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Igreja

Por que os padres não podem se casar?

Você sabe porque os padres não podem se casar? Muitos não conhecem o motivo do celibato, mas você pode conferir neste artigo!

Por que os padres não podem se casar?
Igreja

Por que os padres não podem se casar?

Você sabe porque os padres não podem se casar? Muitos não conhecem o motivo do celibato, mas você pode conferir neste artigo!

Data da Publicação: 31/08/2023
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC
Data da Publicação: 31/08/2023
Tempo de leitura:
Autor: Redação MBC

Padres não podem casar. E isso é motivo de muitas dúvidas, inclusive entre os próprios católicos. Confira, abaixo, o texto que preparamos para sanar todas e quaisquer dúvidas que você possa ter sobre o assunto.

Padres não podem se casar: uma grande dúvida de muitos

“O último que chegar é a mulher do padre”! Essa é uma brincadeira que era frequente no início dos anos 2000, entre as crianças no momento de apostar uma corrida. Mas, de brincadeira, ela não tem nada. Infelizmente, na sociedade moderna, muito contaminada pela grande mídia, entender o sacerdócio e a necessidade do celibato para bem viver essa vocação se tornou um desafio perante as chacotas feitas a esse sacramento — além das informações distorcidas que chegam a todos no noticiário.

Ser padre e ser celibatário — ainda que este último seja, no ocidente, normativo e não dogmático para a vivência do ministério sacerdotal — é algo intimamente vinculado a partir do momento em que se entende as bases históricas, teológicas e pastorais/práticas, não se deixando enganar pela falsa mensagem moderna de que os padres precisam casar para não viverem sozinhos ou para não cairem nas tentações da carne.

Vamos, com calma, sanar as dúvidas e explicar porque os padres não podem se casar!

O celibato na Bíblia

Eunucos pelo Reino

Para entender a situação do celibato dentro de uma sadia Teologia do Corpo, o próprio São João Paulo II respondeu a essa questão, em suas catequeses, comentando o Evangelho de Mateus que fala sobre a relação matrimônio, divórcio e celibato 1.

Ao falar do celibato, João Paulo II tocou no por que padres não podem se casar.

Era frequente os momentos em que os fariseus tentavam encurralar a Jesus com suas perguntas capciosas. Ao ser questionado sobre a lei de divórcio que Moisés permitiu no Antigo Testamento, Jesus recorre ao princípio originário da pureza conjugal, na constituição originária por parte de Deus Criador. Jesus apela a esse princípio para já mostrar que a origem do coração do homem é um coração indiviso, e que pela dureza do coração dos homens é que estes não compreendem o matrimônio, e por isso Moisés permitiu a certidão de divórcio. 

Sendo essa a situação de dureza de entendimento do matrimônio, podemos nos perguntar se essa mesma dureza não dificulta o entendimento da profundidade do celibato (eunuco) pelo Reino e da máxima popular: padres não podem se casar”.

Depois desse colóquio com fariseus, os discípulos mesmo se dirigiram a Jesus com estas palavras: “Se é essa a situação do homem, melhor não se casar”. Aí que vem a sabedoria de Cristo para expor as bases do celibato: “Nem todos compreendem esta linguagem, mas apenas aqueles a quem isso é dado. Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos por interferência dos homens, e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.” 2

Essas palavras aludem à uma profundidade da dignidade do matrimônio, que deve ser consciente a todos, inclusive àqueles que consciente e voluntariamente renunciam a ele para servir o Reino dos Céus. O Cristo já aponta, aqui, a primeira chave de leitura, ao falar do princípio, de matrimônio e de celibato pelo Reino: padres não podem se casar pois, livremente, escolhem viver pelo Reino dos Céus, como no princípio, e como será no dia da Ressurreição, onde ninguém se casará nem se dará em casamento 3. Mas, tal perspectiva não diminui a dignidade do matrimônio em si. Antes, o engrandece!

Saiba mais sobre o Sacramento do Matrimônio

São Paulo aos Coríntios e por que padres não podem casar

“O enunciado de Cristo sobre a continência por amor do Reino dos Céus é conciso e fundamental. No ensinamento de Paulo podemos reconhecer uma relação com as palavras do Mestre; todavia o significado do enunciado 4 no seu conjunto é avaliado de maneira diversa. A grandeza do ensinamento de Paulo consiste em que ele, apresentando a verdade apresentada por Cristo em toda a sua autenticidade e identidade, dá-lhe um timbre próprio (…) que surgiu, sobretudo, das experiências da sua atividade apostólico-missionária, e talvez mesmo da necessidade de responder às perguntas concretas dos homens, a quem esta atividade era dirigida.” 5

São João Paulo II, ao comentar a interpretação paulina da virgindade e do matrimônio, já indica, de modo conciso, a Tradição viva acontecendo no meio das comunidades, com os avanços teológico-pastorais, partindo sempre de Jesus Cristo como referência, mas respondendo às necessidades concretas que surgiam entre os pagãos convertidos aos cristianismo, como é o caso da comunidade de Corinto.

Paulo, de modo magisterial e com linguagem pastoral, ensina a doutrina transmitida pelo Mestre, mas abre um colóquio moral com os destinatários. Paulo sublinha, de modo claro, que a virgindade pelo Reino deriva de um conselho e não de um mandamento: “No que se refere às pessoas virgens, não tenho mandamento do Senhor; dou, porém, o meu parecer” 6. Paulo explica, dentro da possibilidade de viver o matrimônio ou o celibato, de que este último deve ser escolhido de modo voluntário e que só assim seria digno.

Paulo, como Jesus, apela ao princípio de unidade do homem com Deus, quando fala: “Digo-vos, irmãos, que o tempo é breve. O que importa é que também aqueles que têm mulheres vivam como se as não tivessem” 7. Tal perspectiva abriu, no horizonte da teologia, de que o celibatário já vive, não sem renúncias, aquela realidade que todos viverão no céu. O celibato é, portanto, mais do que uma ordem dizendo que padres não podem se casar, mas estes, no meio do mundo, devem servir como testemunhas da realidade última do homem.

São Luís e Santa Zélia, os pais de Santa Teresinha, viveram um matrimônio santo. Conheça mais sobre sua vida.

Desde quando os padres não podem se casar?

Ainda que jornais e historiadores tentem afirmar que o celibato sacerdotal não é nada mais que uma disciplina imposta tardiamente pela Igreja latina aos padres, a verdade é que tal afirmação carece de honestidade histórica.

“Os historiadores sérios sabem que, desde o século IV, a necessidade da continência para os sacerdotes é recordada pelos concílios. É preciso sermos precisos. Numerosos homens casados foram ordenados sacerdotes ao longo do primeiro milênio. Mas, a partir do momento de sua ordenação, eram convocados à abstinência de relações sexuais com suas esposas.”8.

Cardeal Sarah, que tocou no tema padres não podem se casar no seu livro Do profundo do nosso coração.
Cardeal Sarah.

Foi já no Concílio de Elvira, no início do século IV, que a Igreja decidiu, por exemplo, excluir do estado clerical bispos, padres e diáconos suspeitos de terem relações sexuais com suas esposas. Vale lembrar que a Igreja saíra recentemente, neste contexto, da época das perseguições, e era importante relembrar alguns princípios doutrinais já existentes. Não há, pois, relatos de oposições a essa decisão do Concílio de Elvira, o que testemunha que não pareceu ser uma novidade eclesial para a época.9

Em si, o celibato sacerdotal é de origem apostólica, e a Igreja sempre exigiu o celibato dos sacerdotes (ainda que fossem ordenados homens casados, mas que deveriam viver a regra do celibato pela sua dimensão teológica). 

Mas, com o tempo, a Igreja, entendendo também a identidade e dignidade do matrimônio, passou a ordenar somente homens solteiros para o exercício do ministério sacerdotal. Ou seja, em 306, no Concílio de Elvira, o celibato passou a ser exigido, mesmo que houvesse padres casados. Mas são vários os relatos posteriores que vão corroborando com a práxis vigente de celibato sacerdotal. A título de exemplo: no segundo Concílio de Latrão, em 1139, definiu-se que os casamentos contraídos pelos clérigos maiores eram não só ilícitos como inválidos. Ou seja, se afirmou que era inválido o que sempre fora proibido. 

Por que os padres não podem se casar em 4 motivos

“Se reduzirmos o celibato sacerdotal a uma questão de disciplina, de adaptação aos costumes e às culturas, isolamos o sacerdócio de seu fundamento. Nesse sentido, o celibato sacerdotal é necessário para a justa compreensão do sacerdócio.”10

Mesmo que o celibato para o sacerdócio seja uma medida normativa, não dogmática; mesmo que Jesus e São Paulo não tenham apontado um mandamento, mas um conselho, acerca do celibato pelo Reino, a Tradição, a teologia e a pastoral apontam para a profundidade e unidade que há entre o exercício do ministério sacerdotal e para o cumprimento do celibato. “O Papa Bento XVI demonstra que o celibato sacerdotal não é um ‘suplemento espiritual’ bem-vindo na vida do padre. Uma vida sacerdotal coerente requer ontologicamente o celibato.” 11

Veja, abaixo, quatro motivos do porquê os padres não podem se casar, e que dão fundamento para a própria vivência da sua vocação.

Imitação de Cristo

Jesus nos revela em Sua pessoa a plenitude do sacerdócio. Ele confere seu sentido àquilo que era anunciado e esboçado no Antigo Testamento. Com efeito, o sacerdote, atualmente, não é somente aquele que realiza uma ação sacrificial, como era no sacerdócio antigo. O sacerdote é aquele que se oferece a si mesmo em sacrifício por amor no seguimento de Cristo. Não é à toa que o padre age in persona Christi no exercício do sacerdócio, sobretudo no Santo Sacrifício da Missa e na absolvição sacramental. 

Pelo sacerdócio o padre imita, de modo íntimo, o Cristo que, vivendo unicamente para Deus, deu-se à Igreja em sacrifício por nossos pecados. Cristo não casou e não se deu em casamento precisamente por isso, e é por essa imitação de Cristo, sumo e eterno sacerdote, que homens normais vivem o celibato sacerdotal, participando, assim, da vida e do sacerdócio de Jesus integralmente.

Disponibilidade

Bento XVI, em um discurso para o clero da diocese de Bolzano 12, afirmou: “O fato de se colocar à disposição do Senhor verdadeiramente na totalidade de seu ser, e, portanto, de estar totalmente à disposição dos homens, faz parte [do sacerdócio]. Penso que o celibato é uma expressão fundamental dessa totalidade.”

O padre é um homem para os outros, e deve estar disponível, em corpo e alma, para a Igreja e os homens que dela precisarem. Observar o celibato auxilia, e muito, na entrega total de si, sem precisar ficar dividido entre uma família e as necessidades espirituais e pastorais, que são muitas.

Foco no ministério e na comunidade

Nós todos viemos de uma família e sabemos como esta demanda muito tempo, preocupação, afeto, atenção, e por aí vai. O padre, que vive com exclusividade para Cristo e a Igreja, consegue dar atenção exclusiva e integral à comunidade, ao planejamento pastoral e ao exercício do ministério. 

Numa ordem bem prática, tornaria-se impossível viver e conciliar bem família e sacerdócio na comunidade. No fim, estaríamos, como Igreja, perdendo de ambos os lados! Uma diminuição do valor intrínseco que tem uma família, não podendo dar a devida atenção que esta necessita e merece, no afeto e dedicação entre marido e mulher, além da educação e criação dos filhos; e, numa perda incomensurável no foco que os padres possuem para com a Igreja.

Vida de oração

Já no Novo Testamento, nos Atos dos Apóstolos, vemos a sobrecarga do sacerdócio apostólico, onde estes deveriam, além do anúncio da Palavra e da oração da Igreja, se dedicar com zelo ao cuidado dos pobres e viúvas. Os Apóstolos decidiram, com isso, dedicar-se exclusivamente à oração e à Palavra, surgindo, assim, o ministério dos Sete, que será identificado, posteriormente, como o diaconato, como auxílio na parte caritativa da Igreja nascente. 

O exercício do ministério sacerdotal requer muito estudo, muita disposição, mas, antes de tudo, uma vida de oração profunda e concreta, abarcando todas as horas do dia do padre. Se no início da Igreja os Apóstolos viram a necessidade de conferir aos diáconos autoridade para o cuidado caritativo-pastoral da Igreja, a fim de que, como sacerdotes, tivessem mais tempo e disposição para a vida de oração e pregação, tanto mais hoje tal verdade deve ser recordada, onde os desafios e exigências da missão parecem consumir a vida da Igreja. 

Somente com uma vida de oração concreta e interior é que um padre consegue, permanecendo fiel ao seu sacerdócio, dar frutos de santificação e conversão entre os homens.

Os ataques contra o celibato

De modo geral, a humanidade perdeu o sentido de uma entrega gratuita e total de si, num sim eterno e que vincula todo o ser. Basta olhar não só a crise sacerdotal que a Igreja enfrenta, mas também a crescente onda de jovens que não querem se casar nem ter filhos.

Alimentados, ainda mais, pelos tristes (e isolados) casos de sacerdotes que, traindo a própria vocação e escandalizando o povo, em geral, fica ofuscada pela beleza do celibato sacerdotal e do dom que isso representa à humanidade. É grande o número de pessoas que, ao se deparar com um jovem que se decide pelo sacerdócio, exclama, em tons de luto e pena: “tão jovem, tão bonito, tão cheio e qualidades, e vai virar padre, uma pena” — como se viver, autenticamente, gratuitamente e generosamente tudo que foi abordado acima diminuísse em algo a vida deste jovem rapaz.

É preciso recordar, na cultura moderna, porque padres não podem se casar, indo além de uma privação do matrimônio e da relação sexual, e apontando para a beleza profunda que há nesse chamado, bem como argumentando de modo concreto a existência e necessidade teológica e pastoral entre sacerdócio e celibato, pelo bem do povo de Deus e de toda humanidade.

Referências

  1. cf. JOÃO PAULO II, Teologia do Corpo n.81 p. 336, Minha Biblioteca Católica[]
  2. Mt, 19, 10-12[]
  3. Mc 12, 25[]
  4. cf. ICor 7[]
  5. SÃO JOÃO PAULO II, Teologia do Corpo n.82 p. 339, Minha Biblioteca Católica[]
  6. I Cor 7, 25[]
  7. I Cor 7, 29[]
  8. CARDEAL ROBERT SARAH, Do profundo de nosso coração p; 56[]
  9. cf. CARDEAL ROBERT SARAH, Do profundo de nosso coração, p. 57[]
  10. CARDEAL ROBERT SARAH, Do profundo de nosso coração p. 51[]
  11. CARDEAL ROBERT SARAH, Do profundo de nosso coração p. 50[]
  12. BENTO XVI, Discurso ao clero da diocese de Bolzano-Bressanone, 6 de agosto de 2008[]
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Redação MBC

Padres não podem casar. E isso é motivo de muitas dúvidas, inclusive entre os próprios católicos. Confira, abaixo, o texto que preparamos para sanar todas e quaisquer dúvidas que você possa ter sobre o assunto.

Padres não podem se casar: uma grande dúvida de muitos

“O último que chegar é a mulher do padre”! Essa é uma brincadeira que era frequente no início dos anos 2000, entre as crianças no momento de apostar uma corrida. Mas, de brincadeira, ela não tem nada. Infelizmente, na sociedade moderna, muito contaminada pela grande mídia, entender o sacerdócio e a necessidade do celibato para bem viver essa vocação se tornou um desafio perante as chacotas feitas a esse sacramento — além das informações distorcidas que chegam a todos no noticiário.

Ser padre e ser celibatário — ainda que este último seja, no ocidente, normativo e não dogmático para a vivência do ministério sacerdotal — é algo intimamente vinculado a partir do momento em que se entende as bases históricas, teológicas e pastorais/práticas, não se deixando enganar pela falsa mensagem moderna de que os padres precisam casar para não viverem sozinhos ou para não cairem nas tentações da carne.

Vamos, com calma, sanar as dúvidas e explicar porque os padres não podem se casar!

O celibato na Bíblia

Eunucos pelo Reino

Para entender a situação do celibato dentro de uma sadia Teologia do Corpo, o próprio São João Paulo II respondeu a essa questão, em suas catequeses, comentando o Evangelho de Mateus que fala sobre a relação matrimônio, divórcio e celibato 1.

Ao falar do celibato, João Paulo II tocou no por que padres não podem se casar.

Era frequente os momentos em que os fariseus tentavam encurralar a Jesus com suas perguntas capciosas. Ao ser questionado sobre a lei de divórcio que Moisés permitiu no Antigo Testamento, Jesus recorre ao princípio originário da pureza conjugal, na constituição originária por parte de Deus Criador. Jesus apela a esse princípio para já mostrar que a origem do coração do homem é um coração indiviso, e que pela dureza do coração dos homens é que estes não compreendem o matrimônio, e por isso Moisés permitiu a certidão de divórcio. 

Sendo essa a situação de dureza de entendimento do matrimônio, podemos nos perguntar se essa mesma dureza não dificulta o entendimento da profundidade do celibato (eunuco) pelo Reino e da máxima popular: padres não podem se casar”.

Depois desse colóquio com fariseus, os discípulos mesmo se dirigiram a Jesus com estas palavras: “Se é essa a situação do homem, melhor não se casar”. Aí que vem a sabedoria de Cristo para expor as bases do celibato: “Nem todos compreendem esta linguagem, mas apenas aqueles a quem isso é dado. Há eunucos que nasceram assim do seio materno, há os que se tornaram eunucos por interferência dos homens, e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.” 2

Essas palavras aludem à uma profundidade da dignidade do matrimônio, que deve ser consciente a todos, inclusive àqueles que consciente e voluntariamente renunciam a ele para servir o Reino dos Céus. O Cristo já aponta, aqui, a primeira chave de leitura, ao falar do princípio, de matrimônio e de celibato pelo Reino: padres não podem se casar pois, livremente, escolhem viver pelo Reino dos Céus, como no princípio, e como será no dia da Ressurreição, onde ninguém se casará nem se dará em casamento 3. Mas, tal perspectiva não diminui a dignidade do matrimônio em si. Antes, o engrandece!

Saiba mais sobre o Sacramento do Matrimônio

São Paulo aos Coríntios e por que padres não podem casar

“O enunciado de Cristo sobre a continência por amor do Reino dos Céus é conciso e fundamental. No ensinamento de Paulo podemos reconhecer uma relação com as palavras do Mestre; todavia o significado do enunciado 4 no seu conjunto é avaliado de maneira diversa. A grandeza do ensinamento de Paulo consiste em que ele, apresentando a verdade apresentada por Cristo em toda a sua autenticidade e identidade, dá-lhe um timbre próprio (…) que surgiu, sobretudo, das experiências da sua atividade apostólico-missionária, e talvez mesmo da necessidade de responder às perguntas concretas dos homens, a quem esta atividade era dirigida.” 5

São João Paulo II, ao comentar a interpretação paulina da virgindade e do matrimônio, já indica, de modo conciso, a Tradição viva acontecendo no meio das comunidades, com os avanços teológico-pastorais, partindo sempre de Jesus Cristo como referência, mas respondendo às necessidades concretas que surgiam entre os pagãos convertidos aos cristianismo, como é o caso da comunidade de Corinto.

Paulo, de modo magisterial e com linguagem pastoral, ensina a doutrina transmitida pelo Mestre, mas abre um colóquio moral com os destinatários. Paulo sublinha, de modo claro, que a virgindade pelo Reino deriva de um conselho e não de um mandamento: “No que se refere às pessoas virgens, não tenho mandamento do Senhor; dou, porém, o meu parecer” 6. Paulo explica, dentro da possibilidade de viver o matrimônio ou o celibato, de que este último deve ser escolhido de modo voluntário e que só assim seria digno.

Paulo, como Jesus, apela ao princípio de unidade do homem com Deus, quando fala: “Digo-vos, irmãos, que o tempo é breve. O que importa é que também aqueles que têm mulheres vivam como se as não tivessem” 7. Tal perspectiva abriu, no horizonte da teologia, de que o celibatário já vive, não sem renúncias, aquela realidade que todos viverão no céu. O celibato é, portanto, mais do que uma ordem dizendo que padres não podem se casar, mas estes, no meio do mundo, devem servir como testemunhas da realidade última do homem.

São Luís e Santa Zélia, os pais de Santa Teresinha, viveram um matrimônio santo. Conheça mais sobre sua vida.

Desde quando os padres não podem se casar?

Ainda que jornais e historiadores tentem afirmar que o celibato sacerdotal não é nada mais que uma disciplina imposta tardiamente pela Igreja latina aos padres, a verdade é que tal afirmação carece de honestidade histórica.

“Os historiadores sérios sabem que, desde o século IV, a necessidade da continência para os sacerdotes é recordada pelos concílios. É preciso sermos precisos. Numerosos homens casados foram ordenados sacerdotes ao longo do primeiro milênio. Mas, a partir do momento de sua ordenação, eram convocados à abstinência de relações sexuais com suas esposas.”8.

Cardeal Sarah, que tocou no tema padres não podem se casar no seu livro Do profundo do nosso coração.
Cardeal Sarah.

Foi já no Concílio de Elvira, no início do século IV, que a Igreja decidiu, por exemplo, excluir do estado clerical bispos, padres e diáconos suspeitos de terem relações sexuais com suas esposas. Vale lembrar que a Igreja saíra recentemente, neste contexto, da época das perseguições, e era importante relembrar alguns princípios doutrinais já existentes. Não há, pois, relatos de oposições a essa decisão do Concílio de Elvira, o que testemunha que não pareceu ser uma novidade eclesial para a época.9

Em si, o celibato sacerdotal é de origem apostólica, e a Igreja sempre exigiu o celibato dos sacerdotes (ainda que fossem ordenados homens casados, mas que deveriam viver a regra do celibato pela sua dimensão teológica). 

Mas, com o tempo, a Igreja, entendendo também a identidade e dignidade do matrimônio, passou a ordenar somente homens solteiros para o exercício do ministério sacerdotal. Ou seja, em 306, no Concílio de Elvira, o celibato passou a ser exigido, mesmo que houvesse padres casados. Mas são vários os relatos posteriores que vão corroborando com a práxis vigente de celibato sacerdotal. A título de exemplo: no segundo Concílio de Latrão, em 1139, definiu-se que os casamentos contraídos pelos clérigos maiores eram não só ilícitos como inválidos. Ou seja, se afirmou que era inválido o que sempre fora proibido. 

Por que os padres não podem se casar em 4 motivos

“Se reduzirmos o celibato sacerdotal a uma questão de disciplina, de adaptação aos costumes e às culturas, isolamos o sacerdócio de seu fundamento. Nesse sentido, o celibato sacerdotal é necessário para a justa compreensão do sacerdócio.”10

Mesmo que o celibato para o sacerdócio seja uma medida normativa, não dogmática; mesmo que Jesus e São Paulo não tenham apontado um mandamento, mas um conselho, acerca do celibato pelo Reino, a Tradição, a teologia e a pastoral apontam para a profundidade e unidade que há entre o exercício do ministério sacerdotal e para o cumprimento do celibato. “O Papa Bento XVI demonstra que o celibato sacerdotal não é um ‘suplemento espiritual’ bem-vindo na vida do padre. Uma vida sacerdotal coerente requer ontologicamente o celibato.” 11

Veja, abaixo, quatro motivos do porquê os padres não podem se casar, e que dão fundamento para a própria vivência da sua vocação.

Imitação de Cristo

Jesus nos revela em Sua pessoa a plenitude do sacerdócio. Ele confere seu sentido àquilo que era anunciado e esboçado no Antigo Testamento. Com efeito, o sacerdote, atualmente, não é somente aquele que realiza uma ação sacrificial, como era no sacerdócio antigo. O sacerdote é aquele que se oferece a si mesmo em sacrifício por amor no seguimento de Cristo. Não é à toa que o padre age in persona Christi no exercício do sacerdócio, sobretudo no Santo Sacrifício da Missa e na absolvição sacramental. 

Pelo sacerdócio o padre imita, de modo íntimo, o Cristo que, vivendo unicamente para Deus, deu-se à Igreja em sacrifício por nossos pecados. Cristo não casou e não se deu em casamento precisamente por isso, e é por essa imitação de Cristo, sumo e eterno sacerdote, que homens normais vivem o celibato sacerdotal, participando, assim, da vida e do sacerdócio de Jesus integralmente.

Disponibilidade

Bento XVI, em um discurso para o clero da diocese de Bolzano 12, afirmou: “O fato de se colocar à disposição do Senhor verdadeiramente na totalidade de seu ser, e, portanto, de estar totalmente à disposição dos homens, faz parte [do sacerdócio]. Penso que o celibato é uma expressão fundamental dessa totalidade.”

O padre é um homem para os outros, e deve estar disponível, em corpo e alma, para a Igreja e os homens que dela precisarem. Observar o celibato auxilia, e muito, na entrega total de si, sem precisar ficar dividido entre uma família e as necessidades espirituais e pastorais, que são muitas.

Foco no ministério e na comunidade

Nós todos viemos de uma família e sabemos como esta demanda muito tempo, preocupação, afeto, atenção, e por aí vai. O padre, que vive com exclusividade para Cristo e a Igreja, consegue dar atenção exclusiva e integral à comunidade, ao planejamento pastoral e ao exercício do ministério. 

Numa ordem bem prática, tornaria-se impossível viver e conciliar bem família e sacerdócio na comunidade. No fim, estaríamos, como Igreja, perdendo de ambos os lados! Uma diminuição do valor intrínseco que tem uma família, não podendo dar a devida atenção que esta necessita e merece, no afeto e dedicação entre marido e mulher, além da educação e criação dos filhos; e, numa perda incomensurável no foco que os padres possuem para com a Igreja.

Vida de oração

Já no Novo Testamento, nos Atos dos Apóstolos, vemos a sobrecarga do sacerdócio apostólico, onde estes deveriam, além do anúncio da Palavra e da oração da Igreja, se dedicar com zelo ao cuidado dos pobres e viúvas. Os Apóstolos decidiram, com isso, dedicar-se exclusivamente à oração e à Palavra, surgindo, assim, o ministério dos Sete, que será identificado, posteriormente, como o diaconato, como auxílio na parte caritativa da Igreja nascente. 

O exercício do ministério sacerdotal requer muito estudo, muita disposição, mas, antes de tudo, uma vida de oração profunda e concreta, abarcando todas as horas do dia do padre. Se no início da Igreja os Apóstolos viram a necessidade de conferir aos diáconos autoridade para o cuidado caritativo-pastoral da Igreja, a fim de que, como sacerdotes, tivessem mais tempo e disposição para a vida de oração e pregação, tanto mais hoje tal verdade deve ser recordada, onde os desafios e exigências da missão parecem consumir a vida da Igreja. 

Somente com uma vida de oração concreta e interior é que um padre consegue, permanecendo fiel ao seu sacerdócio, dar frutos de santificação e conversão entre os homens.

Os ataques contra o celibato

De modo geral, a humanidade perdeu o sentido de uma entrega gratuita e total de si, num sim eterno e que vincula todo o ser. Basta olhar não só a crise sacerdotal que a Igreja enfrenta, mas também a crescente onda de jovens que não querem se casar nem ter filhos.

Alimentados, ainda mais, pelos tristes (e isolados) casos de sacerdotes que, traindo a própria vocação e escandalizando o povo, em geral, fica ofuscada pela beleza do celibato sacerdotal e do dom que isso representa à humanidade. É grande o número de pessoas que, ao se deparar com um jovem que se decide pelo sacerdócio, exclama, em tons de luto e pena: “tão jovem, tão bonito, tão cheio e qualidades, e vai virar padre, uma pena” — como se viver, autenticamente, gratuitamente e generosamente tudo que foi abordado acima diminuísse em algo a vida deste jovem rapaz.

É preciso recordar, na cultura moderna, porque padres não podem se casar, indo além de uma privação do matrimônio e da relação sexual, e apontando para a beleza profunda que há nesse chamado, bem como argumentando de modo concreto a existência e necessidade teológica e pastoral entre sacerdócio e celibato, pelo bem do povo de Deus e de toda humanidade.

Referências

  1. cf. JOÃO PAULO II, Teologia do Corpo n.81 p. 336, Minha Biblioteca Católica[]
  2. Mt, 19, 10-12[]
  3. Mc 12, 25[]
  4. cf. ICor 7[]
  5. SÃO JOÃO PAULO II, Teologia do Corpo n.82 p. 339, Minha Biblioteca Católica[]
  6. I Cor 7, 25[]
  7. I Cor 7, 29[]
  8. CARDEAL ROBERT SARAH, Do profundo de nosso coração p; 56[]
  9. cf. CARDEAL ROBERT SARAH, Do profundo de nosso coração, p. 57[]
  10. CARDEAL ROBERT SARAH, Do profundo de nosso coração p. 51[]
  11. CARDEAL ROBERT SARAH, Do profundo de nosso coração p. 50[]
  12. BENTO XVI, Discurso ao clero da diocese de Bolzano-Bressanone, 6 de agosto de 2008[]
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