aristocrática e conservadora que controlava o Templo de Jerusalém. Eles negavam a ressurreição dos mortos e a existência de anjos e espíritos, diferenciando-se significativamente dos fariseus. A liderança saduceia via os cristãos como uma ameaça à sua autoridade e ao status quo religioso e político. Eles estavam diretamente envolvidos na prisão e julgamento de Jesus e continuaram a perseguir os apóstolos.

O Sinédrio era o supremo conselho religioso e tribunal dos judeus em Jerusalém. Composto por fariseus, saduceus e outros líderes religiosos, este conselho perseguiu veemente os cristãos. Eles estavam envolvidos nos julgamentos de Jesus e dos apóstolos, como se lê nos capítulos 4 e 5 de Atos, onde Pedro e João são presos e julgados pelo Sinédrio.

Também no Sinédrio, Estêvão, um dos primeiros diáconos e considerado o primeiro mártir cristão, foi apedrejado até a morte por uma multidão incitada por membros do Sinédrio, incluindo Saulo (posteriormente conhecido como Paulo), um fervoroso fariseu na época (Atos 7).

Antes de sua conversão, Saulo de Tarso (Paulo) foi um zeloso perseguidor dos cristãos, autorizado pelos líderes judaicos a prender e punir aqueles que seguiam a Cristo (Atos 8-9).

Após sua conversão, São Paulo se tornou um dos principais apóstolos do Cristianismo primitivo. Realizou várias viagens missionárias, fundou inúmeras igrejas e escreveu muitas das cartas do Novo Testamento, que continuam a ser fundamentais para a teologia e prática cristãs. Sua obra ajudou a espalhar o Evangelho por todo o Império Romano e estabeleceu as bases para a expansão global do Cristianismo.

Perseguição da Igreja Primitiva pelo Império Romano

Entre 30 d.C. e 311 d.C., período em que 54 imperadores governaram o Império Romano, cerca de doze se dedicaram a perseguir os cristãos. Além disso, foi somente após o reinado de Décio (249-251) que houve uma tentativa deliberada de implementar uma perseguição em todo o Império.

Até então, a perseguição era principalmente instigada pelos governantes locais, embora com a aprovação de Roma. No entanto, alguns imperadores tiveram interações diretas e, para os cristãos, profundamente adversas com esta fé.

O imperador Claudius (41-54), durante o seu reinado, evitou sabiamente guerras estrangeiras potencialmente dispendiosas, estendeu a cidadania romana internamente e mostrou tolerância para com uma variedade de religiões.

O historiador Suetônio sobre os acontecimentos em Roma por volta de 52 escreveu “visto que os judeus provocavam continuamente distúrbios por instigação de Cresto, ele expulsou-os de Roma (…)”. “Chrestus” pode ter sido uma pedra no sapato dos políticos romanos ansiosos por se livrar dele e de seus companheiros.

Ou “Chrestus” pode ser a forma como os burocratas desinformados pronunciavam o nome sobre o qual os judeus discutiam: Christus. Tais discussões entre judeus e cristãos não eram desconhecidas (Atos 19). Cláudio provavelmente e inadvertidamente foi o primeiro imperador a lançar perseguições da Igreja Primitiva – onde os cristãos eram vistos como uma seita judaica – por, ao que fica entendido, perturbar a paz.5

O Jovem Nero (54-68 d.C.) e Seu Reinado de Terror

O jovem Nero, tendo sido instruído pelo filósofo Seneca, que, embora reverenciado, tinha uma reputação moral questionável, inicialmente mostrava repulsa pela pena de morte. No entanto, Nero habilmente transformou essa aparente fraqueza em um instrumento de poder: ele ordenou a execução de sua mãe, Agripina, acusando-a de traição, e de sua esposa, Otávia, sob a acusação de adultério.

Após decapitá-la, exibiu a cabeça de Otávia para sua amante, Popéia Sabina, a quem, anos depois, matou com um chute enquanto ela estava grávida. O Senado, paradoxalmente, ofereceu agradecimentos aos deuses por essas ações, vendo nelas uma restauração da moralidade pública.

Estas ações sanguinárias são apenas a ponta do iceberg traiçoeiro do reinado de Nero. Tais atividades ofuscam as poucas tentativas construtivas que ele fez, embora sem sucesso, como a abolição dos impostos indiretos para ajudar os agricultores, a construção de um canal em Corinto, e o reassentamento das vítimas do Grande Incêndio de Roma em 64 d.C.

Após o incêndio, Nero procurou um bode expiatório na pequena comunidade cristã de Roma, então vista como um grupo dissidente de judeus, e ordenou que muitos deles fossem queimados vivos. Segundo a tradição cristã, foi durante essas perseguições da Igreja Primitiva impostas por Nero, que Pedro e Paulo foram martirizados.

A turbulência política e os constantes escândalos acabaram por forçar o perturbado imperador a cometer suicídio. Suas últimas palavras, “Que artista o mundo está perdendo em mim!”, ecoam seu trágico e teatral legado.

Domiciano e as Perseguições da Igreja Primitiva (81-96)

O historiador Plínio chamou Domiciano de besta do inferno que estava sentada em sua cova, lambendo sangue. E no livro do Apocalipse, João pode ter se referido ao imperador Domiciano quando descreveu uma besta que blasfema o céu e bebe o sangue dos santos. Domiciano é lembrado tanto por sua habilidade administrativa quanto por sua crueldade.

Ele conseguiu repelir invasões da Dácia (atual Romênia), uma tarefa que se tornaria cada vez mais difícil para seus sucessores. Além disso, Domiciano foi um mestre construtor e um administrador competente. Mesmo o historiador Suetônio, um de seus críticos mais ferozes, teve de admitir que Domiciano exerceu uma supervisão rigorosa sobre as autoridades municipais e os governadores provinciais, resultando em um período de administração particularmente honesta e justa.

Domiciano foi o primeiro imperador romano a ser oficialmente intitulado “Deus, o Senhor” em Roma. Ele insistia que as pessoas o saudassem com aclamações como “Senhor da terra”, “Invencível”, “Glória”, “Santo” e “Somente Tu”. Quando ordenou que lhe prestassem honras divinas, judeus e cristãos se recusaram. A perseguição aos judeus está bem documentada, enquanto a dos cristãos é menos clara. Contudo, muitos estudiosos acreditam que a besta descrita no Apocalipse é uma alusão oculta ao governo de Domiciano e suas ações contra os cristãos.6

Décio (249–251): líder da primeira perseguição em todo o Império

Durante décadas, os imperadores romanos enfrentaram crescentes desafios nas fronteiras do Império, lidando com invasões de tribos bárbaras. Décio, oriundo de uma aldeia próxima ao Danúbio, reconheceu não apenas a dimensão militar desses problemas, mas também a espiritual.

Décio estava preocupado com o declínio do politeísmo tradicional e acreditava que reviver a devoção aos antigos governantes deificados fortaleceria Roma. Os cristãos, com sua fé monoteísta e organização autônoma, eram vistos como uma ameaça a essa unidade religiosa.

Décio foi o primeiro imperador a iniciar uma perseguição sistemática aos cristãos em todo o Império. Após executar o Papa Fabiano, ele teria dito: “Prefiro receber notícias de um rival ao trono do que de outro bispo de Roma”. As perseguições da Igreja Primitiva tornaram-se rotineiras.

Décio não exigiu que os cristãos abandonassem sua fé, mas que realizassem sacrifícios aos deuses romanos, recebendo um Certificado de Sacrifício (libellus) como prova. Muitos cristãos cederam à pressão ou subornaram para obter o certificado, mas muitos outros recusaram-se e foram martirizados. Orígenes, por exemplo, foi preso e torturado, embora tenha sido libertado, morreu pouco tempo depois.

Diocleciano (284-305): Líder da Grande Perseguição

É conhecido por sua significativa reorganização do Império Romano, conhecida como a Tetrarquia. Ele dividiu o império entre quatro governantes: dois Augustos e dois Césares. No entanto, essa tentativa de facilitar a transição de poder acabou gerando mais conflitos do que estabilidade.

Diocleciano estendeu seu talento organizacional às questões religiosas e patrióticas. Em 303, influenciado por seu César Galério e buscando despertar o sentimento patriótico, ele iniciou a Grande Perseguição dos cristãos, apesar de sua esposa, Prisca, ser cristã. Essa foi a primeira grande perseguição em quase 50 anos, com o objetivo explícito de extinguir o Cristianismo.

Os éditos de Diocleciano proibiram o culto cristão, ordenaram a destruição de igrejas e livros cristãos, e exigiram que o clero fosse preso a menos que sacrificasse aos deuses pagãos. Em 304, a exigência de sacrifício foi estendida a todos os cristãos, sendo particularmente cruel na África sob o co-Augusto Maximiano.

Diocleciano abdicou do trono, um ato sem precedentes. Ele se retirou para Salonae, na Dalmácia. As perseguições da Igreja Primitiva continuaram sob Galério, que foi promovido a Augusto. No entanto, em 311, gravemente doente, Galério e seus colegas imperadores emitiram um édito cancelando a perseguição aos cristãos.

Outras perseguições aos Cristãos da Igreja Primitiva

Além das perseguições supracitadas, os cristãos da Igreja Primitiva enfrentaram muitas outras formas de perseguição por parte das comunidades locais pagãs e das religiões romanas. Essas perseguições muitas vezes surgiam espontaneamente das tensões sociais e religiosas.

Em Éfeso, o ourives Demétrio, que fazia miniaturas do templo da deusa Ártemis, incitou uma multidão contra o apóstolo Paulo e seus companheiros, temendo que prejudicasse seu negócio (Atos 19, 23-41).

Policarpo, bispo de Esmirna, foi martirizado após uma multidão exigir sua execução. Eles clamavam pela morte dos cristãos, e as autoridades locais, cedendo à pressão popular, prenderam e executaram Policarpo.

A economia local muitas vezes dependia de atividades associadas ao paganismo, como a produção de ídolos e a organização de festivais religiosos. A conversão ao Cristianismo e a rejeição dessas práticas afetavam negativamente a economia local, levando a ressentimentos e a ataques contra os cristãos.

Em Lyon, atual França, 177 d.C., os cristãos foram atacados por seus vizinhos pagãos. A perseguição culminou com cristãos sendo torturados e executados no anfiteatro local. Blandina, uma escrava cristã, tornou-se notável por sua resistência e coragem durante esses eventos.

E, o coliseu de Roma. Os cristãos frequentemente enfrentavam acusações infundadas, como canibalismo (devido à interpretação errônea da Eucaristia) e incesto (devido ao uso dos termos “irmão” e “irmã”). Essas acusações incitavam a hostilidade popular e levavam à execução pública de cristãos, muitas vezes no Coliseu ou em outros anfiteatros, onde eram lançados aos leões ou obrigados a lutar contra gladiadores.

  1. Mateus 5,8-10. ↩︎
  2. Apocalipse 21,4. ↩︎
  3. João 15,20. ↩︎
  4. Filipenses 1,21. ↩︎
  5. Disponível em: https://www.vatican.va/news_services/or/or_quo/cultura/218q04b1.html ↩︎
  6. Disponível em: https://patrimonidarte.com/lapocalisse-di-giovanni-la-fine-dei-tempi/ ↩︎

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    Neste artigo, vamos rever as perseguições da Igreja Primitiva, eventos históricos em que os primeiros seguidores do cristianismo enfrentaram por parte das autoridades políticas e religiosas da época.

    A Igreja Primitiva é o nome dado aos cristãos dos primeiros séculos depois de Cristo e, inicialmente, enfrentou oposição significativa, especialmente do Império Romano e de outras autoridades locais.

    Obra de Jean Léon Gérôme – A última oração dos mártires cristãos.

    Como os cristãos enxergam as perseguições?

    As perseguições da Igreja Primitiva como uma bem-aventurança

    Entre os católicos, a perseguição por causa da fé é vista como uma bem-aventurança, ou seja, uma virtude característica dos que desejam permanecer com Cristo na Eternidade. No Sermão da Montanha, Jesus proclama as Bem-aventuranças, entre elas, a oitava bem-aventurança fala diretamente sobre a perseguição.

    8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
    9 Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.
    10 Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos céus.
    1

    A Igreja ensina que sofrer por Cristo é uma forma de estar unido a Ele, que também sofreu perseguição e morte injusta. Os fiéis que enfrentam perseguição estão, de certa forma, seguindo os passos de Jesus. O sofrimento aceito com fé é visto como um meio de santificação pessoal. Ao suportar a perseguição com paciência e fé, o cristão se purifica e se aproxima de Deus.

    Como testemunho de fé, a perseguição oferece uma oportunidade para os cristãos. Os mártires, que deram suas vidas por causa da fé, são especialmente venerados na Igreja Católica como exemplos de fé inabalável e coragem.
    Na evangelização, o exemplo de cristãos que sofrem perseguição pode inspirar outros, mostrando a profundidade e a verdade da fé cristã.

    O martírio e a eternidade

    Conforme ensinado por Jesus, os perseguidos por causa da justiça têm a promessa do Reino dos Céus. Esta recompensa é vista como infinitamente maior do que qualquer sofrimento terreno. Os cristãos perseguidos mantiveram a esperança e até mesmo a alegria em meio ao sofrimento, sabendo que estão acumulando tesouros no céu.

    Para os católicos primitivos, a vida eterna – os tesouros no céu – significava viver para sempre com Deus em um estado de perfeita felicidade e comunhão com o Criador. “Deus lhes enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem mais dor, porque as primeiras coisas passaram”2

    Os cristão enxergam também a bem-aventurança como uma forma de imitar a Cristo e um cumprimento de algo que o próprio cristo disse: “Lembrai-vos daquela palavra que eu vos disse: ‘O servo não é maior do que seu senhor. Se eles me perseguiram a mim, também vos hão de perseguir a vós; se eles guardaram a minha palavra, também hão de guardar a vossa.3

    E, por fim, os mártires têm “lugar cativo” no céu, como mostra no cap. 7 do Apocalipse (os de vestes brancas que lavaram as vestes no sangue do cordeiro). Portanto, morrer é lucro para o Cristão, “Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro”.4

    Herodes Antipas, a raposa tetrarca da Galileia e da Perea

    Herodes Antipas é uma figura sombria e infame, principalmente por seu papel na morte de João Batista, o precursor de Jesus Cristo. No Evangelho de Lucas, Herodes é descrito como um governante curioso e supersticioso, que tinha interesse em ouvir sobre Jesus, mas também como alguém que foi responsável por atos terríveis, influenciado por seus desejos e pela pressão de sua corte. E, no mesmo Evangelho, Jesus o chama de “raposa” (Lucas 13,31-32).

    Herodes Antipas mandou prender João Batista porque este denunciava publicamente o casamento de Herodes com Herodíades, a esposa de seu irmão Filipe, considerando tal união ilegítima aos olhos da lei judaica. Herodíades, ofendida pelas palavras de João, desejava a sua morte. Embora Herodes respeitasse João e o considerasse um homem justo e santo, ele acabou cedendo aos desejos de Herodíades e da pressão da corte.

    a decapitação de são joão batista precursora das perseguições da igreja primitiva
    “A decapitação de São João Batista” por Caravaggio (1608).

    O ápice dessa história trágica é descrito no Evangelho de Marcos (Marcos 6,14-29), onde é relatado que Herodes, durante uma festa de aniversário, ofereceu à filha de Herodíades – Salomé – qualquer coisa que ela desejasse, como recompensa por sua dança. A jovem, instruída por sua mãe, pediu a cabeça de João Batista em um prato. Herodes, embora relutante, por causa de seu juramento e dos convidados presentes, ordenou que João fosse decapitado na prisão.

    Herodes e Jesus

    No Evangelho de Lucas (Lucas 23,7-12), Herodes Antipas aparece novamente durante o julgamento de Jesus. Quando Pilatos soube que Jesus era galileu, enviou-O a Herodes, que estava em Jerusalém na época. Herodes, que havia ouvido falar de Jesus e desejava ver algum milagre realizado por Ele, questionou-O extensivamente, mas Jesus permaneceu em silêncio. Desapontado e frustrado, Herodes, junto com seus soldados, zombou e ridicularizou Jesus, enviando-O de volta a Pilatos.

    Perseguição da Igreja Primitiva por Líderes Judaicos

    Jesus Cristo enfrentou intensa perseguição de várias facções dentro da comunidade judaica. Essa oposição veio não apenas dos fariseus, mas também de outros grupos poderosos e influentes da sociedade judaica da época.

    E quem eram os fariseus?

    Os fariseus (hebraico: Perushim) surgiram como um grupo distinto logo após a revolta dos Macabeus, cerca de 165-160 a.C.; eles eram, geralmente se acredita, descendentes espirituais dos hassidianos.

    Os fariseus eram um grupo judaico que se destacou no período do Segundo Templo. Conhecidos por sua rígida observância da Lei Mosaica (Torá) e das tradições orais, os fariseus buscavam uma vida de pureza ritual e moral. Eles acreditavam na ressurreição dos mortos, nos anjos e na vida após a morte, ao contrário dos saduceus, outro grupo significativo.

    Os fariseus exerciam uma grande influência sobre o povo comum e eram vistos como os guardiões da Lei. Sua oposição a Jesus e, posteriormente, aos apóstolos, originava-se em grande parte do desafio que o Cristianismo nascente representava à sua interpretação da Lei e às tradições judaicas estabelecidas.

    Outros Grupos Judaicos Envolvidos na Perseguição

    Os saduceus eram uma seita aristocrática e conservadora que controlava o Templo de Jerusalém. Eles negavam a ressurreição dos mortos e a existência de anjos e espíritos, diferenciando-se significativamente dos fariseus. A liderança saduceia via os cristãos como uma ameaça à sua autoridade e ao status quo religioso e político. Eles estavam diretamente envolvidos na prisão e julgamento de Jesus e continuaram a perseguir os apóstolos.

    O Sinédrio era o supremo conselho religioso e tribunal dos judeus em Jerusalém. Composto por fariseus, saduceus e outros líderes religiosos, este conselho perseguiu veemente os cristãos. Eles estavam envolvidos nos julgamentos de Jesus e dos apóstolos, como se lê nos capítulos 4 e 5 de Atos, onde Pedro e João são presos e julgados pelo Sinédrio.

    Também no Sinédrio, Estêvão, um dos primeiros diáconos e considerado o primeiro mártir cristão, foi apedrejado até a morte por uma multidão incitada por membros do Sinédrio, incluindo Saulo (posteriormente conhecido como Paulo), um fervoroso fariseu na época (Atos 7).

    Antes de sua conversão, Saulo de Tarso (Paulo) foi um zeloso perseguidor dos cristãos, autorizado pelos líderes judaicos a prender e punir aqueles que seguiam a Cristo (Atos 8-9).

    Após sua conversão, São Paulo se tornou um dos principais apóstolos do Cristianismo primitivo. Realizou várias viagens missionárias, fundou inúmeras igrejas e escreveu muitas das cartas do Novo Testamento, que continuam a ser fundamentais para a teologia e prática cristãs. Sua obra ajudou a espalhar o Evangelho por todo o Império Romano e estabeleceu as bases para a expansão global do Cristianismo.

    Perseguição da Igreja Primitiva pelo Império Romano

    Entre 30 d.C. e 311 d.C., período em que 54 imperadores governaram o Império Romano, cerca de doze se dedicaram a perseguir os cristãos. Além disso, foi somente após o reinado de Décio (249-251) que houve uma tentativa deliberada de implementar uma perseguição em todo o Império.

    Até então, a perseguição era principalmente instigada pelos governantes locais, embora com a aprovação de Roma. No entanto, alguns imperadores tiveram interações diretas e, para os cristãos, profundamente adversas com esta fé.

    O imperador Claudius (41-54), durante o seu reinado, evitou sabiamente guerras estrangeiras potencialmente dispendiosas, estendeu a cidadania romana internamente e mostrou tolerância para com uma variedade de religiões.

    O historiador Suetônio sobre os acontecimentos em Roma por volta de 52 escreveu “visto que os judeus provocavam continuamente distúrbios por instigação de Cresto, ele expulsou-os de Roma (…)”. “Chrestus” pode ter sido uma pedra no sapato dos políticos romanos ansiosos por se livrar dele e de seus companheiros.

    Ou “Chrestus” pode ser a forma como os burocratas desinformados pronunciavam o nome sobre o qual os judeus discutiam: Christus. Tais discussões entre judeus e cristãos não eram desconhecidas (Atos 19). Cláudio provavelmente e inadvertidamente foi o primeiro imperador a lançar perseguições da Igreja Primitiva – onde os cristãos eram vistos como uma seita judaica – por, ao que fica entendido, perturbar a paz.5

    O Jovem Nero (54-68 d.C.) e Seu Reinado de Terror

    O jovem Nero, tendo sido instruído pelo filósofo Seneca, que, embora reverenciado, tinha uma reputação moral questionável, inicialmente mostrava repulsa pela pena de morte. No entanto, Nero habilmente transformou essa aparente fraqueza em um instrumento de poder: ele ordenou a execução de sua mãe, Agripina, acusando-a de traição, e de sua esposa, Otávia, sob a acusação de adultério.

    Após decapitá-la, exibiu a cabeça de Otávia para sua amante, Popéia Sabina, a quem, anos depois, matou com um chute enquanto ela estava grávida. O Senado, paradoxalmente, ofereceu agradecimentos aos deuses por essas ações, vendo nelas uma restauração da moralidade pública.

    Estas ações sanguinárias são apenas a ponta do iceberg traiçoeiro do reinado de Nero. Tais atividades ofuscam as poucas tentativas construtivas que ele fez, embora sem sucesso, como a abolição dos impostos indiretos para ajudar os agricultores, a construção de um canal em Corinto, e o reassentamento das vítimas do Grande Incêndio de Roma em 64 d.C.

    Após o incêndio, Nero procurou um bode expiatório na pequena comunidade cristã de Roma, então vista como um grupo dissidente de judeus, e ordenou que muitos deles fossem queimados vivos. Segundo a tradição cristã, foi durante essas perseguições da Igreja Primitiva impostas por Nero, que Pedro e Paulo foram martirizados.

    A turbulência política e os constantes escândalos acabaram por forçar o perturbado imperador a cometer suicídio. Suas últimas palavras, “Que artista o mundo está perdendo em mim!”, ecoam seu trágico e teatral legado.

    Domiciano e as Perseguições da Igreja Primitiva (81-96)

    O historiador Plínio chamou Domiciano de besta do inferno que estava sentada em sua cova, lambendo sangue. E no livro do Apocalipse, João pode ter se referido ao imperador Domiciano quando descreveu uma besta que blasfema o céu e bebe o sangue dos santos. Domiciano é lembrado tanto por sua habilidade administrativa quanto por sua crueldade.

    Ele conseguiu repelir invasões da Dácia (atual Romênia), uma tarefa que se tornaria cada vez mais difícil para seus sucessores. Além disso, Domiciano foi um mestre construtor e um administrador competente. Mesmo o historiador Suetônio, um de seus críticos mais ferozes, teve de admitir que Domiciano exerceu uma supervisão rigorosa sobre as autoridades municipais e os governadores provinciais, resultando em um período de administração particularmente honesta e justa.

    Domiciano foi o primeiro imperador romano a ser oficialmente intitulado “Deus, o Senhor” em Roma. Ele insistia que as pessoas o saudassem com aclamações como “Senhor da terra”, “Invencível”, “Glória”, “Santo” e “Somente Tu”. Quando ordenou que lhe prestassem honras divinas, judeus e cristãos se recusaram. A perseguição aos judeus está bem documentada, enquanto a dos cristãos é menos clara. Contudo, muitos estudiosos acreditam que a besta descrita no Apocalipse é uma alusão oculta ao governo de Domiciano e suas ações contra os cristãos.6

    Décio (249–251): líder da primeira perseguição em todo o Império

    Durante décadas, os imperadores romanos enfrentaram crescentes desafios nas fronteiras do Império, lidando com invasões de tribos bárbaras. Décio, oriundo de uma aldeia próxima ao Danúbio, reconheceu não apenas a dimensão militar desses problemas, mas também a espiritual.

    Décio estava preocupado com o declínio do politeísmo tradicional e acreditava que reviver a devoção aos antigos governantes deificados fortaleceria Roma. Os cristãos, com sua fé monoteísta e organização autônoma, eram vistos como uma ameaça a essa unidade religiosa.

    Décio foi o primeiro imperador a iniciar uma perseguição sistemática aos cristãos em todo o Império. Após executar o Papa Fabiano, ele teria dito: “Prefiro receber notícias de um rival ao trono do que de outro bispo de Roma”. As perseguições da Igreja Primitiva tornaram-se rotineiras.

    Décio não exigiu que os cristãos abandonassem sua fé, mas que realizassem sacrifícios aos deuses romanos, recebendo um Certificado de Sacrifício (libellus) como prova. Muitos cristãos cederam à pressão ou subornaram para obter o certificado, mas muitos outros recusaram-se e foram martirizados. Orígenes, por exemplo, foi preso e torturado, embora tenha sido libertado, morreu pouco tempo depois.

    Diocleciano (284-305): Líder da Grande Perseguição

    É conhecido por sua significativa reorganização do Império Romano, conhecida como a Tetrarquia. Ele dividiu o império entre quatro governantes: dois Augustos e dois Césares. No entanto, essa tentativa de facilitar a transição de poder acabou gerando mais conflitos do que estabilidade.

    Diocleciano estendeu seu talento organizacional às questões religiosas e patrióticas. Em 303, influenciado por seu César Galério e buscando despertar o sentimento patriótico, ele iniciou a Grande Perseguição dos cristãos, apesar de sua esposa, Prisca, ser cristã. Essa foi a primeira grande perseguição em quase 50 anos, com o objetivo explícito de extinguir o Cristianismo.

    Os éditos de Diocleciano proibiram o culto cristão, ordenaram a destruição de igrejas e livros cristãos, e exigiram que o clero fosse preso a menos que sacrificasse aos deuses pagãos. Em 304, a exigência de sacrifício foi estendida a todos os cristãos, sendo particularmente cruel na África sob o co-Augusto Maximiano.

    Diocleciano abdicou do trono, um ato sem precedentes. Ele se retirou para Salonae, na Dalmácia. As perseguições da Igreja Primitiva continuaram sob Galério, que foi promovido a Augusto. No entanto, em 311, gravemente doente, Galério e seus colegas imperadores emitiram um édito cancelando a perseguição aos cristãos.

    Outras perseguições aos Cristãos da Igreja Primitiva

    Além das perseguições supracitadas, os cristãos da Igreja Primitiva enfrentaram muitas outras formas de perseguição por parte das comunidades locais pagãs e das religiões romanas. Essas perseguições muitas vezes surgiam espontaneamente das tensões sociais e religiosas.

    Em Éfeso, o ourives Demétrio, que fazia miniaturas do templo da deusa Ártemis, incitou uma multidão contra o apóstolo Paulo e seus companheiros, temendo que prejudicasse seu negócio (Atos 19, 23-41).

    Policarpo, bispo de Esmirna, foi martirizado após uma multidão exigir sua execução. Eles clamavam pela morte dos cristãos, e as autoridades locais, cedendo à pressão popular, prenderam e executaram Policarpo.

    A economia local muitas vezes dependia de atividades associadas ao paganismo, como a produção de ídolos e a organização de festivais religiosos. A conversão ao Cristianismo e a rejeição dessas práticas afetavam negativamente a economia local, levando a ressentimentos e a ataques contra os cristãos.

    Em Lyon, atual França, 177 d.C., os cristãos foram atacados por seus vizinhos pagãos. A perseguição culminou com cristãos sendo torturados e executados no anfiteatro local. Blandina, uma escrava cristã, tornou-se notável por sua resistência e coragem durante esses eventos.

    E, o coliseu de Roma. Os cristãos frequentemente enfrentavam acusações infundadas, como canibalismo (devido à interpretação errônea da Eucaristia) e incesto (devido ao uso dos termos “irmão” e “irmã”). Essas acusações incitavam a hostilidade popular e levavam à execução pública de cristãos, muitas vezes no Coliseu ou em outros anfiteatros, onde eram lançados aos leões ou obrigados a lutar contra gladiadores.

    1. Mateus 5,8-10. ↩︎
    2. Apocalipse 21,4. ↩︎
    3. João 15,20. ↩︎
    4. Filipenses 1,21. ↩︎
    5. Disponível em: https://www.vatican.va/news_services/or/or_quo/cultura/218q04b1.html ↩︎
    6. Disponível em: https://patrimonidarte.com/lapocalisse-di-giovanni-la-fine-dei-tempi/ ↩︎

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