Formação

A Páscoa dos Judeus

A páscoa dos judeus prefigurava a nossa Páscoa. Neste artigo, detalhamos a Pessach, a celebração da libertação do povo hebreu.

A Páscoa dos Judeus
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A Páscoa dos Judeus

A páscoa dos judeus prefigurava a nossa Páscoa. Neste artigo, detalhamos a Pessach, a celebração da libertação do povo hebreu.

Data da Publicação: 18/01/2024
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC
Data da Publicação: 18/01/2024
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC

Para conhecer a páscoa dos judeus é necessário mergulhar na história do povo hebreu e entender sua ligação com a nossa Páscoa. Confira tudo isso neste artigo!

A Páscoa dos Judeus e a história do povo hebreu

Para compreender a origem da Páscoa é necessário mergulhar um pouco na história do povo hebreu. Pode-se, facilmente, dizer que eles têm origem em Abraão, o primeiro a entender que há apenas um Deus, criador de todas as coisas. Este mesmo Deus lhe ordenou pessoalmente que abandonasse sua casa e fosse para Canaã, destinada a ser a Terra de Israel. Abraão, posteriormente, gerou Isaque, que se casou com Rebeca e teve dois filhos: Jacó e Esaú. Jacó, que depois teve o seu nome mudado por Deus para Israel, herdou a primogenitura e foi pai das famílias que compuseram as doze tribos de Israel.

Após um período de grande seca e fome em Canaã, Israel e seus filhos foram buscar refúgio no Egito. Lá encontraram José, filho de Israel, que fora entregue por seus irmãos à escravidão. No entanto, José conquistou glória e poder em terra estrangeira, tornando-se governador após interpretar os sonhos do faraó. Graças ao poder e à influência de José, Israel e sua família prosperaram no Egito, sendo tratados com respeito. Eles habitaram a região de Gosén. Nesse período, o Egito estava sob o domínio dos hicsos, um povo de origem semita que, assim como os hebreus, eram estrangeiros naquela terra.

Entretanto, o tempo passou e, após a morte de José, os egípcios reconquistaram sua terra. Com isso um novo faraó assumiu o poder. Sentindo-se ameaçado com o crescimento desproporcional da população dos filhos de Israel, esse faraó decidiu oprimir o povo de Deus, escravizando-o por mais de 200 anos.

A escravidão, porém, não impediu o crescimento do povo hebreu. Sendo assim, o faraó deu-lhes uma nova ordem: todos os filhos nascidos de uma hebreia deveriam morrer logo após o parto. Mas, como nos mostra o texto da Sagrada Escritura, no livro de Êxodo, graças à coragem de uma mãe e de uma parteira, que não se renderam à maldade, uma criança foi salva: Moisés. Sua mãe, Joquebede, o colocou num pequeno cesto que, flutuando nas águas do rio Nilo, foi encontrado pela filha do faraó. Moisés então cresceu e foi educado no palácio real.

Quando Moisés se tornou adulto, Deus apareceu para ele em uma sarça ardente e lhe ordenou que libertasse os israelitas e os trouxesse para a terra que havia sido prometida a Abraão. Após um longo conflito com o faraó, e nove pragas enviadas por Deus aos egípcios, o faraó se viu sem saída. Como ultimato, Deus disse a Moisés que enviaria uma última praga, que feriria o primogênito de cada família, e os hebreus seriam, enfim, libertos da opressão. Para isso Deus pediu que os hebreus fizessem a oferenda de um cordeiro, cujo sangue deveria ser aspergido nos batentes de suas portas, para que o anjo da morte passasse direto sem tocar suas casas, ferindo apenas os egípcios. Além de passar o sangue nos umbrais, os hebreus deveriam comer a carne do cordeiro com suas respectivas famílias. Apressados com a saída do Egito, o texto nos mostra que não houve tempo para fermentarem os pães. Este pão ázimo se chama matzá.

Confira também o nosso artigo especial sobre o Antigo Testamento.

Quando a Páscoa é celebrada: a diferença entre as datas da Páscoa dos Judeus e a nossa.

Todos esses eventos deram origem, por determinação do próprio Deus, a uma festa que deveria ser celebrada todos os anos pelos hebreus: Pessach, ou Páscoa. O Pessach é a festa que marca o início do calendário bíblico de Israel e delimita as datas de todas as outras festas bíblicas. Cada festa instituída por Deus tem um caráter educativo. No caso do Pessach, serve, entre tantas coisas, para que os filhos de Israel jamais se esqueçam de que foram escravos no Egito e que o próprio Deus os libertou com sua mão poderosa, trazendo juízo sobre os deuses do Egito e sobre o faraó.

páscoa dos judeus cordeiro místico

Ainda que os judeus comemorem também a Páscoa – chamada de Pessach ou “Festa da Libertação” –, eles o fazem por motivos distintos dos nossos: a festa judaica comemora a libertação dos hebreus do Egito, guiados por Moisés, enquanto a solenidade católica celebra a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os judeus comemoram o Pessach, teoricamente, no dia 14 do mês de Nissan, e nós, entre os dias 22 de março e 25 de abril.

Mas por que as datas são tão díspares? Se Jesus ressuscitou em um dia específico, por que celebramos a Páscoa a cada ano em um dia diferente? O que acontece é que o calendário judaico é o que chamamos de “lunissolar”, ou seja, os meses são contados a partir do movimento da lua, e os anos, do movimento do sol, enquanto o calendário que nós utilizamos, chamado “gregoriano”, é solar, ou seja, baseado nos movimentos do sol. Isso gerou, a longo prazo, uma série de inconsistências: a páscoa dos judeus deveria ser sempre celebrado no dia 14 do mês de Nissan, coincidindo com uma lua cheia. Entretanto, com o passar do tempo, a relação mês-fase da lua saiu de sincronia, de modo que o Pessach tinha de ser frequentemente celebrado fora da lua cheia – ou seja, a data precisava ser calculada e anunciada pelos rabinos, algo como professores ou sacerdotes judaicos.

Compreensivelmente, os cristãos não queriam que as datas de nossas festividades ficassem dependentes de pronunciamentos judaicos e, portanto, passaram a calcular a data da Páscoa de outra forma: como Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou no primeiro domingo após o Pessach, nós celebraríamos a Páscoa no primeiro domingo após a lua cheia pascal, que, por sua vez, é a primeira lua cheia após o equinócio de primavera, que, se calculado no calendário, e não pela astronomia, cai no dia 21 de março. Decidiu-se então que a Páscoa haveria de ser celebrada sempre no primeiro domingo após a primeira lua cheia que coincida com o dia 21 de março, ou venha imediatamente depois dele. Assim, a Páscoa sempre cai entre os dias 22 de março e 25 de abril.

Entrada de Cristo em Jerusalém no domingo de Ramos, nas vésperas da Páscoa dos Judeus.
Entrada de Cristo em Jerusalém no domingo de Ramos, nas vésperas da Páscoa dos Judeus.

Quanto às demais festas, para calcular a data do Domingo de Ramos, por exemplo, retrocede-se uma semana da data da Páscoa; e para definir o início da quaresma, isto é, a Quarta-Feira de Cinzas, toma-se a data do Domingo de Ramos e se recua seis semanas (o primeiro domingo da Quaresma) e quatro dias (para cair em uma quarta-feira).

Como o povo hebreu celebrava o Pessach?

Prático típico da Pessach.

O simbolismo do Pessach também aparece no ápice da mensagem do Novo Testamento, afinal toda a obra da Cruz se baseia nos eventos da antiga Páscoa. Jesus não é apenas morto durante uma celebração do Pessach, Ele é o próprio cordeiro Pascal (I Co 5,8), que tira o pecado do mundo (Jo 1,29), cujo sangue nos liberta, nos resgata da escravidão do pecado e nos marca para sempre como seus filhos. Dessa forma, não se pode entender a obra da cruz sem o conhecimento do Pessach, a mais simbólica das festas bíblicas, pois ela nos aponta para a nossa própria libertação.

O Pessach fazia parte dos Shalosh Regalim, as chamadas festas de peregrinação, pois todo hebreu tinha que se deslocar até Jerusalém para celebrar cada uma dessas festas no Templo. Por volta do ano 550 a.C. houve uma mudança na prática da fé, em decorrência do cativeiro babilônico. Os hebreus tiveram que buscar uma nova forma de celebrar suas festas, já que anteriormente todas estavam conectadas ao Templo que ficava em Jerusalém e fora destruído por Nabucodonosor II (c. 642–562 a.C.). Um exemplo disso foi a substituição das ofertas diárias no Templo por três orações ao dia. A festa de Pessach também sofreu alterações, passando a ser celebrada com um jantar em família, no qual um cordeiro deveria ser assado e comido por todos. O jantar também deveria dispor de pão sem fermento (matzá, em hebraico) acompanhado de algumas ervas amargas. Como dito anteriormente, o pão sem fermento simboliza a
pressa com a qual Israel saiu do Egito, e as ervas amargas, por sua vez, remetem à amargura da vida dos hebreus durante a escravidão no Egito
.

Mesa posta para a celebração judia da Pessach, a páscoa dos judeus
Mesa posta para a celebração judia da Pessach.

Para a celebração do Pessach, criou-se uma sequência que recebeu o nome de Hagadá, que incluía o relato do Êxodo, os cálices de vinho, e o charosset (pasta doce). Todos esses elementos do jantar deveriam estar dispostos na mesa principal em um prato especial chamado keará. A forma como desde o século VI a.C. os hebreus celebram o Pessach é praticamente igual até hoje. Inclusive, durante o período em que Nosso Senhor Jesus Cristo esteve entre nós, Ele celebrou exatamente desse modo. Podemos perceber isso a partir da leitura da Última Ceia, presente nos Evangelhos. Aliás, são muitos os símbolos presentes na Páscoa da Igreja que têm relação direta com o Pessach: Jesus como Cordeiro Santo imolado para a nossa salvação; a Eucaristia, ligada tanto ao pão sem fermento quanto ao cordeiro, pois ambos se tornam alimentos daqueles que compartilham da mesa; o Sangue de Jesus, ligado ao vinho do jantar e ao sangue do Êxodo, que fora aspergido nos umbrais das portas; e a lista segue.

Os quatro cálices da última ceia

O teólogo e escritor Scott Hahn, em sua obra O Quarto Cálice: Desvendando o Mistério da Última Ceia e da Cruz, nos mostra que os atos de Jesus na Última Ceia conectam a Páscoa da Igreja com os símbolos presentes no Pessach. O elemento que nos revela essa profunda conexão são os quatro cálices presentes no seder, a liturgia do jantar de Pessach.

Scott Hahn, teólogo e escritor católico.

Antes do início da ceia é dada a bênção inicial, chamada de kidush. Nesse primeiro momento são feitas orações e servidas ervas amargas, em seguida o cálice de vinho é passado a todos os presentes. A segunda parte do seder se chama maguid. Nela ocorre o momento mais pedagógico da celebração, no qual é contada a história que Deus pede ao povo hebreu – e assim é feito até os dias de hoje. Este momento se inicia com a leitura do livro de Êxodo, capítulo 12. Vale ressaltar a beleza da participação das crianças nesta parte da liturgia, fazendo perguntas aos adultos cujas respostas completam a narrativa histórica. Após isso o Hallel é entoado – cântico de louvor a Deus – e o segundo cálice de vinho é bebido.

A terceira parte é o ápice da liturgia antiga. Nela é servido o cordeiro assado, a matzá (pães ázimos) e o terceiro cálice, que recebe o nome de “Cálice da Bênção”, representando respectivamente o cordeiro que foi imolado ainda no Egito, a pressa que não permitiu a fermentação do pão, e o sangue que os livrou da morte. Mais salmos são entoados neste momento – preferencialmente os do 114 ao 118. E é também deste exato momento o que é dito nos textos dos Evangelhos, quando Jesus levanta o “Cálice da Bênção” e diz “Isto é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado em benefício de muitos, para remissão dos pecados” (Mt 26,28). São Paulo Apóstolo também escreve aos Coríntios, dizendo: “O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo?” (I Cor 10,16).

O quarto cálice, chamado de “Cálice da Consumação”, faz parte do momento final da celebração da Páscoa dos Judeus, porém, como se lê no Evangelho de São Marcos, Jesus não chega a bebê-lo nem a servi-lo. Logo após dar a benção do terceiro cálice, Ele se retira e vai para o Getsêmani, acompanhado dos apóstolos Pedro, Tiago e João.

Segundo Scott Hahn, nessa passagem Jesus quer nos dizer que a celebração não se finalizaria na ceia entre os discípulos, mas se estenderia até os acontecimentos na Cruz. Esta seria uma referência ao quarto cálice, o Cálice da Salvação, no qual Jesus se fez quando disse “Aba! Pai! Tudo é possível: afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que eu quero, senão o que tu queres” (Mc 14,36), e quando entregou o seu Espírito ao Pai dizendo na cruz: “Tudo está consumado” (Jo 19,30).

O problema do estrangeiro

As conexões entre o Pessach e a Páscoa da Igreja não param por aí. Há outro ponto que é de grande importância para se compreender essa questão. A Torá ou Pentateuco, os cinco primeiros livros das Sagradas Escrituras, proíbe a participação de estrangeiros na celebração de Pessach, uma vez que traria juízo sobre aquele que fosse alheio às questões materiais e, principalmente, espirituais do evento. Se algum estrangeiro ou peregrino estivesse presente às vésperas de um jantar da páscoa dos judeus na casa de uma família de Israel, ele teria que ser circuncidado para poder participar da celebração (Ex 12,43–48).

Há uma profecia no Antigo Testamento que diz: “Porque o Senhor se compadecerá de Jacó, e ainda elegerá a Israel, e os porá na sua própria terra; e unir-se-ão a eles os estrangeiros, e estes se achegarão à casa de Jacó” (Is 14,1). Ainda debruçado sobre a mesma problemática, o profeta Isaías – o maior profeta messiânico das escrituras – em outro momento diz que “aos estrangeiros que se aproximam ao Senhor, para o servirem e para amarem o nome do Senhor, sendo deste modo servos seus, sim, todos os que guardam o sábado, não o profanando, e abraçam a minha aliança, também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha Casa de Oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar, porque a minha casa será chamada Casa de Oração para todos os povos. Assim diz o Senhor Deus, que congrega os dispersos de Israel: ‘Ainda congregarei outros aos que já se acham reunidos.’” (Is 56,6–8).

Ou seja, o próprio Deus desejava aproximar e enxertar em seu povo outros povos, a fim de que temessem o seu nome e guardassem a sua aliança. Pois bem, isso aconteceu exatamente na sua entrega na Cruz. Os gentios, que se tornaram servos do Deus altíssimo, mediante a obra do Messias na Cruz, não se tornaram judeus, mas passaram, a partir de sua conversão, a compor um corpo místico de Cristo ainda maior que o da antiga aliança: a Igreja. São Paulo explica esse princípio na carta aos Efésios quando diz: “Portanto, lembrai-vos de que, outrora, vós, gentios na carne, chamados incircuncisos (…), naquele tempo, estáveis sem Messias, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa (…) Mas, agora, em Jesus Cristo, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue do Messias. (…) E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto; porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito. Assim, já não sois estrangeiros ou peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus (…)” (Ef 2,11–19). E acrescenta ainda: “Os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa através de Jesus Cristo, por meio do evangelho.” (Ef 3,6).

Portanto, não é mais a circuncisão que purifica os gentios, mas a obra de redenção de Jesus Cristo. Não somos, de forma alguma, estranhos ou estrangeiros. Somos todos filhos do Altíssimo. Jesus representa esses dois elementos na celebração da Páscoa: o nosso cordeiro Pascal e a nossa circuncisão espiritual. Ele morreu não para afastar ou criar barreiras, mas para aproximar Israel e gentios através da sua santa Igreja.

A antiga e a nova aliança convergem num mesmo ponto: Jesus Cristo.

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    Para conhecer a páscoa dos judeus é necessário mergulhar na história do povo hebreu e entender sua ligação com a nossa Páscoa. Confira tudo isso neste artigo!

    A Páscoa dos Judeus e a história do povo hebreu

    Para compreender a origem da Páscoa é necessário mergulhar um pouco na história do povo hebreu. Pode-se, facilmente, dizer que eles têm origem em Abraão, o primeiro a entender que há apenas um Deus, criador de todas as coisas. Este mesmo Deus lhe ordenou pessoalmente que abandonasse sua casa e fosse para Canaã, destinada a ser a Terra de Israel. Abraão, posteriormente, gerou Isaque, que se casou com Rebeca e teve dois filhos: Jacó e Esaú. Jacó, que depois teve o seu nome mudado por Deus para Israel, herdou a primogenitura e foi pai das famílias que compuseram as doze tribos de Israel.

    Após um período de grande seca e fome em Canaã, Israel e seus filhos foram buscar refúgio no Egito. Lá encontraram José, filho de Israel, que fora entregue por seus irmãos à escravidão. No entanto, José conquistou glória e poder em terra estrangeira, tornando-se governador após interpretar os sonhos do faraó. Graças ao poder e à influência de José, Israel e sua família prosperaram no Egito, sendo tratados com respeito. Eles habitaram a região de Gosén. Nesse período, o Egito estava sob o domínio dos hicsos, um povo de origem semita que, assim como os hebreus, eram estrangeiros naquela terra.

    Entretanto, o tempo passou e, após a morte de José, os egípcios reconquistaram sua terra. Com isso um novo faraó assumiu o poder. Sentindo-se ameaçado com o crescimento desproporcional da população dos filhos de Israel, esse faraó decidiu oprimir o povo de Deus, escravizando-o por mais de 200 anos.

    A escravidão, porém, não impediu o crescimento do povo hebreu. Sendo assim, o faraó deu-lhes uma nova ordem: todos os filhos nascidos de uma hebreia deveriam morrer logo após o parto. Mas, como nos mostra o texto da Sagrada Escritura, no livro de Êxodo, graças à coragem de uma mãe e de uma parteira, que não se renderam à maldade, uma criança foi salva: Moisés. Sua mãe, Joquebede, o colocou num pequeno cesto que, flutuando nas águas do rio Nilo, foi encontrado pela filha do faraó. Moisés então cresceu e foi educado no palácio real.

    Quando Moisés se tornou adulto, Deus apareceu para ele em uma sarça ardente e lhe ordenou que libertasse os israelitas e os trouxesse para a terra que havia sido prometida a Abraão. Após um longo conflito com o faraó, e nove pragas enviadas por Deus aos egípcios, o faraó se viu sem saída. Como ultimato, Deus disse a Moisés que enviaria uma última praga, que feriria o primogênito de cada família, e os hebreus seriam, enfim, libertos da opressão. Para isso Deus pediu que os hebreus fizessem a oferenda de um cordeiro, cujo sangue deveria ser aspergido nos batentes de suas portas, para que o anjo da morte passasse direto sem tocar suas casas, ferindo apenas os egípcios. Além de passar o sangue nos umbrais, os hebreus deveriam comer a carne do cordeiro com suas respectivas famílias. Apressados com a saída do Egito, o texto nos mostra que não houve tempo para fermentarem os pães. Este pão ázimo se chama matzá.

    Confira também o nosso artigo especial sobre o Antigo Testamento.

    Quando a Páscoa é celebrada: a diferença entre as datas da Páscoa dos Judeus e a nossa.

    Todos esses eventos deram origem, por determinação do próprio Deus, a uma festa que deveria ser celebrada todos os anos pelos hebreus: Pessach, ou Páscoa. O Pessach é a festa que marca o início do calendário bíblico de Israel e delimita as datas de todas as outras festas bíblicas. Cada festa instituída por Deus tem um caráter educativo. No caso do Pessach, serve, entre tantas coisas, para que os filhos de Israel jamais se esqueçam de que foram escravos no Egito e que o próprio Deus os libertou com sua mão poderosa, trazendo juízo sobre os deuses do Egito e sobre o faraó.

    páscoa dos judeus cordeiro místico

    Ainda que os judeus comemorem também a Páscoa – chamada de Pessach ou “Festa da Libertação” –, eles o fazem por motivos distintos dos nossos: a festa judaica comemora a libertação dos hebreus do Egito, guiados por Moisés, enquanto a solenidade católica celebra a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os judeus comemoram o Pessach, teoricamente, no dia 14 do mês de Nissan, e nós, entre os dias 22 de março e 25 de abril.

    Mas por que as datas são tão díspares? Se Jesus ressuscitou em um dia específico, por que celebramos a Páscoa a cada ano em um dia diferente? O que acontece é que o calendário judaico é o que chamamos de “lunissolar”, ou seja, os meses são contados a partir do movimento da lua, e os anos, do movimento do sol, enquanto o calendário que nós utilizamos, chamado “gregoriano”, é solar, ou seja, baseado nos movimentos do sol. Isso gerou, a longo prazo, uma série de inconsistências: a páscoa dos judeus deveria ser sempre celebrado no dia 14 do mês de Nissan, coincidindo com uma lua cheia. Entretanto, com o passar do tempo, a relação mês-fase da lua saiu de sincronia, de modo que o Pessach tinha de ser frequentemente celebrado fora da lua cheia – ou seja, a data precisava ser calculada e anunciada pelos rabinos, algo como professores ou sacerdotes judaicos.

    Compreensivelmente, os cristãos não queriam que as datas de nossas festividades ficassem dependentes de pronunciamentos judaicos e, portanto, passaram a calcular a data da Páscoa de outra forma: como Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou no primeiro domingo após o Pessach, nós celebraríamos a Páscoa no primeiro domingo após a lua cheia pascal, que, por sua vez, é a primeira lua cheia após o equinócio de primavera, que, se calculado no calendário, e não pela astronomia, cai no dia 21 de março. Decidiu-se então que a Páscoa haveria de ser celebrada sempre no primeiro domingo após a primeira lua cheia que coincida com o dia 21 de março, ou venha imediatamente depois dele. Assim, a Páscoa sempre cai entre os dias 22 de março e 25 de abril.

    Entrada de Cristo em Jerusalém no domingo de Ramos, nas vésperas da Páscoa dos Judeus.
    Entrada de Cristo em Jerusalém no domingo de Ramos, nas vésperas da Páscoa dos Judeus.

    Quanto às demais festas, para calcular a data do Domingo de Ramos, por exemplo, retrocede-se uma semana da data da Páscoa; e para definir o início da quaresma, isto é, a Quarta-Feira de Cinzas, toma-se a data do Domingo de Ramos e se recua seis semanas (o primeiro domingo da Quaresma) e quatro dias (para cair em uma quarta-feira).

    Como o povo hebreu celebrava o Pessach?

    Prático típico da Pessach.

    O simbolismo do Pessach também aparece no ápice da mensagem do Novo Testamento, afinal toda a obra da Cruz se baseia nos eventos da antiga Páscoa. Jesus não é apenas morto durante uma celebração do Pessach, Ele é o próprio cordeiro Pascal (I Co 5,8), que tira o pecado do mundo (Jo 1,29), cujo sangue nos liberta, nos resgata da escravidão do pecado e nos marca para sempre como seus filhos. Dessa forma, não se pode entender a obra da cruz sem o conhecimento do Pessach, a mais simbólica das festas bíblicas, pois ela nos aponta para a nossa própria libertação.

    O Pessach fazia parte dos Shalosh Regalim, as chamadas festas de peregrinação, pois todo hebreu tinha que se deslocar até Jerusalém para celebrar cada uma dessas festas no Templo. Por volta do ano 550 a.C. houve uma mudança na prática da fé, em decorrência do cativeiro babilônico. Os hebreus tiveram que buscar uma nova forma de celebrar suas festas, já que anteriormente todas estavam conectadas ao Templo que ficava em Jerusalém e fora destruído por Nabucodonosor II (c. 642–562 a.C.). Um exemplo disso foi a substituição das ofertas diárias no Templo por três orações ao dia. A festa de Pessach também sofreu alterações, passando a ser celebrada com um jantar em família, no qual um cordeiro deveria ser assado e comido por todos. O jantar também deveria dispor de pão sem fermento (matzá, em hebraico) acompanhado de algumas ervas amargas. Como dito anteriormente, o pão sem fermento simboliza a
    pressa com a qual Israel saiu do Egito, e as ervas amargas, por sua vez, remetem à amargura da vida dos hebreus durante a escravidão no Egito
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    Mesa posta para a celebração judia da Pessach, a páscoa dos judeus
    Mesa posta para a celebração judia da Pessach.

    Para a celebração do Pessach, criou-se uma sequência que recebeu o nome de Hagadá, que incluía o relato do Êxodo, os cálices de vinho, e o charosset (pasta doce). Todos esses elementos do jantar deveriam estar dispostos na mesa principal em um prato especial chamado keará. A forma como desde o século VI a.C. os hebreus celebram o Pessach é praticamente igual até hoje. Inclusive, durante o período em que Nosso Senhor Jesus Cristo esteve entre nós, Ele celebrou exatamente desse modo. Podemos perceber isso a partir da leitura da Última Ceia, presente nos Evangelhos. Aliás, são muitos os símbolos presentes na Páscoa da Igreja que têm relação direta com o Pessach: Jesus como Cordeiro Santo imolado para a nossa salvação; a Eucaristia, ligada tanto ao pão sem fermento quanto ao cordeiro, pois ambos se tornam alimentos daqueles que compartilham da mesa; o Sangue de Jesus, ligado ao vinho do jantar e ao sangue do Êxodo, que fora aspergido nos umbrais das portas; e a lista segue.

    Os quatro cálices da última ceia

    O teólogo e escritor Scott Hahn, em sua obra O Quarto Cálice: Desvendando o Mistério da Última Ceia e da Cruz, nos mostra que os atos de Jesus na Última Ceia conectam a Páscoa da Igreja com os símbolos presentes no Pessach. O elemento que nos revela essa profunda conexão são os quatro cálices presentes no seder, a liturgia do jantar de Pessach.

    Scott Hahn, teólogo e escritor católico.

    Antes do início da ceia é dada a bênção inicial, chamada de kidush. Nesse primeiro momento são feitas orações e servidas ervas amargas, em seguida o cálice de vinho é passado a todos os presentes. A segunda parte do seder se chama maguid. Nela ocorre o momento mais pedagógico da celebração, no qual é contada a história que Deus pede ao povo hebreu – e assim é feito até os dias de hoje. Este momento se inicia com a leitura do livro de Êxodo, capítulo 12. Vale ressaltar a beleza da participação das crianças nesta parte da liturgia, fazendo perguntas aos adultos cujas respostas completam a narrativa histórica. Após isso o Hallel é entoado – cântico de louvor a Deus – e o segundo cálice de vinho é bebido.

    A terceira parte é o ápice da liturgia antiga. Nela é servido o cordeiro assado, a matzá (pães ázimos) e o terceiro cálice, que recebe o nome de “Cálice da Bênção”, representando respectivamente o cordeiro que foi imolado ainda no Egito, a pressa que não permitiu a fermentação do pão, e o sangue que os livrou da morte. Mais salmos são entoados neste momento – preferencialmente os do 114 ao 118. E é também deste exato momento o que é dito nos textos dos Evangelhos, quando Jesus levanta o “Cálice da Bênção” e diz “Isto é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado em benefício de muitos, para remissão dos pecados” (Mt 26,28). São Paulo Apóstolo também escreve aos Coríntios, dizendo: “O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo?” (I Cor 10,16).

    O quarto cálice, chamado de “Cálice da Consumação”, faz parte do momento final da celebração da Páscoa dos Judeus, porém, como se lê no Evangelho de São Marcos, Jesus não chega a bebê-lo nem a servi-lo. Logo após dar a benção do terceiro cálice, Ele se retira e vai para o Getsêmani, acompanhado dos apóstolos Pedro, Tiago e João.

    Segundo Scott Hahn, nessa passagem Jesus quer nos dizer que a celebração não se finalizaria na ceia entre os discípulos, mas se estenderia até os acontecimentos na Cruz. Esta seria uma referência ao quarto cálice, o Cálice da Salvação, no qual Jesus se fez quando disse “Aba! Pai! Tudo é possível: afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que eu quero, senão o que tu queres” (Mc 14,36), e quando entregou o seu Espírito ao Pai dizendo na cruz: “Tudo está consumado” (Jo 19,30).

    O problema do estrangeiro

    As conexões entre o Pessach e a Páscoa da Igreja não param por aí. Há outro ponto que é de grande importância para se compreender essa questão. A Torá ou Pentateuco, os cinco primeiros livros das Sagradas Escrituras, proíbe a participação de estrangeiros na celebração de Pessach, uma vez que traria juízo sobre aquele que fosse alheio às questões materiais e, principalmente, espirituais do evento. Se algum estrangeiro ou peregrino estivesse presente às vésperas de um jantar da páscoa dos judeus na casa de uma família de Israel, ele teria que ser circuncidado para poder participar da celebração (Ex 12,43–48).

    Há uma profecia no Antigo Testamento que diz: “Porque o Senhor se compadecerá de Jacó, e ainda elegerá a Israel, e os porá na sua própria terra; e unir-se-ão a eles os estrangeiros, e estes se achegarão à casa de Jacó” (Is 14,1). Ainda debruçado sobre a mesma problemática, o profeta Isaías – o maior profeta messiânico das escrituras – em outro momento diz que “aos estrangeiros que se aproximam ao Senhor, para o servirem e para amarem o nome do Senhor, sendo deste modo servos seus, sim, todos os que guardam o sábado, não o profanando, e abraçam a minha aliança, também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha Casa de Oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar, porque a minha casa será chamada Casa de Oração para todos os povos. Assim diz o Senhor Deus, que congrega os dispersos de Israel: ‘Ainda congregarei outros aos que já se acham reunidos.’” (Is 56,6–8).

    Ou seja, o próprio Deus desejava aproximar e enxertar em seu povo outros povos, a fim de que temessem o seu nome e guardassem a sua aliança. Pois bem, isso aconteceu exatamente na sua entrega na Cruz. Os gentios, que se tornaram servos do Deus altíssimo, mediante a obra do Messias na Cruz, não se tornaram judeus, mas passaram, a partir de sua conversão, a compor um corpo místico de Cristo ainda maior que o da antiga aliança: a Igreja. São Paulo explica esse princípio na carta aos Efésios quando diz: “Portanto, lembrai-vos de que, outrora, vós, gentios na carne, chamados incircuncisos (…), naquele tempo, estáveis sem Messias, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa (…) Mas, agora, em Jesus Cristo, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue do Messias. (…) E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto; porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito. Assim, já não sois estrangeiros ou peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus (…)” (Ef 2,11–19). E acrescenta ainda: “Os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa através de Jesus Cristo, por meio do evangelho.” (Ef 3,6).

    Portanto, não é mais a circuncisão que purifica os gentios, mas a obra de redenção de Jesus Cristo. Não somos, de forma alguma, estranhos ou estrangeiros. Somos todos filhos do Altíssimo. Jesus representa esses dois elementos na celebração da Páscoa: o nosso cordeiro Pascal e a nossa circuncisão espiritual. Ele morreu não para afastar ou criar barreiras, mas para aproximar Israel e gentios através da sua santa Igreja.

    A antiga e a nova aliança convergem num mesmo ponto: Jesus Cristo.

    Redação MBC

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