Descubra o que a Igreja ensina sobre o jejum na quaresma, quando é obrigatório e como praticá-lo com equilíbrio e fé.
Descubra o que a Igreja ensina sobre o jejum na quaresma, quando é obrigatório e como praticá-lo com equilíbrio e fé.
O jejum na Quaresma é uma prática milenar da Igreja que une penitência, oração e caridade em preparação para a Páscoa. Neste artigo, você vai entender seu verdadeiro sentido, as normas atuais e como vivê-lo com frutos espirituais.
O jejum na Quaresma é uma prática de penitência proposta pela Igreja para todos os fiéis, como preparação espiritual para a celebração da Páscoa. Trata-se de um ato de mortificação voluntária, que não se limita à privação de alimentos, mas abrange também o domínio dos sentidos, o desapego dos prazeres e a conversão do coração.
Durante os quarenta dias que antecedem a Ressurreição do Senhor, a Igreja convida seus filhos a jejuar com espírito de humildade e fé, em comunhão com o Cristo que jejuou no deserto. Essa prática está intimamente ligada à oração e à caridade, formando o tríplice caminho de purificação que caracteriza o tempo quaresmal. Jejuar, portanto, é muito mais do que uma obrigação externa: é um gesto de amor a Deus, de arrependimento sincero e de abertura à graça.
Não deixe de conferir o nosso guia completo para católicos sobre a Quaresma.
A prática do jejum e da abstinência possui raízes profundas nas Sagradas Escrituras, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Longe de ser um costume meramente humano, o jejum é apresentado na Bíblia como resposta de fé, conversão e súplica diante de Deus. Na Quaresma, a Igreja retoma esse caminho espiritual à luz da Palavra.
No Antigo Testamento, o jejum está associado a atos públicos e comunitários de penitência, conversão e súplica diante de Deus. O profeta Joel transmite um apelo divino claro: “Voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, choro e lamento […] rasgai o coração e não as vestes” (Jl 2,12-13). Essa passagem expressa o espírito autêntico da penitência: não um rito vazio, mas uma disposição interior que se manifesta também por sinais exteriores, como o jejum.
O profeta Daniel oferece outro testemunho significativo: “Durante três semanas inteiras, não comi manjar desejável, carne nem vinho entraram na minha boca” (Dn 10, 2-3). Sua abstinência prolongada manifesta a seriedade com que buscava a purificação e o favor divino. Já em Levítico (16, 29-31), o Dia da Expiação exigia um jejum solene de toda a assembleia, como prática de mortificação e reconciliação com Deus. Esses textos ilustram a base bíblica da disciplina quaresmal, que a Igreja assume e aperfeiçoa à luz de Cristo.
Nos Evangelhos, Jesus consagra o jejum como uma prática profundamente espiritual. Antes de iniciar Sua vida pública, Ele se retira para o deserto e jejua por quarenta dias e quarenta noites (cf. Mt 4,1-2). Ao fazer isso, Cristo não apenas se prepara para enfrentar as tentações do inimigo, mas também inaugura um modelo de vida ascética para Seus discípulos. Esse episódio é o fundamento direto da Quaresma cristã, que é vivida como um tempo de imitação do Senhor no deserto.
No Sermão da Montanha, Jesus ensina sobre o jejum com autoridade e profundidade. Ele não o rejeita, mas o purifica de intenções equivocadas: “Quando jejuardes, não vos mostreis tristes como os hipócritas; eles desfiguram o rosto para mostrar aos outros que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto” (Mt 6,16-17). Aqui, o Senhor ensina que o verdadeiro jejum é discreto, íntimo e oferecido a Deus com humildade, longe de qualquer ostentação religiosa.
Cristo também indicou que o jejum continuaria a ter lugar na vida de Seus seguidores: “Virão dias em que lhes será tirado o noivo, e então jejuarão” (Mt 9,15). Esse “tempo da ausência” se refere ao período entre a Sua Ascensão e a Sua vinda gloriosa — tempo em que a Igreja, peregrina neste mundo, vive o jejum como expressão de saudade, penitência e vigilância espiritual.
Desde seus primeiros passos, a Igreja entendeu o jejum como parte da vida cristã. Nos Atos dos Apóstolos, vemos os primeiros discípulos unindo jejum e oração em momentos decisivos, como na escolha de missionários e presbíteros: “Enquanto celebravam o culto do Senhor e jejuavam, disse-lhes o Espírito Santo: ‘Separai para mim Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.’ Então, jejuando e orando, impuseram-lhes as mãos e os enviaram” (At 13,2-3; cf. 14,23).
Esse testemunho mostra que o jejum não era apenas uma herança da tradição judaica, mas uma prática vivida pela comunidade cristã com consciência espiritual e sentido eclesial. Ele aparecia unido à escuta do Espírito, ao discernimento vocacional e à consagração de ministérios, sendo visto como um meio necessário de purificação e docilidade à vontade de Deus.
Ao longo dos séculos, a Tradição manteve essa prática como parte essencial da disciplina espiritual da Igreja, sobretudo nos tempos fortes do calendário litúrgico. A Quaresma, nesse contexto, foi sendo estruturada como um tempo de penitência comunitária, em continuidade ao jejum de Cristo e dos Apóstolos.
O jejum na Quaresma não é apenas uma prática disciplinar, mas uma expressão concreta da espiritualidade cristã. A Igreja o recomenda porque ele tem o poder de purificar o coração, fortalecer a vontade, combater os vícios e abrir a alma à graça divina. Ao jejuar, o fiel aprende a dominar seus apetites, ordenando seus afetos para Deus e preparando-se com maior liberdade interior para viver o mistério pascal.
Desde os primeiros séculos, os santos Padres reconheceram no jejum uma arma poderosa contra as paixões da carne. João Cassiano ensina que “jejuamos para libertar o coração dos apegos desordenados” 1 e o que “a oração eleva, o jejum purifica” 2. Essa purificação não é um fim em si mesma, mas um meio de alcançar uma união mais íntima com Deus.
Além disso, o jejum possui uma dimensão eclesial e solidária: ao renunciar a algo, o fiel é convidado a voltar-se para o próximo, oferecendo sua renúncia como esmola ou reparação. Por isso, a Igreja insiste que jejum, oração e caridade são inseparáveis na vivência quaresmal — como uma tríplice via de conversão.
Mas o jejum não se resume a um esforço moral ou ascético: ele também nos introduz no mistério do Cristo sofredor. Durante a Quaresma, a Igreja revive espiritualmente os sofrimentos de Jesus, e a renúncia voluntária do jejum torna-se uma forma concreta de participação no Seu sacrifício. Como ensina a tradição litúrgica, “o tempo da Quaresma nos lembra que o noivo foi tirado de nós… Preso, flagelado, coroado de espinhos, crucificado. O jejum na Quaresma é a expressão da nossa solidariedade com Cristo.” 3
O Magistério da Igreja apresenta o jejum unido à oração e à esmola como os três pilares da vida penitencial, especialmente durante a Quaresma. Essa tríade aparece já nos ensinamentos de Jesus (cf. Mt 6) e foi reafirmada ao longo dos séculos como caminho seguro de conversão. O Catecismo recorda que essas obras exprimem a conversão com fatos concretos 4 e são formas de purificar o coração, voltando-o inteiramente para Deus.
Durante a Quaresma, a prática equilibrada dessas três dimensões ajuda o fiel a crescer na caridade e a se preparar mais dignamente para o mistério pascal. O jejum não deve ser vivido isoladamente, mas como expressão de um coração que se dobra em oração e se abre generosamente ao próximo.
A tradição da Igreja sempre alertou contra os extremos no modo de jejuar. O monge João Cassiano adverte que o jejum não deve ser praticado com exagero, exibicionismo ou motivado por vaidade espiritual. Ele ensina que “o jejum não é um fim em si, mas um meio ordenado pela caridade: ele precisa de medida (quanto), de ocasião (quando) e de intenção reta (por quê), para não resvalar em vaidade, dureza ou exibicionismo ascético” 5.
Para o autor, a sobriedade deve ser regulada com discernimento, conforme as forças e o estado de vida de cada fiel: “A regra geral da continência é que cada um conceda o alimento necessário para sustentar o corpo, conforme suas forças, sem buscar a saciedade, mantendo a alma e o corpo num mesmo equilíbrio” 6.
Essa moderação evita que o jejum se torne causa de orgulho ou mesmo de danos físicos. Por isso, a Igreja recomenda que essa prática seja sempre iluminada pela prudência e pela obediência às orientações da comunidade eclesial.
A Igreja convida os fiéis a jejuarem livremente ao longo de toda a Quaresma, como parte de um caminho pessoal de penitência. Embora não exista uma obrigação legal de jejuar em todos os dias da Quaresma, a Igreja recomenda fortemente essa prática ao longo do tempo quaresmal como meio de conversão e preparação espiritual para a Páscoa. Trata-se de um convite pessoal à penitência, que deve ser vivido com liberdade interior e caridade, conforme as possibilidades de cada pessoa.
Dito isso, é importante esclarecer que existem normas específicas e obrigatórias estabelecidas pela Igreja que se referem a dias determinados. O que apresentamos a seguir diz respeito à obrigação moral e legal de jejuar e praticar a abstinência em duas datas específicas: Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa.
Esses dois dias possuem um caráter especial de obrigatoriedade em toda a Igreja. No entanto, a própria legislação canônica prevê dispensa por justa causa, conforme a condição e a saúde do fiel.
Nota: todas as sextas-feiras do ano são dias penitenciais. A abstinência de carne é a forma tradicional dessa penitência, podendo ser substituída por outra obra penitencial fora da Quaresma, conforme as normas da Conferência Episcopal. Para saber mais sobre isso, confira nosso artigo específico sobre abstinência de carne nas sextas-feiras.
Como dito acima, os únicos dias em que o jejum é obrigatoriamente prescrito pela Igreja são a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa. Nesses dois dias, os fiéis são chamados a uma vivência mais intensa da penitência, unindo o jejum à abstinência de carne em memória da Paixão de Cristo.
Segundo a constituição apostólica Paenitemini, de São Paulo VI, e o atual Código de Direito Canônico (cân. 1251), o jejum consiste em fazer apenas uma refeição completa ao dia, podendo-se tomar dois pequenos lanches, se necessário, que juntos não equivalham a uma refeição completa. Já a abstinência proíbe o consumo de carne de animais de sangue quente, embora sejam permitidos ovos, laticínios e temperos de origem animal.
Esses preceitos visam não apenas à mortificação pessoal, mas também à comunhão espiritual com Cristo crucificado e com toda a Igreja que caminha para a Páscoa. O fiel que, sem justa causa e com plena consciência, deixa de observar essas práticas comete pecado grave contra a disciplina penitencial da Igreja.
Confira também: Jejum na Quarta-feira de cinzas 2026: tudo o que você precisa saber.
As normas da Igreja sobre o jejum e a abstinência são proporcionais à condição física e à maturidade espiritual dos fiéis. Conforme o Código de Direito Canônico (cân. 1252), estão obrigados ao jejum todos os católicos maiores de idade até os 59 anos completos, e à abstinência todos os que tenham completado 14 anos.
A prática, no entanto, deve respeitar a caridade e o bom senso. Estão dispensados do jejum e da abstinência aqueles que, por justa causa, não podem cumprir esses preceitos: pessoas doentes, com fragilidade física ou mental, gestantes, lactantes, idosos, trabalhadores que realizam atividades pesadas, além de crianças e adolescentes abaixo da idade mínima.
Essas orientações não anulam o valor da penitência, mas adaptam sua forma às possibilidades de cada fiel. A Igreja recomenda que, mesmo os dispensados do jejum alimentar, encontrem outras maneiras de viver o espírito quaresmal — seja por meio de renúncias, caridade, oração ou outras práticas voluntárias.
Ao longo da história, a Igreja viveu formas mais rigorosas de jejum durante a Quaresma. Em muitos períodos, os fiéis jejuavam diariamente, com grande austeridade. No entanto, com o tempo, a disciplina foi sendo ajustada de forma pastoral, sem perder o seu valor espiritual.
Essas mudanças não significam que o jejum perdeu importância. Pelo contrário: ao torná-lo mais acessível, a Igreja ajuda os fiéis a viverem essa prática com mais consciência e liberdade interior. O essencial permanece o mesmo: jejuar como sinal de conversão, humildade e preparação para a Páscoa.
O Papa Paulo VI, ao reformular a disciplina penitencial com a constituição Paenitemini (1966), manteve o jejum como um elemento central da vida cristã, especialmente na Quaresma. E o Catecismo da Igreja (n. 2043) lembra que esses tempos fortes são ocasiões especiais para praticar o jejum e a abstinência com fé e generosidade.
Durante a Quaresma, o jejum não deve ser vivido apenas como um esforço físico, mas como uma oportunidade concreta de crescimento espiritual. A Igreja nos convida a escolher, com discernimento e caridade, formas de penitência que nos ajudem a voltar o coração para Deus e a amar mais o próximo. Viver bem o jejum quaresmal é unir essa prática a uma vida de oração e caridade, deixando-se moldar pela graça.
O jejum, em sentido próprio, refere-se à privação ou redução de alimentos — como é prescrito pela Igreja nos dias obrigatórios. Essa forma tradicional continua sendo válida e espiritualmente eficaz. No entanto, quem não pode jejuar por motivos de saúde pode realizar outras formas de penitência, como abster-se de redes sociais, entretenimentos ou hábitos nocivos. Embora essas práticas não sejam tecnicamente jejum, são renúncias legítimas que expressam o desejo de conversão.
É fundamental, porém, que essas escolhas não sejam feitas com objetivos egoístas ou meramente utilitários, como emagrecer ou alcançar metas pessoais. A penitência cristã — incluindo o jejum — só tem valor espiritual quando é feita por amor a Deus, com o desejo sincero de purificação interior.
Cada fiel é chamado a discernir, com sinceridade, o que precisa ser deixado de lado para que Cristo ocupe o centro da vida. A renúncia exterior deve estar unida a uma mudança interior, que torne o coração mais livre, vigilante e dócil à vontade divina.
Entre os modos concretos de jejum alimentar, podem-se adotar práticas como: fazer apenas uma refeição completa por dia com dois lanches leves; evitar beliscar entre as refeições; abster-se de certos alimentos ou bebidas (como doces, refrigerantes, carne, café); jejuar até determinado horário do dia; ou, para os mais experientes e com acompanhamento espiritual, jejuar a pão e água em alguns dias específicos. Essas formas podem ser escolhidas conforme as possibilidades e a maturidade de cada fiel, sempre com equilíbrio e reta intenção.
O jejum na Quaresma não é um peso imposto externamente, mas uma proposta da Igreja para nossa santificação. É uma prática que educa o coração na renúncia e fortalece a alma no combate espiritual. Mais do que privação, o jejum é uma forma concreta de ordenar os afetos, submeter a carne ao espírito e voltar-se com mais liberdade para Deus.
Vivido com fé, unido à oração e à caridade, o jejum purifica interiormente e nos prepara para celebrar com autenticidade o mistério pascal. Ele nos lembra que, para ressuscitar com Cristo, é preciso antes passar com Ele pela cruz.
Mas não se trata de um exercício moralista ou de um esforço isolado, restrito aos quarenta dias da Quaresma. O verdadeiro jejum deve deixar marcas duradouras. Ele forja o coração cristão para uma vida mais livre, humilde e dócil à vontade de Deus. Que ao chegar o Tríduo Pascal, cada fiel possa olhar para o caminho quaresmal percorrido não apenas com o alívio de quem cumpriu uma obrigação, ou com a vaidade de quem “conseguiu”, mas com a alegria de quem se deixou transformar — mais configurado a Cristo e disposto a viver, com fidelidade, a novidade da Ressurreição.
O jejum implica reduzir a quantidade de alimento, fazendo apenas uma refeição completa ao dia, com dois lanches leves. A abstinência significa não consumir carne, especialmente às sextas-feiras e nos dias obrigatórios.
O jejum é obrigatório na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, para fiéis entre 18 e 59 anos (conforme as normas locais e o Código de Direito Canônico).
Estão dispensados: crianças, idosos, grávidas, doentes, pessoas com trabalhos físicos pesados ou outras situações especiais. Mas todos são chamados à penitência conforme suas possibilidades.
Sim, especialmente se houver limitações de saúde. A Igreja recomenda substituições como esmolas, orações, obras de misericórdia, ou renúncias significativas.
Saiba mais sobre a penitência na Quaresma.
Sim, se for nos dias obrigatórios e sem justa causa. Fora desses dias, a prática é recomendada, mas sua omissão não configura pecado mortal — embora possa indicar certa tibieza espiritual.
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O jejum na Quaresma é uma prática milenar da Igreja que une penitência, oração e caridade em preparação para a Páscoa. Neste artigo, você vai entender seu verdadeiro sentido, as normas atuais e como vivê-lo com frutos espirituais.
O jejum na Quaresma é uma prática de penitência proposta pela Igreja para todos os fiéis, como preparação espiritual para a celebração da Páscoa. Trata-se de um ato de mortificação voluntária, que não se limita à privação de alimentos, mas abrange também o domínio dos sentidos, o desapego dos prazeres e a conversão do coração.
Durante os quarenta dias que antecedem a Ressurreição do Senhor, a Igreja convida seus filhos a jejuar com espírito de humildade e fé, em comunhão com o Cristo que jejuou no deserto. Essa prática está intimamente ligada à oração e à caridade, formando o tríplice caminho de purificação que caracteriza o tempo quaresmal. Jejuar, portanto, é muito mais do que uma obrigação externa: é um gesto de amor a Deus, de arrependimento sincero e de abertura à graça.
Não deixe de conferir o nosso guia completo para católicos sobre a Quaresma.
A prática do jejum e da abstinência possui raízes profundas nas Sagradas Escrituras, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Longe de ser um costume meramente humano, o jejum é apresentado na Bíblia como resposta de fé, conversão e súplica diante de Deus. Na Quaresma, a Igreja retoma esse caminho espiritual à luz da Palavra.
No Antigo Testamento, o jejum está associado a atos públicos e comunitários de penitência, conversão e súplica diante de Deus. O profeta Joel transmite um apelo divino claro: “Voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, choro e lamento […] rasgai o coração e não as vestes” (Jl 2,12-13). Essa passagem expressa o espírito autêntico da penitência: não um rito vazio, mas uma disposição interior que se manifesta também por sinais exteriores, como o jejum.
O profeta Daniel oferece outro testemunho significativo: “Durante três semanas inteiras, não comi manjar desejável, carne nem vinho entraram na minha boca” (Dn 10, 2-3). Sua abstinência prolongada manifesta a seriedade com que buscava a purificação e o favor divino. Já em Levítico (16, 29-31), o Dia da Expiação exigia um jejum solene de toda a assembleia, como prática de mortificação e reconciliação com Deus. Esses textos ilustram a base bíblica da disciplina quaresmal, que a Igreja assume e aperfeiçoa à luz de Cristo.
Nos Evangelhos, Jesus consagra o jejum como uma prática profundamente espiritual. Antes de iniciar Sua vida pública, Ele se retira para o deserto e jejua por quarenta dias e quarenta noites (cf. Mt 4,1-2). Ao fazer isso, Cristo não apenas se prepara para enfrentar as tentações do inimigo, mas também inaugura um modelo de vida ascética para Seus discípulos. Esse episódio é o fundamento direto da Quaresma cristã, que é vivida como um tempo de imitação do Senhor no deserto.
No Sermão da Montanha, Jesus ensina sobre o jejum com autoridade e profundidade. Ele não o rejeita, mas o purifica de intenções equivocadas: “Quando jejuardes, não vos mostreis tristes como os hipócritas; eles desfiguram o rosto para mostrar aos outros que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto” (Mt 6,16-17). Aqui, o Senhor ensina que o verdadeiro jejum é discreto, íntimo e oferecido a Deus com humildade, longe de qualquer ostentação religiosa.
Cristo também indicou que o jejum continuaria a ter lugar na vida de Seus seguidores: “Virão dias em que lhes será tirado o noivo, e então jejuarão” (Mt 9,15). Esse “tempo da ausência” se refere ao período entre a Sua Ascensão e a Sua vinda gloriosa — tempo em que a Igreja, peregrina neste mundo, vive o jejum como expressão de saudade, penitência e vigilância espiritual.
Desde seus primeiros passos, a Igreja entendeu o jejum como parte da vida cristã. Nos Atos dos Apóstolos, vemos os primeiros discípulos unindo jejum e oração em momentos decisivos, como na escolha de missionários e presbíteros: “Enquanto celebravam o culto do Senhor e jejuavam, disse-lhes o Espírito Santo: ‘Separai para mim Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.’ Então, jejuando e orando, impuseram-lhes as mãos e os enviaram” (At 13,2-3; cf. 14,23).
Esse testemunho mostra que o jejum não era apenas uma herança da tradição judaica, mas uma prática vivida pela comunidade cristã com consciência espiritual e sentido eclesial. Ele aparecia unido à escuta do Espírito, ao discernimento vocacional e à consagração de ministérios, sendo visto como um meio necessário de purificação e docilidade à vontade de Deus.
Ao longo dos séculos, a Tradição manteve essa prática como parte essencial da disciplina espiritual da Igreja, sobretudo nos tempos fortes do calendário litúrgico. A Quaresma, nesse contexto, foi sendo estruturada como um tempo de penitência comunitária, em continuidade ao jejum de Cristo e dos Apóstolos.
O jejum na Quaresma não é apenas uma prática disciplinar, mas uma expressão concreta da espiritualidade cristã. A Igreja o recomenda porque ele tem o poder de purificar o coração, fortalecer a vontade, combater os vícios e abrir a alma à graça divina. Ao jejuar, o fiel aprende a dominar seus apetites, ordenando seus afetos para Deus e preparando-se com maior liberdade interior para viver o mistério pascal.
Desde os primeiros séculos, os santos Padres reconheceram no jejum uma arma poderosa contra as paixões da carne. João Cassiano ensina que “jejuamos para libertar o coração dos apegos desordenados” 1 e o que “a oração eleva, o jejum purifica” 2. Essa purificação não é um fim em si mesma, mas um meio de alcançar uma união mais íntima com Deus.
Além disso, o jejum possui uma dimensão eclesial e solidária: ao renunciar a algo, o fiel é convidado a voltar-se para o próximo, oferecendo sua renúncia como esmola ou reparação. Por isso, a Igreja insiste que jejum, oração e caridade são inseparáveis na vivência quaresmal — como uma tríplice via de conversão.
Mas o jejum não se resume a um esforço moral ou ascético: ele também nos introduz no mistério do Cristo sofredor. Durante a Quaresma, a Igreja revive espiritualmente os sofrimentos de Jesus, e a renúncia voluntária do jejum torna-se uma forma concreta de participação no Seu sacrifício. Como ensina a tradição litúrgica, “o tempo da Quaresma nos lembra que o noivo foi tirado de nós… Preso, flagelado, coroado de espinhos, crucificado. O jejum na Quaresma é a expressão da nossa solidariedade com Cristo.” 3
O Magistério da Igreja apresenta o jejum unido à oração e à esmola como os três pilares da vida penitencial, especialmente durante a Quaresma. Essa tríade aparece já nos ensinamentos de Jesus (cf. Mt 6) e foi reafirmada ao longo dos séculos como caminho seguro de conversão. O Catecismo recorda que essas obras exprimem a conversão com fatos concretos 4 e são formas de purificar o coração, voltando-o inteiramente para Deus.
Durante a Quaresma, a prática equilibrada dessas três dimensões ajuda o fiel a crescer na caridade e a se preparar mais dignamente para o mistério pascal. O jejum não deve ser vivido isoladamente, mas como expressão de um coração que se dobra em oração e se abre generosamente ao próximo.
A tradição da Igreja sempre alertou contra os extremos no modo de jejuar. O monge João Cassiano adverte que o jejum não deve ser praticado com exagero, exibicionismo ou motivado por vaidade espiritual. Ele ensina que “o jejum não é um fim em si, mas um meio ordenado pela caridade: ele precisa de medida (quanto), de ocasião (quando) e de intenção reta (por quê), para não resvalar em vaidade, dureza ou exibicionismo ascético” 5.
Para o autor, a sobriedade deve ser regulada com discernimento, conforme as forças e o estado de vida de cada fiel: “A regra geral da continência é que cada um conceda o alimento necessário para sustentar o corpo, conforme suas forças, sem buscar a saciedade, mantendo a alma e o corpo num mesmo equilíbrio” 6.
Essa moderação evita que o jejum se torne causa de orgulho ou mesmo de danos físicos. Por isso, a Igreja recomenda que essa prática seja sempre iluminada pela prudência e pela obediência às orientações da comunidade eclesial.
A Igreja convida os fiéis a jejuarem livremente ao longo de toda a Quaresma, como parte de um caminho pessoal de penitência. Embora não exista uma obrigação legal de jejuar em todos os dias da Quaresma, a Igreja recomenda fortemente essa prática ao longo do tempo quaresmal como meio de conversão e preparação espiritual para a Páscoa. Trata-se de um convite pessoal à penitência, que deve ser vivido com liberdade interior e caridade, conforme as possibilidades de cada pessoa.
Dito isso, é importante esclarecer que existem normas específicas e obrigatórias estabelecidas pela Igreja que se referem a dias determinados. O que apresentamos a seguir diz respeito à obrigação moral e legal de jejuar e praticar a abstinência em duas datas específicas: Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa.
Esses dois dias possuem um caráter especial de obrigatoriedade em toda a Igreja. No entanto, a própria legislação canônica prevê dispensa por justa causa, conforme a condição e a saúde do fiel.
Nota: todas as sextas-feiras do ano são dias penitenciais. A abstinência de carne é a forma tradicional dessa penitência, podendo ser substituída por outra obra penitencial fora da Quaresma, conforme as normas da Conferência Episcopal. Para saber mais sobre isso, confira nosso artigo específico sobre abstinência de carne nas sextas-feiras.
Como dito acima, os únicos dias em que o jejum é obrigatoriamente prescrito pela Igreja são a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa. Nesses dois dias, os fiéis são chamados a uma vivência mais intensa da penitência, unindo o jejum à abstinência de carne em memória da Paixão de Cristo.
Segundo a constituição apostólica Paenitemini, de São Paulo VI, e o atual Código de Direito Canônico (cân. 1251), o jejum consiste em fazer apenas uma refeição completa ao dia, podendo-se tomar dois pequenos lanches, se necessário, que juntos não equivalham a uma refeição completa. Já a abstinência proíbe o consumo de carne de animais de sangue quente, embora sejam permitidos ovos, laticínios e temperos de origem animal.
Esses preceitos visam não apenas à mortificação pessoal, mas também à comunhão espiritual com Cristo crucificado e com toda a Igreja que caminha para a Páscoa. O fiel que, sem justa causa e com plena consciência, deixa de observar essas práticas comete pecado grave contra a disciplina penitencial da Igreja.
Confira também: Jejum na Quarta-feira de cinzas 2026: tudo o que você precisa saber.
As normas da Igreja sobre o jejum e a abstinência são proporcionais à condição física e à maturidade espiritual dos fiéis. Conforme o Código de Direito Canônico (cân. 1252), estão obrigados ao jejum todos os católicos maiores de idade até os 59 anos completos, e à abstinência todos os que tenham completado 14 anos.
A prática, no entanto, deve respeitar a caridade e o bom senso. Estão dispensados do jejum e da abstinência aqueles que, por justa causa, não podem cumprir esses preceitos: pessoas doentes, com fragilidade física ou mental, gestantes, lactantes, idosos, trabalhadores que realizam atividades pesadas, além de crianças e adolescentes abaixo da idade mínima.
Essas orientações não anulam o valor da penitência, mas adaptam sua forma às possibilidades de cada fiel. A Igreja recomenda que, mesmo os dispensados do jejum alimentar, encontrem outras maneiras de viver o espírito quaresmal — seja por meio de renúncias, caridade, oração ou outras práticas voluntárias.
Ao longo da história, a Igreja viveu formas mais rigorosas de jejum durante a Quaresma. Em muitos períodos, os fiéis jejuavam diariamente, com grande austeridade. No entanto, com o tempo, a disciplina foi sendo ajustada de forma pastoral, sem perder o seu valor espiritual.
Essas mudanças não significam que o jejum perdeu importância. Pelo contrário: ao torná-lo mais acessível, a Igreja ajuda os fiéis a viverem essa prática com mais consciência e liberdade interior. O essencial permanece o mesmo: jejuar como sinal de conversão, humildade e preparação para a Páscoa.
O Papa Paulo VI, ao reformular a disciplina penitencial com a constituição Paenitemini (1966), manteve o jejum como um elemento central da vida cristã, especialmente na Quaresma. E o Catecismo da Igreja (n. 2043) lembra que esses tempos fortes são ocasiões especiais para praticar o jejum e a abstinência com fé e generosidade.
Durante a Quaresma, o jejum não deve ser vivido apenas como um esforço físico, mas como uma oportunidade concreta de crescimento espiritual. A Igreja nos convida a escolher, com discernimento e caridade, formas de penitência que nos ajudem a voltar o coração para Deus e a amar mais o próximo. Viver bem o jejum quaresmal é unir essa prática a uma vida de oração e caridade, deixando-se moldar pela graça.
O jejum, em sentido próprio, refere-se à privação ou redução de alimentos — como é prescrito pela Igreja nos dias obrigatórios. Essa forma tradicional continua sendo válida e espiritualmente eficaz. No entanto, quem não pode jejuar por motivos de saúde pode realizar outras formas de penitência, como abster-se de redes sociais, entretenimentos ou hábitos nocivos. Embora essas práticas não sejam tecnicamente jejum, são renúncias legítimas que expressam o desejo de conversão.
É fundamental, porém, que essas escolhas não sejam feitas com objetivos egoístas ou meramente utilitários, como emagrecer ou alcançar metas pessoais. A penitência cristã — incluindo o jejum — só tem valor espiritual quando é feita por amor a Deus, com o desejo sincero de purificação interior.
Cada fiel é chamado a discernir, com sinceridade, o que precisa ser deixado de lado para que Cristo ocupe o centro da vida. A renúncia exterior deve estar unida a uma mudança interior, que torne o coração mais livre, vigilante e dócil à vontade divina.
Entre os modos concretos de jejum alimentar, podem-se adotar práticas como: fazer apenas uma refeição completa por dia com dois lanches leves; evitar beliscar entre as refeições; abster-se de certos alimentos ou bebidas (como doces, refrigerantes, carne, café); jejuar até determinado horário do dia; ou, para os mais experientes e com acompanhamento espiritual, jejuar a pão e água em alguns dias específicos. Essas formas podem ser escolhidas conforme as possibilidades e a maturidade de cada fiel, sempre com equilíbrio e reta intenção.
O jejum na Quaresma não é um peso imposto externamente, mas uma proposta da Igreja para nossa santificação. É uma prática que educa o coração na renúncia e fortalece a alma no combate espiritual. Mais do que privação, o jejum é uma forma concreta de ordenar os afetos, submeter a carne ao espírito e voltar-se com mais liberdade para Deus.
Vivido com fé, unido à oração e à caridade, o jejum purifica interiormente e nos prepara para celebrar com autenticidade o mistério pascal. Ele nos lembra que, para ressuscitar com Cristo, é preciso antes passar com Ele pela cruz.
Mas não se trata de um exercício moralista ou de um esforço isolado, restrito aos quarenta dias da Quaresma. O verdadeiro jejum deve deixar marcas duradouras. Ele forja o coração cristão para uma vida mais livre, humilde e dócil à vontade de Deus. Que ao chegar o Tríduo Pascal, cada fiel possa olhar para o caminho quaresmal percorrido não apenas com o alívio de quem cumpriu uma obrigação, ou com a vaidade de quem “conseguiu”, mas com a alegria de quem se deixou transformar — mais configurado a Cristo e disposto a viver, com fidelidade, a novidade da Ressurreição.
O jejum implica reduzir a quantidade de alimento, fazendo apenas uma refeição completa ao dia, com dois lanches leves. A abstinência significa não consumir carne, especialmente às sextas-feiras e nos dias obrigatórios.
O jejum é obrigatório na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, para fiéis entre 18 e 59 anos (conforme as normas locais e o Código de Direito Canônico).
Estão dispensados: crianças, idosos, grávidas, doentes, pessoas com trabalhos físicos pesados ou outras situações especiais. Mas todos são chamados à penitência conforme suas possibilidades.
Sim, especialmente se houver limitações de saúde. A Igreja recomenda substituições como esmolas, orações, obras de misericórdia, ou renúncias significativas.
Saiba mais sobre a penitência na Quaresma.
Sim, se for nos dias obrigatórios e sem justa causa. Fora desses dias, a prática é recomendada, mas sua omissão não configura pecado mortal — embora possa indicar certa tibieza espiritual.